O Pequeno Príncipe e o mito da Friendzone

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Todo mundo já deve ter ouvido, citado ou achado lindo a frase acima. Parte do diálogo entre a raposa e o Pequeno Príncipe, do clássico (oh!) “O Pequeno Príncipe”. Se lermos o livro todo, veremos o quanto esse trecho foi distorcido em nome de um ideal romântico e quantas vezes as pessoas o usaram para justificar que mereciam continuar sendo amadas, apenas porque elas mesmas queriam. No mesmo diálogo, é possível ler a raposa afirmar que “E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim”. O problema é o “mas…”. Logo após ela diz: “mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo…” OPA, PERA LÁ! Quando foi que eu assinei esse contrato de exclusividade, simplesmente porque me deixei cativar? É ou não é a citação mais injusta e egoísta do mundo?

Se me perguntarem qual meu livro favorito talvez eu não saiba responder, mas O Pequeno Príncipe com certeza é o que eu mais detesto (mais que 50 Tons de Cinza, que eu só li um trecho por curiosidade num site da Editora Abril). Curiosamente, detesto os dois por motivos parecidos: não me parece saudável projetar em outra pessoa a própria felicidade. Da mesma forma que os contos de fadas nos limitam a percepção dos papeis ditos “femininos” em uma sociedade, “O Pequeno Príncipe” idealiza uma relação que mais tem a ver com posse do que qualquer outra coisa. É muito mais sobre como eu quero que aquela pessoa seja pra mim do que de fato como esta pessoa é.

“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração…”

O que dizer dessa citação que mal li e já odeio pacas? Bonitinha, mas o que queremos dizer quando mandamos isso para aquela pessoa que faz nosso coração acelerar? Na minha opinião, estamos dizendo que somos inseguros e queremos sempre ouvir que a pessoa além de estar à nossa disposição, nos ama e principalmente, não nos deixou de amar. Foi Drummond que disse que nada é mais humilhante que o amor implorado, não foi? E eu vou discordar do Drummond? É ruim, hein!?

Pega essa sua rosa com espinho e tudo e enfia no seu planeta B-612!

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É na relação com os contos de fada que precisamos entender, que quando a situação se inverte, isto é: ao invés das meninas esperarem pelo príncipe encantado, os meninos é que desejam ser este príncipe (um “pequeno príncipe” ou um “príncipe desde pequeno”), existe aí não apenas o reforço desse papel idealizado e chato pra caralho, mas um tipo de obrigação informal da menina em aceitar “aquele príncipe”. Daí o cara que só te tratou bem, foi gentil, divertido, uma ótima companhia acha que fez demais e que você é obrigada a ficar com ele porque ele “te cativou”. E dá-lhe indiretas no Facebook, pérolas como “mulher gosta é de dinheiro, quem gosta de homem é viado”, ou as clássicas “bonzinho só se fode”.

Queridos, deixa eu explicar pro cês: não existe friendzone. Existe “ninguém é obrigado a ficar com ninguém”, entenderam? Não é porque você não foi suficientemente bom, legal, bonito. Não é sobre você, é sobre a pessoa não estar suficientemente a fim de te dar uns pega, valeu?

Não preciso nem lembrar da relação entre “cativo” como verbo e substantivo. Entre seus significados estão: aprisionado, encarcerado, enclausurado e prisioneiro. Nada contra pessoas serem legais, gentis, divertidas e bonitas (inclusive, podem ficar a vontade para serem lindas como acharem melhor ❤ ), tudo contra acharem que isso está acima do meu poder de escolha.

Sou assumidamente monogâmica, apesar de entusiasta do “amor livre”. Mas toda vez que alguém abre a boca pra falar em friendzone, minha cabeça automaticamente acende a luz de “babaca”. Finalizo reafirmando que ninguém precisa de ninguém pra ser ou fazê-lo(a) feliz. A felicidade depende de como compartilhamos o que nos faz feliz com as pessoas a nossa volta. Esta conversa é sobre compartilhar e não sobre possuir. Até porque ninguém morre de amor, amigos. Sabe o que é essencial na vida? Oxigênio. Pessoas são apenas como a gente.  Por isso cative, rale o tchan, conheça novas pessoas, mas não morra por amor. Ao contrário: VIVA de amores.

via Site dos Menes

via Site dos Menes

Nota da autora:

1.Usei o exemplo de meninas e meninos com contos de fadas e a inversão da situação pra facilitar o entendimento, porque obviamente vivemos numa sociedade heteronormativa onde fica mais fácil para que eu explique como entendo. Longe de querer heteronormativizar as relações, foi apenas porque foi mais fácil pra escrever, já que eu evito falar o que não conheço. Inclusive, os comentários são ótimos espaços pra vocês deixarem seus pontos de vista (:

2. Friendzone é o lugar imaginário que só existe na cabeça de alguns babacas quem acha alguém é obrigado a ficar com alguém. Segundo a definição bizarra “refere-se a uma situação onde uma pessoa deseja entrar em um relacionamento romântico, enquanto a outra não. Em resumo, isso acontece quando uma pessoa está apaixonada, enquanto a outra só quer amizade.” (beijos pro wikipédia, que me poupou de ter que definir essa idiotice).

