Fé e política ou O sentido do Natal

Eu pretendia escrever sobre o Natal, mas tecendo aquelas críticas que todo mundo faz com relação ao consumismo. Este ano aqui em casa teve árvore (pedido do meu irmão caçula). Também tivemos troca de presentes e Ceia, mas sem o papai Noel. Minha justificativa pra moça da loja de enfeites natalinos que tentava me vender um monte de miniaturas do Noel foi que afinal, nós trabalhávamos pra garantir um bom fim de ano em casa e o “bom velhinho’’ era quem levava os créditos. Não me parece nem um pouco justo. Mas enfim, percebendo já que a maioria das pessoas é tinham em mente essa crítica ao consumismo natalino, resolvi mudar o tema do meu texto de Natal.

Não tenho religião há muito tempo. Mas me considero Cristã no sentido da raiz mesmo da palavra, do Cristianismo, de seguir o exemplo de Cristo e também porque eu nunca pedi nada com tanta fé como que aquele pênalti do Tijuana na Libertadores de 2013 não entrasse. Por isso resolvi escrever sobre o sentido do Natal sem a sombra de religiões e pelo sentido mais enraizado da palavraː os ensinamentos de Cristo quer como filho de Deus (para os que Nele creem ou como figura histórica, para quem não professa sua fé a Deus cristão ou a outro Deus ou a inclusive Deus algum). É claro que a Bíblia é o documento referencial para se conhecer os ensinamentos e a história de Cristo. Mas me preocupa muito que na maior parte das vezes ela seja interpretada como para legitimar opressões ou adotada como verdade absoluta.

"Seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem..."♫ NÃO, PERA!

“Seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem…”♫ NÃO, PERA!

Eu nunca li a Bíblia toda, mas um livro que prega a submissão feminina não pode ser uma verdade para a minha vida. Eu entendo que a Bíblia foi escrita por homens e que hoje é preciso contextualizar novamente seus ensinamentos, afinal, acho que muita gente concorda que não se deve apedrejar mulheres adúlteras até a morte ou açoitar alguém que gosta de pernil. Mas é isso que mais me incomoda hojeː a Bíblia tem milhares de versículos sobre o amor ao próximo, mas os fundamentalistas estão mais preocupados em decorar os que regulam o cu alheio. Também não me parece justo. Nem me parece que esta seja a maior preocupação de Deus. O Natal, como data do calendário Cristão (não vou nem me apegar aqui a fazer um resgate histórico sobre a apropriação dos festejos do Solstício de Inverno ou aos rituais de adoração a deuses pagão. Quero falar como data instituída no imaginário popular ocidental) remete a um período de reflexão sob a comemoração do nascimento de Cristo. Porém nos parece tão difícil racionalizar essa fé quando somos bombardeados pelo fundamentalismo ou até, no caso de militantes de esquerda, quando não compreendemos ou respeitamos a fé  e sobretudo a relação entre Cristianismo e política. Claro que eu defendo a laicidade e não saio por aí cantando “Feliz a Nação cujo Deus é o Senhor”. Também não prego ou tento converter forçadamente as pessoas ao que eu acredito como religião. Não se trata disso. Se trata de compreender que os caras do Manassés são chatos pra caralho e atrapalham minha leitura no ônibus os ensinamentos e a prática libertadora de Cristo nos ensina muito sobre política e sobre ter uma posição. Ao lado dos oprimidos, claro. E este eu considero o sentido do Natal, refletir sobre a prática Cristã a ponto que de observemos nossa posição e também o contexto da nossa prática libertadora na sociedade. Ora, não é possível ser cristão e permanecer inerte frente a miséria, a tirania e a injustiça.

Como disse Frei Betto (2006, p. 287-288),

“Há quem insista que Jesus se restringiu a comunicar-nos uma mensagem religiosa que nada tem de política ou ideológica. Tal leitura só é possível se reduzida a exegese bíblica e à pescaria de versículos, arrancando os textos de seus contextos. Ora, não é só o texto que revela a Palavra de Deus, também o contexto social, político, econômico e ideológico, no qual se desenrolou a prática evangelizadora de Jesus. Todos nós, cristãos, somos inelutavelmente discípulos de um prisioneiro político. Mesmo que na consciência de Jesus houvesse apenas motivações religiosas, sua aliança com os oprimidos, seu projeto de vida para todos (João 10,10) tiveram objetivas implicações políticas. Por isso, não morreu na cama, mas na cruz, condenado por dois processos políticos”.

