Qual a diferença entre o bandido bom e o cidadão de bem?

Circula no Facebook um vídeo em que o policial atira em um bandido, pego em flagrante após roubar uma moto. Eu não cliquei da primeira vez. Quando a 30ª pessoa compartilhava, eu também hesitei em clicar. Não gosto de ver violência, nem por curiosidade. Fui obrigada a ver o tal vídeo porque antes das minhas aulas da autoescola, o pessoal assiste o programa do Datena. É de embrulhar o estômago o desserviço deste programa à humanidade, mas eu não tenho evitado fazer comentários a respeito e o pessoal já começa a me olhar de rabo de olho. Eu apenas espero a famosa frase: “bandido bom é bandido morto!” pra começar a argumentar sobre a falha do Estado, mas os poucos minutos entre uma discussão e a aula são poucos para tentar alguma coisa e são válidos apenas pra mostrar minha falta de estômago para situações como esta.

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Acho curioso que um vídeo desses apareça quando discutimos a desmilitarização da polícia. Mais curioso ainda que já tenhamos esquecido do pedreiro Amarildo, torturado e morto pela polícia. Em que pese a ótima reflexão do Eduardo Amuri, a qual não cabe aqui repetir, mas ressaltar alguns pontos, chegamos a uma espécie de dormência, de cegueira cotidiana, que nos impede de ver nossa responsabilidade pelos bandidos que nos cercam. Nossa parcela de culpa em uma sociedade doentia e nossa falsa noção de democracia. Mesquinha e fria. Onde uma vida vale bem menos que uma moto. Tanto a do cidadão que roubou quanto a do que teve a moto roubada.

Isso me leva a perguntar: qual a diferença entre o bandido bom (que deve ser morto) e o cidadão de bem? Ambos são parte da construção social da violência, da inércia do Estado, do monopólio da violência creditado à polícia e aos órgãos repressores e ambos atirariam contra o outro se pudessem. O que faz diferença são as circunstâncias e não a boa índole reivindicada pelo “cidadão de bem” ao repetir que trabalha pra pagar ao invés de assaltar.

O discurso meritocrático, demagogo e fácil encontra eco nos Datenas, que repetem nas redes sem o menor pudor que a vida humana vale tão pouco. São os partidários dos “direitos humanos para humanos direitos”, quando não sei se por desconhecimento ou má fé julgam que alguém “escolhe” o crime, quando na maioria das vezes esta pessoa é escolhida por ele. São as circunstâncias.

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Desmilitarizar a polícia é necessário para repensarmos nossos conceitos de coexistência e cidadania.
Imagem: Bansky

Exaltamos uma democracia tão mesquinha e falsa, baseada na coerção antes do sentido de solidariedade, que naturaliza a violência a ponto de acharmos que o significado de prisão seja o isolamento, quando na verdade se trata de recuperar um indivíduo. Não é incomum ouvirmos de alguém “tomara que fulano apodreça na cadeia”. Não desejamos que essa pessoa volte melhor, desejamos que ela seja encarcerada, privada do convívio em sociedade para nos livrarmos dela. Decretamos sua morte social, desejando a morte por completo. Novamente, o que nos diferencia dos “bandidos que matam aos montes por aí?”. Desejamos a redução da maioridade penal, pena de morte, estupro aos estupradores…me pergunto se o Código de Hamurabi ainda anda valendo por aqui.

Suponho que a esta altura algumas pessoas já tenham desistido de terminar este texto, achando ingênua e romanceada a minha posição de defensora dos direitos humanos. “Queria ver se fosse com você!” me dizem toda vez que eu defendo esta posição. Olha, eu já fui assaltada. E por mais que eu tenha sentido raiva na hora, medo, angústia nos dias seguintes e tenha me sentido insegura, paranóica, eu jamais desejaria a morte do bandido que me assaltou por um motivo muito simples: ele sangra tanto quanto eu. Ele também sente fome. Também tem desejo de se realizar como ser humano. O que o impede? A falta de circunstâncias, que muitos de nós chamamos de oportunidades. Portanto, enquanto o Estado não honrar com suas obrigações constitucionais, não me peçam pra desejar a morte de ninguém, porque afinal, com uma polícia que mata e tortura bandidos, trabalhadores, estudantes e professores, são as circunstâncias que nos separam do bandido. É a vontade do aparelho repressor que detém o monopólio da violência.É subjetivo. Ontem foi o ladrão. Hoje pode ser qualquer um de nós e seguiremos morrendo aos poucos, matando-nos uns aos outros, porque afinal “também morre quem atira”.

