O Morro Não Tem Vez

A essa altura muitos de vocês já sabem sobre o ocorrido no sábado no Shopping Vitória. Foi parar até na Carta Capital, revista de circulação nacional e o Labic da UFES fez esse texto explicitando o desserviço prestado pelo jornalismo capixaba prestado pelo Gazeta Online. Enfim, são links que já dão dimensão do que aconteceu e quem ainda não se atualizou pode acompanhar o circo de horrores do fascismo da PM. Eu sinceramente não tive estômago pra ver o vídeo das matérias, mas a foto e as montagens que circularam nas redes já me chocou bastante, então eu pretendo falar da minha ótica por aqui, afinal este é um blog pessoal.

Curioso que tenha, como observado por alguém no Facebook (que infelizmente não vou me lembrar agora para creditar) que tenha acontecido no último no último dia do mês da Consciência Negra. Irônico, diria eu, que muitas das pessoas que provavelmente estavam aplaudindo a atuação da polícia, acreditam na falácia dos “365 dias de Consciência Humana”. Bem, é pra essas pessoas que o Dia 20 de Novembro existe e resiste. Aqui vocês podem ler um ótimo texto sobre outra polêmica que perdurou essa semana, a da rejeição de Lázaro Ramos e Camila Pitanga para apresentar o Sorteio da Copa e a entrevista sofrível da Fernanda Lima. Uma boa pra galera entender didaticamente o privilégio branco.

Via "Golpe Comunista 2014"

Via “Golpe Comunista 2014”

Então, estava eu, puta da vida com a PM, um dia depois, indo ao circuito do samba (que também já foi marginalizado) no Centro de Vitória quando tomei um ônibus rumo ao Terminal de Itacibá, que fica em Cariacica quando sobe na Praia da Costa um monte de negros, pulando roleta e ouvindo funk alto. Minha primeira reação, calcada na hipocrisia foi “no próximo ponto eu vou saltar”. Foi isso que eu pensei sim. Daí eu, branquinha-classe-média, formada na Faculdade, morando em Bairro de Classe Média, indo pro Samba, só fiz o que cada um de nós devia fazer: questionei meus privilégios. Questionei o direito à cidade. Questionei porque eu morava a algumas quadras da praia e pessoas negras tinham que tomar ônibus, sair de suas cidades, provavelmente da periferia, pra conseguir um banho de mar, diversão e lazer num domingo a tarde. E sabe o que mais? A classe média morre de medo da periferia que não pede mais passagem, pula roleta. E quando aquele bando não, bonde, pulou roleta, eu senti foi um orgulho imenso e uma vergonha por ter pagado por uma passagem que era direito meu.

Voltando ao Shopping Vitória, é simbólico que a abordagem tenha acontecido no templo do capitalismo moderno. Como bem observado pela Saffioti em “O Poder do Macho”, a tríade da dominação é composta pelo próprio capitalismo, o machismo e o racismo. Ficaram bem claras na situação a exposição de pelo menos dois desses fatores – capitalismo e racismo -, afinal se tratava de jovens em sua maioria negros e pobres. Quero chamar atenção aqui para a validação das pessoas apenas como consumidoras. Aí que entra o que diz Saffioti. Só percebemos as minorias como consumidoras. Já mencionei aqui no Blog que sou publicitária né? Pois é, publicitário adora um nicho. Daí Gay tem a sua disposição boates e revistas, mulheres tem uma infinidade de cosméticos, negros só existem se puderem consumir bonés e bermudões específicos. É a luta de classes em sua forma mais cruel, mas no templo do capitalismo moderno tudo isso fica muito claro. Só que se engana muito a PM e a Classe Média que acha que aquele lugar não é para “gente diferenciada” (quem lembra da psicóloga de Higienópolis?). Shopping Center cada vez mais é popular, porque afinal vivemos um momento de acesso ao crédito, da compra em 10x sem juros nas Casas Bahia, do “Lulismo”, enfim, não sou especialista em economia ou Ciência Política, mas é bem fácil perceber algumas mudanças…

Funk, agoniza, mas não morre…

Li um ótimo artigo indicado pela Thayla Fernandes sobre o Nilo Batista e a marginalização do Funk. Claro que o assunto é extremante relevante no momento, visto que os jovens abordados, participavam de um Baile Funk no Pier próximo ao Shopping Vitória e o Funk, como expressão cultural, ainda é criminalizado.

O Instituto Tamo Junto (instituição juvenil sem fins lucrativos, que desenvolve intervenções urbanas) do Espírito Santo realizou no dia 7 de dezembro um Baila Funk em frente ao Shopping Vitória, com o objetivo de valorizar a arte e cultura negra e da periferia e um “arrastão contra o racismo”.

E mais uma vez, diferente do samba, o Morro não “pede passagem”, não espera darem “uma vez a ele”, mas toma sua vez. E assim que tomarem sua vez, toda cidade vai cantar. E sambar, ou dançar um pancadão. Porque quando toca, ninguém fica parado.

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