About ramosluara

Mineira e apaixonada pelo GALO, fez do futebol uma filosofia. Colecionadora de pérolas e causos, sabe bem que "tem dia que é noite e tem noite que é dia". contato.luara@gmail.com

Os nomes das coisas

Rafaela Silva conquistou a primeira – até agora única – medalha de ouro do Brasil nos jogos olímpicos do Rio. Mulher, negra, lésbica e filha da periferia, houve quem falasse que não precisávamos lembrar disso, como se fossem meros “detalhes”, como se tudo isso não tivesse influenciado diretamente na trajetória da Rafaela. Como se ela não tivesse sofrido na pele (trocadilho inevitável) racismo nos jogos de Londres e como se todas as dificuldades enfrentadas por ela fossem parte de um belo roteiro na vida dos campeões.
Judo - Olympics: Day 3

Rafaela Silva: mulher, negra, periférica, lésbica e medalha de ouro no judô. Foto: yahoo

Simone Manuel, nadadora dos EUA, é a primeira negra campeã olímpica da natação individual. Lá fora estão dizendo que ressaltar o fato de ser uma atleta negra é (pasmem!) preconceito. Que deviam focar no fato dela ser campeã.
Na cerimônia de abertura da RIO 2016, o comentarista Galvão Bueno não se preocupou em desmerecer o velocista negro Usain Bolt – o homem mais rápido do mundo -, multicampeão olímpico, detentor de recordes mundiais impressionantes. Curiosamente Galvão é só emoção ao chamar Michal Phelps de “fenômeno”.
Foi preciso que Simone Biles, ginasta negra de apenas 19 anos, medalhista mundial e agora olimpica falasse com todas as letras que não pode ser comparada a outros atletas, pois sua história é cheia de particularidades e ela realmente merece ser tratada como a “primeira de seu nome”. Muitos acharam arrogante, outros tantos – felizmente – aplaudiram.
Lembrar quem são e de onde vieram parece mesmo incomodar quem sempre esteve no mesmo lugar privilegiado e enxerga no discurso da meritocracia uma forma de amenizar o próprio sentimento de culpa. Porque se não for culpa, precisamos dizer: é racismo, machismo e homofobia.
*E no caso do Galvão mais um tanto de colonialismo.

Como vai proibir quando o GALO insistir em cantar?

O futebol como expressão popular tem sido há muito uma importante ferramenta de luta e transformação. Seja pela disputa de ideias, espaço ou simples manifestação, o esporte que já parou guerras, resistiu à ditadura e empunhou faixas pela anistia hoje sofre com a perseguição do “futebol moderno”.
A criminalização das torcidas e da nossa maneira própria de torcer com a proibição de bandeiras e sinalizadores, por exemplo, bem como a “arenização” dos estádios mudou o perfil do público. Quem ainda teima, no entanto, precisa lidar com desmandos que estão além das quatro linhas.

GALO x Ponte

Foto: Marcelo Paulo


Hoje, mais uma vez, policiais tentaram tomar a faixa contra a Rede Globo estendida durante o jogo GALO x Ponte Preta e adesivos escrito “Fora Temer Golpista” usado por alguns torcedores. Sob o pretexto de que isso “incita a violência” e o mais absurdo que “é a Globo que banca tudo”, responsáveis pelo estádio que ironicamente é chamado de Independência e a polícia golpista de Minas tentaram obstruir um dos direitos fundamentais previstos na nossa Constituição que é o direito à livre manifestação. Estes, como e com a autoridade que lhes foi concedida, demonstram desconhecer ou mesmo ignorar que nenhuma norma pública ou privada está acima dos direitos constitucionais. Se submetem a interesses escusos do setor privado e de determinados grupos políticos e evidenciam ainda mais o caráter golpista e autoritário que se abateu sobre a democracia brasileira.
Apesar de tudo, continuamos dando o nosso recado: fora golpistas, lobbystas da bola, polícias políticas e dirigentes omissos.

O futebol é livre e o povo também!