UPDATE: Devido a algumas contribuições surgidas aqui e no Facebook, decidi escrever esse Update pra esclarecer alguns pontos e tratar de outros que acho que ficaram pendentes. No entanto, deixarei o texto como no original por respeito a quem já leu, beleza?

Em primeiro lugar esclareço que não pretendia entrar no mérito do sistema carcerário brasileiro. Primeiro porque tenho pouco conhecimento (e não gosto ou costumo falar do que conheço pouco) e segundo porque só tratei da situação da visão do “bandido bom” versus “cidadão de bem “.

De toda forma, o que gostaria de dizer é que não compartilho da visão de que nossa “cadeias” recuperam alguém. Ora, mora no estado do Espírito Santo. Digitem “masmorras capixabas” no Google e fiquem pelo menos 3 dias sem dormir se tiverem um coração! Estamos falando de tortura, seres humanos e containers!

Como bem observado pelo Thiago Guedes no Facebook: ” É legal pensar sobre a origem da prisão junto à burguesia, como mecanismo para isolar aquilo que não se era aceito socialmente. Mais sintomático ainda, sobre esse tema, é que a primeira grande revolução moderna foi deflagrada exatamente pela tomada da Bastilha.” Outra boa observação do Thiago foi que a prisão visa recuperar a sociabilidade do indivíduo, afastando-o do convívio social, num misto de preguiça e hipocrisia! Fica óbvia a inércia do Estado. Náo se quer recuperar ninguém, se quer afastar, livrar.

Também a Brenda Batista e a Miriam fizeram ótimas ponderações. Enquanto a primeira lembrou o problema do uso recorrente da palavra “recuperar” para quem nunca foi sequer inserido (segundo ela, lembra doença. Não deixa de ser Brenda, mas uma epidemia social…), Miriam chama a atenção para o fato de que os mais atigingidos são os jovens negros e da periferia.

Bom, este é só mais um recorte que quis fazer e achei necessário a partir dos comentários que vocês foram trazendo.

Agradeço demais a participação de todas as pessoas. Obrigada! =)

Tirinha do Malvados perfeito pra esse post mas que eu só vi depois de publicar =/

Tirinha do Malvados perfeito pra esse post mas que eu só vi depois de publicar pela primeira vez =/

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17 thoughts on “Qual a diferença entre o bandido bom e o cidadão de bem?

  1. Olá camarada Luara, parabéns pela coragem de se posicionar de maneira tão firme, franca e direta sobre um assunto pra lá de delicado de se discutir. Debater a violência e buscar soluções para o problema é sempre muito difícil pois, há muitos falsos “consensos” fabricados principalmente pelos meios de comunicação (os datenas da vida como você mesma disse). Sobre o vídeo citado, o que me chamou a atenção foi o fato de o policial não ter tentado (ao que me parece) render o garoto (18 anos). O reverendo magno malta diria: garoto não é marginal. Enfim. Parabéns, um forte abraço.

    • Obrigada pelo comentário, companheiro!
      Vi um comentário do professor de Direito Túlio Vianna sobre a possibilidade do policial ter agido em legítima defesa, visto que o garoto parece tentar sacar a arma novamente. Independente disso, esta é uma discussão sempre muito pesada, mas urgente e necessária. Precisamos nos perguntar onde começa a violência e levantar debates como os do genocídio da Juventude Negra.

      • Luara gostei muito do seu posicionamento, embora sou contrário ao argumento de que o sistema prisional recupera indivíduos. O sistema prisional é uma instituição falha que serve pra tratar as consequências de um Estado opressor e omisso. Ele não recupera ninguém, muito pelo contrário. Ele viola, tortura e agride todos os direitos do individuo. É uma forma do Estado de higienizar a sociedade de uma determinada etnia, uma vez que a maioria são negros, não é ato que toda camburão tem um pouco de navio negreiro.
        Para preservar os ditos “cidadãos de bens”, é realizada uma verdadeira limpeza étnica pelos nossos governantes, exterminando os jovens negros, e aqueles que conseguem sobreviver é enviado pros campos de concentração (presídios), para ser explorada sua mão de obra em condições degradantes (trabalho escravo). Esse sistema inescrupuloso é apoiado por fascistas como Datena, assim como as demais mídias manipuladoras, e muito pouco problematizado pela nossa sociedade, que cada dia mais valoriza a industria de controle e segurança, como se fosse algo normal. Realmente a discussão é muito densa, e bastante necessária. Vamos sempre erguer a bandeira contra esse falso moralismo social, que apoia o extermínio da juventude negra, o sistema carcerário e demais formas de opressão. Agradeço pelo post. Abçs

      • Concordo, Miriam.
        O que quis dizer é que nem as pessoas tratam a coerção como recuperação.
        Tratam como isolamento.
        Legitimam a ação opressora e autoritária do Estado.
        Depois eu vou tentar escrever um update esclarecendo isso.
        Obrigada pelo comentário e pelas ponderações extremamente relevantes ao debate.

