Violento é o Estado!

Sobre violência dentro e fora do futebol

Tenho visto com preocupação a criminalização do futebol e dos torcedores de futebol. Depois do episódio da última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, no jogo entre Atlético-PR e Vasco, a violência espetacularizada e a falta de respostas mais aprofundadas chocou muita gente e abriu brecha para soluções paliativas e que pouco contribuem para o fim da violência nos estádios. Somado a isso, o Cruzeiro tratou logo de proibir que sua torcida organizada mais popular (Máfia Azul) usasse seus símbolos, e até barrou torcedores dela nas comemorações de seu aniversário! Portanto, este, é, mais que tudo, um texto sobre a violência NO futebol, e não “do futebol” e, ainda mais, é sobre torcedores, mais do que sobre o esporte em si.

Creio que é um erro atribuir ao futebol a causa maior da violência. É sim um esporte de contato, mas daí a dizer que é algo que aliena sem levar em consideração o contexto e a responsabilidade de outros atores que não dirigentes e a própria sociedade é de uma superficialidade sem tamanho. Não podemos deixar de considerar a violência como um fator social e, com isso, não estou afirmado que é inerente ao ser humano, mas que permanece como fenômeno social, isto é, dadas as circunstâncias, tanto do cotidiano quanto o que pode ser provocado, é possível que essa violência deixe de ser simbólica e passe a ser “literal”. Julgo que é um erro criminalizar a torcida, sobretudo as organizadas, porque não resolve. Pelo contrário, pode até piorar, visto que, ao criminalizar uma torcida organizada, a mesma passa a ser clandestina de certa forma, o que torna mais difícil seu controle e até mesmo sua submissão à lei e a ordem. Além disso, torcidas organizadas sempre foram parte da festa e, por mais que exista quem argumente que “tem gente que só vai pra brigar” (e tem mesmo), esse número é pequeno. Seguro Murad (2012, p. 31), apenas cerca de 5% a 7% dos torcedores que são membros de organizadas. E isso num país em que praticamente todo mundo torce por um time – ainda que não o acompanhe com frequência. O futebol faz parte da nossa cultura e por mais que alguém não goste, veja, critique, esse é um fato. Para o escritor José Lins do Rego (apud Murad, 2012, p. 220) “podemos fazer uma psicanálise da sociedade brasileira por meio do futebol”. Logo, também precisamos entender que se trata de uma cultura de multidões e, como tal, deve ser respeitada como patrimônio nacional, e não criminalizada ou, como tem acontecido, cada vez mais afastada dessas multidões.

O Bom Senso F.C é um movimento criado por jogadores de Futebol que cobra melhores condições no futebol brasileiro, mais aqui: https://www.facebook.com/BomSensoFC14

O Bom Senso F.C é um movimento criado por jogadores de Futebol que cobra melhores condições no futebol brasileiro, mais aqui: https://www.facebook.com/BomSensoFC14

A elitização do futebol é só um dos fatores que podemos citar como causa da violência nos estádios. Não se pode ignorar que vivemos em uma cultura de violência, na qual  o Estado detém potencialmente o domínio da violência, no sentido de produzir e punir os “violentos”. Além dessas macroviolências, ou seja, as violências sofridas pelos brasileiros/torcedores em seu cotidiano, como subemprego, saúde e educação precarizadas, entre outras, vivemos em um Estado punitivista no qual nossa população carcerária é de quase 500 mil detentos e onde nosso sistema carcerário é precário e imoral. Não preciso sequer dissertar sobre como prender para “ressocializar” um indivíduo é no mínimo contraditório (até porque já falei um pouco da minha opinião sobre isso em outro texto), mas tudo isso nos ajuda a enxergar que o problema não vem do futebol, mas de uma cultura de violência. Como bem fala um trecho de Galeano (2012, p. 129-130),

O futebol, metáfora da guerra, pode transformar-se às vezes em guerra de verdade. E então a morte súbita deixa de ser somente o nome de uma dramática maneira de desempatar partidas. Em nosso tempo, o fanatismo do futebol invadiu o lugar que antes estava reservado somente ao fervor religioso, ao ardor patriótico e à paixão política. Como acontece com a religião, com a pátria e com a política, muitos horrores são cometidos em nome do futebol, e muitas tensões explodem por seu intermédio.