O Futebol como metáfora

Depois de um ano da Copa do Brasil, o comandante do épico título nacional se despede melancolicamente e com lágrimas nos olhos. Não se trata de defender ou não a saída do Levir, mas é preciso um pouco de gratidão para reconhecer algumas coisas.

HIROKI WATANABE/GETTY IMAGES

HIROKI WATANABE/GETTY IMAGES

Vão dizer que ele não é responsável por nada, que é louco, que seu esquema Kamikaze nos levou à…Libertadores pelo quarto ano seguido (e 2º lugar se tudo correr bem nos próximos jogos). Mas não se esqueçam que para além dos números, o futebol é a metáfora mais bonita do mundo.

Entre todas essas metáforas, sobre a vida, a existência e tudo de mais profundo que pudermos pensar, gosto de acreditar que o futebol é como o amor: a gente sabe que não pode vencer sempre, mas continua torcendo.

Obrigada, Levir.

Pelos 4×0 no primeiro jogo da final do Mineiro de 2007 (os gols narrados pelo Willy Gonser ainda são meu toque de celular!)
Pelas entrevistas descontraídas.
Pela Copa do Brasil.
Pelas vitórias inacreditáveis em cima dos rivais históricos.
Pela final histórica derrotando o maior rival estadual.
Pela confiança nos seus comandados.
Pela ligação bonita com a Massa.
Por tudo (exceto pelo Carlos).

Você pagou com traição

O GALO perdeu o campeonato naquela derrota para o Grêmio em casa. Não apenas porque o tricolor gaúcho foi infinitamente superior em campo, mas porque a Massa se apequenou. Não estou falando do público, o Mineirão estava lotado, lindo, mas o que se viu foi um espetáculo de arrogância. Em minha vida de Atleticana, cultivei diversas superstições. Uma delas é não arriscar placar, sempre acho que dá azar. Mas lá estavam os torcedores acreditando não na mística da própria garganta, mas no placar elástico, nas gracinhas para as câmeras de TV, no sinal de “cortar a garganta” como que liquidando o adversário que sabíamos ser duro. Não temer a luta é corajoso, mas a soberba derruba mais que qualquer catimba gaúcha.

Os erros de arbitragem aconteceram, os erros do próprio time – jogadores, técnico e diretoria – e a eficiência do time do Tite evidentemente são as explicações possíveis para os que acreditam que o futebol só acontece dentro das quatro linhas. Para nós, Atleticanos e Atleticanas, acostumados ao impossível, somente o extraordinário explica um final tão melancólico. Melancólico não porque o GALO não merecesse ou devesse se envergonhar, mas principalmente porque a maior parte do que o GALO é não aprendeu a ganhar. Ou aprendeu rápido demais e se acostumou com isso.

Mal acabou o jogo contra o São Paulo e já tinha gente pedindo banco para o Victor. O melhor lateral do Brasil por 2 anos consecutivos agora é o pior jogador do mundo. Luan passou de xodó da torcida para alguém totalmente questionável. É assim que pensam os ingratos, os que não amam, mas se apaixonam momentaneamente pelas vitórias que não tivemos nos últimos 40 anos. É claro que eu quero reforços, mais empenho e obviamente que não estou dizendo que a culpa é da torcida. Mas também não estou dizendo que é de apenas um ou outro. Este texto é antes um apelo e não um julgamento.

