Esporte fino (ou passeio completo)

A sociedade precisa urgentemente tornar aceitável o uso de camisas de times de futebol em todo e qualquer ambiente.
Aliás, eu acredito que esse é um dos passos fundamentais para a conquista da paz mundial. Acha besteira? Loucura?
editada

Camisas de time de futebol precisam ser aceitas em todos os lugares. Todos.

-Ah, mas as pessoas matam por causa do futebol!
Não, as pessoas matam e encontram uma justificativa pra isso. Mas nada, absolutamente nada, nos torna mais humanos que uma camisa de time de futebol.
Porque camisas de times de futebol são histórias, gritam paixão. Você vê alguém que compartilha o mesmo sentimento estampado no peito e imediatamente sorri. Quando é do rival você faz uma piadinha e já quebrou uma barreira porque o futebol é linguagem universal.
Talvez eu apenas esteja dizendo isso porque sou Atleticana. E eu sei que outros torcedores se incomodam e até tem quem ache graça, mas parodiando o poeta: é que o atleticano não faz amigos, reconhece-os!
A presença da camisa preta e branca nunca passa despercebida. É pisar fora de casa e começam os gritos de “GAAAAAALOOOOO”!
-Hoje tem, hein?
-Ah, mas aquele meio de campo precisa acertar a marcação.
-Se não for sofrido, não é GALO!
E da resenha já perguntam logo “cê é de Minas? De qual cidade?”. Se acompanhado de cerveja, você já sai do buteco com uns três amigos, uma madrinha de casamento e o colesterol alto (porque não pode faltar o torresmo).
Não há um só dia que eu saia com o manto sagrado e não ouça um grito, uma saudação, uma referência que seja ao Clube Atlético Mineiro. Hoje cedo o primeiro grito veio de uma criança que jogava bola na quadra do condomínio e o sorriso quando gritei de volta foi de encher o coração. Logo depois um motorista de ônibus tomava seu café no terminal e fez questão de deixar falar seu time de coração (“GALO Doido!”). E assim foi até a minha volta pra casa: palpites sobre o jogo de logo mais, o nervosismo tomando conta…e eu que há quase uma década moro no Espírito Santo acabei me acostumando com algumas confusões, como quando confundem com a camisa do outro alvinegro, o carioca.
-Vai dar botafogo hoje?
A vontade é de responder: fogo é o que eu vou botar nesse prédio quando meu GALO marcar o primeiro gol, sô!
Mas o futebol, como qualquer paixão, só faz sentido quando a gente enxerga o sentimento em outros olhos.
Então eu sorrio e respondo: vai nada, aqui é GALO!
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Você pagou com traição

O GALO perdeu o campeonato naquela derrota para o Grêmio em casa. Não apenas porque o tricolor gaúcho foi infinitamente superior em campo, mas porque a Massa se apequenou. Não estou falando do público, o Mineirão estava lotado, lindo, mas o que se viu foi um espetáculo de arrogância. Em minha vida de Atleticana, cultivei diversas superstições. Uma delas é não arriscar placar, sempre acho que dá azar. Mas lá estavam os torcedores acreditando não na mística da própria garganta, mas no placar elástico, nas gracinhas para as câmeras de TV, no sinal de “cortar a garganta” como que liquidando o adversário que sabíamos ser duro. Não temer a luta é corajoso, mas a soberba derruba mais que qualquer catimba gaúcha.

Os erros de arbitragem aconteceram, os erros do próprio time – jogadores, técnico e diretoria – e a eficiência do time do Tite evidentemente são as explicações possíveis para os que acreditam que o futebol só acontece dentro das quatro linhas. Para nós, Atleticanos e Atleticanas, acostumados ao impossível, somente o extraordinário explica um final tão melancólico. Melancólico não porque o GALO não merecesse ou devesse se envergonhar, mas principalmente porque a maior parte do que o GALO é não aprendeu a ganhar. Ou aprendeu rápido demais e se acostumou com isso.

Mal acabou o jogo contra o São Paulo e já tinha gente pedindo banco para o Victor. O melhor lateral do Brasil por 2 anos consecutivos agora é o pior jogador do mundo. Luan passou de xodó da torcida para alguém totalmente questionável. É assim que pensam os ingratos, os que não amam, mas se apaixonam momentaneamente pelas vitórias que não tivemos nos últimos 40 anos. É claro que eu quero reforços, mais empenho e obviamente que não estou dizendo que a culpa é da torcida. Mas também não estou dizendo que é de apenas um ou outro. Este texto é antes um apelo e não um julgamento.

