O teu camarote está cheio de ratos

Via @luizfelipenunes

Via @luizfelipenunes

Passada a euforia (ok, eu ainda uso “agrega o valor” para tudo), mas a Internet não espera e precisamos analisar o tal vídeo do Rei do Camarote.

A princípio é tudo tão bizarro que a vergonha alheia quase nos impede de rir. Mas é engraçado. E doentio. E é sobre isso e por isso que escrevo hoje.

A que ponto nossa sociedade chegou. Aonde chegamos. Onde para validar atidudes, precisamos de roupas de grifes, o que significa esse status que o empresário Alexander de Almeida fala.

Poderia fazer várias observações aqui (aliás, desde que criei o Blog me sinto muito cientista social, mas como todo mundo gosta de me lembrar eu só tenho Internet), mas nem sei se conseguiria esgotar o assunto. Ou nem sei se tenho essa pretensão. O       eu quero dizer aqui talvez seja muito mais simples. No entanto não deixa de ser pesado rs

Apenas um recadinho para a VEJA SP e os Reis dos Camarotes

Apenas um recadinho para a VEJA SP e os Reis dos Camarotes

Pesado porque quem não tem ideia do que está fazendo nesta vida, talvez ache que gastar 50 mil na balada seja algo corriqueiro. Não é. A vida não é usar roupas de grife e agregar valor ao camarote. Também não tem a ver com usar mal a concordância verbal e usar corretamente não te faz um ser humano melhor. Dizer que champanhe “são” status é o menos errado desse vídeo.

A VEJA precisa parar

@meninanaopode Entendedoras entenderão.

@meninanaopode
Entendedoras entenderão.

Um amigo disse que achou que o vídeo tivesse sido produzido pelo KiebeLoco ou outro site de humor, de tão tosco. Ficou de cara quando soube que era um vídeo da VEJA SP.

Nem preciso falar o ridículo de uma publicação se prestar a isso né? Sem contar os brilhinhos do vídeo que com certeza foi editado no Windows media player (nada contra, tenho até amigos que usam…), meus pêsames ao diploma do jornalista que teve que entrevistar esse cara.

Ao ver o vídeo, me lembrei na hora de um texto da Cynara Menezes que dizia que jornalista tem “complexo de elite”. Não gosto muito da Cynara (sobretudo quando ela se mete a falar de feminismo!), mas achei esse texto interessante porque o jornalista-funcionário-de-jornal acha que o patrão é seu amigo e se faz de porta-voz dele. Vomita todo preconceito e ódio de classe e raça em seus textos. E o que podemos ver no Rei do Camarote: um endeusamento de quem nos explora (a nós, a classe trabalhadora!).

Sim, eu sempre tenho receio de usar o termo “classe trabalhadora” sem que meu texto pareça um panfleto de sindicato, mas é preciso lembrar às pessoas que só existem duas classes: a burguesa e a trabalhadora e “empresário” sempre foi o eufemismo elitista pra burguês.

As mulheres do Camarote

O vídeo se popularizou sob o nome de “Rei do Camarote”, mas se não me engano em uma das chamadas originais da matéria, mencionava-se o subtítulo de “sultões dos camarotes”. Pois bem. Às mulheres, das quais faço parte, reservei um espaço à parte, porque acho necessário ressaltar. Assim como pavões abrem suas caudas e babuínos incham suas bundas, sultões dos camarotes, abrem suas champanhes cheias de fogo para mostrar status e agregar valor. Faz parte de um ritual bizarro. A diferença é que apesar dos dois primeiros serem naturais, este último é uma construção social, calcada na injusta distribuição dos bens. Mulheres devem ser bonitas para agregar valor ao camarote, eis aí o seu valor. Seu único valor em 3 minutos de vídeo. A naturalização do machismo.

Agregando valor a este post

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Enfim, o que eu queria dizer mesmo é que nossos valores estão falidos precisamos repensar nossos valores. Este vídeo é apenas uma amostra disso. De como ainda endeusamos quem nos explora e festejamos a volta de Sai de Baixo (rindo de piada de pobre enquanto opa! Somos o que chamamos de “pobres”). O Rei do Camarote é sim uma caricatura bizarra da elite paulistana, mas também é uma caricatura da nossa própria sociedade machista, homofóbica, racista, heteronormativa…é principalmente uma caricatura da nossa sociedade burguesa. Não nos desvinculamos em nada da burguesia no que tange a repetir seus comportamentos (eu mesma quase cancelei minha conta no instagram depois de ver o vídeo), mas não se trata apenas de ter instagram e achar legal, mas de sequer se perguntar porque é legal e usar uma rede social para validar a própria vida!

O modo de comportamento burguês existe e deve ser questionado pelos trabalhadores que são diferentes também nas suas formas de lazer. Poderia discorrer aqui sobre instagram e Escola e Frankfurt, mas acho que já to viajando e esse texto ta ficando chato, então prefiro me despedir e esperar que este texto venha a agregar algum valor pra vocês.

Abrações! =)

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One thought on “O teu camarote está cheio de ratos

  1. Luara, assino embaixo de tudo o que você escreveu. A tendência e colocar panos quentes nisso tudo e a vida continuar. Acho que 2014 vai ser um ano de grande lucidez do povo. Espero que para melhor. Tenho um amigo que é voluntário em uma ONG e sempre me mostra que temos pessoas pobres honestas e pessoas pobres desonestas. Da mesma forma temos grupos de pessoas que lutam por um ideal comum como temos grupos que lutam por $eu$ próprio$ ideai$. A gente não pode entrar na conversa do discurso fácil. Tudo tem que ser comprovado.
    Luara, admiro muito a sua fibra, embora você ainda se ache no início de carreira, mas não tem a ver. O importante é o ideal que corre dentro de você. Isso você não pode perder.
    Não precisa fazer cara de idealista (rs…rs) o importante é ser firme para consigo mesma.
    Adorei seu post.
    Beijos,
    Manoel

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