massa

Imagem: divulgação

Ninguém está aqui para dizer que é mais torcedor que ninguém, mas quando a própria torcida perde a fé, não há futebol que resista. A corneta é parte do jogo, diverte, acalma, liberta. Mas a pretensão destrói, magoa. Já contei a história de quando comecei a torcer pro GALO, em uma derrota para o América-MG e tenho muito orgulho dela porque me prova algo muito valioso: o GALO formou meu caráter. Foi graças ao sentimento de irmandade, à paixão e – por que não? – às derrotas, que eu sou o que sou e que acredito, grande parte desta torcida é o que é. Doidos, ensandecidos gritando quando o resto do mundo se cala. Isto é a Massa do GALO. É amor, não é simpatia. É, como o povo mineiro, desconfiado, mas não hesita em amar. Come quieto, é humilde, mas não é bobo. O alvinegro carrega sua origem no nome e não é à toa. Carrega em si a identidade e o orgulho, mas sabe que não se vence jogo antes de entrar em campo e faz por onde. Grita, apoia. Depois da maior conquista da nossa história vi a torcida vaiar o time como sequer me lembrava. E olha que motivo não faltou. De corrupção a times sem raça, passando por goleadas para o rival azul, foi preciso uma vitória gloriosa pra despertar a arrogância que só se conhecia lá no Barro Preto.

Doi reconhecer que não somos mais os mesmos, mas é preciso fazê-lo para recuperar o maior patrimônio do Clube Atlético Mineiro. Doi porque a gente se confunde com o time desde o hino: nós somos DELE e ele é nosso. Nós somos o GALO e jogamos juntos, com muita raça e amor. É como devemos jogar, cantar, na terceira pessoa do plural. Muitas vezes ouvi que a gente ama mais a torcida que o próprio time e minha explicação sempre foi essa: é porque somos inseparáveis, seja o momento de glória ou dor.

Por isso é que eu peço: se abracem, gritem, não tenham vergonha de acreditar. É disso que o GALO precisa. Não importa os títulos, porque eles vem cedo ou tarde. Um clube resiste sem títulos, mas não existe sem torcida. Sejamos uma torcida ainda maior que o pé do Victor no chute de Riascos, na cabeçada de Leo Silva, na vitória épica sobre os rivais históricos, implacávelcomo um GALO e vingador como pode ser apenas o maior time de Minas Gerais.

Sexo e Futebol

É de Luís Fernando Veríssimo uma das minhas frases favoritas sobre futebol: “no fim, sexo e futebol só são diferentes mesmo em duas coisas: no futebol, com a devida exceção ao goleiro, não se pode usar as mãos. E o sexo, graças a Deus, não é organizado pela CBF”. Desculpe o spoiler, já que se tratam dos versos finais de sua crônica, intitulada exatamente “O Sexo e o Futebol”. Quem não conhece, vale a leitura. Trata-se de uma comparação, leve e bem-humorada, entre as duas “modalidades”. Ou seja: é possível fazer humor falando desses temas sem apelar para a violência que tem permeado estádios e redes sociais a cada jogo.

A naturalização da violência sexual no futebol é algo perverso que me choca profundamente. Talvez por vivermos em um país onde recentemente o número de estupros foi maior que o de homicídios ou porque basta ler os comentários de qualquer notícia sobre estupro pra saber que esse tipo de violência integra a nossa cultura.

Não sou especialista em nada, mas vivo esse medo todos os dias. E, como amante do futebol, me entristece ver pessoas banalizando e naturalizando algo tão doloroso.

Para essas pessoas, um time não goleia, “estupra”. Tomar 4 gols virou “tomar de 4” em referência à posição sexual. O “chupa” também é bem comum e às vezes vem acompanhado de algum gesto obsceno. É comum também “mandar tomar no cu”. Este último me intriga bastante e por isso quero até dedicar-lhe mais um parágrafo.

Mandar alguém “tomar no cu” me parece ignorante de diversas formas. Primeiro porque nega uma possibilidade de prazer, como se fosse um castigo, algo ruim. Segundo porque as noções de sexo parecem meio distorcidas, já que implica numa passividade de quem “toma”, como se não fosse possível gostar e como se sexo fosse mais uma relação de “poder” do que uma relação íntima, propriamente dita.

Além disso, na maior parte das vezes busca-se desconstruir o adversário arranjando-lhe apelidos “femininos” ou homofóbicos, como se o sexo para mulheres ou homossexuais devesse ser doloroso e ruim. E isso, na minha opinião, tem relação com o que disse anteriormente sobre relações de poder: aos machos cabe o gozo da vitória. Acho que é daí que nasce essa comparação entre sexo e futebol que, de tão banalizada, às vezes passa até despercebida e nos pegamos dizendo as mesmas coisas depois de uma rodada do brasileirão.