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Imagem: divulgação

Ninguém está aqui para dizer que é mais torcedor que ninguém, mas quando a própria torcida perde a fé, não há futebol que resista. A corneta é parte do jogo, diverte, acalma, liberta. Mas a pretensão destrói, magoa. Já contei a história de quando comecei a torcer pro GALO, em uma derrota para o América-MG e tenho muito orgulho dela porque me prova algo muito valioso: o GALO formou meu caráter. Foi graças ao sentimento de irmandade, à paixão e – por que não? – às derrotas, que eu sou o que sou e que acredito, grande parte desta torcida é o que é. Doidos, ensandecidos gritando quando o resto do mundo se cala. Isto é a Massa do GALO. É amor, não é simpatia. É, como o povo mineiro, desconfiado, mas não hesita em amar. Come quieto, é humilde, mas não é bobo. O alvinegro carrega sua origem no nome e não é à toa. Carrega em si a identidade e o orgulho, mas sabe que não se vence jogo antes de entrar em campo e faz por onde. Grita, apoia. Depois da maior conquista da nossa história vi a torcida vaiar o time como sequer me lembrava. E olha que motivo não faltou. De corrupção a times sem raça, passando por goleadas para o rival azul, foi preciso uma vitória gloriosa pra despertar a arrogância que só se conhecia lá no Barro Preto.

Doi reconhecer que não somos mais os mesmos, mas é preciso fazê-lo para recuperar o maior patrimônio do Clube Atlético Mineiro. Doi porque a gente se confunde com o time desde o hino: nós somos DELE e ele é nosso. Nós somos o GALO e jogamos juntos, com muita raça e amor. É como devemos jogar, cantar, na terceira pessoa do plural. Muitas vezes ouvi que a gente ama mais a torcida que o próprio time e minha explicação sempre foi essa: é porque somos inseparáveis, seja o momento de glória ou dor.

Por isso é que eu peço: se abracem, gritem, não tenham vergonha de acreditar. É disso que o GALO precisa. Não importa os títulos, porque eles vem cedo ou tarde. Um clube resiste sem títulos, mas não existe sem torcida. Sejamos uma torcida ainda maior que o pé do Victor no chute de Riascos, na cabeçada de Leo Silva, na vitória épica sobre os rivais históricos, implacávelcomo um GALO e vingador como pode ser apenas o maior time de Minas Gerais.

O que eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta…

Tento lembrar a última vez que usei biquíni. Na verdade, a penúltima vez. A última foi há alguns dias, quando fui à praia com meu namorado. Ele gosta de tirar fotos da gente, de mim. Eu não posso esquecer o quanto me senti amada quando ele me disse: “é incrível olhar a mulher que eu amo, usando um biquíni do time que eu amo.” Eu usava um biquíni do GALO que tinha comprado assim que vim morar no Espírito Santo e que coloquei poucas vezes e nunca tive coragem de usar de verdade. Mesmo no clube que eu frequentava na minha cidade, no interior de MG, eu entrei poucas vezes numa piscina depois dos 10 anos de idade. Me sinto um pouco envergonhada de dizer isso, ainda mais agora que me reconheço feminista e busco cada vez mais desconstruir essas neuras impostas às mulheres pelo padrão de beleza vigente.

Negahamburguer <3 facebook.com/olanegahamburguer

Negahamburguer ❤

Minha mãe sempre foi uma mulher dessas que a gente pode chamar de “poderosa”. Ela é autêntica, tem uma autoestima muito legal e me ensinou muito sobre não se importar com a opinião das pessoas se o que você tá fazendo não é errado e te faz bem. Ainda assim a adolescência não foi o melhor período do mundo. Eu tinha passado de “garotinha fofa” a “gordinha” e ouvia os tios e tias dizendo que eu tinha um rosto bonito. Como se tivesse alguma coisa de errado com meu corpo. Comecei a querer emagrecer, mesmo gostando tanto de pipoca e chocolate e não tendo nenhum tipo de problema de saúde. Eu só tinha 11 anos quando comecei a fazer todo tipo de coisa maluca. Minha mãe acabou descobrindo, mas até aí eu já tinha desmaiado algumas vezes, forçado o vômito e tomado laxantes.

