Não é sobre o Lulu Santos

Sou da época que o Twitter era um tipo virtual de obituário ou onde a gente ficava sabendo primeiro dos babados (quando os fãs do Luan Santana ainda deixavam a gente se atualizar com os Trending Topics). Então quando vi a galera falando de “Lulu” eu achei que o Lulu Santos tinha morrido. Só ontem fui saber que se trata de um aplicativo onde, basicamente, as mulheres podem escrever resenhas sobre os homens e trocar entre si como anônimas.

Como bem lembrado pelo Raiam Maia: sou da época desse aplicativo de avalição das pessoas #LuluOldSchool

Como bem lembrado pelo Raiam Maia: sou da época desse aplicativo de avaliação.

Em que pese os argumentos da Ariane Silva e o fato positivo de um aplicativo feito por uma mulher para mulheres e até a entrevista da criadora que se considera feminista e disse que o aplicativo tem o objetivo de criar um ambiente pra toca de ideias entre as mulheres, eu discordo que seja um aplicativo feminista. Olha, eu nem precisei baixar o tal aplicativo e mesmo lendo a tradução do que seriam os objetivos dele, não vejo como compartilhar a avaliação dos caras seja algo feminista.

Alguns caras chamaram de “vingança”, mas logo alguém lembrou que já existe um aplicativo que avalia mulheres o tempo todo sem o nosso consentimento e o nome dele é MUNDO. Daí outro disse que “as próprias mulheres são machistas”, não gosto de repetir muito, porque já disse isso em outro texto meu. Mas se as mulheres são machistas, isso não é motivo pra minimizar a luta feminista, pelo contrário só a torna mais urgente. E numa sociedade onde até o crime de gênero é naturalizado, quem não é machista? Mas aí está a explicação do porquê acho que o Lulu não tem nada a ver com feminismo: simplesmente porque feminismo não é o contrário de machismo. Não vejo, como feminista, que num mundo ideal eu possa fazer com os homens o que eles fazem com as mulheres. É meio Teste de Bechdel, sabe? Acho que o feminismo expande os horizontes das mulheres e nos faz perceber que homens não são o centro do nosso mundo.

Buá!

Buá!

Então meu ponto sobre esse aplicativo que tanto ta dando o que falar é: mesmo depois que MENINAS (sempre bom lembrar que as vítimas em questão têm gênero) perderam suas vidas – literalmente ou não -, cá estamos nós de novo, banalizando o sexo e brincando com nossas relações pessoais.

Em um mundo onde a sociedade e a mídia superestimam o sexo e a sexualização de forma cada vez mais precoce, mulheres ainda são julgadas por gostarem e fazerem sexo. Na verdade acho que isso incomoda mais os caras que o julgamento e as notas, mas enfim.

Acho que todo o chororô dos caras só reflete a incapacidade de admitir privilégios. Lembram daquela propaganda da Gillette que dizia que mulheres preferiam homens lisinhos? Pois é, a depilação já é uma imposição pra mulheres há décadas. Então quando mexem com eles, logo ficam putinhos. Acho que o positivo nisso tudo tem sido a discussão, mas de forma alguma concordo que seja feminista. É só bobo. E também acho tosco esse negócio de avaliar as pessoas. Afinal, penso que se as pessoas se preocupassem mais em fazer sexo e menos em avaliar e compartilhar isso uns com os outros: #MenosMeninasSeMatariam #TeríamosFodasMelhores #AsPessoasTeriamMaisSensoDeHumor.

Sem "iuzómismo", ok?

Sem “iuzómismo”, ok?

UPDATE: Participei de um debate esta manhã na Rádio Universitária da UFES às 10h, sobre o Lulu o Tubby e o machismo contemporâneo, com o Tiago Alves Pereira (membro do Fórum de Homens Pelo Fim da Violência Contra a Mulher), a Catarina Dallapicula e a Karina Moura do Fórum Capixaba de Mulheres e estamos todos juntos pelo fim do machismo e na luta por uma sociedade mais justa. Além disso, gostaria de enfatizar o rumo que tomou, nessas duas semanas de aplicativos, o quanto a falsa simetria tem contribuído para uma visão errada das relações entre homens e mulheres.

