Torcidas, torcidas, preconceitos à parte

Antes de começar esse texto, algumas perguntasː

Você julga pessoas por amarem alguém do mesmo sexo?

Você tem amigos homossexuais e não é o fim do mundo?

Você acha mesmo que amar alguém do mesmo sexo influencia no bom futebol que a pessoa em questão pode apresentar?

Eu posso apostar que você conhece torcedores homossexuais do seu time e isso é ok.

Na última quarta-feira, na estreia do Cruzeiro fora de casa pela primeira rodada da fase de grupos da Libertadores, milhares de torcedores brasileiros se revoltaram contra o manifestação racista da torcida do Real Garcilaso do Peru. Durante o segundo tempo sempre que o jogador cruzeirense Tinga pegava na bola, parte dos torcedores peruanos imitavam macacos. A atitude, claramente considerada racista, foi alvo de repúdio de grande parte dos brasileiros, que manifestaram apoio ao Tinga nas redes sociais, pelo Twitter com a tag #FechadoComOTinga (em referência ao bordão usado durante da campanha do time celeste no ano passado – #FechadoComOCruzeiro).

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Alguns torcedores e comentaristas chegaram a levantar a questão das ofensas machistas e homofóbicas, mas parece que não surtiu muito efeito. No primeiro clássico mineiro deste ano, no Independência com torcida única, a torcida do GALO não hesitou em gritar “Dagoberto Viado” quando o atacante cruzeirense pegava na bola ou reclamava alguma falta. Te dou coerência?

Foi lembrado que a torcida do Cruzeiro durante um jogo contra o Vôlei Futuro tentava ofender o jogador Michel chamando-o de “viado”. Que torcidas de todo o Brasil (incluindo a do GALO e do Cruzeiro) hostilizaram o jogador Richarlyson com adjetivos homofóbicos. Que “maria”, “franga”, “crugayro”, “bichas”, “Gaylo” entre outros por todo o Brasil afora mostram como esse tipo de preconceito ainda precisa ser desconstruído. Em toda a sociedade e consequentemente no futebol.

Curiosamente nessa semana que passou, no mesmo dia do jogo entre Cruzeiro e Real Garcilaso travei um debate num grupo de torcedores do GALO que me rendeu a remoção do grupo. Após questionar as ofensas homofóbicas feitas à nossa torcida rival e ouvir que isso era “tradição”, tive que assistir o pessoal do mesmo grupo repudiando ofensas racistas contra um jogador do mesmo clube rival.

Bom, vamos falar um pouco sobre usar “tradição” para legitimar o preconceito. A escravidão foi abolida oficialmente no Brasil em 1888. Vivemos séculos em um sistema no qual instituições como o Estado e a Igreja justificavam o tráfico e a escravidão de negros (também de índios) e até o racismo se tornar alvo de repúdio como atualmente, muito tempo se passou. Infelizmente não foi o suficiente pra acabar com o racismo – aqui ou no mundo -, sobretudo porque temos no Brasil, diferente de em países onde houve segregação racial de fato, um “fenômeno”ː o racismo velado. É quando as pessoas só são racistas quando ninguém, tá olhando, sabe? Porque afinal, é “feio” ser racista.

Mas por que mesmo não sendo especialista em história eu recorri a ela pra falar sobre a incoerência das ofensas no futebol? Bom, Saffioti em seu livro “O Poder do Macho” afirma que o sistema de dominação é construído por uma “tríade”ː capitalismo, racismo e patriarcado. Logo, fazer coro a qualquer um desses fatores não é “tradição”, tampouco “opinião”. É opressão.

Dizer que “é brincadeira”, “piada” também só mostra que tem uma galera aí que não lida muito com análise do discurso, né?

Por isso da mesma forma que hoje repudiamos o racismo e a torcida do GALO se orgulha bastante por sempre ter negros nos seus times e combater o racismo no futebol desde sua criação, imaginem o quanto pareceremos ridículos quando finalmente a homofobia e o machismo, que constituem o patriarcado, forem derrotadas? Ou melhorː quando o amor vencer?

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Em tempoː *combater racismo com xenofobia (como fez o diretor cruzeirense Alexandre Mattos chamando o Peru de “lugar pequeno, que não devia nem existir futebol”) nunca será a saída para um futebol sem preconceitos e mais democrático. Parte da torcida de um clube não representa todo o povo peruano.

*O que se critica aqui é a tentativa de ofensa, porque afinal ser homossexual não é ofensa alguma. Mas tentar ofender alguém pela orientação sexual, etnia ou crença ainda é uma burrice injustificável.

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