No Cimento*

Desafios da comunicação em diálogo com as intervenções urbanas

Pixa e desabafa!

3ª Ponte, entre Vitória e Vila Velha, no Espírito Santo

As manifestações de junho de 2013 foram até o momento o clímax de um processo de descontentamento com a vida urbana nas grandes cidades brasileiras. Os R$0,20 se tornaram o símbolo do debate sobre mobilidade urbana, direitos sociais básicos e enfim direitos, no sentido mais cru da palavra. Ora, não é a comunicação também um direito a ser garantido? A crise de representação não é só dos espaços políticos institucionais, mas das instituições como um todo. O que nos foi colocado trata de um desafio de repensar a nossa organização em sociedade. Nesse sentido, este artigo pretende tratar especificamente – mas dialogando com o aspecto sociológico, obviamente – da comunicação como parte indissociável do direito à cidade e à vida em sociedade.

É interessante tomar como ponto de partida a discussão do direito à cidade, porque também é uma discussão sobre a organização desta cidade. Park afirma que “ao fazer a cidade, o homem refez a si mesmo” (apud Harvey, 2013, p.27), portanto essa cidade é muito mais feita de carne do que cimento. No entanto, da mesma forma que o termo “homem” não representa a pluralidade das cidades, também a forma como este homem organizou o espaço urbano já não representa mais tantas formas e cores que hoje coexistem nessa selva de pedra. Ainda segundo Harvey (2013, p.31),

A implicação é que nós, individual e coletivamente, fazemos nossa cidade através de nossas ações diárias e de nossos engajamentos políticos, intelectuais e econômicos. Todos somos de um jeito ou de outro, arquitetos de nossos futuros urbanos. O direito à mudança da cidade não é um direito abstrato, mas um direito inerente às nossas práticas diárias, quer estejamos cientes disso ou não.

A preocupação em retomar o debate em torno do direito à cidade ao falar de comunicação e intervenções urbanas se faz necessário na medida em que mais do que delimitar vozes, buscamos ressignificar essas vozes e esses espaços, berços da exclusão econômica, racial, de gênero e tantos outros aspectos sociais. Quando falamos dos desafios da comunicação, trata-se muito menos da velha mídia, que embora tenha dado o tom em alguns momentos, foi na maioria das vezes questionada pelos manifestantes. A própria ascensão da chamada Mídia NINJA (sigla que nada tem a ver com artes marciais, mas com Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), transmitindo as manifestações em tempo real, sem um roteiro ou edição, é uma forma de entendermos porque os meios convencionais de informação não conseguiram acompanhar o processo de globalização pelo qual a comunicação tem passado na Revolução Técnico-informacional. Em um momento onde ainda que com limitações, todos podem ser formadores de opiniões em suas redes, a comunicação convencional, isto é, as redes de televisão e rádio, os grandes jornais e revistas, não conseguem assimilar todo este conteúdo. E também não querem assimilar este conteúdo.

É necessário nesse momento, perceber que não existe um jornal que favoreça candidato A ou B, ou uma rede de TV que quer derrubar presidente X ou ministro Y. O que existe é um modelo de comunicação que no Brasil é monopolizado, centralizado nas mãos de poucas famílias, e que está a serviço do capital. É uma comunicação que quer vender, que deseja lucro e que pouco se importa com o social, por mais que façam campanhas beneficentes e matérias denunciando a corrupção na política nacional.  E ora, demandas regionais não vendem jornais nacionais. O que é notícia para a população, pode ameaçar a propaganda das multinacionais. Não é puro jogo político, é o capital financeiro ditando o que consumimos, vemos, lemos e ouvimos.

Nesse sentido de exclusão e questionamento é que aparece a pichação, que diferente do que é considerado o grafite, não se trata de arte, mas do tão falado “vandalismo”. Ainda que o grafite também traga consigo a provocação, não se trata aqui de definir um ou outro, mas de entender por quê e pra quê se picha. E quem picha? As pichações são, no contexto urbano, também uma forma de se fazer ouvir.

