Who run the world?

Tem circulado na internet um vídeo que mostra certas “coincidências” nas coreografias, modo de vestir e clipes das cantoras Anitta e Beyoncé. Não vou postar o vídeo aqui, porque o objetivo desse texto não é discutir se Anitta “copia” ou não a cantora estadunidense. O Objetivo desse texto é falar sobre a relação das duas cantoras e suas músicas (mais especificamente, “Who Run The World?” da Beyoncé e “Show das Poderosas” da Anitta) com as mulheres e a sociedade. Já deixo claro que também não tenho a pretensão de fazer juízo de valor e dizer que uma cantora é melhor que a outra.

Pra quê ser "versus" se podemos ser "feat"?  Foto: Wallison Knowles (um fã da Beyoncé, pelo que parece. Achei a foto pelo Google)

Pra quê ser “versus” se podemos ser “feat”?
Foto: Wallison Knowles (um fã da Beyoncé, pelo que parece. Achei a foto pelo Google)

Existem dois comentários geralmente comuns em qualquer discussão sobre o feminismo que denotam de cara o desconhecimento sobre o assunto. O primeiro obviamente é considerar o feminismo o contrário de machismo, isto é, um discurso de opressão das mulheres sobre os homens, quando na verdade feminismo tem a ver com a luta pela igualdade de direitos. O segundo – que é sobre o que pretendo falar – geralmente é expresso na seguinte frase (com uma ou outra variação): “mas as próprias mulheres são machistas!”.

Não sei bem qual o objetivo desse comentário, porque não vejo como reconhecer que mulheres sejam machistas descaracteriza a luta feminista. Pelo contrário, acho que isso só a torna mais urgente. Se vivemos numa sociedade machista, onde a educação é sexista e a violência de gênero é naturalizada, acho que é compreensível que todos os seres dessa sociedade tenham também se habituado a essa naturalização. No entanto, é na percepção de que se as mulheres deixarem de ser machistas, se reconhecerem feministas e lutarem por causas que visem a igualdade de direitos entre homens e mulheres, que nasce um sentimento muito poderoso: a sororidade.

Mas o que isso tem a ver com Anitta e Beyoncé? Bom, primeiro é preciso entender a sororidade. Eu digo basicamente que sororidade é a solidariedade entre mulheres. Ou o feminino de fraternidade. Frater, do latim, é irmão. Nós aprendemos isso quando estudamos a Revolução Francesa, mas obviamente é a versão dos homens sobre a história (por isso só tem o substantivo masculino, mas isso é papo pra outra hora…). Mais e mais blogs têm postado textos sobre sororidade, então é legal conhecer e sobretudo praticar =)

Mas então, não parece óbvio que se as mulheres pararem de competir umas com as outras e se juntarem a luta fica bem mais fácil? Aqui que entram alguns discursos usados nas músicas das cantoras citadas anteriormente. Vamos pegar alguns versos das duas músicas que pretendo analisar para facilitar o entendimento. Vamos começar com a Beyoncé.

Girls, we run this mutha!                                      Garotas,nós comandamos!
Girls!                                                                     Garotas!
Who run the world?                                              Quem comanda o mundo? 
Girls!                                                                    Garotas!
(…)                                                                      (…)
This goes out to all the women                           Essa vai para todas as mulheres
Getting it in                                                         Que estão conseguindo
You on your grind                                              Tudo com muito esforço
To all the men that respect                                Para todos os homens que respeitam
What I do                                                           O que eu faço
Please accept my shine                                   Por favor, aceite meu brilho
Boy you know you love it                                  Garoto, você sabe que ama
How we’re smart enough to make                    Como somos espertas o suficiente para
these millions                                                    enriquecer
Strong enough to bear the children                  Fortes o suficiente para aguentar os filhos
Then get back to business  
                            E em seguida voltar aos negócios

Ok, Beyoncé exalta as mulheres, diz que elas conquistam o que querem e “comandam o mundo”…com o dinheiro. E ainda reafirma o papel tradicional da mulher-mãe quando canta que conseguimos conciliar a carreira profissional e os filhos. Sabemos que mulheres ainda ganham menos desempenhando menos funções e mulheres negras estão duplamente excluídas do mercado de trabalho, ganhando menos porque desempenham funções com piores remunerações. Mas além disso e de exaltar mulheres num mundo construído por homens, em outros trechos da mesma música percebemos mais um mooooonte de coisas que não se encaixariam exatamente num discurso feminista, mas esse texto ficaria muito longo se eu quisesse analisar cada verso e não é meu propósito cagar regra sobre feminismo.

Agora a Anitta:

Prepara que agora é a hora
Do show das poderosas
Que descem e rebolam
Afrontam as fogosas, só as que incomodam
Expulsam as invejosas
Que ficam de cara quando toca
Prepara
Se não tá mais à vontade, sai por onde entrei

Quando começo a dançar eu te enlouqueço, eu sei
Meu exército é pesado e a gente tem poder
Ameaça coisas do tipo: Você!
Vai!

Anitta fala em “ameaça” sob um poder que, segundo ela, apenas seu “exército” tem. Isto é, apenas algumas mulheres. As que “incomodam e expulsam as invejosas”. A inveja, substantivo feminino e pecado capital tem sido usada como justificativa ao longo dos séculos para minar amizades femininas. Não é raro ouvir mulheres dizendo que preferem ter amigOs, porque as garotas são muito invejosas. Será então que a inveja e a competição entre mulheres é algo que já nasce instalado, como um sistema operacional de computador? Não preciso dizer que é mais um tipo de comportamento condicionado culturalmente né? Acontece, que enquanto mulheres acreditam nisso e vêem na competição uma forma de galgarem lugares mais altos sem exatamente mudar o status quo, o patriarcado se perpetua.

Sororidade é o poder!

HAHAHA adoro essa imagem! <3

HAHAHA adoro essa imagem! ❤
“Achei” no Facebook

Como dito lá em cima, este não é um post para fomentar a discussão sobre a competição entre Anitta e Beyoncé. Só quis mostrar como músicas podem ser discursos e neste caso, de duas músicas muito usadas em diferentes contextos, inclusive o feminista, podemos perceber inúmeras semelhanças no que diz respeito à condição feminina.
Não vou nem entrar no mérito da questão racial, porque a ótima Jarid Arraes já comentou sobre o embraquecimento da Anitta aqui e acho que também é pertinente aplicá-lo à Beyoncé. Mais do que tudo, o que une Beyoncé, Anitta, todas as mulheres do mundo, inclusive eu, é que ainda somos vítimas de opressão apenas por sermos mulheres. Então, o que quero dizer aqui é que se ao invés da competição entre mulheres, houver cooperação e solidariedade, não seremos julgadas pelas nossas coreografias, nossa celulite, nossas roupas, mas pela nossa competência em qualquer área que viermos a desenvolver nossos trabalhos. Conseguiremos mais direitos porque mais mulheres estarão lado a lado nessa luta. E a luta feminista avançará porque enfim teremos entendido que não basta ser poderosa se outras mulheres também não forem. Porque ou o poder é para todas ou não será para nenhuma, visto que ainda sofremos todo o tipo de preconceito e injustiça, embora existam mulheres governando países e sendo divas pop em escala mundial.
E além disso, o que eu quero dizer é que: Anitta não é a Beyoncé assim como a Beyoncé não é a Anitta. Somos todas diferentes e devemos ser respeitadas pelo que escolhemos ser. Mas que escolhamos ser acima de tudo irmãs, porque em uma sociedade machista, sororidade é o poder!

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