Tirinha do Pirikart (www.pirikart.com.br)

Tirinha do Pirikart (www.pirikart.com.br)

Na própria ceia, costume natalino, vemos simbolicamente a prática de Deus com seu povo e a tradução da comunhão, de “repartir o pão”. Pena que a Ceia tenha se tornado tão superficial e apenas uma tradição das famílias ocidentais. Mas se transformar frutas cristalizadas em chocolate e consequentemente o panetone em chocotone não foi um milagre, eu não sei mais o que foi. Brincadeiras a parte, assim também nos fala Frei Betto (2006, p. 300-301) sobre o pão como figura simbólicaː

“O pão – eis o símbolo (= aquilo que une) mais expressivo da prática de Jesus, a ponto de transubstanciá-lo em seu corpo. E todo pão que se oferece a um faminto tem caráter sacramental, pois Jesus identificou-se com que tem fome (Mateus 25, 34). Portanto, é o próprio Jesus que se oferece. Às vésperas de sua morte, Jesus antecipou-se a sua ressurreição ao dividir com seus discípulos, na ceia, o pão e o vinho. Ele se deu a nós. No gesto de justiça, ao partilhar o pão (significando todos os bens da vida) nós nos damos a ele. Eis o sentido evangélico da comunhão”.

É também Frei Betto que dissipa o aparelhamento religioso dentro da política, por meio da Teologia da Libertação, da opção por estar ao lado de quem mais precisa e não de explorar a fé das pessoas para legitimar aqueles que combatem o povo. Dessa forma, duas afirmações suas são pertinentes. A primeira trata da importância da defesa da participação popular (p.294-295)ː

“a participação popular deve abranger as três esferas da vida socialː politicamente, por mecanismos que permitam a todos participar das decisões; ideologicamente, pelo direito de crítica e pelo dever de autocrítica; economicamente, pelo igual direito de acesso aos bens necessários à vida.”

A segunda trata da pobreza e do posicionamento de um cristão frente às desigualdades (2006, p. 303)ː

“Ninguém escolhe ser pobre. Todo pobre é vítima involuntária de relações injustas. Por isso, os pobres são chamados bem-aventurados, pois sobretudo eles nutrem a esperança de mudar tal situação, de modo que a justiça de Deus prevaleça.

Assim, a vivência da fé cristã na América Latina supõe inevitavelmente um posicionamento político. Seja do lado das forças de opressão, como fazem aqueles que condenam a violência dos oprimidos, sem se perguntarem pelos mecanismos de violência econômica do capitalismo; seja do lado das forças de libertação, como todos nós que comungamos a opção preferencial pelos pobres.”

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Assim, fica claro que a pobreza não faz parte dos planos de Deus, mas das relações entre os homens. Portanto, que aqueles que seguem a doutrina do Cristianismo e se quiserem mesmo segui-la precisam tomar suas posições claramente contrárias e não reprodutoras da pobreza e da injustiça social. Também é importante ressaltar que “não se quer confessionalizar os instrumentos de luta política, pois a divisão da sociedade não se dá entre crentes e não-crentes, e sim entre opressores e oprimidos” (BETTO, 2006, p. 306).

Ho ho ho!

Ho ho ho!

Esta foi portanto a minha reflexão sobre o sentido do Natal e a tomada de posição que ressignifica o que nos ensina o cristianismo. Mais do que religião (acho justo congregar, mas ultimamente eu praticamente preciso economizar 3 meses de salário para ir à igreja com a minha mãe rs), é importante que nós que nos consideramos cristãos tomemos lado, ombro a ombro com os oprimidos, sem julgamentos ou falso moralismo, como nos ensinou Jesus. Que nós que costumamos comemorar no dia 25 de dezembro o nascimento Dele, nos lembremos dos ensinamentos, da prática e que a busca por justiça possa a cada ano renascer em cada um de nós.

Referências

BETTO, Frei. A mosca Azulː Reflexão sobre o Poder. Rio de Janeiroː Rocco, 2006.

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