Muito além dos números

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) acaba de dizer que errou na pesquisa sobre tolerância à violência de gênero e que o número de pessoas que concordam que mulheres devem ser atacadas é “menor” do que o divulgado. Já estou me preparando pro arsenal de chorume machista depois dessa matéria. Vão chamar feministas de paranoicas, tentar deslegitimar a luta das mulheres e tal.

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

O que os homens (principalmente) não entenderam foi que nossa luta não é contra eles, mas contra um sistema que oprime INCLUSIVE os homens. O que os homens não entenderam quando afirmam ”ah, mas as próprias mulheres são machistas” é que isso não é justificativa pra se eximir da responsabilidade de construir uma sociedade mais justa no que tange às relações de gênero. E que mulheres apenas reproduzem conceitos machistas que internalizaram ao longo da efetivação do sistema patriarcal. Mulheres não se beneficiam disso. Homens, ainda que também internalizem isso, são sim beneficiados e se querem de fato ser aliados nessa luta precisam rever seus privilégios.

Agora sobre a pesquisa, ainda que tenha ocorrido erro, não são “SÓ 26%”. Os relatórios do IPEA são muito interessantes e vale a pena ler*. Um deles é uma nota técnica sobre estupros no Brasil, com números de casos que foram levados até o final (sem contar os que ocorrem, mas as mulheres por medo ou vergonha não denunciam). Tivemos no Brasil só em 2013 mais estupros registrados que homicídios dolosos (quando há intenção de matar).

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

A pesquisa sobre tolerância à violência de gênero, que deu início à campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada é também uma pesquisa qualitativa. Ou seja, leva em conta a análise social dos dados. A pesquisa traz dados contrastantes como os que revelam que a maioria das pessoas concordam que homem que agride a companheira deve ser preso, mas que mais da metade (58% pra ser mais exata) das pessoas ainda acham que se a mulher soubesse se comportar evitaria estupros. Nem preciso dizer que “saber se comportar”= seguir um modelo patriarcal e heteronormativo. Ou seja, ainda é legitimação da violência sexual. Se fossem 10%, 26% ou 65% o choque seria o mesmo, mas particularmente, pouco me importam os números. Quando se tem o registro de mais estupros que homicídios, quando eu ainda ando na rua com medo de se estuprada, quando eu vi a reação de diversas pessoas (sobretudo de homens nas redes sociais como o Facebook) usando toda a sorte de critério canalha pra deslegitimar os dados, a pesquisa faz muito sentido. A chamada ”cultura de estupro” é realidade pra mim e pra maioria das mulheres que eu conheço. Não “só” pelo medo que nos tolhe o direito à cidadania plena, mas pela angústia de quem já passou por esse tipo de violência e fica marcada para o resto da vida.

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

É preciso começar, assim como se admite no racismo a existência de uma forma velada de preconceito, admitir que os números de uma pesquisa ainda são pouco pra medir a dor das mulheres. Ora, se são jovens negros da periferia os que mais morrem nesse país, também não é difícil perceber que nas páginas dos jornais diários sangram mulheres vítimas de todo o tipo mais perverso de abuso e violência. E nem precisa abrir um jornal. Acho difícil que ninguém conheça pelo menos uma mulher vítima de agressão. Uma amiga que passou por algum tipo de abuso. Quem fecha os olhos pra esse tipo de violência não deve conhecer ou conversar com mulher alguma. Pergunte a elas. É portanto, preciso entender que não é porque diminuíram os números que diminui nossa luta ou que casos de estupro deixarão de acontecer.

E é por isso, que mais do que nunca, o feminismo continua urgente e necessário.

“Continuaremos em marcha até que TODAS sejamos livres”.

Não 26%, 65%…TODAS.

*No site do IPEA eu já não consegui acessar os relatórios. Devem estar corrigindo, mas assim que tiver acesso aos relatórios com os números corretos, atualizo os links onde é possível ler as ponderações feitas acerca dos resultados, o que repito, não muda nada com a diminuição de 65% pra 26%.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s