  2. Luara, que cabeça boa você tem. Com tudo que tenho visto e ouvido por aí, estava perdendo a esperança de encontrar alguém com sua maturidade de pensamento. Se a gente se alimenta dos primórdios da natureza humana, podemos perceber que sempre houve uma luta de classes e uma grande quantidade de filósofos e teorias sobre a educação da humanidade. Concordo e entendo plenamente com tudo o que você escreveu. Assino embaixo e a coisa que eu mais almejaria é que a prisão recuperasse as pessoas para retornar a viver em sociedade. Até admito que isso não ocorre porque nós não damos a devida importância a recuperação das pessoas a não ser que sejam nossos filhos ou coisa parecida. Nós deveríamos cobrar das instituições responsáveis o “sacerdócio” de capacitação para recuperar as pessoas.
    É muito fácil dizermos que todos temos as mesmas oportunidades quando na realidade a ocasião determina muitas vezes o destino de alguém.
    Gostei muito do que você escreveu e acho que deveria acontecer um debate amplo de valorização da vida. No início da postagem você cita que não gosta de ver esses vídeos ligados a violência, mas pasme, eu conheço diversas pessoas que entram na internet e ficam horas vendo todos os tipos de vídeo repressor de pessoas e acha isso muito prazeroso. Tem horas que a gente tem vontade de se sentar num canto e deixar a peteca cair, mas é isso que interessa para o mundo. Ir usando a lei do mínimo esforço e eliminando quem dá trabalho para eles.
    Eu não acho que nosso sistema prisional recupere os presos, mas tenho certeza que podem fazê-lo. Com o mesmo corpo de funcionários que tem e com os presídios de segurança máxima, já temos hoje em dia muitos cursos profissionalizantes, fabricação de peças para montadoras, presos que saem acompanhados de seguranças e prestam serviços de pintura. Sou testemunha disso porque moro em Taubaté e aqui temos uns 8 presídios de segurança máxima e eu conheço muitos funcionários das entidades (guardas de presídio, médicos, dentistas, psicólogos…) com um nível de humanidade muito bom e que conversando com eles a gente pode sentir que dá para montar um sistema mais disciplinado e voltado para a recuperação. Enfim…
    Vou parar por aqui porque já me perdí na redação e esse é um assunto que deve ser bastante debatido e resolvido. De teorias o pessoal não precisa no momento. Precisa é ação.
    Adorei sua postagem, Luara.

    Um beijo,

    Manoel

    • Obrigada, Manoel!
      Realmente acho que deveria ter falado um pouco mais sobre minha visão do sistema penitenciário. Acho que não ficou muito claro e nesse debate este é um fator essencial.
      Pretendo, como disse à Miriam, escrever uma atualização sobre isso.
      Beijo!

  3. É bom ver o tema ser discutido de forma imparcial e com um elevado padrão moral, mas permita-me discordar apenas do exemplo usado para mostrar o ponto válido.
    Concordo que precisamos buscar a paz, em todas as circunstâncias. Concordo que grande parte da violência tem suas raízes nas desigualdades sociais e que estamos falhando em assegurar os reais “direitos humanos” quando negamos às crianças um estudo de qualidade e outras necessidades básicas como alimento, moradia e outras.
    Não participo de discussões filosóficas ou práticas sobre novos rumos tais quais me parece que você já participa tal como citou o desmilitarização da polícia, mas não posso deixar de me manifestar quanto ao tempestividade desta ação. Nosso pais precisa evoluir demais para chegarmos a esta etapa. É utópico pensar que uma polícia desmilitarizada seria capaz de nos ajudar.
    Sou familiar de um policial militar, que repensa muitas vezes a carreira por demasiada dificuldade encontrada. De um lado, um governo, que é quem efetivamente controla a polícia, que não sabe gerir este orgão, do outro, a sociedade que não respeita, não da o valor para essas pessoas que procuram defender os direitos destes. De um terceiro lado, a imprensa, que inúmeras vezes “metralha” os policiais, sem antes estudar os fatos e entender realmente o que se passa, “vendendo” uma péssima imagem.

    Vejo pelo seu comentário em resposta a outro colega, que você já ficou sabendo que:

    1) O policial não matou o meliante, apenas o “parou”.
    2) O meliante estava pronto para MATAR o policial que deu voz de prisão a ele.
    3) A técnica empregada foi impecável e padrão: 2 disparos, não letais, retomada da arma do meliante, acionamento do socorro para os feridos, etc.

