O Estupro invisível

Não é preciso procurar muito para encontrar casos de violência doméstica nos jornais. Diariamente as manchetes são manchadas com o sangue de mulheres brasileiras e o que antes eram apenas estatísticas, hoje é uma realidade e possui nome próprio: feminicídio.

O feminicídio não é simplesmente o assassinato de mulheres. O feminicídio é o assassinato de mulheres porque elas são mulheres. Porque se encontram de alguma forma submetidas a outros tipos de violência, invisíveis e injustificáveis. O machismo não é considerado crime, mas é dele que nasce o feminicídio.

Crescemos em uma sociedade que ensina as mulheres a amarem os homens e ensina aos homens que eles devem ser amados. Não há reciprocidade. É na desigualdade da relação, na falta de respeito e compreensão que o machismo cria raízes e faz crer aos homens que o corpo das mulheres os pertencem.

Em uma sociedade que confunde sexo e violência, que ri de piadas sobre estupro feitas pelo Rafinha Bastos, que acha que o assédio em transporte coletivo é algo engraçado e que condena mulheres a não sentir e não querer o prazer, é compreensível, apesar de inaceitável, que se considere o estupro parte da nossa cultura. É comum pensarmos no estupro como algo que acontece na calada da noite, em um beco escuro. Mas em grande parte dos casos os agressores podem não ser tão anônimos assim. Pode ser inclusive alguém na qual você julga confiar e até amar. Alguém com quem divide a própria cama e alguém que até diz que ama você.

O Estupro Invisível

O Estupro Invisível (via O Machismo Nosso De Cada Dia)

São maridos, noivos, namorados, companheiros, amigos ou até alguém que você gostou de conhecer numa festa. É provável que muitas pessoas achem absurdo esta última afirmação. Mas experimente perguntar a qualquer mulher que você conheça se ela já fez sexo sem sentir vontade, por pressão do companheiro ou se não foi mesmo forçada. Acredite, é mais comum do que se imagina. E acontece porque existe também uma cláusula invisível no contrato matrimonial que é cultural. Diz a cláusula que a esposa/companheira está sempre disponível para o sexo. Soma-se a isso o fato da nossa sociedade hipócrita e moralista negar às mulheres o direito ao prazer, castrando-as desde meninas ao dizer que não devem se tocar, que mulheres que gostam de sexo são “putas”, que mulher pra casar precisa ser virgem e santa, et voilà: temos um casal no qual o homem acha que pode tocar quando quiser sua companheira e a mulher que não sabe que está sendo vítima de violência sexual. No senso comum, vemos isso desde as piadinhas com a famosa “dor de cabeça” até as afirmações sobre mulher não gostar de sexo. Nada natural, tudo cultural.

Percebem o quão grave é a situação? Inclusive porque afeta homens e mulheres e torna doentios os relacionamentos em nossa sociedade. A falta de cumplicidade, o machismo arraigado e a castração feminina fazem com que a cultura do estupro se perpetue dentro da nossa própria casa. Por isso é necessário que quando os fundamentalistas bradarem que “nem todo ato sexual não consentido é estupro”, as mulheres respondam de volta que nosso corpo é uma festa, mas só entra quem for convidado!

É por isso que a discussão sobre aborto pouco avança no Brasil. A vida de um embrião é apenas fachada para cercear a sexualidade feminina. O que se lamenta não é a “morte de uma criança” (que nem formada está e cientificamente nem existe até a 12ª semana de gestação), mas a sexualidade feminina. O que se condena não é a “falta de humanidade” de quem aborta, mas que uma mulher, no gozo (com trocadilho e tudo) de seus direitos, seja sexualmente livre. É por isso que os estupradores têm sua defesa garantida no discurso fundamentalista que parece querer que as mulheres provem que foram vítimas de violência sexual. E é por isso que as mulheres precisam se impor em todos os espaços pela conquista de seu primeiro território: seu próprio corpo.

Se toca, garota!

Se toca, garota! (via O Machismo Nosso De Cada Dia)

Que não aceitem mais o sexo mal feito pelo medo do companheiro que diz “que então vai procurar em outro lugar”. Que não se prostrem diante de quem critica o seu corpo e a humilha na cama das formas mais sutis e também mais dolorosas. Que se toquem! Seu companheiro e sua companheira não são responsáveis pelo seu prazer. Se ele ou ela não estiverem a fim, masturbe-se! É natural, é autoconhecimento e é lindo!  Chega de silêncio e opressão. Por relacionamentos verdadeiramente livres e libertadores!

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20 thoughts on “O Estupro invisível

  1. O seu engajamento e a sua militancia na busca por uma sociedade mais humana,justa e igualitaria revitalizam a esperanca de um mundo melhor. Parabens pelo texto e pela iniciativa da criacao do blog, minha filha querida. Que Deus te ilumine sempre mais e que vc continue fazendo bom uso da inteligencia e capacidade que ELE te deu, na sempre e incessante luta por uma convivencia mais harmoniosa entre todos . Beijos grandes do papi que te ama muito mais ‘ fundo que o furo do ‘kiti’.

