Black Blocs: fascistas ou a esquerda tradicional que amarelou?

Por Camila Moreno e Luara Ramos*

As manifestações de junho de 2013 ainda não tiveram respostas efetivamente institucionais no que tange a política brasileira. Salvo a revogação do aumento da passagem em São Paulo e o congelamento das tarifas do transporte (que deveria ser) público em algumas cidades brasileiras, muito ainda precisa ser dito, pensado, analisado e não são poucos os “especialistas” que vestidos da costumeira arrogância da Academia e/ou da Grande Mídia tentam em vão explicar tudo o que está acontecendo desde então. Este texto, no entanto, não tem a pretensão de apontar verdades definitivas ou mesmo soluções. Esta é só a opinião sobre alguns fatos que mais recentemente movimentaram o Brasil e especialmente sobre a contradição quem tomando a esquerda no que se refere à criminalização da tática Black Bloc e consequentemente dos movimentos sociais.

A mesma mídia que tanto louvou as manifestações no início, agora que acabar com elas. Para isso, nada melhor que um cadáver. E não bastou o do Amarildo, não bastou o manifestante atropelado, não bastaram as balas perdidas da Polícia. O cadáver deveria ser de um “deles”. E deveria vir de um manifestante Black Bloc. Que a mídia é sedenta por condenações (linchamentos) públicas todo mundo já sabia, mas que parte da esquerda absorveria esse discurso sem qualquer análise mais complexa é de doer na alma.

Não pensamos que viveríamos pra ver gente que se diz de esquerda, batendo no peito pra repetir e forma uníssona com a mídia que os Black Blocs são assassinos, fascistas e que por isso, devem ser extirpados, marginalizados, criminalizados.

“Ah, mas eu sou contra protesto com violência”

“Pra quê escondem os rostos?”

“Jogaram bomba com intenção de matar alguém”

“Esse grupo é fascista”

Repete fervorosamente parte da esquerda. As justificativas injustificáveis se somam ao desconhecimento historiográfico, afinal foi assim quando sequestraram o embaixador, foi assim na Guerrilha do Araguaia, é assim quando o MST ocupa uma terra, um ministério. Eles escondem os rostos (e não são todos) porque a polícia joga bomba, que arde o olho, porque há fumaça e perseguição. Além disso, não foram os manifestantes de junho que inventaram bombas em protestos contra a repressão da polícia. Por fim, a parte do fascismo é mero oportunismo ou falsa simetria mesmo, porque ou você não conhece nada do fascismo, ou você chama tudo o que é contra o que você acredita de fascista.

É claro que muita gente não vai aceitar a comparação da atuação dos Black Blocs com as de um “Regime de Exceção”. Mas vamos lá, quem diz que naquele tempo não se “escondia o rosto”, provavelmente se esquece que muitos companheiros usavam outros métodos, inclusive mudar de aparência e nome. E se entre as características mais fortes de um regime de exceção é justamente a arbitrariedade, como chamar a uma polícia que cotidianamente comete abusos e não é investigada, chamar de fascista quem se volta contra o que têm violentado um povo (seja a polícia, o Estado ou a Grande Mídia) parece mais fascista que a tática dos manifestantes, não? Claro que não estamos justificando morte alguma, estamos apenas pontuando que a triste morte do cinegrafista da Band não foi a única durante as manifestações e ao pontuar não pretendemos desprezar a dor dos familiares de Santigo Andrade, mas relembrar as mortes causadas em outras manifestações (a maioria delas pela polícia) e evitar que morram novamente. Do esquecimento, da edição midiática pela criminalização dos movimentos sociais, da falta de análise crítica que se apoderou de certa parcela da “esquerda” para quem a mídia só é fascista e sensacionalista se disser algo contra o que acreditam.

Outra “justificativa” que arde os olhos é a de que seriam todos “playboys” e por isso, o movimento deles não é “de luta”. Quer dizer, que tem que tá no CadÚnico pra ser reconhecido como manifestante legítimo agora? Pensamos que a Revolução Russa já havia superado a questão entre “origem de classe” e “opção de classe”. Parece que não.