Há quem creia que os homens possuídos pelo demônio da bola soltam espuma entre os dentes, e deve-se reconhecer que desta forma retratam bastante bem vários torcedores enlouquecidos; mas até os críticos mais indignados teriam que admitir que, na maioria dos casos, a violência que desemboca no futebol não vem do futebol, assim como as lágrimas não vêm do lenço.

E é isso, querer fazer crer que a violência do futebol nasce com o futebol é como crer que as lágrimas vêm do lenço. É tornar o problema e as “soluções” superficiais e paliativas, sem levar em conta o contexto. Não se trata de contextualizar para legitimar, mas para entender e agir melhor.

Outros fatores importantes a serem levados em conta é a falha no desenvolvimento desses seres humanos em seus grupos sociais nucleares (como escola e família) que torna cada vez mais comum o ingresso desses torcedores às torcidas organizadas como forma de pertencimento e identidade. Outro fator relevante diz respeito à faixa etária dos torcedores “violentos”. No caso do Brasil, são, em sua maioria, jovens de 15 a 24 anos – no entanto, isso não muda muito em outros países com grande índice de violência no futebol, como Itália, Espanha e Argentina (Murad, 2012, p. 158). Não podemos fechar os olhos para a situação dos jovens no Brasil. Nossa experiência em políticas públicas voltadas especificamente pra juventude é muito recente e nosso tratamento e reconhecimento dessa parcela da sociedade ainda é muito reticente.

Como o Ministério dos Esportes age sobre o futebol no Brasil.

Como o Ministério dos Esportes age sobre o futebol no Brasil.

Futebol e Mídia

A espetacularização do futebol é parte do processo de elitização do esporte que tem afastado a camada mais popular da sociedade dos estádios e da participação direta nessa “paixão nacional”. Mas o que quero tratar nesse ponto é a repercussão sensacionalista que diversos veículos de comunicação dispensam à violência no futebol. Não preciso nem entrar no mérito das grandes somas de dinheiro que emissoras negociam para transmitir partidas ou do autoritarismo da Fifa[L4]  no cumprimento e execução dos planos para a Copa do Mundo no Brasil este ano. Mas é só perceber o destaque dado ao jogo (e às imagens de violência) entre Atlético-PR e Vasco e a falta de destaque às manifestações contrárias à Copa e da abertura da Copa das Confederações (exceto as vaias à presidenta Dilma, que foram bem noticiadas, rs), quando manifestantes foram duramente reprimidos no Distrito Federal  e no Rio de Janeiro.

Em espaços tão importantes de disputa de valores e com função social de educar e informar, essa edições se mostram tendenciosas, sensacionalistas e um desserviço para a população, que muitas vezes tem nos veículos de comunicação mais populares, como rádio e TV, a principal forma de se informar. Não apenas quando para noticiar alguma coisa, mas muitas vezes a cobertura é totalmente parcial, cheia de piadinhas e provocações muitas vezes (talvez na maior parte) levantada pela própria mídia. Parece que a imprensa esportiva brasileira não se leva a sério, não exige profissionalismo ou ética. Aumenta a sensação de insegurança nos estádios ao mesmo tempo em que tenta nos vender a segurança da transmissão dos jogos de futebol no conforto das nossas casas em TV de plasma 42’’. Não bastasse isso, ainda tivermos que assistir à continuação da transmissão do jogo após mostrar torcedores se agredindo com barras e pisando na cabeça uns dos outros como se nada tivesse acontecido.

Sem contar a promoção da idolatria e exposição de jogadores, que culminam em salários cada vez mais altos dos mesmos e os alçam ao posto de astros, os quais muitas vezes (inclusive por serem jovens em sua grande parte) mal conseguem lidar com a fama, se envolvem em escândalos e têm suas vidas expostas de maneira cruel e desonesta.

Olê Marx! Olê Marx!

Olê Marx! Olê Marx!

