Esporte fino (ou passeio completo)

A sociedade precisa urgentemente tornar aceitável o uso de camisas de times de futebol em todo e qualquer ambiente.
Aliás, eu acredito que esse é um dos passos fundamentais para a conquista da paz mundial. Acha besteira? Loucura?
editada

Camisas de time de futebol precisam ser aceitas em todos os lugares. Todos.

-Ah, mas as pessoas matam por causa do futebol!
Não, as pessoas matam e encontram uma justificativa pra isso. Mas nada, absolutamente nada, nos torna mais humanos que uma camisa de time de futebol.
Porque camisas de times de futebol são histórias, gritam paixão. Você vê alguém que compartilha o mesmo sentimento estampado no peito e imediatamente sorri. Quando é do rival você faz uma piadinha e já quebrou uma barreira porque o futebol é linguagem universal.
Talvez eu apenas esteja dizendo isso porque sou Atleticana. E eu sei que outros torcedores se incomodam e até tem quem ache graça, mas parodiando o poeta: é que o atleticano não faz amigos, reconhece-os!
A presença da camisa preta e branca nunca passa despercebida. É pisar fora de casa e começam os gritos de “GAAAAAALOOOOO”!
-Hoje tem, hein?
-Ah, mas aquele meio de campo precisa acertar a marcação.
-Se não for sofrido, não é GALO!
E da resenha já perguntam logo “cê é de Minas? De qual cidade?”. Se acompanhado de cerveja, você já sai do buteco com uns três amigos, uma madrinha de casamento e o colesterol alto (porque não pode faltar o torresmo).
Não há um só dia que eu saia com o manto sagrado e não ouça um grito, uma saudação, uma referência que seja ao Clube Atlético Mineiro. Hoje cedo o primeiro grito veio de uma criança que jogava bola na quadra do condomínio e o sorriso quando gritei de volta foi de encher o coração. Logo depois um motorista de ônibus tomava seu café no terminal e fez questão de deixar falar seu time de coração (“GALO Doido!”). E assim foi até a minha volta pra casa: palpites sobre o jogo de logo mais, o nervosismo tomando conta…e eu que há quase uma década moro no Espírito Santo acabei me acostumando com algumas confusões, como quando confundem com a camisa do outro alvinegro, o carioca.
-Vai dar botafogo hoje?
A vontade é de responder: fogo é o que eu vou botar nesse prédio quando meu GALO marcar o primeiro gol, sô!
Mas o futebol, como qualquer paixão, só faz sentido quando a gente enxerga o sentimento em outros olhos.
Então eu sorrio e respondo: vai nada, aqui é GALO!
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2 thoughts on “Esporte fino (ou passeio completo)

  1. Concordo em parte com o texto se vivêssemos no mundo ideal… Vejo a torcida atleticana atuante e tals mas o clube em sí deixa a desejar. Explico: Sou cruzeirense e quando vejo o clube atuando junto ao movimento feminista estampado em suas camisas foi emocionante… Quando o clube expoe as cores LGBT no mineirao foi de uma dignidade sem igual… e todo o potencial de ajuda ao proximo, alem de títulos é claro. Por outro lado, o atletico e boa parte de sua torcida ainda objetifica a mulher nos desfiles de seus uniformes, ridiculamente tenta ofender o time rival chamando de Maria, sério até hoje nao entendo isso… e se nao for por motivo de genero estaria o clube e a torcida ofendendo por ser gay… até hoje! È muito engessamento. daí o perigo ainda de sua ideia de Camisa de Futebol… falta um pouco mais de educaçao.

    • Entendo, Elida. Mas creio que é preciso entender esses comportamentos como reflexos de uma sociedade que ainda é preconceituosa. Além disso também é preciso separar clube, torcida e pessoas, por mais difícil que seja, porque acho que alguns de seus exemplos ficaram um pouco confusos. No caso do Cruzeiro, a campanha com a estampa dos números dos casos de violência contra a mulher rendeu até prêmio em Cannes, maior festival de publicidade do mundo. Por outro lado, seus torcedores também chamam os rivais de “frangas” e o futebol no Brasil ainda objetifica ou rotula mulheres. Por mais que não seja institucionalizado em um desfile como no caso do GALO, foi um diretor de futebol azul quem disse que a bandeirinha que errou em um jogo deveria era “posar para a playboy”.
      No caso do Mineirão, a iluminação com as cores LGBT não foi uma iniciativa do clube, mas da Minas Arena, que gerencia o estádio. Aliás, um dos comentários mais curtidos foi uma resposta do perfil do estádio a um cruzeirense que dizia “finalmente o Atlético tem o seu estádio”. A resposta: “evolua”.
      O desfile sexista dos uniformes atleticanos em 2016 rendeu muito debate (até dissertação de mestrado) e fortaleceu dentro das torcidas grupos organizados de Atleticanas feministas. Na época participei da elaboração das duas notas que mais tiveram repercussão: a de torcedoras independentes e a de feministas da GALO Marx (a torcida socialista da qual faço parte). As primeiras formaram a Grupa que hoje reúne mulheres para irem ao estádio ou ao barzinho assistir jogos juntas. A GALO Marx além de se juntar frequentemente à grupa, também participa e fomenta o debate sobre gênero e igualdade tanto em seus canais oficiais, quanto participando de congressos e encontros sobre o tema, com representantes mulheres e feministas.
      O que eu quero dizer com isso tudo é que a ideia central do texto é do respeito. Respeito não é presente, é conquistado e só se conquista respeitando também. O tom jocoso da minha crônica foi uma forma de mostrar que o futebol pode ser esse espaço, onde as pessoas se reconhecem, se integram e se respeitam. Acredito realmente nisso e que essa educação que você diz faltar não pode esperar um mundo “ideal”. É exatamente ela que precisa se idealizada antes de tudo. Portanto quando digo que é preciso não confundir o povo e a instituição é justamente por isso: começa por nós.
      São as nossas atitudes que irão fazer a diferença 🙂

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