O Dia que me tornei Atleticana

O ano de 2013 tem sido realmente bom para o Atleticano (tirando o nosso maior rival na liderança e a contusão do Ronaldinho). O primeiro semestre foi perfeito, coroado com o título inédito da Copa Libertadores da América num dia considerado por muitos o “mais importante de suas vidas”. Eu discordo. E é sobre isso este texto, sobre o dia mais importante da minha vida: o dia que eu me tornei Atleticana.

Em se tratando de times de futebol num país cujo esporte tem tradição e dimensão, é comum ouvir das pessoas que já se nasce torcendo pra tal time. Mas eu gosto muito de Rousseau, então costumo dizer que “todas as pessoas nascem Atleticanas, mas a Globo e a CBF os corrompe”. Brincadeiras a parte, não é difícil argumentar que bebês recém-nascidos mal sabem o que é um escanteio, quanto mais pra que time torcer. No meu caso e acredito que na maioria deles, a influência foi a família. Meus pais são Atleticanos. Na verdade, só meus avós maternos e tia (irmã da mamãe) eram cruzeirenses. No restante da família é o preto e branco que predomina.

O GALO sempre foi algo presente na minha casa, então aos 6 anos eu já sabia cantar o Hino todo sem errar. Me considerava Atleticana. Aos 7 eu já jogava futebol em campo society e futsal e tinha o uniforme completo. Ao contrário do meu irmão, que também se dizia Atleticano, mas não praticava o esporte nem gostava tanto quanto eu. Mas foi aos 8 anos que eu realmente me tornei Atleticana. Nessa idade, eu já entendia bastante de futebol para uma menina (a até para um menino, se considerarmos a relação do meu irmão com os videogames). E foi num jogo pela primeira fase do campeonato mineiro, um GALO x América-MG que eu pude ter certeza e que “doutor eu não me engano, meu coração é Atleticano!”. Tive certeza porque foi a primeira vez que torci de verdade, que sofri, rezei, ajoelhei. Que eu fiquei fascinada pelo time que tinha Marques, Veloso, Guilherme, Lincoln e cia.

Desde aquele dia, o GALO esteve presente em todos os momentos da minha vida.

Desde aquele dia, o GALO esteve presente em todos os momentos da minha vida.

Quando os cruzeirenses me chamam de “sofredora” eu não ligo, porque é verdade. Minha relação com o GALO é de puro sofrimento, de pessimismo. Uma vez um cara me falou: que loucura! Vocês torcem xingando os próprios jogadores! E xingamos mesmo. Só para no próximo momento, no toque de classe ou no gol de canela, exaltarmos seu nome e exigirmos sua presença na lista de convocados pra seleção nacional. O professor Idelber Avelar, Atleticano também, bem sabe dessa relação e classificou o Atleticano como Hegeliano. Nada faria mais sentido. Além do pessimismo que permeia o Atleticlericanismo Ortodoxo (sim, temos nossa própria religião!), o sentimento do “se não for sofrido, não é GALO” é como uma penitência a ser cumprida para alcançar o reino dos céus, ou no caso, o do gol no último minuto, na defesa do pênalti aos 48 do segundo tempo (“autoriza o árbitro Patricio Polic, Riascos parte pra bola…DEEEEEEEEFENDEU, VICTOR!”). Tudo isso é que move o Atleticano. A vitória? Os títulos? Sempre enxergamos distante. É mais gostoso gritar “Eu acredito!” num cenário adverso. Uma coisa que o Atleticano preza: nunca comemorar o título antes da hora. Dá azar! A gente bem lembra do Rosário Central…

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Eu fui aprendendo a torcer dessa maneira, onde cada jogo era uma final de campeonato. Muitas vezes achei que meu coração não ia aguentar. Seja por tristeza ou alegria imensa. Essa dialética hegeliana, que perpassa o espírito Atleticano é que nos move de fato a cada jogo. Seja contra o Barueri ou o Bayern de Munique. Eu não perco um jogo do GALO desde os meus 8 anos. Posso contar a história da minha vida em jogos do GALO, lembrar times inteiros. Ir do céu ao inferno, só para lembrar novamente como é bom viver de Atlético. Porque o futebol pra nós é mais que um jogo, acontece na vida, como no gramado. O Atleticano sabe que futebol é a mais bela metáfora da vida. É sobre o gol celebrado versus a bola que pega no travessão. Um segundo que pode mudar o mundo pra sempre.

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Ainda no mesmo ano que me tornei Atleticana, vi o GALO ser campeão mineiro sobre o mesmo América-MG com um gol de pênalti de Lincoln. Vi a final do campeonato brasileiro e assim como Belletti, sai pouco antes do fim do jogo e desolada com o resultado, encostei no meu próprio túnel e chorei novamente. Vi mais duas boas temporadas antes que os anos 2000 engolissem meu time em uma década de decepções ou quase-decepções. Até 2005, com a queda pra série B do brasileiro, o fundo do poço. O inferno. Eu nunca deixei de acompanhar o GALO ou de vestir a camisa, nosso manto sagrado. Porque é algo que me define. O Atlético me define profundamente, melhor que qualquer descrição. Dele é possível saber que sou mineira, que sou apaixonada por tudo que faço. É verdadeiramente a celebração da minha identidade. É por isso que não vejo como fanatismo escolher o Hino do GALO para receber meu diploma de formatura. O que me definiria melhor naquele momento que os versos do “lutar, lutar, lutar, com toda a nossa raça pra vencer!”. A Massa (nossa torcida tem nome próprio!) gosta de ser reconhecida como Atleticana. Fazemos do nosso trabalho o Atlético, da nossa bebida, da nossa vida. Por isso eu concordo com qualquer um que venha nos chamar de loucos, de chatos, de fanáticos, exceto, como sempre corrijo, de que somos apenas “apaixonados”. Se nos chamam assim, se acham loucura a nossa paixão, é porque aprenderam a torcer diferente, a amar diferente. Porque para o Atleticano, o Atleticlericanista Ortodoxo, amar o GALO acima de todas as coisas é o primeiro mandamento.

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6 thoughts on “O Dia que me tornei Atleticana

  1. Luara, que paixão lindaaaaa! Eu como paulista sinto a mesma coisa pelo meu Corinthians. Entendo isso perfeitamente e até copiei para o meu arquivo sua foto de beca e camisa do Galo.
    Claro que o Galo fica importante, mas importante mesmo por causa de pessoas que tem o coração igual ao seu.
    Você é um amor de pessoa porque vibra com tudo o que faz e acredita. Adoro pessoas como você. Nunca frias e nem mornas. Sempre lutando para um melhor em tudo.
    Parabéns, Luara!

    Um beijo,
    Manoel

  2. Aaaah, quando li que era paulista, já sabia que era Corintiano. Paixão em SP só se for corintiano! Engraçado que apesar do brasileiro de 1999, eu tenho um respeito imenso pelo clube do Parque São Jorge. Acho que é porque respeito as paixões de verdade! Hehehe

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