Ore pelo ES, ora essa!

Véspera de natal e a chuva ainda castiga o estado do Espírito Santo. Não falaram da tragédia no programa dominical da maior emissora do país, reclamam uns. Outros dizem que “não é hora de falar, mas de agir”. #OrePeloES é umas das tags mais usadas, como num apelo divino, como se o grande problema do estado fosse a chuva. Coitada da chuva, nunca consegue agradar a todos. Durante a seca é tão desejada. No início do verão é quase amaldiçoada em terras capixabas. Talvez porque o problema não seja a chuva, mas o mal planejamento, os Planos Diretores Municipais tramados com empresários que visam cada vez mais a exploração dos nossos recursos naturais, a invasão de áreas ambientais que deveriam ser protegidas.

Desde o início essa onda de caridade nitidamente inspirada pelo espírito natalino burguês me deu um bocado de preguiça. Claro que precisamos ser solidários, afinal são milhares de pessoas desabrigadas e já foram contabilizadas 6 mortes, mas alguma coisa não se encaixa nessa equação. Seja pelas fotos de pessoas em meio a itens que compõem a cesta básica (virou meio que uma gincana, então acho que só vale a doação se tiver foto postada no Facebook) ou pelos relatos de tristeza, versículos, pedidos de orações. Ainda tô em dúvidaː ateus podem ajudar?

Imagem compartilhada nas redes pedindo ajuda pro estado.

Imagem compartilhada nas redes pedindo ajuda pro estado.

Mas minha crítica não é em relação aos capixabas ou qualquer manifestação religiosa. Inclusive compreendo toda essa vontade de expor sua solidariedade. Em tempos de crise institucional, doar também é um grande ato político. A participação política da maioria das pessoas se limita ao ativismo. Bacana, bonito. Paliativo. E depois que deus atender nossos pedidos e acabar com a chuva tudo isso passar, que atitude devemos tomar? Reconstruir o estado, voltar a viver normalmente nossas vidas, lembrar orgulhosos daquele kilo de café que doamos? E depois que as pessoas desabrigadas comerem um, dois meses de cesta básica, que dignidade terão? Recuso o discurso de quem acha que “agora é hora de ajudar, depois pensamos nisso” , porque eu nunca deixei de pensar nisso.

É extremamente relevante que pressionemos lideranças políticas a fazer algo de concreto com relação a estrutura do Espírito Santo. Moro no ES há quase 5 anos e se ainda não vi nada parecido com o que ocorreu esse ano, já voltei várias vezes encharcada pra casa, fiquei presa no trânsito. Não precisa “perder tudo” para perder inclusive o senso crítico. Quem sofre com chuvas e alagamentos somos todos nós, é o nosso povo e algo precisa ser feito. Não poderia deixar de lembrar que faltava poucos dias para o fim do ano e eu já achava que 2013 não teria mais grandes surpresas. Mas eis que Rodney (agora RodNY) Miranda (DEM) prefeito de Vila Velha – cidade onde eu moro- viaja com a família para passar férias nos EUA (mais precisamente em Nova York). Houve quem dissesse que ele não resolveria o problema mesmo. Mas muito mais gente se sentiu incomodada com a falta de uma liderança, ainda que simbólica (todo mundo sabe quem lidera o Rodney rs) num momento crítico como esse. Rodney, no limite da irresponsabilidade e do cinismo ainda afirmou que “sacrificou sua família” ao voltar antecipadamente da viagem. Não sou dessas pessoas que acham que político não pode ter um momento de descanso, mas me recordo da campanha municipal de 2012. Tinha candidato (não era o Rodney). Meu candidato tinha como maior proposta acabar com os alagamentos em Vila Velha. Para isso, participei junto com ele de diversas reuniões com urbanistas. Em outras oportunidades, visitamos vários locais da cidade, pude enfim conhecer Vila Velha. Ele já conhecia. Foi criado aqui. Lembro que me surpreendi em uma reunião na Região Rural do município, que eu sinceramente nem sabia que existia. Ele explicava detalhadamente o próprio plano de Governo para os trabalhadores rurais. Eu tive orgulho de fazer parte daquele projeto. Rodney cresceu na campanha, apadrinhado por muitos caciques da política capixaba que nunca voltaram os olhos pra cidade canela-verde. Enfim, depois dos resultados do segundo turno, a sensação que tínhamos não era que Rodney tinha ganhado, mas que o candidato da situação tinha perdido. E assim foi esse primeiro ano do prefeito “democrata”. Sem atuações brilhantes, com a demagogia das primeiras chuvas (que fez com que ele se embrenhasse num barquinho dentro do valão para posar pras fotos) e um investimento de R$ 870.465,43 em macrodrenagem (segundo o Portal da Transparência do município e citado pelo professor Fábio Malini em seu perfil no Facebook).

A turminha do ES em Ação aí, gente!

Eu poderia ser a pessoa mais beata do mundo que acho que não teria jeito de não tocar nesse assunto. Escolher uma pessoa sem a menor identificação com o município dá nisso. Eu não quero entrar nessa de dizer “eu te avisei”, mas sinceramente, eu não me surpreendo com a postura do prefeito de Vila Velha. Não me surpreendo porque ele representa o projeto de PODER do Espírito Santo em Ação, uma ONG (não-governamental só que ao contrário), formada por grupos de empresários que elaboram planos e diagnósticos para apresentarem ao Governos municipais e estadual. Eu não preciso dizer que na conta vão alguns privilégios dessas mesmas empresas na execução dos tais planos, né?

Pois bem, ai está a diferença de um projeto de poder para um projeto de Governo. Dos quais tanto Rodney quanto o grupo político ao qual está ligado só se familiarizam com o primeiro. Claro que não vamos sentar e chorar agora que o cara já tá eleito. Meu objetivo com este texto é um sóː dizer à população capixaba que será preciso bem mais que orações para que o ES deixe de ser invisível para o resto do país ou que só apareça nas tragédias. É preciso coragem, ousadia, um tanto de sonhos e engajamento político (notem que eu não limitei a participação ao partidarismo). É preciso que as pessoas se envolvam de verdade com a realidade de suas comunidades, não só quando estas mais precisam, mas em todos os momentos. O risco de não participarmos politicamente da vida da nossa sociedade, é sermos governados por quem está jogando WAR com Vila Velha e com o estado do Espírito Santo. Portanto, que orem pelo ES, mas não se esqueçam que passado o dilúvio, o inferno mora ao lado.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s