Margem da Palavra

Para ler ouvindo: A Terceira Margem do Rio – Caetano Veloso (Circuladô, 1991)

Pelos poucos textos publicados aqui e pela minha ausência (ou omissão?) como escritora amadora, já deve ser de conhecimento de todos que meu compromisso com esse Blog é quase nulo. Não é algo que eu me orgulhe, mas com certeza é um fato. Mas este, ao contrário dos outros textos já postados aqui, não tem fundamentação teórica. Tampouco se trata de um manifesto. Este texto é, antes de tudo, pessoal.

No início da última década, lembro de ter lido um texto sobre Blogs, chamavam de “diários virtuais”. Meus diários nunca rendiam muito, pelo mesmo motivo de abandono deste Blog, eles viravam uma mistura de desenhos de cubos, relatos de dias com um hiato gigante de meses e anos, listas de desenhos favoritos e algumas poesias que me atrevia a escrever.

Minha relação com a palavra veio desde cedo. Meus pais sempre escreveram. De maneira diferente, mas escreviam. Papai escrevia poesias. Mamãe escrevia poesias e cartas de amor (achei no diário dela e era o que me inspirava a escrever os meus). Também havia algumas crônicas e artigos de opinião. E muitos, muitos livros no sítio. Mas acho que o início de tudo foi mesmo a música. Ouvíamos muita música em casa. Meu pai gostava mais de MPB e samba. Mamãe também gostava de MPB, mas tinha uma coleção de Blues que me fez apaixonar por Eric Clapton ainda aos 7 anos. Meu pai tinha uma fita K7 de um show da Janis Joplin que eu adorava. Cantava Mercedes Benz pela casa, errando a letra e tentando acertar a melodia. A música me ensinou palavras novas, jeitos novos de escrever, algumas rimas. Daí parti pra poesia.

Aos 7 anos, já no primário comecei a escrever poesia ao invés de textos (preguiça?). Só que o negócio ficou muito sério quando uma delas foi parar no mural da escola. Como bem disse o Tio Ben (do Homem Aranha): grandes poderes trazem grandes responsabilidades. E meus pais me deram um caderninho só para que eu escrevesse poesias. Como era de imaginar, depois da décima folha, lá estavam os rabiscos de cubos e outras coisas que não pareciam nem um pouco com poesia. Comecei a inventar histórias.

No sítio só havia 1 livro de histórias pra crianças e mais alguns fininhos, destes de colorir, que a essa altura eu já tinha decorado. Gosto de reler as histórias que eu mais gosto, hábito que vem dessa época, quando eu decorei a história da “Evangelina Angélica e seu guarda-chuva”. Depois eu enjoava. Ainda havia Olavo Romano, Luís Fernando Veríssimo e Leonardo Boff (foram os que primeiro me chamaram a atenção).

O Analista de Bagé foi o primeiro livro “de adulto” que eu li. Aos 8 anos já tinha lido boa parte da biblioteca do sítio. Na escola, a sexta-feira era o “dia da leitura”. Foi num dia desses que pela primeira vez bati num coleguinha. Eu pedi pra ele parar de falar, porque eu estava lendo. Como não parou, eu dei uma bofetada que ficou marcada até as 11h30, na saída da aula. Foi a única vez que fiquei de castigo, mas às 11h30 a gente já tinha ficado amigo e ele nem deve se lembrar do tapa mais.

No ensino fundamental e médio eu já lia e escrevia bastante, mas era nos debates em sala de aula que isso ficava mais evidente. Li tudo o que se pode imaginar nessa época, de José de Alencar a Mundo de Sofia. Decidi que queria ser filósofa aos 11 anos. Mudei pra jornalismo aos 12 e tive certeza que faria comunicação. Só que comunicação escrita, porque todo mundo reclamava do quanto eu falava rápido, então rádio e TV nem pensar! Eu falo até hoje como se estivesse escrevendo. E escrevo como se estivesse falando. Penso mais rápido do que falo, o que resulta numa dislexia crônica, que me causa algum constrangimento sempre que troco sílabas ou tenho que reler 200 vezes a mesma frase. Minha mãe, preocupada com a minha dicção, atribuiu aos meus dentes grandes que tortinhos, saltavam da boca, a minha dificuldade de me fazer entender. Usei aparelho ortodôntico dos 16 aos 20 anos. Uma tortura. Um saco. Mas a intimidade com as palavras já era tão grande que ninguém ganhava de mim em tempo para resolver qual fosse o caça-palavras. Era mais que desafio, quase uma prova de amor.