Quando eu consegui me encontrar em outras formas, nas minhas formas, tive um relacionamento destrutivo com um cara que conseguia me beijar e no momento seguinte dizer que eu tinha engordado ou estava com mais celulite. Passei a ter vergonha do meu corpo, vergonha dele, de ficar com ele. Me sentia culpada por estar daquele jeito e por deixar que ele me fizesse sentir mal. Mas eu o amava e achava que ele também me amava. Acabava me sujeitando àquele tipo de coisa porque não queria que acabasse. Acabou. Eu fiquei bem destruída, sobretudo porque ele me traiu. Hoje penso que ele já havia me traído antes, como quando me fazia sentir tão mal, quando fazia piadas sobre meu peso ou até me falava pra não comer muito quando saíamos juntos. Aliás, engraçada essa coisa de traição, né? Hoje eu me sinto menos traída porque ele ficou com outra pessoa e mais porque acreditava que fosse um companheiro e ainda assim foi tão machista e babaca. Não desejo mal algum a ele ou qualquer cara que faz esse tipo de coisa. Só desejo que eles mudem e não tentem destruir a autoestima de suas companheiras e que elas sejam tão fortes que não permitam esse tipo de coisa.

Negahamburguer <3 facebook.com/olanegahamburguer

Negahamburguer e o desenho que me inspirou a escrever esse texto

Por que eu estou contando isso tudo? De verdade, não me orgulho tanto das minhas inseguranças. E eu poderia até dizer que me sentiria melhor e mais forte se tivesse usado um biquíni sem que meu atual namorado falasse que estava tudo bem, que era pra eu deixar de besteira. Mas acho que foi um gesto de amor e gestos de amor sempre valem a pena ser contados.

Sem essa ladainha de que precisamos de caras que nos “valorizem” ou que precisamos nos amar. É difícil falar em amor próprio quando tudo à nossa volta diz que não estamos bem. Magra demais, gorda demais, alta demais, baixa demais…inventam todo tipo de defeito pra fazer a gente sofrer e gastar. Então, apesar de esse texto ser mais escrito com o coração do que com qualquer dado sobre a indústria de beleza, é só uma forma de dizer que “hoje eu me amo muito mais, porque me entendo muito mais também”. Eu quero ser cada vez mais de verdade e isso não quer dizer me acomodar, quer dizer que eu quero me sentir feliz. Aprendi a não julgar a aparência das mulheres, a reconhecer belezas diferentes e com isso eu espero poder dizer às meninas e mulheres que elas não precisam ter suas autoestimas destruídas para recomeçarem. Embora tenha sido importante pra minha “reconstrução”, eu desejo de verdade que a sororidade reine entre a gente.

Essa é a história da minha foto de biquíni mais de uma década depois de usar biquíni pela última vez. Ou se vocês preferirem, esta é a história de uma mulher que aprendeu que o amor não tem nada a ver com culpa. E que contar histórias é uma forma de desnudar nossa alma, mas pra quem já deixou de lado o medo de ir à praia de biquíni, deixar a alma nua não é tão difícil =)

Não deixem de conferir o trabalho lindo e inspirador da Negahambuguer

Quantos anos tem o Atleticano?

Para ler ouvindoː Hino do Clube Atlético Mineiro – Vicente Motta

O documento de identificação (o original aceito em território nacional, não o do Clube) teima em dizer que nasci no dia 26 de agosto de 1991. Bobagem. Nasci há 106 anos, no dia 25 de março de 1908.  Nasci no coreto do parque, em meio aos meninos. Mas como pode? Posso porque sou Atleticana e a minha existência só tem sentido no GALO.

Para o Atleticano e a Atleticana a história começou há pouco mais de um século porque só os últimos 106 anos é que nos reconhecemos. Vão nos chamar de fanáticos, de loucos, de chatos, desses que soltam o grito de “GAAAAALOOOO!” cada vez que um copo quebra no buteco ou estoura um foguete. Mas a explicação está no reconhecimento. Na identidade. Em se perceber Atleticano e reconhecer no outro um irmão que compartilha a mesma paixão.

"Time e torcida estavam juntos naquele abraço doído e doido. Como tantas vezes o atleticano esteve junto com o time. Qualquer time. Nada é mais atleticano que aquilo: um time que se comportou como o torcedor. Solidário na dor, irmão no gol. O atleticano é assim: tem a coragem do galo, mas não a crista. Luta e vibra com raça e amor. Mas não se acha o dono do terreiro. Sabe que precisa brigar contra quase tudo e contra quase todos. Até contra o vento, na célebre imagem de Roberto Drummond. Aquela que fala da camisa preta e branca pendurada num varal durante uma tempestade. Para o escritor atleticano, ou, melhor, para o atleticano escritor, o torcedor do Atlético sopraria e torceria contra o vento durante a tormenta." (Mauro Beting sobre o inacreditável vice do brasileiro de 1977 que também poderia ser sobre o não menos inacreditável título da Libertadores de 2013) Foto: retirei do Facebook do Zeca Espora

