A Esquerda que teme dizer seu nome*

Por Luara Ramos e Camila Moreno**

O PSOL nasceu de discordâncias internas e justas aos rumos e a condução do PT desde a eleição do Lula, se autodenominando a nova direção da esquerda brasileira insatisfeita com o Partido dos Trabalhadores. O PT, ao longo da sua história, nascida no seio da classe trabalhadora e longe dos gabinetes, cometeu muitos erros, mas não podemos negar o papel fundamental que teve na história de transformação e desenvolvimento do Brasil e principalmente, a base social que se reivindica petista. Uma das maiores qualidades e também dificuldades do PT, é a mesma do PSOL: a pluralidade interna. Isso faz com que às vezes, o fogo da disputa interna seja maior e mais forte, que o da disputa da sociedade, com a direita e o conservadorismo.

Em seu último Congresso Nacional, ocorrido entre os dias 29 e 30 de novembro, o PSOL escolheu o senador Randolfe Rodrigues como pré-candidato à disputa presidencial sob fortes denúncias de fraudes, rachas internos e em muitos congressos locais, violência entre diferentes chapas, inclusive de outra pré-candidata à presidência, Luciana Genro.

Randolfe é considerada por parte da militância e também por outras legendas, um candidato moderado. Tem forte resistência interna por ser o responsável por conduzir acordos com o PPS e o DEM, que levaram o PSOL a dirigir Macapá, única capital que o partido ocupa a prefeitura, sob a justificativa de que é preciso fazer acordos plurais para viabilizar eleições.

"Radolfe também encabeça no Senado brasileiro, constantes diálogos com a direita do parlamento, assim como apresentou junto com Demóstenes a campanha contra a corrupção. Todos lembram o que aconteceu com Demóstenes, né?"

“Radolfe também encabeça no Senado brasileiro, constantes diálogos com a direita do parlamento, assim como apresentou junto com Demóstenes a campanha contra a corrupção. Todos lembram o que aconteceu com Demóstenes, né?”

O candidato também apresenta um balanço equilibrado dos 10 anos de governo do PT. Apresenta onde o governo deve avançar, ir para a esquerda, dialogar mais com os movimentos sociais, mas também reconhece os avanços sociais adquiridos no governo petista.

Radolfe também encabeça no Senado brasileiro, constantes diálogos com a direita do parlamento, assim como apresentou junto com Demóstenes a campanha contra a corrupção. Todos lembram o que aconteceu com Demóstenes, né?

Além da escolha de um candidato que não representa grandes mudanças, há ainda a “denúncia” da pré-candidata Luciana Genro, que em seu site expressa o descontentamento com a falta de prévias para as eleições presidenciais do ano que vem. É claro que a discussão será retomada ano que vem, mas um Partido que se diz a “nova cara da esquerda” e parece ter medo de ouvir sua base não se parece muito diferente dos vícios a que outros partidos já estão acostumados.

O que vimos foi uma esquerda que não sabe dizer a que veio, que teme dizer seu nome para manter acordos e a mesma governabilidade que critica o PT em fazer a discussão central, que é a Reforma Política. O PSOL se mistura a outras tantas legendas para cumprir um papel ingrato de muitas vezes engrossar o discurso da direita como “mosqueteiros da ética”, para provar do próprio veneno e da própria vergonha quando algum companheiro (ou companheira) é descoberto usando das mesmas regras do jogo para se manter em cena. São paladinos da justiça de um discurso moralista que só convém à elite moralista desse país.

Charge da VEJA: só gente boa (ironia inclusa).

Charge da VEJA: só gente boa (com ironia rs).

E fica a perguntaː se a única capital que o PSOL dirige, foi com acordos com a direita, se o PSOL não tem base social para eleger parlamentares, dirigir sindicatos, entidades estudantis, movimentos populares, se os espaços internos do PSOL são recheados de denúncias e rachas internos e se o mesmo apresenta um balanço equilibrado sobre os governos Lula e Dilma, por que disputaremos o PSOL, que com menos povo, menos gente e menos condição de mudar a conjuntura nacional, apresenta os mesmos vícios do PT?

A nossa resposta é também a de milhares de militantes do Partido dos Trabalhadores e brasileiros e brasileirasː continuaremos disputando os rumos do maior partido da América Latina, que mesmo com seus erros, soube dar cara a tapa e cara à esquerda do país. Não nos interessa o discurso fácil para uma elite brasileira acostumada a ouvir os mesmos jargões da mídia e da direita. Nem nos interessa ser a vanguarda da Esquerda, mas a Esquerda que transforma. Com todas as críticas possíveis, mais nos interessa “amar e mudar as coisas”.

*O Título é uma alusão ao livro “A Esquerda que não teme dizer seu nome” do professor e filósofo Vladimir Safatle, ironicamente recém-filiado ao PSOL.

**Camila Moreno e Luara Ramos são petistas, de esquerda, socialistas, amam e mudam as coisas

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