Por que ao invés de criminalizar os Black Blocs e tentar tratá-los de forma maniqueísta (“ame-o ou deixe-o”) a esquerda tradicional não se questiona de que forma eles cresceram tanto, dão conta de organizar um protesto tão rápido? Por que será que enquanto a esquerda tradicional se afasta dos movimentos sociais, da juventude (juventude de gabinete não vale), esses novos movimentos ganham militantes e simpatizantes? Por que é tão difícil admitir a crise institucional pela qual passa nosso país e dar passos mais largos para uma Reforma Política e na regulamentação dos meios de comunicação que democratize de verdade a nossa democracia?

Suponhamos então, que esse pensamento seja complexo demais. Sério que ninguém achou estranho todo o contexto que envolvem as acusações? Ninguém acha estranho que os manifestantes que se entregaram sejam defendidos por um advogado (de miliciano) caríssimo, que foi até eles oferecer ajuda? Nenhum estranhamento sobre o advogado sair acusando que a prima do irmão do cachorro vai na mesma Petshop da mulher que tem ligação com o Freixo? Ninguém acha o cúmulo do absurdo o cara das imagens ser branco e o cara que se entregou ser negro?

Via Blog do Rovai (revistaforum.com.br)

Via Blog do Rovai (revistaforum.com.br)

Por que será que a mídia não ficou tão triste, não cobriu a missa, não fez editorial  e nem sequer noticiou amplamente a morte de outro cinegrafista da mesma emissora, também trabalhando como o Santiago, morto por uma bala. Ah é, essa morte foi causada pela polícia e a polícia, que mata todo dia, não merece linchamento público, não é?

São informações totalmente desencontradas que em nada contribuem com o debate político acerca do rumo das manifestações. Enquanto uns se utilizam da ~luta de classes~ pra tornar o debate mais superficial possível, outros levantam que existem manifestantes que recebem dinheiro.

Pera, xô colocar aqui no meu currículo: Manifestante Profissional.

Pera, xô colocar aqui no meu currículo: Manifestante Profissional.

Mas até aí, tem sindicalista e dirigente partidário recebendo pra ir a atos e realizar eleições internas, né?

O pedido de “endurecimento” ou até mesmo a criação de uma lei para coibir novos atos de “violência” também não fecham a conta. Onde em um país com uma das maiores populações carcerárias, prender e criminalizar foi a solução? Cabe também fazer um recorte de gênero, afinal, a maioria dos encarcerados em penitenciárias brasileiras são negros e pobres. Como também são negros Caio Silva, acusado de ter atirado o tal rojão contra o cinegrafista Santigo Andrade e Rafael Braga Vieira, preso em junho do ano passado por portar material de limpeza e condenado a 5 anos de prisão em regime fechado.

Sobre a nossa opinião sobre Black Blocs, acreditamos sim que a tática tem afastado o povo das manifestações e que falta mais autocrítica aos que pretendem executá-la. Mas daí a achar que manifestantes que se utilizam da tática Black Bloc são fascistas, golpistas, tucanos disfarçados (HAHAHAHAHAH), coxinhas é muita desonestidade ou preguiça de fazer um debate profundo sobre a questão. Mas da mesma forma, os jovens brasileiros, que se manifestam ou não, aderindo a tática Black Bloc ou não, acham que violência maior é se aliar ao Jader Barbalho no Pará ou (tentar em vão) defender a Roseana Sarney no Maranhão. Ou a Kátia Abreu. Ou qualquer um sob a justificativa da “governabilidade”. E é por isso que nossa democracia anda desbotada. Porque quem deveria lutar ao lado de bandeiras populares e históricas, deixou o vermelho de lado e anda amarelando.

*Camila Moreno e Luara Ramos são petistas, querem colorir a esquerda de todas as cores e acham que a esquerda tradicional não tem que ser tão tradicional assim

Link pra matéria do Blog do Rovai sobre as investigações da morte do cinegrafista da Band por Rojão aqui

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2 thoughts on “Black Blocs: fascistas ou a esquerda tradicional que amarelou?