    Agora eu lhe pergunto: A ação técnica apurada deste policial está clara? A imprensa ou os governantes expressaram direito o que ocorreu na verdade ali? Ou está sendo vendido apenas a imagem “Policial MATA assaltante negro/mulato” ?

    Meu ponto de vista sobre isso é: A ação foi eficaz, bem executada, em tempo e sem exageros (ao contrário de outras ações veiculadas tais como repressão à manifestações, mas isso seria tema de outra discussão, risos).

    Agradeço o espaço e aplaudo a discussão sadia!

    • Entendo Geraldo.
      Eu mesma tenho procurado opiniões de outros policiais sobre a desmilitarização da polícia e creio que esta é apenas uma das mudanças.
      Penso eu, aliás, que a maior e mais desafiadora mudança se dá na disputa de valores.
      De colocar na cabeça do cidadão comum que em uma sociedade que naturaliza a violência ele é tão vítima quanto o assaltante pego em flagrante.
      Eu que agradeço pelas ponderações =)

  4. Acho que a parte que mais me chama atenção é a ligação com o Código de Hamurabi. O fato de as pessoas não se preocuparem com a ressocialização, a tal da filosofia de olho por olho dente por dente. Gandhi tem uma frase que expressa a aversão dele por esse ditado, ele fala assim: “Olho por olho e o mundo acabará cego..” E é isso, cada dia que passa mais pessoas são convidadas/intimadas/forçadas a entrar nesse mundo da violência, do crime, e nesse índice crescente, vai ter fim quando? Quando toda a sociedade estiver presa? É inaceitável se pensar assim.

    Mas o que mais me marcou quando aprendi sobre o Código de Hamurabi, e é algo que se vê até hoje, é a diferenciação na hora de condenar as classes. Em uma lógica numerica, um cara que rouba 1 milhão deveria ter uma repressão maior do que um cara que rouba 60 mil, concordamos? Mas não, o que vemos é um banqueiro no máximo pegando uma prisão domiciliar por desviar altos valores, enquanto um cidadão de classe C toma tiro e vai preso. E a sociedade, hipócrita sociedade aplaude e acha cômico. Quão absurdo isso pode parecer? É extremamente absurdo.

    Tem uma expressão alemã, “schadenfreude”, que é a felicidade pela dor, tristeza, sofrimento alheio, e essa expressão tá se tornando cada dia mais comum no Brasil. As pessoas comemoram quando um “bandido” é morto, quando outro é linchado, quando o estuprador é estuprado.. Olha quão bárbara ficou nossa sociedade, a ponto de comemorarmos a violência. Qual a diferença entre a violência de um cidadão e a violência assistida do estado? Aonde isso vai chegar? Sinceramente, tem horas em que me assusto com as pessoas e quão ruins de índole elas podem ser, e nem perceber.

    Ahhh, a sua tirinha ao fim do texto, é perfeita. A diferença entre esse tipo de “cidadão de bem” e o “bandido” é realmente a circunstância. O fato de pensar em matar, já os deixa em igualdade, o que diferencia, é que o “bandido” faz pela sobrevivência, e o “cidadão de bem”, pelo sentimento de vingança.

    • Thiago, querido!
      Obrigada pelo seu comentário e suas palavras sempre pertinentes.
      É bem esse o meu sentimento. Aonde estamos chegando com tudo isso? E mais: aonde queremos ir?
      Obrigada pelo comentário e pela amizade.
      Beijão!

  5. Luara, muito esclarecedor o seu update. Mostrou bem o que acontece e eu acho que em vez de eu ficar colocando o dedo na “ferida” bom mesmo seria criar uma participação para ir solucionando os problemas. Por etapas, é claro.
    Valeu, Luara!
    Beijos,
    Manoel

  6. Parabéns pela lucidez e explanação de um assunto espinhoso como este!

    Porém, o que diferencia um “criminoso” de um “cidadão do bem”(?) é a motivação/intenção, o porque de agir como age.
    Cada um vive a Vida na direção daquilo que acha importante, prazeroso, digno de ser buscado e TUDO ISSO tem a ver com a força das crenças e PAIXÕES de cada individuo. Que as circunstâncias pesem, ninguém tem dúvida, porém maior é o SIGNIFICADO que tu dá para as coisas que não controla e te rodeiam.

    Duhro Zulen (G+)

    • Obrigada pelo comentário, Duhro Zulen!
      Mas eu considero que em uma sociedade onde nossas opções são cada vez mais limitadas é muito difícil julgar ou condenar (pra continuar na metáfora) as escolhas das pessoas, pois estas são cada vez menos livres.

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