Anjos e arcanjos não pousam nesse Éden infernal*

Estive em uma palestra do João Pedro Stédile do MST semana passada (que talvez seja o cara da esquerda nacional que eu mais admiro) e junto com o Clube da Esquina é o que eu mais tieto na vida. Não preciso dizer que foi extraordinário. Apesar de rápido, ele mostrou porque é uma das figuras mais geniais e afiadas da esquerda atual, falou sobre reforma agrária, luta de classes, mas passou mesmo a maior parte do tempo falando sobre movimentos de junho e junho de 2013 e sobre a importância de uma reforma política com participação popular.

João Pedro Stédile (de azul) fala ao estudantes presentes no auditório do  CCJE na UFES

João Pedro Stédile (de azul) fala ao estudantes presentes no auditório do CCJE na UFES

Entre algumas piadas e o sotaque de trabalhador rural do Rio Grande do Sul (achava que o Stédile era um militante chato e sério?), ele observou algumas causas que levaram os jovens às ruas. Umas das coisas, foi o que ele chamou de “substrato político”, a causa, que segundo ele, foi o esgotamento da esperança desses jovens e do que o próprio Brasil tem a oferecer. Como exemplo ele citou o próprio ENEM, que teve em sua última edição cerca de 6 milhões de participantes. Se 600 mil ainda são pra treinar, onde “enfiaremos” os outros milhões? Diremos a eles que esperem o próximo ano se no próximo ano teremos mais 6 milhões de jovens? Nossas universidades continuam elitistas e excludentes, o que faremos? Se a Educação Pública não dá conta e a educação privada é uma merda (com trocadilho), que faremos? Muitas são as perguntas e os jovens que foram as ruas querem essa solução.

É claro que este tema está saturado, mas é sempre interessante voltar. Ainda mais quando se trata de uma figura tão cativante quanto é o Stédile. Outro ponto importante abordado por ele foi o de viver nas grandes cidades. Como ele mesmo disse, viver na cidade grande no Brasil se tornou um “inferno”. Portanto, esta também foi uma das causas de se ir a rua. Ainda que quem tenha ido o faça “contra tudo que está aí”, porque de verdade, é contra um sistema que oprime, onde há pouca participação. Mas também contra a militarização da PM que assusta o cidadão comum, contra a especulação imobiliária que empurra o trabalhador pras periferias da grande cidade.

Ilustração da série "Cinismo Ilustrado" do Designer mexicano Eduardo Salles

Ilustração da série “Cinismo Ilustrado” do Designer mexicano Eduardo Salles

Gostaria de terminar este texto dizendo mais uma vez que não é possível que tudo seja como antes. Uma reforma política é urgente para mudar as regras do jogo. Uma reforma política com a cara do povo, para dizer a que viemos e o que queremos para mostrar que não fomos às ruas só para nos indignar, mas para propor. Precisamos dizer o que desejamos e sonhamos muito. Um trabalho de base, feito com e por cada um já é uma ótima ajuda, mas precisa ser feito. Stédile citou o modelo do que foi feito na época do plebiscito contra a ALCA, A Reforma Política anda meio capenga no Governo Dilma então mais do que nunca é preciso confiar na Organização Popular! Pelo financiamento exclusivamente misto de campanha, acabemos com o poder econômico nas eleições. Democratizar a Democracia.

*Verso da música “Ave, Lúcifer” dos Mutantes

 

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5 thoughts on “Anjos e arcanjos não pousam nesse Éden infernal*

  1. Luara, o Stédile é uma pessoa muito inteligente e segura de seus ideais, mas o que tem me preocupado é observar que muitas pessoas que eram de nossa confiança abriram ONGs e foram seguindo suas propostas, mas à medida que foi entrando dinheiro na ONG o pessoal começou a desvirtuar o projeto original e já começou a comprar carros zero para a ONG, escritório de luxo, festas para representação e,… desvirtuou tudo. Corromperam-se!
    Apesar de termos certeza que precisamos fazer uma reforma política, temos primeiro que votar bem nessa próxima eleição para que tenhamos representantes a altura das nossas necessidades. Se não for assim, não acredito que conseguiremos e o pior que o não conseguir é ser enrolado, não é?!
    Um beijo,
    Manoel

    • Uma coisa bem legal que o Stédile também disse nessa palestra foi inclusive uma crítica ao PT (ao qual ele e eu somos filiados). Podemos desmoralizar, com um trabalho de base pela Reforma Política, as próximas eleições. Não é possível votar “bem” nas próximas eleições. Não com o que se está anunciado. Com estas regras. Com o jogo como está dado. É impossível. O PT erra como estratégia à esquerda ao adiar a Reforma Política mais uma vez, portanto nos cabe organizar o povo e desmoralizar as eleições. Disputar os espaços burgueses não são mais vitórias democráticas pra nós.

      • Luara, pois é. Quando fiz meu comentário eu pensei nisso. Erra mesmo em não fazer a reforma, mas eu não consigo enxergar (sinceramente) como seria feita essa reforma com os ideais contaminados e misturados. Não consigo me expressar e não sei se me entende, mas acho que não temos pessoas para arcarem com essa responsabilidade sem que estejam pensando em interesses pessoais. E o povo que se exploda! Entendeu?
        Claro que se tiver meios eu sou favorável. Também quero o melhor para o nosso pais.
        Bjos,
        Manoel

      • Acho que o erro da Reforma começa na forma capenga em como foi chamada. Nem o próprio governo conseguiu manter seus modelos propostos. O vice não quis, os ministros boicotaram…não dá pra confiar nessas “instituições democráticas”, só na Organização do Povo, por isso um Plebiscito Popular e/ou uma Constituinte resolveriam a Reforma melhor e desmoralizariam as eleições do ano que vem =)

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