“Time e torcida estavam juntos naquele abraço doído e doido.
Como tantas vezes o atleticano esteve junto com o time. Qualquer time.
Nada é mais atleticano que aquilo: um time que se comportou como o torcedor.
Solidário na dor, irmão no gol.
O atleticano é assim: tem a coragem do galo, mas não a crista.
Luta e vibra com raça e amor. Mas não se acha o dono do terreiro.
Sabe que precisa brigar contra quase tudo e contra quase todos. Até contra o vento, na célebre imagem de Roberto Drummond.
Aquela que fala da camisa preta e branca pendurada num varal durante uma tempestade. Para o escritor atleticano, ou, melhor, para o atleticano escritor, o torcedor do Atlético sopraria e torceria contra o vento durante a tormenta.” (Mauro Beting sobre o inacreditável vice do brasileiro de 1977 que também poderia ser sobre o não menos inacreditável título da Libertadores de 2013)
Foto: retirei do Facebook do Zeca Espora

Mas por que nascemos há 106 anos? Por que contamos assim a nossa identIDADE? Acaso nascemos predestinados? Ora, o futebol tem razões que a própria razão desconhece. Não é hoje o momento de teorizar a respeito da sociologia no futebol. Não cabe a mim fazê-lo e eu jamais tive tal pretensão. Hoje, no dia do GALO e do Atleticano, assim como em todos os outros, só cabe a nós amar o GALO acima de todas as coisas. Porque dele se extrai o único grito capaz de acalmar, o som do hino que nos arrepia, as cores que pintam a nossa pele e o sentimento que carregamos no coração. Se é verdade que desconhecemos a razão também é verdade que reconhecemos no Clube Atlético Mineiro a promessa, talvez a única possível promessa de amor eternoː “Uma vez até morrer!”

Torcidas, torcidas, preconceitos à parte

Antes de começar esse texto, algumas perguntasː

Você julga pessoas por amarem alguém do mesmo sexo?

Você tem amigos homossexuais e não é o fim do mundo?

Você acha mesmo que amar alguém do mesmo sexo influencia no bom futebol que a pessoa em questão pode apresentar?

Eu posso apostar que você conhece torcedores homossexuais do seu time e isso é ok.

Na última quarta-feira, na estreia do Cruzeiro fora de casa pela primeira rodada da fase de grupos da Libertadores, milhares de torcedores brasileiros se revoltaram contra o manifestação racista da torcida do Real Garcilaso do Peru. Durante o segundo tempo sempre que o jogador cruzeirense Tinga pegava na bola, parte dos torcedores peruanos imitavam macacos. A atitude, claramente considerada racista, foi alvo de repúdio de grande parte dos brasileiros, que manifestaram apoio ao Tinga nas redes sociais, pelo Twitter com a tag #FechadoComOTinga (em referência ao bordão usado durante da campanha do time celeste no ano passado – #FechadoComOCruzeiro).

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Alguns torcedores e comentaristas chegaram a levantar a questão das ofensas machistas e homofóbicas, mas parece que não surtiu muito efeito. No primeiro clássico mineiro deste ano, no Independência com torcida única, a torcida do GALO não hesitou em gritar “Dagoberto Viado” quando o atacante cruzeirense pegava na bola ou reclamava alguma falta. Te dou coerência?

Foi lembrado que a torcida do Cruzeiro durante um jogo contra o Vôlei Futuro tentava ofender o jogador Michel chamando-o de “viado”. Que torcidas de todo o Brasil (incluindo a do GALO e do Cruzeiro) hostilizaram o jogador Richarlyson com adjetivos homofóbicos. Que “maria”, “franga”, “crugayro”, “bichas”, “Gaylo” entre outros por todo o Brasil afora mostram como esse tipo de preconceito ainda precisa ser desconstruído. Em toda a sociedade e consequentemente no futebol.

Curiosamente nessa semana que passou, no mesmo dia do jogo entre Cruzeiro e Real Garcilaso travei um debate num grupo de torcedores do GALO que me rendeu a remoção do grupo. Após questionar as ofensas homofóbicas feitas à nossa torcida rival e ouvir que isso era “tradição”, tive que assistir o pessoal do mesmo grupo repudiando ofensas racistas contra um jogador do mesmo clube rival.