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19 thoughts on “O Pequeno Príncipe e o mito da Friendzone

  1. “Não é porque você não foi suficientemente bom, legal, bonito. Não é sobre você, é sobre a pessoa não estar suficientemente a fim de te dar uns pega, valeu?” – Sensacional!

  2. Luara, muito bem colocada a sua posição sobre o assunto. Bem colocada e esclarecedora. Acho interessante para não permanecer na “escravidão” de ser obrigado(a) a fazer isso ou aquilo/gostar disso ou daquilo, ter a prática de usar as próprias idéias. Fugir das obrigações que a mídia impoe como moda e viver conforme seus próprios preceitos.
    Valeu seu puxão de orelhas, Luara.
    Beijo
    Manoel

  3. Não consegui enxergar a relação do conceito do Exupéry de cativar com a questão do friendzone. Concordo completamente da sua análise sobre a friendzone e toda a baboseira que vem com ela, assim como discordo completamente da sua análise sobre O Pequeno Príncipe.

    “Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E serei para ti única no mundo.”

    Não existe contrato de exclusividade aqui. No primeiro momento ele descarta a dependência como motivo para cativar ou ser cativado por alguém. Aqui a ordem dos fatores altera o produto: eu gosto de você, logo te necessito e não o contrário.
    O fato de ter sido cativado por alguém não necessariamente significa que a terei cativado. Essa é apenas a situação ideal, mas não a mais recorrente. De todas as formas, se vc me cativou serás única no mundo para mim. Não vejo referência a monogamia ou exclusividade. Vejo que, num mundo com 6 bilhões de pessoas, quase todas sem qualquer significado para mim e para minha vida, você que me cativou passa a ser única, passa a ter significado. É possível ser cativado por várias pessoas e ao mesmo tempo, mesmo nos relacionamentos amorosos. Mas cada pessoa é única e tem um significado especial.

    “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração…”

    Não vejo menção alguma a um amor implorado. Vejo uma questão de “tradição” (não era bem a palavra que queria usar, mas me fugiu a mente), de rotina, o que pode ser bom e ruim. Exemplo pessoal: há um ano não vejo meu namorado. Vai chegando o natal e meu estomago começa a se revirar dentro de mim. É a época em que normalmente nos vemos. A alegria vai tomando conta de mim.

    Enfim, amor implorado seria acreditar que é sua obrigação me amar porque eu te amo. Aí sim entra a friendzone. Mas acho que em nenhum momento o Pequeno Príncipe defende essa tese.
    De todas as formas, adorei seu blog. Vc escreve muito bem e é bem firme nos seus argumentos. Gosto disso.

    Beijo

    • Paula,
      em primeiro lugar, gostaria de pedir desculpa pelo tempo de demora deste resposta.
      É a primeira vez que isso acontece desde que criei o Blog e não estava no meu planejamento (de responder sempre respeitosamente e manter a atualização de conteúdo de maneira constante), mas devido a uns probleminhas de saúde, os quais já te falei no outro comentário, não foi possível responder antes.
      Bom, vamos lá. Eu li novamente o texto para me certificar que não fui injusta com Exupéry. E de fato o que disse foi que estes trechos foram distorcidos pela maioria das pessoas, carentes de afeto. Como disse o compositor Sérgio Sampaio “as pessoas são uns lindos problemas” (adoro esse verso!) e a verdade é que nós só queremos ser amados. Me incluo aqui porque no momento também mantenho um relacionamento à distância, com todas as complicações a mais (como se já não bastassem as convencionais), mas tomei na verdade um pouco de birra da distorção feita desses trechos do Pequeno Príncipe para justificar nossas limitações para lidar com as possíveis rejeições.
      No mais, agradeço sua participação, seu comentário, suas críticas e elogios. E peço novamente, desculpas pelas demoras ao responder.

      Brijão!

  4. Já é a segunda vez que vejo essa leitura do pequeno princípe… odeio o conceito de posse,m a monogamia normativa e já fiquei de cama por dois anos como fruto dessa opressão, mas esse trecho NÃO fala disso e essa é uma interpretação MUITO, MUITO equivocada. Dizer que alguém lge é ÚNICO não quer dizer que é EXCLUSIVO. CATIVAR também não significa manter preso, uma vez que a palavra assume outras conotações e é nítido o sentido de desenvolver afeto TANTO que em NENHUM momento o afeto do principe pela raposa se dá com a condição da anulação do afeto pela rosa e a partida do pequeno princípe causa dor mas não ocorre, em nenhum momento coerção ou impedimento para sua partida, pelo contrário essa separação e pluralidade bem como a continuidade da permanencia do laço é caracterizada como o que ocorre naturalmente na vida e que, apesar de dolorido, é preciso ser aceito. O tornar-se único é ilustrado pelo fato dele não encontrar o que encontra nas outras rosas o que encontra na rosa que ama. ele apenas está ilustrando o sentimento que temos por quem é próximo de nós em relação a completos estranhos. Apenas. E da RESPONSABILIDADE que relacionar-se envolve, pois o que fazemos pode gerar dor ou felicidade no outro. É isso. Leia o livro de novo, você não o entendeu.