“O grafite está para o texto assim como o grito está para a voz”

Paulo Leminski

Ainda que o objetivo não seja tratar das diferenças entre grafite e pichação, se o que os separa é o conceito de que o primeiro é arte e o outro não e o conceito de arte ainda é amplo e subjetivo, não interessa para este artigo delimitar essas significações, mas utilizar-se delas.

Muito se falou das “vozes das ruas”, mas passados quase dois meses o que conseguimos ouvir são justamente essas pichações. Foram palavras, desenhos, declarações de amor, palavrões, insultos a representantes políticos que modificaram a paisagem urbana e mostram que de alguma forma, ainda estamos lá. Claro que existem as fotografias, os vídeos, os links compartilhados nas redes, mas em se tratando de cidade, de espaço físico, são os pichos que ainda gritam.

E por que ocupam muros, viadutos, prédios históricos, sedes do poder público, pontes ultrapassadas, fachadas de bancos? Porque as pichações são também uma forma de ocupar a cidade. De se mostrar como citadino e sujeito político e isso, nem as redes sociais, nem os grandes jornais dão conta de representar.

Também a marginalização das pichações contribuem com o fenômeno. Há de se questionar, além do conceito de arte, de “dano ao patrimônio público”, da “poluição visual”, a ironia da falta de regulamentação em muitas cidades no que diz respeito à publicidade por exemplo, como em faixas, muros com anúncios pintados e outdoors. Se eu pagar, não é vandalismo? Se eu pago, deixa de ser subversivo? É no questionamento de como o capital transformou as relações e as representações que o picho se torna marginal. É marginal porque questiona, incomoda o status quo.

Os desafios da comunicação, se claro, desejamos uma comunicação verdadeiramente popular, perpassa primeiramente pela democratização dos meios. E isso tem nada tem a ver com censura, mas com revisão de concessões, pluralização de vozes e acesso a banda larga. Mas para além disso, a comunicação que deseja ser popular deve disputar valores, e aí já não se trata de uma reforma estrutural, mas de qualitativamente tomarmos os rumos do debate de sociedade que queremos. Abraçar vozes como as das pichações, de quem sempre foi calado pelas injustiças sociais, é uma forma de fazer comunicação popular. Mais do que jornais em grandes redes, a comunicação também é um processo diário, de respeito, cidadania e democracia. Nas comunidades, nos movimentos sociais, levar ferramentas e ampliar as formas de se fazer comunicação, de se fazer expressar, contam muito mais que uma cobertura nacional. E é preciso ressaltar o caráter emancipatório dessa “nova” forma de se fazer comunicação. Ensinar e aprender com quem MAIS precisa falar é o melhor caminho que essas vozes nunca mais se calem.

*“Escrevi meu nome no cimento
Pra alguém lembrar de mim
Me pergunto no entanto
Por que é que estou aqui

Tudo que eu faço
Modifica o mundo
E o mundo girando
Modifica tudo também…”

(trecho da canção No Cimento, da cantora mineira Érika Machado, que dá nome a este texto)

Referências

HARVEY, David  in A liberdade da cidade. Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil/ Ermínia Maricato…[et al.]. – 1.ed. – São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013.

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2 thoughts on “No Cimento*

  1. Luis Mineiro Um ponto de vista muito interessante ,abrangente e exclarecedor. filhota, mais uma vez sorri a cada frase que lia. um sorriso mixto, de orgulho de um pai e da alegria em poder constatar que vc tem dado licoes de como a nossa juventude tem talento e capacidade para apresentar a sociedade, alternativas para um debate civilizado e proficuo nas relacoes de ocupacao do espaco urbano, pelos ‘humanos’. Beijos carinhosos do seu ‘fan’ numero 1. Sucesso na feliz e corajosa ideia do blog. Te amo!

    • Obrigada novamente, papai.
      Sempre bom poder contar com a opinião de alguém com uma história de luta como o senhor.
      Também sou sua fã número 1! Hehehe
      Te amo mais fundo que o fundo do Kiti! =)

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