Na falta de opções ao terminar o ensino médio, consegui a bolsa pra cursar publicidade. Não era jornalismo, mas tava ali pertinho, então, que mal há? Não sei editar imagem, acho o Corel Draw uma afronta e mexo muito porcamente no photoshop. Virei redatora por assimilação. Descobri que posso escrever sobre qualquer coisa e fazer parecer que fui eu, ou não. Acho muito gostoso ser redatora e se eu gostasse um pouquinho mais de publicidade como gosto de comunicação social, acho até que me daria bem. Meu portfólio é bacana, nada excepcional, mas me cercando de boas referências, acho que aprendi mesmo a usar as palavras.

A palavra é o grito escrito.

A palavra é o grito escrito.

Tenho a péssima mania de não revisar meus próprios textos. O que me custou muito no TCC (espero que o meu orientador não leia isso, mas a cada encontro com ele eu jogava metade do trabalho fora e escrevia de novo, só pra não ter que reescrever). Curiosamente, adoro revisar os textos de outras pessoas. Muitos amigos me pedem e é algo que eu realmente faço com gosto. Mas os meus, não gosto. Gosto mesmo de escrever tudo de uma vez. Se faltar vírgula, azar. Um ponto fora do lugar? Que fique. Só não aceito erro de ortografia, porque aí também já é vandalismo. Mas sou bem metódica, do tipo que só começa a escrever depois de já selecionar a opção “justificar texto”.

Com a maturidade (hahaha!) aprendi a não condenar os erros de ortografia e gramaticais das pessoas. Prefiro condenar os meus, que já são muitos! Aprendi a diferenciar o erro de digitação puro e simples do erro de ortografia e isso deixou a minha relação com os textos bem mais leves. Aprendi também que o que fortalece essa relação é a capacidade e interpretação das pessoas. Essa sim, muito complicada. Mário Quintana já dizia que se uma pessoa pergunta ao autor o que ele quis dizer, um dos dois é burro. Por isso levo comigo um misto de angústia e prazer a cada vez que escrevo. Ao contrário das imagens de autoafirmação do Facebook, você é sim responsável pelo que as pessoas entendem, em comunicação a gente bem sabe que o erro começa no emissor. Já me perdi no texto, mas é isso: é uma relação complicada.

Inspira e Respira

Leio muito, escrevo pouco e penso pra caralho. Tudo vira inspiração ou desvia minha atenção de modo que eu me esqueça daquela ideia incrível para aquele texto que poderia ficar ótimo. Passei a andar com um gravador e um bloco de notas. Não adiantou muito, mas minimizou a perda. Sobre o que me inspira: tudo. O mesmo tudo que me tira a inspiração. Adoro os versos de Adélia Prado:

“Deus de vez em quando me tira a poesia.

Olho pedra e vejo pedra mesmo.”

É pau, é pedra, o caminho só começa. Música, relações sociais, filmes brasileiros, franceses e argentinos. Drummond e Adélia, Guimarães Rosa, o GALO e o Clube da Esquina. Tudo vira inspiração quando vem a vontade ou a necessidade de escrever. Sei que preciso escrever, porque é a palavra que nos faz história e que nos faz imortais. E eu não tenho pressa alguma em morrer.  Mas escrevi mesmo tudo isso só pra dizer mais uma vez que eu não gosto de escrever. Eu escrevo é pra me livrar das palavras.

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