“Feminista até casar” e outros clichês machistas

Vez ou outra me deparo com comentários patéticos que tentam desqualificar a luta feminista. Este (“…até casar”) e “feminista até chegar a conta” são os mais comuns. Entre outras coisas está a naturalização do papel social da mulher e o Slut Shaming, que poderia definir como a culpabilização das mulheres por exercerem livremente sua sexualidade ou expressarem em seu comportamento sexual algo que foge do padrão “mulher para casar”.

Vamos lá, o feminismo não é um conjunto de regras e nunca disse que mulheres não podem se casar ou se relacionar (inclusive com outras mulheres). Pessoalmente tenho minha crítica ao modelo atual de casamento, que reproduz a divisão sexual do trabalho e impõe à mulher certas condutas. Nem precisei casar pra vivenciar muito disso. Mas conheço e tenho amigas feministas que mantém ótimos relacionamentos. A gente quer é que a mulher seja livre pra fazer o que quiser. E isso inclui se relacionar com quem quiser, da forma como achar mais legal. Quem fica cagando regra pra como mulher deve se relacionar é o machismo, não o feminismo.

Via O Machismo Nosso de Cada Dia com colaboração de Dani Romana

Via O Machismo Nosso de Cada Dia com colaboração de Dani Romana

Esse do “até chegar a conta” é tão imbecil, primeiro porque nunca conheci feministas que não quisessem dividir uma conta, com amigos, namorados. Eu, inclusive, racho até a gasolina se o cara me der carona. Mas pra além da minha visão pessoal, acho que essa afirmação só reforça o quanto o machismo também oprime os homens. Explico: se uma mulher acha que o homem deve pagar a conta (devemos lembrar que mulheres também são criadas numa sociedade machista, capitalista e racista e portanto, internalizam alguns comportamentos), só prova o quando este é um sistema que impõe que homens devem ser os “provedores”, trabalhar muito e ter sucesso, o carro do ano e um ótimo emprego pra sustentar a família. Esse argumento pra mim é contra o machismo, não contra o feminismo.

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Via O Machismo Nosso de Cada Dia

A questão da naturalização da “fragilidade” ou do “instinto maternal” das mulheres que tanto nos impedem de ocupar alguns postos de trabalho (como se limpar uma casa fosse uma tarefa muito leve) e de avançar na garantia de direitos sexuais e reprodutivos remontam ao Iluminismo, sobretudo a Rosseau, como lembra Campos (2011). Isso porque no século do Iluminismo (XVIII) muitos consideram o nascimento da família burguesa, que engendrou na sociedade a maternidade como função social, bem como os cuidados com a casa e os filhos. Dessa forma, não seria mais o irracional ou os dogmas da Igreja os responsáveis pela desigualdade entre homens e mulheres, mas uma função “natural”, onde é claro, a mulher não tinha escolha.

Como bem observado por José Roberto Tozoni Reis (1984, apud Campos),

A família burguesa, nascida na Europa em meados do século XVIII, rompeu com os modelos familiares vigentes e criou novos padrões familiares. (…) Eles se caracterizam antes de tudo pelo fechamento da família em si mesma. Esse isolamento marcou uma clara separação entra a residência e o local de trabalho, ou seja, entre a vida pública e a privada. (…) Outras separações se fizeram, a mais notável foi a rigorosa divisão de papeis sexuais. O marido passa a ser o provedor material da casa e a autoridade dominante, considerada racional e capaz de resolver quaisquer situações. A mulher burguesa ficou responsável pela vida doméstica, pela organização da casa e educação dos filhos. Considerada menos capaz e mais emotiva que o homem, tornou-se completamente dependente do marido.

Essa citação já explica que este modelo foi forjado, ou seja, nada é natural, mas social. Lá se vão dois séculos e ainda tem gente repetindo essa baboseira.

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

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Por fim (eu devo ter esquecido vários) temos o Slut Shaming, muito comum na separação de mulher pra casar x mulher pra pegar, visto que as últimas são as que não seguem o tal padrão de conduta e moral burguês da nossa sociedade. É muito comum ver isso até nas ofensas dirigidas às mulheres que geralmente dizem respeito muito mais ao seu comportamento sexual que qualquer coisa. Vagabunda e vagabundo tem conotações muito diferentes. Enquanto o homem vagabundo é o que não trabalha (e portanto não cumpre bem o seu papel de provedor), a vagabunda é a mulher que exerce livremente sua sexualidade, que se veste como quer sem se importar em “se dar o respeito”. Vadio e vadia seguem a mesma linha. Outras ofensas existem mais comumente para mulheres, como é o caso de piranha, puta, rodada. Eu ainda não ouvi a versão masculina destes. Galinha serve pros dois gêneros, mas eu não preciso lembrar como o homem galinha é exaltado por pegar várias e a mulher galinha é execrada por ficar com vários caras. Como se ao se relacionar com alguém você mudasse de caráter. O Slut Shaming também é comum quando relacionado à forma como as mulheres se vestem. Basta ver o atual conceito de “periguete”. Alguém vai dizer “ah, mas as mulheres acabam se chamando assim, umas às outras” e eu vou repetir que elas internalizam comportamentos, mas quero destacar aqui a importância da sororidade para compreender estes processos. Não é possível só criticar mulheres que se xingam, mas sobretudo entender o quanto nos ensinam desde cedo que devemos disputar umas com as outras para garantir um “bom casamento” com um “bom homem”, que no final só significa alguém que pode nos sustentar e ao qual devemos estar submetidas. E nisso o sexo vira uma “moeda de troca”. E consequemente, o comportamento sexual que foge ao padrão é vítima de ofensas que visam inferiorizar a mulher sexualmente livre, fazendo-a “valer menos” na disputa do jogo matrimonial.

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

“Não estamos contra vocês, estamos a favor de nós mesmas” Via O Machismo Nosso de Cada Dia

Para vencer as ofensas machistas que tanto nos fazem sentir menores, creio que a sororidade, isto é, a solidariedade entre as mulheres, é imprescindível. Além disso, a revisão dos privilégios masculinos também é sempre bem-vinda para reforçarmos a luta por igualdade. E por último, gostaria de lembrar aqui, que esta não é uma luta contra os homens, mas contra o machismo. Não para sermos o contrário e oprimir outro gênero, mas para nos libertamos de todas as imposições de como devemos agir, vestir, ter ou não filhos e cuidar deles. É uma luta enfim, para como disse Rosa Luxemburgo, sermos “socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”!

SORORIDADE via O Machismo Nosso de Cada Dia

SORORIDADE via O Machismo Nosso de Cada Dia

Referências

CAMPOS, Christiane Senhorinha Soares. A face feminina da pobreza em meio a riqueza do agronegócio: trabalho e pobreza das mulheres em territórios do agronegócio no Brasil: o caso de Cruz Alta/RS. Buenos Aires: CLACSO, 2011.

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2 thoughts on ““Feminista até casar” e outros clichês machistas

  1. Pingback: DIA DA MULHER | O BARBEIRO

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