    • Obrigada pelo comentário, por ser um dos meus maiores incentivadores e por ser uma pai maravilhoso e uma pessoa incrível.
      Eu sou, porque o senhor é, papai.
      Muito obrigada por tudo.
      Te amo demais!

  2. Texto maravilhoso!! E ainda sim ouvimos coisas do tipo “feminismo é uma causa antiga, machismo não existe” o que me deixa extremamente triste.
    Continue seu trabalho e vamos sempre educar para combater esse mau que nos assola.
    é uma pena que voce seja atleticana rsrs

    #fechadacomoCruzeiro ❤

    • Hahahahaha Obrigada, Sthefany! Exceto pela parte do Cruzeiro =P
      Realmente é muito mais fácil a crítica pela crítica ao feminismo. Mas num mundo em que ser mulher não nos garante nem o direito ao próprio corpo, o feminismo não é só necessário, é também urgente.

      Viva o GALO Doido!
      E que o futebol mineiro consiga dar uma lição na CBF esse ano =P hehehe

  3. É o tipo de assunto que já tentei conversar com alguns caras, mas o resultado é sempre o mesmo, me chamam de bicha e riem da minha cara! Quando o assunto é com mulheres, o ponto de vista muda totalmente e vejo nos olhos delas que algumas já passaram por situações semelhantes, algumas já falaram sobre isso, mas outras preferem guardar pra elas.
    Parabéns pelo ótimo texto.
    Página curtida e ganhou mais um seguidor.

    • Obrigada, Alexandre!
      É realmente muito difícil que homens reconheçam esse tipo de violência. Entre meus amigos eu me lembro de pouquíssimos que tenham levado isso a sério. Sem contar os que fazem todo tipo de piada ou julgamento sobre mulheres que bebem ou se vestem de maneira “inadequada” na opinião deles.
      Mas por outro lado, é muito bom ver que alguns homens também tem feito esse tipo de discussão.

      =)

      • É porque alguns homens “esquecem” que têm pessoas de suas próprias famílias que podem ser vítimas da mesma situação em que eles são algozes com familiares dos outros.
        Macho que é macho, não é machista e não maltrata mulher.

      • Concordo com você em tudo e digo isso em alto e bom tom para meus amigos e amigas toda vez que vejo uma notícia de homem que matou mulher ou namorada e isso é fato diário. Abraço!!!!

      • O vício do botão ‘curtir’ é uma lástima, em outras páginas não tem disso pelo menos pra demonstrar que as palavras escritas foram lidas!..rs
        Então fica meu agradecimento pelo espaço para colocar pra fora um pouco daquilo que penso sem ser crucificado e por concordarem. Posso até não responder e comentar tudo que foi divulgado na página, mas tenham certeza que irei ler a maioria das matérias, principalmente as que forem relacionadas a defesa do lado feminino.
        Não discuto futebol também, já que não assisto e nem gosto. rs
        Grande abraço.

  4. “Estupro ou violação é a prática não-consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos. Ele consiste em uma penetração da vagina ou do ânus de uma ou mais vítimas (ou no sentido mais amplo também da boca) por um ou mais indivíduos. Os indivíduos podem ser homens, mulheres ou animais treinados para estupros. Também se trata de estupro, se os indivíduos enfiam objetos em suas vítimas.”
    Fonte: Wikipédia.”

    Quem sou eu pra dizer o que voces mulheres devem defender ou não. O que é feminismo ou não.
    Eu não discordo de feministas. Eu só acho uma merda vocês levarem tudo para o lado de vocês.
    Me desculpe, mas esse ponto que você levantou sobre “estupro não é só quando a mulher é forçada” é ridiculo.
    Com certeza, você deve ser uma daquelas que pensam: “não é preciso estar casado no papel para que seja considerado um casamento, um relacionamento. Amor não requer nenhum tipo de “contrato´´. Daí, pra levar mais um pouco da situação para o lado de vocês, você mencionou aqui o “contrato nupcial” hahahahaha É pra rir, mesmo.
    Talvez, uma mulher faz sexo “sem estar com vontade” para agradar o marido, para mostrar a ele que, acima de tudo, ela o ama. Não é porque ANTES ela não esteja com vontade, que signifique que na hora H, na hora da penetração isso não mude. CapiTche?
    Eu não gosto de suco de maracujá. Mas, às vezes, eu tomo por causa da minha esposa, porque sou do tipo “parça”, porque quero dividir com ela “coisas pequenas” que a faz feliz. Eu estou feliz quando ela está feliz. E não é por medo dela dizer “se você não tomar o suco comigo, eu vou encontrar outra pessoa para dividir”.
    A comparação pode ser “pequena” (perto de tudo o que você disse), mas acho que esclarece o que eu quero dizer.
    Se uma mulher faz sexo sem vontade, porque tem medo de ser trocada, a culpa não é do homem, e sim dela, que não tem fé no próprio taco. OPA: feminismo confrontando feminismo? Tem algo de muito errado nissae. E não é do homem machista estuprador insistente, talvez de uma mulher que não bota fé no próprio taco.
    Nós homens não discordamos por estarmos sendo agredidos por palavras de uma pessoa que, talvez, não saiba o que está dizendo, mas pelo simples fato de que, mais uma vez, vocês estão querendo se fazer de vitima.
    Uma dica: não é assim que vocês vão conseguir mais espaço na sociedade. 🙂

    Bom, ainda bem que tudo que foi dito aqui é o que você acha. E não o que realmente é.

