Como se torna Mulher? 106 anos de Simone de Beauvoir

O Google homenageou em seu doodle a escritora francesa Simone de Beauvoir, que hoje completaria 106 anos. Poderia citar sua biografia ou até sua bibliografia, mas creio que não é o caso. Quero me ater aqui à contribuição de Beauvoir para o feminismo, sobretudo o ocidental. Em uma de suas obras mais conhecidas, O Segundo Sexo, ela destrincha a condição feminina em diversos sentidos, como o sexual, o social, o político e o psicológico. Em dois volumes (Fatos e Mitos e A Experiência Vivida), a obra de Simone de Beauvoir é considerada vanguardista para a maioria das feministas, tanto por estar à frente de seu tempo como pelo que significou na época de seu lançamento. Mesmo sendo escrito no fim da década de 1940, O Segundo Sexo só chegou com força ao Brasil nos anos 1960. Para as brasileiras que ainda enfrentavam um regime de exceção com o Golpe de 1964 e uma década cheia de incertezas, esta era uma leitura que trazia além do esclarecimento, o desejo da liberdade e luta por igualdade, características do feminismo em um momento em que a palavra ainda era pouco usada.

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Mas apesar de todas as homenagens em forma de frases atribuídas a ela, uma delas me chama especial atenção.

Não se nasce mulher. Torna-se.

Sempre quis escrever sobre como me incomodava ver essa frase citada em contextos tão equivocados. Muitas pessoas acham que se trata de algo glorioso, o “tornar-se mulher”, quase um rito de passagem. Sempre que eu leio essa citação nesse contexto, acho que as pessoas pensam que Beauvoir tava falando da primeira menstruação das meninas.

Mas afinal, o que nos torna mulheres? Em um contexto geral, a autora faz um apanhado do processo social que leva a mulher a ser o “outro sexo”, ou seja, não se trata de algo natural (como a menstruação) ou o fato de possuirmos um útero que nos faz mulher. Não somos uma encubadora, apesar de que ser mãe, reproduzir, procriar, ainda é uma função socialmente atribuída – e por que não dizer, imposta – às mulheres. Mas o que acredito, pela leitura e estudo que fiz de Beauvoir é que a autora tratava da ideia social do que é ser uma mulher. A oposição ao homem, uma parte considerada incompleta (não por ela, mas pela sociedade) que dependia do homem para ser humano. Agora acho que já fica mais claro que o processo é menos glorioso e mais doloroso. Com as concepções sociais (isto é, construídas por pessoas e não pela natureza) de feminino e masculino, vem a divisão social e sexual do trabalho e a ideia de fragilidade, de incapacidade para algumas atividades e todas as agruras que décadas depois do Segundo Sexo ainda nos encarceram em uma posição subalterna em relação aos homens.

Por outro lado, Beauvoir questiona: que é uma mulher? (p.07, 1980). A essa pergunta, um tanto complexa, não sei se poderia responder. Mas ainda hoje o feminismo possui diversos desafios e um deles, pertinente por ser tão atual, é o da transfobia. Geralmente não me arrisco muito a escrever sobre transsexualidade, porque não conheço muito e tenho medo de falar besteira. Mas se tem algo que sei sobre ser mulher e transsexual é que isso tem a ver em como a pessoa se enxerga e sente e não com seus órgãos genitais. Então a minha primeira regra como mulher, feminista e cisgênero é respeitar mulheres transsexuais da forma como elas querem ser respeitadas, isto é, como mulheres.

Apoie suas irmãs, não apenas suas irmãs-cis.

Apoie suas irmãos, não apenas suas irmãs-cis. (tradução nossa, via Feminismo sem Demagogia)

Chamo atenção para o caso da transsexualidade porque é um tema que tem gerado muito debate na sociedade e entre as feministas. No caso da sociedade, mais pelo preconceito e desinformação. Das feministas pelo fato de se tratar de algo “novo”, não porque passou a acontecer recentemente, mas porque se tornou um debate provocado muito recentemente. Fóruns, páginas, encontros, poucos ainda são os espaços destinados às mulheres transsexuais. Por isso é preciso cada vez mais provocar e trazer esse tema para discussão. E mais do que tudo, entender e apoiar as decisões das pessoas para que sejam felizes como desejarem.

Simplismente AMO essa tirinha do Laerte <3

Simplismente AMO essa tirinha do Laerte ❤

O cartunista Laerte (autor da tirinha acima) e adepto do cross-dressing tem se destacado bastante pela militância transgênero (“que engloba grupos diversificados de pessoas que têm em comum a não identificação com comportamentos e/ou papéis esperados do gênero determinado no seu nascimento”*). Além de seu trabalho significativo, ele têm dado entrevistas em que esclarece esse “novo mundo”. Em uma entrevista para o Portal Vírgula do UOL Laerte diz,

A minha história sexual tem as duas coisas. O gênero e a sexualidade são áreas diferentes. Nesse mundo de crossdressers e travestis, existem heterossexuais também. A vontade de cruzar a fronteira do gênero nem sempre é a vontade de ter também um contato homossexual. Existem homossexuais que não são transgêneros e existem transgêneros que são heterossexuais.

É bem comum as pessoas confundirem sexo, sexualidade, orientação sexual e gênero. Mas o que deve ficar claro é que toda e qualquer opção deve ser respeitada. Precisamos lembrar, em uma data significativa como o aniversário de uma grande feminista como foi Simone de Beauvoir que feminismo tem a ver com libertação e autonomia, por isso ao nos considerarmos mulheres não podemos esquecer todas as formas de ser mulher: branca, negra, indígena, cis, trans…e não podemos desprezar nenhuma delas, afinal somos todas parte de uma luta por igualdade e dignidade.

E como também disse Beauvoir: querer-se livre é também querer livre os outros. E as outras. (acréscimo nosso).

Referências: BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo; tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: nova Fronteira, 1980.

*Fonte: Wikipédia

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