Dois lados da mesma piada

O humor é sem dúvidas um dos melhores aliados da socialização. E um dos melhores recursos também. Particularmente adoro o humor nas mais diferentes áreas da minha vida. Pessoal e até profissional. Inclusive nos meus trabalhos e portfólio. A profissão na qual me formei tem um estigma de “engraçadões”. Publicitários têm um sério problema (destaque para a ironia) em se achar na obrigação de serem engraçados. Então criam logo suas contas no Twitter e se arvoram no direito de fazer piadas sobre tudo e todos e a se assumir paladinos da defesa do “Humor Livre”.

-Mas qual o limite do humor pra você?

-O humor não pode ter limites!

-Isso é censura!

-O objetivo do humor é apenas o riso!

Muito engraçado, caras! #Sqn

Muito engraçado, caras! #Sqn

Não sei se porque as agências andam exigindo jornada tripla, os clientes pedindo pra aumentar o tamanho da marca ou os freelas pagando atrasado, mas os publicitários parecem que alimentam a esperança de serem os novos “talentos” do stand up brasileiro. Ou preencherem a cota de publicitário babaca do BBB do ano. Acontece que, e para isso é que escrevo esse texto e não para afrontar meus colegas de categoria, sinto dizer a vocês, mas a zuera tem limites =(

Sabe o que não tem limites na vida (como bem disse a Samantha Pistor, beijo linda!)? As tretas.

As pessoas se dividem emː oprimidas e as que internalizam a opressão, reclamam que o politicamente correto tá tornando tudo mais chato. Eu nunca vi nada sob o título de “politicamente incorreto” que não fosse completamente preconceituoso, machista, racista e valesse desse título só pra dizer “ó, não tenho compromisso com nada a não ser com meu próprio umbigo”. É pura desonestidade intelectual, preguiça de pensar nos outros. E nós vivemos em sociedade. Ou seja: pessoa vive em sociedade e quer pensar só nela e nos próprios direitos. É mesquinho! Daí eu digo a vocês: vejam o politicamente correto como uma forma de apurarmos o nosso bom senso e o nosso humor para fazermos piadas com os opressores e não com os oprimidos.

Um documentário muito legal (abaixo) que aborda o universo do stand up brasileiro é O Riso dos Outros. Eu não quero deixar spoilers, mas com ele aprendi algumas coisas importantes que vale a pena dizerː

  1. É importante saber de que lado da piada você está.
  2. Tem lugares que não cabe uma piada.

Não quero me estender muito então vou passar logo pro real motivo que me levou a escrever esse texto. A esta hora muitos de vocês já devem ter ouvido (e eu espero que sim porque é realmente genial) a marchinha O Baile do Pó Royal, uma referência clara ao episódio do helicóptero da empresa dos deputados Gustavo Perrella (SDD-MG) e Zezé Perrella (PDT-MG), apreendido com quase meia tonelada de pasta de cocaína no ES no final de 2013. A marchinha, além da referência aos políticos mineiros, também explicitaram a aliança conhecida por muitos, mas abafada pela mídia, destes com o também senador e presidenciável Aécio Neves.

Sutil e na forma de cacofonias, que são combinações do final de palavras com o início das seguintes, a marchinha forma tanto o sobrenome dos Perrella, quando o diminutivo do nome de Aécio Neves (“Aecim”). Além disso, “brinca” com a o rumo que o caso tomou, não dando em nada. No caso da justiça, foi declarado que “não há envolvimento da família do senador com a carga apreendida”. Apesar do helicóptero ser da empresa da família, o piloto ser indicado pelo Deputado sócio e filho do senador Perrella na ALES-MG, estar a serviço dele, ter telefonado pra ele antes, não ter sequer dinheiro pra pagar uma carga deste preço, mas enfim…

Não é de hoje que tenho visto certas “piadas” de tom duvidoso sobre a vida pessoal do senador Aécio Neves. Não é porque é um adversário político que eu acho que vale tudo. Sinceramente não acho. Desde que eu ainda morava em Minas ouço esse tipo de coisa, calúnia e me posiciono sempre de forma contrária. Me recuso a usar esse tipo de argumento em uma disputa política. A mim não interessa que Aécio seja cheirador, beberrão, que seja mulherengo, o que for, nesse sentido. E maisː sempre chamo atenção de companheiros que se valem desses argumentos, compartilham essas coisas para discutir política. Já denunciei a página Aécio Cheirador no Facebook e explico: a esquerda nunca precisou desse debate frouxo e raso. Fazemos um debate muito bacana sobre liberdade individual e antiproibicionista, pela legalização das drogas e de forma alguma devemos criminalizar os usuários. Por isso eu me recuso a fazer esse tipo de “piada”. E aí estão os “dois lados da mesma piada” do título: qual é afinal a diferença da marchinha do Baile do Pó Royal pro Aécio Cheirador? Uma critica o traficante de terno e a outra criminaliza o usuário.

Criticar o traficante de terno é trazer a tona que o tráfico e o proibicionismo são hoje alguns dos maiores problemas da guerra às drogas e têm levado milhares de pessoas (em sua maioria negros e pobres) à morte.  Tornar o traficante de terno uma piada é fazer dele alvo pras pessoas saberem que traficante não é o que mora no morro, não é favelado, “aviãozinho”. Com o perdão do trocadilho, é mostrar que o traficante anda é de helicóptero.

Criminalizar o usuário é tornar a sua conduta uma mancha e numa sociedade hipócrita como a nossa é também motivo de linchamento, de execração pública. No mínimo cruel.

É preciso bom senso pra separar as piadas, apurar o humor e afinar a conduta. Não deixemos (novamente com o perdão do trocadilho rs) que nos tomem como farinha do mesmo saco. Sair do senso comum é um desafio, assim como a gargalhada pode ser um ato de resistência.

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