A nós cabe a reflexão, afinal futebol e sexo são duas coisas bem legais, então como conseguimos fazer disso instrumentos da violência? Veríssimo (no texto que citei logo acima) já provou que o sexo pode ser prazeroso pra todo mundo e fez isso numa comparação com o futebol! Penso assim que quem não consegue falar de futebol sem apelar para a violência, sobretudo a sexual -tema deste texto- não entende nem de futebol, muito menos de sexo.

A Revolução será televisionada?

26 de março de 2015

O Jornal Nacional exibe uma série de reportagens sobre “menores infratores”. No episódio de hoje uma penitenciária que “parece escola”, depoimentos emocionados sobre como ficar preso ali foi como uma “redenção”.

Começa a novela e por algum motivo dois rapazes – um negro e um branco – estão discutindo. O errado, ~obviamente o negro~, fala em seguida algo como “você não pode me prender, eu sou menor!”.

Poderia ser uma piada perversa, mas em um momento que a redução da maioridade penal volta ao debate, eu chamaria de “anúncio de oportunidade”. Mas também podemos chamar de lobby para a privatização de penitenciárias, ação e/ou merchandising da “Bancada da Bala” ou até mesmo um bom RP do senador dono do helicóptero (aquele).

30 de março de 2015

Estudantes da Escola Estadual Maria Ortiz, localizada no centro de Vitória (ES) são entrevistados pelo ESTV – jornal local da TV Gazeta, afiliada à Rede Globo – sobre a utilização do “pau de selfie” (quem decide essas pautas, pelamor???). Durante a entrevista, os estudantes seguram cartazes onde é possível ler reivindicações como “eleição direta para diretor” (pauta história dos militantes da educação pública), “não à PEC 171” (que propõe a redução da maioridade penal), “+ grêmios”. Ao vivo, uma estudante diz que existem “”assuntos mais importantes que o pau de selfie” enquanto outra moça, também estudante, é cortada pelo repórter ao tentar explicar porque a redução da maioridade penal não resolve o problema.

O Espírito Santo é um dos estados onde mais morrem jovens no país e eu não me lembro de ter visto uma reportagem sobre “menores infratores” onde as masmorras do Governador Paulo Hartung fossem notícia. Onde os depoimentos das mães de jovens que foram presos, torturados e mortos pelo Estado fossem exibidos.

O título desse texto é uma piada. É óbvio que a Revolução não será televisionada, ao menos não sem a democratização da comunicação, mas hoje jovens estudantes pediram mais democracia, mais representatividade e o fim do debate demagogo que está encarcerando e matando jovens, sobretudo jovens negros. Hoje a juventude mais uma vez mostrou que quer viver, que há resistência e que não podem colocar na nossa conta essa política velha e falida. E mostrou mais uma vez, tão melhor que qualquer produção global, que se a revolução não será televisionada, nos resta revolucionar a televisão.

Abaixo um vídeo produzido pelo Reportagem Pública. Um alerta pra quem defende o encarceramento da juventude brasileira.

UPDATE: A Comissão de Justiça e Cidadania da Câmara votou hoje a admissibilidade da PEC 171/93 que propõe a redução da maioridade penal. Um retrocesso que significa além de tudo um ataque à nossa Constituição, aos Direitos Humanos e aos acordos dos quais o Brasil é signatário, pois fere, como bem abordou a deputada Maria do Rosário hoje em plenário, “o artigo 60, parágrafos 227 e 228 que prevê como cláusula pétrea a proteção dos adolescentes até os 18 anos e o respeito a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”. A proposta ainda segue para uma comissão especial. São tempos difíceis para os sonhadores, mas os sonhos continuam sendo nossas melhores armas.

