O ônibus, essa alegoria da sociedade moderna

Não me surpreende que as manifestações de junho tenham começado com a reivindicação do passe livre. Em um mundo onde passamos tanto tempo dentro de um ônibus, me parece uma consequência inevitável que o modelo de transporte público atual tenha se tornado uma insuportável alegoria dos nossos dias.

Não me entendam mal, prestes a tirar a carteira de habilitação por livre e espontânea pressão da minha mãe de uma sociedade em que não dirigir é quase atestado de fracasso pessoal, profissional e político, eu sou provavelmente a pessoa que mais gosta de andar de ônibus no mundo. De trem também, mas aí pesa meu lado mineiro. Mas a verdade é que eu realmente andaria de ônibus/trem/metrô o resto da vida se o transporte público fosse como deveria ser, isto é: gratuito e de qualidade.

Pessoal do Tarifa Zero BH, que promove debates e ocupações pelo direito à cidade. Conheça mais em: http://www.tarifazerobh.org/

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Gosto de observar as pessoas no ônibus todos os dias e cada vez mais estou convencida de que o comportamento das pessoas dentro de um coletivo diz muito sobre como estamos organizados em sociedade. Como entender que uma pessoa que vai passar pelo menos os próximos 40 minutos ao seu lado seja incapaz de te desejar um bom dia/boa noite? Ou de sorrir pra crianças que teimam em quebrar a monotonia e a ordem, falando aquelas coisas engraçadas e deixando os pais embaraçados? Como não observar que as pessoas preferem se mudar pra um acento duplo vazio a continuar ao nosso lado? (eu me perguntava se tinha cara de sociopata toda vez que as pessoas faziam isso, mas observei que é cada vez comum). As pessoas não querem ser incomodadas no ônibus, como não querem ser incomodadas na vida. É o retrato de uma sociedade onde cada vez mais gente gosta menos de gente. E do contato com a nossa gente.

Os vendedores de balas poderiam estar matando ou roubando, mas estão ali, vendendo balas e paçocas pra pessoas que não estão interessadas em tirar seus fones de ouvido para escutar suas histórias tristes. Isso quando há fones de ouvidos, porque também existem os que sequer se dão ao trabalho de colocá-los. E não falo apenas dos que curtem funk, não sejamos preconceituosos, é todo tipo de música e isso quer dizer apenas uma coisa: que muitas pessoas não se importam tanto com as outras a ponto de querer impor seu gosto pessoal. Ou sua religião, se for o caso de algum cara do Manassés, que acha que temos que ouvir a palavra de seu Deus, ainda que sejamos budistas, umbandistas ou ateus.

A verdade é que no ônibus, como em nossa sociedade, impera o comodismo. Quem nunca presenciou a cena do jovem sentado nos assentos preferenciais que fingiu dormir para não ceder seu lugar a um idoso, como é direito? As pessoas fingem não ver, fingem não aceitar que não é com elas, quando na verdade estamos todos no mesmo barco, perdão, no mesmo ônibus. Se algo acontecer ali, acontecerá a todos nós. E como cantaria Milton Nascimento “são dois lados da mesma viagem”. Viagem da qual inclusive podemos nem voltar. Todos os dias quando saio de casa e entro em um ônibus confio minha vida ao motorista e o valor que pago ao trocador é muito maior que o da tarifa. Por isso movimentos pelo fim da cobrança de passagens e pedágios são tão válidos. Nossa vida não tem preço. Mas é ela que vemos passar pelas janelas dos carros e ônibus. Afinal, sabe o que causa trânsito? Automóveis.

Gosto muito da frase do Movimento Tarifa Zero que diz “uma cidade só existe para quem pode se movimentar por ela”. Um ônibus, ou a luta pelo transporte público gratuito e de qualidade é uma luta sobre repensar nossa organização como seres sociais.

Por fim, gostaria de dizer que da inversão de valores, a sociedade moderna se desenvolveu acreditando que reduzir IPI para compra de carros é a melhor alternativa pra tornar as pessoas felizes. Consumir virou sinônimo de progresso, quando mesmo com tantos carros, mal conseguimos sair do lugar. É por isso que eu sigo acreditando que o mundo é daqueles que mesmo diante da covardia e da inércia a que somos submetidos diariamente, têm coragem de gritar ao motorista que espere, para que aquele que estava ficando para trás também possa subir no ônibus e compartilhar a mesma viagem.

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2 thoughts on “O ônibus, essa alegoria da sociedade moderna

  1. Luara, você acaba de conhecer mais um “fora de moda” que adora andar de ônibus, trem e metrô. Na realidade eu adoro gente. Gosto de observar as pessoas, as crianças, os que se levantam para ir para o banco vazio e chego a conclusão que eu e você é que somos normais. Eu gosto de conversar com o pessoal, comentar os “eventos” da nossa viagem, brincar com as ocorrências durante a viagem. Se você pensar bem, o gostoso da vida são os relacionamentos. A gente aprende coisas boas e coisas ruins se relacionando e percebe que se relacionar com pessoas boas ajuda a gente a errar menos.
    Enfim… amemo-nos uns aos outros – isso é que traz a felicidade.
    Beijos,
    Manoel

    • Exatamente, Manoel. As pessoas têm se afastado umas das outras e é impossível nos organizamos em sociedade se odiarmos o outro. Ou se ignorarmos que o problema do outro também é um problema meu.

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