Além do que se vê

A capacidade de se admirar com as coisas é o que precisamos para sermos bons filósofos. Foi isso que Jostein Gaarder disse nos capítulos iniciais do Mundo de Sofia. Li o “Mundo” com 11 para 12 anos. Na época quis cursar filosofia, por achar que me ajudaria a pensar melhor, mais do que a entender as coisas ao meu redor. Hoje, decidi que daria um tempo nos livros e artigos de sociologia e comunicação. Peguei “Ensaio sobre a Cegueira” do José Saramago, sem me dar conta que ontem (08/10) foi “aniversário” do Nobel de Literatura que consagrou o autor português.

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Se me permitem um comentário sobre o livro, só o que posso dizer é que SaraMAGO é genial no uso das palavras. Não sei se era o objetivo dele, mas leio “Ensaio” e sinto náusea. E nunca achei que isso pudesse ser bom, mas é. É um turbilhão de sensações tão bem descritas que só pode mesmo vir de quem trata as palavras como um mago.

Voltando à metáfora (ou parábola) como observado no romance, o temor causado pela cegueira eminente deve ser o mesmo causado pela cegueira cotidiana, diante das injustiças, da violência crua, da “subsombra desumana dos lichadores” para citar Caetano em “O Cu do Mundo”. Não queremos e mais, não podemos nos tornar cegos. É preciso entender nossa “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”.

Lembro-me que quando pequena, no sítio, tinha algumas brincadeiras curiosas. Uma delas eu usava para me “preparar” caso um dia ficasse cega. Tinha muito medo de perder a visão ou a audição e um dia, depois de muito pensar, decidi que ficar cega seria pior e comecei a me preparar para que se isso acontecesse, eu não fosse pega de surpresa. Eu tinha então 6 anos e andava pela casa de olhos fechados, tateando portas, brinquedos, tentando me acostumar à escuridão. Nunca me acostumei, deixei a brincadeira de lado e só lembrei disso quando comecei a ler “Ensaio sobre a Cegueira”.

É a capacidade, não só de nos admirarmos, mas de não nos acostumarmos à esta cegueira, nos indignarmos com a situação daqueles que já perderam a capacidade de enxergar e principalmente, a vontade de olhar além do que se vê que nos torna tão responsáveis por nosso mundo, mesmo que este mundo seja apenas a nossa pequena realidade local. Também a insistência em “defender o óbvio”, em não se “resignar nunca”! Olhar além é o que renova a esperança, aguça a percepção. Afinal, assim como Saramago, que se dizia comunista, Deleuze, sobre a esquerda também teria suas convicções: é uma questão de percepção!

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2 thoughts on “Além do que se vê

  1. Luara, sabe que me sinto orgulhoso de, sendo um ser humano sedento de pessoas pensantes, ter você como amiga (ainda que virtual).
    Nossa! Gostei muito dessa sua postagem e o mais importante é você colocar sempre a sua opinião , ou melhor, o que você sentiu ou o que pode modificar nas vidas, o que o Saramago ou outro autor passa para você.
    Luara, você tem uma cabeça muito boa. É muito inteligente. Pode ser também que eu tenha me empolgado porque pensamos da mesma forma. Até a coincidência de simulação da cegueira na mesma idade… o interessante é que acabei por ter muitos amigos (as) cegos. Acabamos rindo com isso.
    Enfim, parabéns pelas suas lindas idéias e ideais.

    Beijo,
    Manoel

    • Manoel, eu realmente fico muito feliz de ouvir isso. É sempre bom trocar ideias com quem compartilha sentimentos como os nossos. Obrigada pelos comentários e pela amizade, ainda que virtual =)

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