Conclusão e soluções

Meu principal ponto foi mostrar que a violência no futebol deve ser contextualizada, e não criminalizada. Agora fica um outro desafio que é pensar soluções para essa violência. Creio que o primeiro ponto é, de fato, a educação. Mas não podemos nos ater a educar torcedores para um esporte em que as partidas se decidem no STJD. Em nota publicada após a briga de torcedores na última rodada do Brasileiro de 2013, o Ministério do Esporte somente lavou as mãos, mostrando todo o caráter punitivista e “legalista da ilegalidade” do Estado ao dizer que condena a ação e prevê o punimento dos torcedores envolvidos. Além disso, quando se reuniu pra discutir a violência nos estádios, a medida apresentada foi a criação de um “delegacia especial” para tratar de atos de agressão no esporte. Não que eu espere muita coisa do Aldo Rebelo, mas achar que punição resolve alguma coisa chega a ser patético. Claro que, como disse acima, torcidas organizadas e torcedores em geral devem se submeter ao Estatuto do Torcedor (o STJD também, viu?), por se tratar de uma lei federal e de manter a sociedade sobre o rigor da lei e da ordem (detesto essa expressão, me soa meio fascista, mas não achei outro termo). Mas, pra além disso, é preciso estratégias a médio e longo prazo, como o fortalecimento do Estado no que tange às suas responsabilidades sociais (na qual se inclui a Educação pública, gratuita e de qualidade) e outras soluções mais criativas, como melhorar o acesso da população jovem ao esporte, por meio da construção de mais campinhos de futebol amador (ou basquete, vôlei) e manutenção dos mesmos, incentivo à Educação Física nas escolas (até meus últimos anos no Ensino Médio, Educação Física significou bola pros meninos e queimada pras meninas). Não é nenhum mistério que o esporte tem ajudado na socialização de crianças, jovens e adultos e que a prática e o fair play tem ressignificado o futebol e levado a resultados pedagógicos e esportivos muito relevantes. Por isso a minha defesa é a de que antes de tudo, para além da violência simbólica, o futebol é poesia escrita com os pés. Só não se pode querer jogar sozinho, ser o dono da bola. Para que seja uma festa bonita e plural é necessário os versos de mais e mais autores.

 

Referências

MURAD, Mauricio. Para entender a violência no Futebol. Saraivaː São Paulo, 2012.

GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra; tradução de Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito. Porto Alegreː L&PM, 2012.

 

Luara Ramos é torcedora do GALO, membro da GALO Marx (a Torcida Atleticana Socialista), já discutiu muito por causa do futebol, mas nunca machucou nem uma raposa ou um urubu.

 

 

 

 
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2 thoughts on “Violento é o Estado!

  1. Luara…

    sugiro que leia – DAOLIO, Jocimar. De Galos, Homens e… Futebol. In: DAOLIO, Jocimar. Cultura:
    Educação Física e Futebol. 3. ed. rev. Campinas: Editora UNICAMP, 2006, p. 123-129. -, texto que discorre sobre a questão da violência no futebol sob uma perspectiva antropológica comparada à identidade nacional brasileira, já que o futebol é um artefato cultural intrínseco à sociedade brasileira.

    Concordo em partes no seu texto. A violência acaba por vir pela dinâmica do que ocorre dentro das quatro linhas pois, x brasileirx se identifica com algumas situações que ocorrem no campo. A violência está associada e a culpa não é só do Estado. Vejo a questão mais complexa do que com relação a como é o sistema educacional e carcerário no País. Tanto porque as manifestações [culturais] de violência praticada por torcedores independe da classe social a que estão alocadxs, assim como qualquer pessoal de qualquer classe social ama ou é simpático a algum time.

    Leia também: MATTA, Roberto da. O Futebol como Ópio do Povo. In: MATTA, Roberto da (Org.). et al.
    Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982, p.
    21-23.

    Abraços,

    Pollyanna.

    • Obrigada pelas dicas, Pollyana.
      Realmente, não são praticadas apenas por pessoas pertencentes a uma classe social e essa parte eu explorei bem menos, apesar de ter citado o a falta de identificação na formação nuclear.
      Mas tô procurando mais coisa a respeito sim.
      É uma situação que já tá mais que escancarada e precisamos de todo o cuidado e sensibilidade (também de conhecimento) pra saber lidar da melhor forma possível.
      Abração!

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