O chororô masculino em torno do Lulu me pareceu tão descabido e por isso usei as imagens acima para ilustrar o texto, porque afinal ao menos eles tinham a opção de se descadastrar do tal aplicativo, né? Daí aparece um aplicativo que propõe uma “vingança” (sinto dizer, mas chegou com alguns séculos de atraso), mas especificamente para nos avaliar sexualmente. Não preciso dizer que não foram os homens que foram cerceados por sua sexualidade a vida toda, mas as mulheres, logo isso tende a nos trazer mais constrangimento. Imagina nossos pais, chefes e namorados lendo #EngoleTudo, #DáDePrimeira e serm ser moralista (acho que já ficou claro que não sou), mas enquanto no Lulu as hashtags se propõem a serem engraçadinhas (claro, ninguém quer ser avaliado, mas não é o fim do mundo), o Tubby tende a ser escrachado mesmo e até o momento tem registrado problemas para o descadastro do perfil das usuárias.

Como muito bem exemplificado na Página “Agora é que São Elas” da Clara Averbuck, Mariana Badarra e Nádia Lapa, em post de autoria da Iza Perkoski: “A situação está extrema. O Lulu está servindo como ferramenta para as mulheres destruírem a vida dos homens.
O Cláudio, essa semana, foi expulso de casa pq recebeu quase 40 avaliações e o pai dele não aceitou ter um filho que não se dá ao respeito. O Rafael perdeu o emprego, porque a chefe dele ficou sabendo que ele recebeu a hashtag #naoliganodiaseguinte. O Pedro teve que abandonar a faculdade, de tanto bullying que sofreu, porque recebeu a hashtag #maisbaratoquepãonachapa.

O Fernando sofreu uma tentativa de estupro, porque a nota dele para compromisso era muito baixa e o número de avaliações altíssimo, então é claro que ele queria transar – ainda mais recebendo nota 10 no sexo. Não dá pra deixar passar. Quando ele foi prestar queixa, o delegado perguntou pra ele por que ele não tinha desativado o perfil. Afinal pra que um homem direito vai ficar se expondo desse jeito na internet? Pra que isso? Bem que devia estar pedindo por isso mesmo, esse vadio. Piranho. Putão.”

Via Arte Destrutiva

Via Arte Destrutiva

É isso, galera. Querer comparar é ridículo, é falta de noção. Falta de conversar com mais mulheres, como deu a dica o Felipe Pacheco ou vai ver tem gente que nunca saia mesmo da puberdade, como observou a Nádia…

Outro observação muito pertinente feita pela Catarina e complementada pelo Tiago no debate de hoje foi a heteronormatividade dos aplicativos, afinal somente homens podem avaliar mulheres e mulheres podem avaliar homens. Os plicativos não consideram as diversas combinações de relacionamentos homossexuais que podem existir e novamente aparece (no caso do Lulu) o “homem provedor”,, “bom partido”, que deve encher a mulher de presentes e joias e pagar a conta para obter uma nota mais alta. O que também é parte dessa heteronormatividade, visto que “agrega” às características do “macho alfa”. É uma prova de que o machismo também oprime os homens.

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6 thoughts on “Não é sobre o Lulu Santos

    • Hahaha não é? É muita besteira achar que relacionamentos são como performances e que uma pessoa será exatamente igual com outra. Há diversos fatores e aplicativos não dão conta da nossa humanidade.

  1. Concordo com você em número, grau e, principalmente, gênero. Paulo Freire dizia que quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor. Nós somos julgadas a todo momento no mundo e, infelizmente, algumas de nós caem na armadilha de agir como o opressor age. Pena.

    • Exatamente, Virgínia. Por isso é tão comum o erro de quem não conhece o feminismo em confundir e achar que é o contrário do machismo, que queremos a opressão dos homens, quando na verdade se trata de IGUALDADE.

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