  1. Meu argumento é simples:
    (entrevista com Black Bloc)
    “A justiça transformou-se, há muito tempo, numa justiça política, num meio de perpetuar o ‘status quo’ degenerado, de proteger a classe dominante sem se preocupar com o povo. Olhe para as sentenças brandas que eles deram a alguns dos piores vigaristas. O espírito de dissolução também veio de muitos outros lugares. E algum dia o Estado se incomodou com os pobres? Ele se gaba de todas as maravilhosas ações sociais que existem para garantir que ninguém passasse fome. Mas, será que realmente basta dar aos pobres dinheiro suficiente para eles se manterem vivos, e depois esquecê-los? O senhor há de admitir que estamos fazendo tudo muito melhor. Nós nos sentamos com os trabalhadores (…) marchamos com eles lado a lado nas passeatas e temos o sentimento de que eles nos recebem bem. (…) Nos últimos quatorze anos, todo mundo trabalhou para rechear o próprio bolso. E os deputados (…) só buscavam conseguir o máximo de vantagens materiais para seus partidos. (…) Enquanto isso, o bem geral era esquecido.
    (…)
    O senhor tem que admitir que não se conseguiu nada através do que o senhor chama de ‘bons meios’. O movimento da Juventude não organizava nenhuma passeata de expressão, não quebrava vidraças e não surravam seus oponentes. Apenas tentava, através do exemplo pessoal, estabelecer novos e melhores padrões. O que conseguiram?”

    Ops, poderia ser um Black Bloc.. mas é só um militante da Juventude Hitlerista (Nazi Bloc ??)

    Obs: o texto foi retirado do livro do físico Werner Heisenberg, “A parte e o todo”. Nesse caso ele relata uma conversa que teve com um jovem estudante que era membro da juventude hitlerista.

    A violência é atrativa e sedutora, pois de alguma forma empodera o indivíduo. Não sou contra reações violentas à repressão policial, eu mesmo já participei de muitas, taquei pedras enfrentei e fui pra cima mesmo.. porém NÃO É ESTE O CASO DOS BLACK BLOC’s, a proposição principal não é defender os manifestantes.. essa é a desculpa esfarrapada. Quando não há repressão violenta da polícia ELES A PROVOCAM (como alguém pode dizer querer defender uma pessoa e ao mesmo tempo provoca que ela leve uma surra??), tacam pedra, garrafas, pau, ELES QUEREM O CONFRONTO e foda-se se isso for ruim para o movimento, foda-se se tiver criança e idosos no meio.. foda-se a pauta, eles querem é brincar de confronto, querem corredor de baile, querem brincar de lado A e lado B com os gambé.

    Infelizmente, é uma regressão, pois no início do século XX várias organizações políticas tinham grupos para ação direta violenta, desde a Frente Negra Brasileira, até os comunistas, anarquistas, integralistas, hitleristas… Assim, do ponto de vista político prático, hoje, a ação de BBs e seus congêneres, além de serem uma forma de regressão fantasiada de “novo”, estão perigosamente insuflando a legitimidade de uma agenda reacionária, que quer “colocar ordem” nesta “baderna”.. e por tabela passar a rasteira nesta reforma gradual (e lenta pá caraio) do PT e voltar à agenda neoliberal.
    E pra quem acha que por numa revolução haver ações violentas, as ações violentas poderiam provocar uma revolução.. só digo o seguinte: ..viagem, sem teoria revolucionária não há revolução.

    • Jonathas, também temos críticas quanto ao método, mas não acho que dê para dizer que são simplesmente ”baderneiros”, até porque não se trata apenas de um grupo. Acredito eu que é um pouco mais complexa a manifestação dos Black Blocs por aqui. Inclusive tem muita gente politizada, tem até partidários entre quem executa essa tática.
      Nossa principal colocação no texto é que julgamos um erro político criminalizar manifestantes, defender o endurecimento contra alguns deles, fazer coro ao discurso reacionário da Grande Mídia e sequer procurar entender ou admitir a crise institucional pelo qual passa nosso país. Por que conseguiram tanto apoio de uma juventude que desacredita na política? Por que parte da esquerda tradicional prefere insistir em “ganhar, mas não levar”? A frustração do ensaio de Reforma Política apresentado pelo Planalto mostra bem que não se pode confiar mesmo nas instituições. Daí vamos quebrar tudo? É uma opção. A qual concordamos que falta autocrítica de quem se dispõe a fazê-lo, mas temos muito mais medo da polícia e da Fifa, por exemplo, do que de manifestantes.

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