    Parabéns pelo blog. Não leve nada para o lado pessoal, que seja algo contra você e todas as mulheres. Eu até concordo com o feminismo, mas achei irrelevante o último assunto. E não só porque não é sobre minha classe (leia-se: masculina).

    Abraços, Genivaldo!

    • Genivaldo, vou tentar ser respeitosa, apesar de ter vontade de vomitar enquanto lia sua resposta.
      Primeiro que comparar uma relação sexual a tomar suco de maracujá tá muito, muito errado.
      Wikipédia também não é das melhores fontes, mas vamos lá. Em Direito Penal, chama-se “estupro marital” forçar o esposa a manter relações sexuais sem o consentimento da mesma, usei o termo “contrato nupcial” de forma conotativa, mas ao que parece, você não percebeu rs. De toda forma, no meu texto eu não trato somente das relações entre marido e esposa, mas entre namorados, casuais, enfim. E acho que qualquer relação em que a mulher seja coagida a manter relações sem estar a fim é um estupro sim e falo por experiência própria. E não tem a ver com “confiança no taco”, tem a ver com relações de poder, porque no meu entendimento, estupro tem a ver, antes de tudo com relação de poder. Antes de desejo, tesão ou qualquer outra coisa. E sim, é debatendo, escrevendo, questionando nossos e ocupando nossos espaços que vamos conseguir galgar lugares na sociedade. Quer você queira ou não. E isso – sua opinião sobre – é que é irrelevante. Obrigada (ou não) pela participação.

      • Viu, você sentiu vontade de vomitar na minha resposta porque eu fui contra o ESTE assunto. Ou seja, indiretamente “contra as mulheres, contra feministas”. Feministas me fazem rir Hahahahaha. Mas ok!
        A comparação de suco com maracujá foi bem relevante, viu. Já que é sempre dito que “sexo não é tudo numa relação”. E isto só foi um exemplo para querer entender o que eu quis dizer. Agora, se você não entendeu, paciência.Think about it 🙂
        O mais engraçado de feministas é que vocês dizem que querem ter os mesmos direitos que os homens e querem ser melhores que nós.
        Este pensamento egocêntrico fez esquecer que esse “estupro” pode ocorrer com a mulher tanto quanto pode acontecer com homem, não?
        Vamos dizer que eu “concordei com tudo o que você disse”. Você não concorda comigo que homens também fazem sexo, às vezes, porque a esposa quer? Que é forçado? Com medo da esposa querer outro? Oi? Não preciso que você concorde, mas, por favor, não discorde.
        O caso do homem é tão, tão, mas tão complicado que para um homem se excitar (sem estar com vontade) é umas coisas mais dificies de se fazer. Para mulher, pode ser também, mas ela não precisa fazer com que seu orgão feminino fique duro.

        Seja mais relevante, pense nos dois lados. Para de querer levar tudo para o lado de vocês.

        Obrigado pela resposta!

      • Genivaldo, querer comparar as duas situações é no mínimo ridículo, para não dizer lamentável.
        Não sei se você conhece poucas mulheres ou se a falsa simetria é mesmo proposital, o fato é que: homens não tem sua sexualidade controlada e cerceada desde a mais tenra idade há séculos. E seu desconhecimento sobre feminismo é comum, mas deixa eu ser um pouco didática: feminismo não tem a ver com ser egocêntrica ou querer ser melhor que os homens. Queremos sim igualdade, mas essa bobagem de querer equiparar situações que não são nem de longe parecidas dá MUITA preguiça. De forma alguma falei que sexo é tudo numa relação, só acho que seu exemplo foi sofrível e insensível pra um assunto que é tão caro a uma mulher. Em dados recentes da pesquisa realizada pelo instituto Avon, somente 2% dos homens entrevistados assumiram estuprar parceiras ou ex-parceiras. No entanto, 52% são contra que mulheres procurem delegacias para denunciar que parceiros as forcem a manter relações sexuais sem consentimento. Bem, eu não sei o que você acha irrelevante aqui, mas eu acho muito sério, inclusive porque já passei por situações semelhantes e sei o quanto isso me custou como ser humano e como mulher. Sei também o quanto respeitei quando meu parceiro me dizia que não estava a fim e fomos ver filme, cozinhar ou fazer qualquer outra coisa. Trata-se de respeito, Genivaldo.

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