Cerveja, Mulher e Futebol

Eu até não gosto de voltar aos mesmos temas por medo de parecer repetitiva demais, mas desta vez trata-se de um manifesto-denúncia contra a cervejaria Brahma, principalmente ao seus analistas de mídias sociais e demais responsáveis pela comunicação da marca.

No dia 15 de junho de 20 13 eu enviei uma mensagem à página BrahmaGALO sobre um post com a foto da esposa do atacante Diego Tardelli do Clube Atlético Mineiro. Além do mau gosto em associar mulheres a objetos meramente decorativos no Futebol, achei invasivo, por mais que a foto possa estar nas redes sociais da mulher. Sigo o Atacante e sei que ele é bem ativo nas mídias sociais, mas não acho que isso seja motivo para que uma marca de cerveja se aproprie da imagem de uma mulher e a use nesse contexto.

Ontem, ainda sem nenhuma resposta à minha primeira mensagem, o que achei um desrespeito, visto que não usei palavras de baixo calão, mas dados e minha opinião de consumidora da marca, postei outra mensagem, pois me incomodou que a foto de uma torcedora envolta apenas numa bandeira do GALO fosse usada como perpetuação do discurso que restringe às mulheres o lugar de musas.

Via Não Aguento Quando

Via Não Aguento Quando

Novamente não recebi sequer resposta, o que considero uma falha absurda de uma página grande, que como sei, todos os times tem a sua. Na primeira mensagem, inclusive elogio essa mudança de postura e estratégia da Brahma em relação às concorrentes ao mudar o foco pra futebol, mas parece que a cervejaria ainda esquece que mulheres também são parte de seu público consumidor.

Em meu texto recente sobre o boicote ao concurso Musa do Brasileirão, realizado pela Rede Globo, um dado referente à pesquisa realizada pela fundação Perseu Abramo/Sesc mostrou que 80% das mulheres sequer se enxergam nesse padrão vendido pela publicidade e pela mídia em geral. Não sei se vocês sabem, mas eu também sou publicitária e sei que em nosso currículo disciplinar, ética e responsabilidade constam tanto quanto marketing. Por isso, acho que é hora de alguns responsáveis pela comunicação de suas empresas terem mais noção de seu público e de seu século. As maioria das mulheres que eu conheço bebem cerveja. Eu bebo e adoro. Só bebo Brahma, pelo sabor (sim eu adoro o sabor da cerveja) e principalmente é a cerveja que eu peço quando vou ao buteco e à praia. Não me parece muito inteligente negar a esta parte do público consumidor seu direito de se ver representado com dignidade e uma resposta satisfatória da empresa. Não me parece justo e acho ainda lamentável que a Brahma opte por fazer coro aos estereótipos fáceis ao invés de se diferenciar de vez. Se não pelo compromisso social, ao menos pelo compromisso mercadológico. Ora, pra que vender pra metade da população se vocês podem vender para todos nós?

tumblr_mbbpuyPyld1ql5yr7o1_400

Enfim, deixei de curtir a página e sinceramente, não sei muito o que fazer para brigar com quem sequer quer me ouvir. Então a minha forma foi escrever este texto para mostrar à Brahma (se é que vai chegar a alguém responsável pela comunicação da marca) que nós, mulheres e torcedoras e consumidoras de cerveja, não precisamos ficar nuas ou vestir apenas uma bandeira com as cores de nossos times. São eles que precisam se despir dos seus preconceitos sexistas.

Deixo com vocês um link pra ótima entrevista sobre mulheres, propagandas e cerveja e Mídia, da Rachel Moreno, autora do livro A Imagem da Mulher na Mídia – Controle Social Comparado.

Via Não Aguento Quando

Via Não Aguento Quando

P.Sː Se tiverem casos parecidos com a marca/página em questão, façam um esforcinho para relatar e mandar mensagens. Quem sabe com mais gente se mostrando contra esse tipo de coisa, eles não acordam no século XXI.

Advertisements

2 thoughts on “Cerveja, Mulher e Futebol

  1. Continua complicada essa situação acerca da imagem que a mulher representa na sociedade, de objeto, de pedaço de carne a ser consumido.

    E eu me pego a pensar se posso consumir a cerveja porque não vejo homens seminus associados às marcas (isso porque até agora me considero heterossexual). E aí? Posso beber mais não?

    Acredito que a publicidade apela para o pior do ser humano, sabe?! Concordo com o que expôs sobre a ética na questão da publicidade. Acredito piamente que um dos objetivos da profissão é ajudar na construção de um mundo mais justo, uma vez que os recursos da publicidade influenciam na construção de nossas identidades.

    Acho legal essa propaganda da bohemia em que eles se prendem à qualidade do produto e não a um ou outro estereótipo.

    • No link que cito a entrevista da Rachel Moreno ela comenta essa propaganda da Bohemia. Cita inclusive o fato dela pertencer à AMBEV, a qual também detém os direitos da Skol por exemplo, que usa o mote da “mulher mercadoria”, mas de fato é interessante a mudança de foco e a crítica ao uso da imagem da mulher na publicidade.
      É bem complicado esse assunto, porque muita gente acha que o lucro é o objetivo final da publicidade, mas eu realmente me assusto, até como profissional, com o mercado e o que os “colegas” tem feito.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s