Sem feminismo não há democracia

Luara Ramos e Natalia Bemfeito*

Após a disputa eleitoral para a Presidência da República mais acirrada dos últimos tempos é inevitável e necessária a reflexão sobre o machismo enfrentado por mulheres que ocupam cargos de poder. Poderíamos tratar exclusivamente dessas eleições, mas há quatro anos uma mulher ocupa o cargo mais alto do país e a falta de mulheres em posições mais representativas nos leva a reflexões anteriores que se já foram ditas, merecem ser recordadas.

Presidenta** ou primeira-dama?

Para começar nossos devaneios feministas, trataremos de fato digno de observação, por sua peculiaridade: todas as roupas utilizadas por Dilma foram comentadas e muitas receberam duras críticas, como se fossem “assunto de Estado”. Não se podem dizer o mesmo dos candidatos. Terno não vira notícia, tsc…Em sua posse, em 1º de janeiro de

Natalia Bemfeito

Natalia Bemfeito

2011, especulava-se que “modelito” ela usaria e até entrevista com o maquiador fizeram. Alguém já perguntou ao Collor o nº do Grecin que ele usa pra manter suas madeixas grisalhas? Ou como o Lula prefere usar a barba? É disso que estamos falando…

Ainda em 2011 outra coisa chamou muita atenção: pela 1ª vez o Brasil escolhia uma mulher para ocupar a presidência da República, mas nas manchetes dos jornais e revistas surgia uma figura desconhecida, a esposa do vice-presidente Michel Temer. Marcela Temer apareceu ao lado do vice-presidente e segundo jornais, comentaristas e revistas de fofoca “roubou” a cena. Mais uma vez nos era dada a lição: mulher é um objeto decorativo, foi feita pra ser bonita, não pra ser presidenta. Agora imagine a cabeça e a autoestima de uma menina que vê duas mulheres no alto da rampa do planalto: quem ela gostaria de ser, a esposa do vice-presidente (a vice-primeira-dama?) ou a mulher mais poderosa do país? O “cargo” de primeira-dama estava vago e até a companhia da presidenta no rolê do Rolls-Royce presidencial gerou especulação – afinal, além de ser mulher, Dilma é divorciada e esse assunto continuou dando pano pra manga até que chegamos às eleições de 2014. O R7 publicou uma matéria ridícula para apresentar a “possível primeira-dama”, esposa do candidato Aécio Neves. A pérola final é “Desde que Luiz Inácio Lula da Silva deixou a Presidência, o Brasil não conta com uma primeira-dama, já que o País elegeu uma presidente em 2010”. O que será de um país sem uma primeira-dama, hein? O que importa que o Brasil ainda seja um dos países com menos mulheres em cargos eletivos se não contamos com uma primeira-dama? Os machistinhas-bronha de internet logo ficaram em polvorosa! Exaltavam o lado “pegador” do presidenciável Aécio, além de alguns comentários de tão babacas, nos recusamos a reproduzir.

Mais candidatas à presidência, mais machismo

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Em 2010 foram duas candidatas e este ano três. Em dado momento tivemos a possibilidade inédita de um 2º turno com duas mulheres na disputa, mas a presença de uma figura feminina só fez instigar as ofensas mais sexistas dignas dos comentaristas de portais. Nas redes sociais todas as candidatas foram alvo de termos sexistas. A presidenta e candidata Dilma Rousseff foi quem mais sofreu agressões por ter maior rejeição, comum (a rejeição) a candidatas(os) à reeleição. Luciana Genro e Marina Silva também foram vítimas de tais ataques. Marina foi chamada de “magrinha” por Eduardo Jorge durante uma comparação infeliz em um debate. Luciana teve que ouvir críticas ao seu cabelo crespo, seu sotaque. As vozes das candidatas também foram bastante criticadas, afinal os eleitores não estão acostumados com vozes mais agudas e acham mais estranho a voz de uma mulher do que não ver metade da população nacional representada politicamente.

