Somos todos racistas

Casos de racismo no futebol não são raros, nem geograficamente limitados. Seja na Europa ou mais recentemente na América do Sul como o racismo sofrido pelo Tinga em jogo realizado no Peru pela Copa Libertadores da América 2014. Ontem, durante um jogo válido pelo Campeonato Espanhol, um torcedor atirou uma banana quando o lateral brasileiro Daniel Alves se preparava para cobrar um escanteio. A resposta do jogador, no mínimo irreverente, foi comer a banana e cobrar o escanteio como se nada tivesse acontecido. Como se o racismo implícito no ato não existisse. Confesso que ao ver o vídeo, achei muito interessante a atitude do jogador, mas a repercussão do caso, junto a tantos outros exemplos cotidianos e principalmente a opinião (muito mais legítima do que a minha) de companheiros e companheiras militantes do movimento negro me fizeram refletir sobre o caso.

Retirando do perfil de Pedro Abramovay no Facebook.

Retirando do perfil de Pedro Abramovay no Facebook.

Rapidamente jogadores, atores e atrizes globais e diversos artistas se manifestaram em apoio a Daniel Alves. Neymar, com uma banana e junto ao filho (este bem longe de ser negro) posaram com a tag #SomosTodosMacacos. Até aí ok, assim como Pedro Abramovay, achei relevante o teor anticriacionista, a ideia de subversão do termo “macaco”, mas quem acabou e ver a atriz Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, ser eleita a mulher mais bonita do mundo pela revista People (publicação norte-americana sobre cultura popular e celebridades) e receber uma enxurrada de comentários preconceituosos (ver imagem abaixo) duvida dessa vibe Ali Kamel da campanha. Pra quem não se lembra, Ali Kamel é aquele Diretor de Jornalismo da Globo que escreveu um livro no qual afirma que não somos racistas. E a Globo, como eu acho que todos sabem, é aquela emissora que chama Cláudia da Silva Ferreira de “mulher arrastada”, exploram a dor alheia levando pessoas brancas para falar da morte de um dançarino negro de um programa de sua grade dominical e limitam os espaços de negros e negras a papeis de escravos e domésticas e quando chega o carnaval, explora o corpo da mulher negra limitando-a ao posto de “Globeleza”. Ah, e também é o canal daquele apresentador dominical que quando chama o cabelo de uma dançarina negra de “vassoura de bruxa” diz que não é ofensa/discurso é piada.

Imagem: "Meu Professor de História (página do Facebook)

Imagem: “Meu Professor de História (página do Facebook)

Antes que tomem esse texto por um amontoado de ressentimentos, o que quero ressaltar aqui é a dificuldade ao tratar de temas delicados como a igualdade racial sem cair no mito da democracia racial. Quando pessoas brancas aplaudem a atitude de Daniel Alves e dizem que negros e negras não devem se ‘’deixar abater” por casos de racismo elas estão lavando as mãos. Quando as atitudes da Fifa se limitam a uma nota de repúdio e faixas antes dos jogos, é frustrante pra quem assim como eu, admira o futebol como esporte e milita pela sua democratização (e consequentemente o fim do racismo, machismo, homofobia e elitização). É bom lembrar que no caso do Tinga, o time peruano do Real Garcilaso teve que pagar uma multa (bem inferior à renda de qualquer jogo ou até do contrato com seu menos brilhante jogador). E principalmente, o que quero ressaltar nesse texto é a importância do protagonismo de negros e negras em movimentos como este. Mas como é, Luara? Quer dizer que só porque “sou branquinho” eu não posso ser contra o racismo? Olha, longe de mim achar que a campanha virtual #SomosTodosMacacos é totalmente irrelevante, mas achar que o racismo é igual pra todo mundo além de hipócrita é cruel. E antes que alguém venha reclamar de “racismo reverso” ou dizer que “negros também são racistas”, deixo Aamer Rahman responder por mim.

Então se a solução não é gente branca e confortavelmente sentada sobre seus privilégios postando fotos com banana, qual é a solução? Medidas que transcendam notas de repúdio, pedidos de desculpas que disseram ser apenas um “mal-entendido”, multas irrisórias e o “mas”. Ao justificarmos nosso racismo (“não sou racista, mas…), estamos apenas perpetuando o preconceito e nos escondendo das nossas responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa e democrática.

Porque ontem foi uma banana. Bananas não são letais, as balas que continuam matando jovens negros são. Os “autos de resistência” também são. E se #TodosSomosMacacos, uns são mais macacos que os outros. Duvida? Pergunte pra polícia. Pergunte pro Estado que se omite. Pergunte pro Felipe Neto que acha absurdo uma mulher negra ser considerada a mais linda do mundo, mas não se pronunciou sobre todas as brancas anteriores. Pergunte à Fernanda Lima. Pergunte ao vizinho que muda de calçada toda vez que vê um negro. Pergunte a si mesmo.

Em tempo: não poderia deixar de indicar esse texto da Camila Pavanelli sobre a entrevista da Fernanda Lima ao ser escolhida para apresentar o sorteio da Fifa ao invés de Camila Pitanga. É um ótimo texto para entender como rever privilégios é necessário e contribui mais que uma foto no Instagram.

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