    • Denise, como já disse em Reposta à Paula, trata-se de uma distorção feita pela nossa sociedade, que carente, prefere usar de forma errada as citações de Exupery.
      E não pretendo ler de novo, porque achei o livro uma chatice. Beijos.

  5. concordo com a Paula, mas fiquei aliviada ao ver sua humildade e bom senso na resposta 🙂 Desculpe ter sido meio impaciente, é que certas coisas têm me incomodado, já não de hoje… Sou feminista, mas certos extremismos e distorções me incomodam

    • Eu acho que é irritante que algumas pessoas não aceitem opiniões diferentes. Entendo sua irritação, você deve ADORAR O Pequeno Príncipe (eu mesma me segurei pra não comprar o moleskine com a capa-tema dele esses dias), mas acho que fui cuidadosa pra não ofender o que Exuerpy queria dizer (ou pelo menos o que eu acho que queria dizer). Apenas coloquei um ponto de vista sobre o que estava virando as citações bonitinhas do livro. E isso sim era irritante. Ver gente que sequer tinha lido o livro e usava as citações totalmente fora de contexto!
      Enfim, mais paz na blogosfera! Vamo com calma~!
      Hahaha

  6. assista ao filme A.I inteligencia artificial, um filme que com certeza ira odiar, querendo ou não, de alguma forma, quando alguém ama você, amor de verdade, sempre terá uma responsabilidade para com essa pessoa. uma mulher jovem e bonita talvez não entenda bem isso, mas o maior tesouro que alguém pode encontrar em vida é alguém que lhe ame.

      • Pq vc ainda não conhece o amor ainda moça. ORDO AMORI. Tudo ordenar ao amor. Amor é mais que sentimento guria. A única coisa em comum entre todas as culturas e religiões. A prórpria definição de platão sobre o tempo explicita como o amor é eterno e ímpar.

      • Acho que é muita pretensão sua admitir que seu conhecimento sobre o amor é maior, verdadeiro ou definitivo. Como diria Paulo Freire, não existe saber maior, mas saberes diferentes. Dessa mesma forma, acho que são pontos de vista diferentes. Eu continuo com o meu. E acho que não são nem um pouco comuns entre as mais diversas culturas e religiões.

  7. Fantástica a parte sobre o desejo contemporâneo de certos caras de serem príncipes. Que alguém se empenhe pra ser legal, gentil, romântico, ok, maravilhoso, adoro, quem não? Mas isso realmente se torna um problema quando o indivíduo em questão não consegue entender que se ele é assim também é para se satisfazer. Piora ainda mais quando esse é o único objetivo da gentileza em questão, quando um cara é legal mais para se amar ainda mais do que por algo motivado pelo objeto da pseudo-afeição. Conheço casos extremos, garotos com uma síndrome de príncipe hiper intensa e maturidade inversamente proporcional, são capazes de arrumar um cavalo branco pra ir atrás de uma garota mas totalmente incapazes de sustentar um relacionamento saudável por mais de duas semanas.

    • E também não conseguem suportar a frustração de que esse esterótipo de “príncipe” não seja o desejo de todas as mulheres. Não somos padronizadas, como não são nossos desejos. Mas acho que pior mesmo é muitas vezes só agirem assim pensando numa “recompensa”, como se só porque foram legais as pessoas têm obrigação de querer se envolver intimamente com eles. E claro, também acontece o inverso (eu mesma já quis ficar com amigos que não tavam a fim e tô aqui vivona), mas por uma pressão da sociedade (machista) os casos de homens (chamados de “soldados feridos” nas redes sociais e fóruns) isso toma uma proporção muito grande. A metáfora militar é só mais um clichê do arsenal machista de quem acha que sentimento (qualquer que seja) é uma obrigação. Mas me preocupa muito esse “entitlement”, esse “merecimento” como se não tivéssemos -todos nós- desejos próprios. Não é raro vermos casos de meninas que se recusaram o relacionamento com alguém e foram agredidas, quando não mortas. É isso o que causa o mito da friendzone, por isso acho tão perigoso alimentar essa ideia.

      Obrigada pela participação e opinião, Lívia =)

  8. Oi para vocês, primeiramente eu não tenho essa leitura de mundo toda, mas na minha coempreenção o que torna o homem mal é a falta de cativação entre cada um de nos, é fácil eu julgar um amigo, quero ver jugar um inimigo.

    • Olá, Marlon.
      O texto não pretende analisar “o que torna o homem mal”, mas o reflexo da distorção da obra de Saint-Exupéry em algumas relações monogâmicas.
      De toda forma, agradeço o seu comentário.

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