De “vaca”, “vadia” e “piranha” até ameaças covardes e comentários sobre a vida sexual e a aparência, referir-se a qualquer mulher de tal forma não deveria ser algo considerado natural, mas é. Especialmente quando esta mulher ocupa um lugar que “não lhe cabe”. Na academia, na comunidade científica, na política. Afinal, “não é lugar de mulher”, não é mesmo?

Aécio e a personificação do machismo

No recente processo eleitoral, vimos muitos militantes bradarem: “não voto em candidato que bate em mulher!”, “candidato machista não me representa”. A origem de tais manifestações se refere ao episódio em que ele teria agredido uma namorada durante uma festa no Rio de Janeiro. É importante ressaltar que não houve condenação neste sentido, nem por parte da justiça, já que nunca houve sequer investigação do caso e o candidato chegou a negar, ameaçando o jornalista Juca Kfouri, responsável pela nota, de processo (apesar de nunca tê-lo processado) e nem por parte do eleitorado, que julgou ser algo muito pessoal e, portanto, fora do debate político. No entanto, pudemos detectar diversas posturas extremamente sexistas de Aécio nos debates dos presidenciáveis: todos o vimos utilizar expressões ultrapassadas como “dona de casa”, para se referir às mulheres, e “trabalhador”, ao falar dos homens. Além disso, a forma como se dirigia às candidatas mulheres para desqualificar suas afirmações chamando-as de “levianas” e “mentirosas” também foi marcante. Seu riso ao responder as perguntas e a insistência em chamar a candidata Dilma de mentirosa durante os debates do 2° turno geraram inclusive uma rejeição por parte das mulheres. Tudo isso refletiu na campanha, já que os militantes tucanos não ficaram atrás e durante um dos debates receberam Dilma urrando “vaca, vaca, vaca”!

Outra coisa que foi bastante ouvida é que Aécio tem “cara de presidente”. Claro que tem cara de presidente, afinal durante toda a nossa história SÓ TIVEMOS CANDIDATOS HOMENS, claro que não estamos acostumados a uma mulher na presidência. Este argumento além de tudo é estúpido.

Os outros candidatos foram igualmente machistas ou até piores. Pastor Everaldo e Levy Fidelix chocaram as pessoas com discursos vazios e preconceituosos, permeados de machismo, homofobia e o que de pior puder existir. Mas a reflexão que queremos trazer aqui não é um julgamento dos candidatos. Queremos com a discussão feminista, tirar do ambiente privado, questões que tantas vezes violentaram as mulheres. Queremos trazer a público, para a política, algo que não pode mais ficar escondido. Por trás das vaias e xingamentos está o machismo e a luta de classes. Mulheres que ocupam lugares que “não lhes cabem” incomodam àqueles que querem manter seus privilégios. As mulheres da classe trabalhadora lutaram para conquistar o direito à igualdade, ao voto, à cidadania plena, à licença maternidade, dentre muitos outros. E hoje as mulheres continuam lutando para alcançar seu lugar nos cargos de poder sem sofrerem preconceitos odiosos. Porque lugar de mulher é onde ela quiser.

A democracia não pode e não deve ser um governo para a maioria como muitos querem fazer crer. A democracia deve ter a ver com a coexistência de ideias e não com a opressão do outro/ da outra. Ou a democracia é para todos e todas ou não será para ninguém. E se não aprendem a respeitar as mulheres nós temos que ensinar.

*Luara Ramos é mineira, Atleticana, feminista, publicitária e criadora do blog Vã Filosofia; Natalia Silva Bemfeito é servidora pública, pós-graduanda em Direito pela UERJ e militante feminista. As duas se conheceram na militância pelas redes e desde então descobriram que são irmãs.

** Antes que algum desinformado metido a dono da Língua Portuguesa venha dizer que “aff, parei de ler no ‘presidenta’, gostaríamos de dizer que o termo em questão já aparece desde 1899 no dicionário Cândido de Figueiredo. E ainda que não aparecesse, se te soa estranho só porque nunca antes tivemos outras presidentas, é bom ir se acostumando…