Bom, vamos falar um pouco sobre usar “tradição” para legitimar o preconceito. A escravidão foi abolida oficialmente no Brasil em 1888. Vivemos séculos em um sistema no qual instituições como o Estado e a Igreja justificavam o tráfico e a escravidão de negros (também de índios) e até o racismo se tornar alvo de repúdio como atualmente, muito tempo se passou. Infelizmente não foi o suficiente pra acabar com o racismo – aqui ou no mundo -, sobretudo porque temos no Brasil, diferente de em países onde houve segregação racial de fato, um “fenômeno”ː o racismo velado. É quando as pessoas só são racistas quando ninguém, tá olhando, sabe? Porque afinal, é “feio” ser racista.

Mas por que mesmo não sendo especialista em história eu recorri a ela pra falar sobre a incoerência das ofensas no futebol? Bom, Saffioti em seu livro “O Poder do Macho” afirma que o sistema de dominação é construído por uma “tríade”ː capitalismo, racismo e patriarcado. Logo, fazer coro a qualquer um desses fatores não é “tradição”, tampouco “opinião”. É opressão.

Dizer que “é brincadeira”, “piada” também só mostra que tem uma galera aí que não lida muito com análise do discurso, né?

Por isso da mesma forma que hoje repudiamos o racismo e a torcida do GALO se orgulha bastante por sempre ter negros nos seus times e combater o racismo no futebol desde sua criação, imaginem o quanto pareceremos ridículos quando finalmente a homofobia e o machismo, que constituem o patriarcado, forem derrotadas? Ou melhorː quando o amor vencer?

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Em tempoː *combater racismo com xenofobia (como fez o diretor cruzeirense Alexandre Mattos chamando o Peru de “lugar pequeno, que não devia nem existir futebol”) nunca será a saída para um futebol sem preconceitos e mais democrático. Parte da torcida de um clube não representa todo o povo peruano.

*O que se critica aqui é a tentativa de ofensa, porque afinal ser homossexual não é ofensa alguma. Mas tentar ofender alguém pela orientação sexual, etnia ou crença ainda é uma burrice injustificável.

Não é sobre o Lulu Santos

Sou da época que o Twitter era um tipo virtual de obituário ou onde a gente ficava sabendo primeiro dos babados (quando os fãs do Luan Santana ainda deixavam a gente se atualizar com os Trending Topics). Então quando vi a galera falando de “Lulu” eu achei que o Lulu Santos tinha morrido. Só ontem fui saber que se trata de um aplicativo onde, basicamente, as mulheres podem escrever resenhas sobre os homens e trocar entre si como anônimas.

Como bem lembrado pelo Raiam Maia: sou da época desse aplicativo de avalição das pessoas #LuluOldSchool

Como bem lembrado pelo Raiam Maia: sou da época desse aplicativo de avaliação.

Em que pese os argumentos da Ariane Silva e o fato positivo de um aplicativo feito por uma mulher para mulheres e até a entrevista da criadora que se considera feminista e disse que o aplicativo tem o objetivo de criar um ambiente pra toca de ideias entre as mulheres, eu discordo que seja um aplicativo feminista. Olha, eu nem precisei baixar o tal aplicativo e mesmo lendo a tradução do que seriam os objetivos dele, não vejo como compartilhar a avaliação dos caras seja algo feminista.

Alguns caras chamaram de “vingança”, mas logo alguém lembrou que já existe um aplicativo que avalia mulheres o tempo todo sem o nosso consentimento e o nome dele é MUNDO. Daí outro disse que “as próprias mulheres são machistas”, não gosto de repetir muito, porque já disse isso em outro texto meu. Mas se as mulheres são machistas, isso não é motivo pra minimizar a luta feminista, pelo contrário só a torna mais urgente. E numa sociedade onde até o crime de gênero é naturalizado, quem não é machista? Mas aí está a explicação do porquê acho que o Lulu não tem nada a ver com feminismo: simplesmente porque feminismo não é o contrário de machismo. Não vejo, como feminista, que num mundo ideal eu possa fazer com os homens o que eles fazem com as mulheres. É meio Teste de Bechdel, sabe? Acho que o feminismo expande os horizontes das mulheres e nos faz perceber que homens não são o centro do nosso mundo.

Buá!

Buá!

Então meu ponto sobre esse aplicativo que tanto ta dando o que falar é: mesmo depois que MENINAS (sempre bom lembrar que as vítimas em questão têm gênero) perderam suas vidas – literalmente ou não -, cá estamos nós de novo, banalizando o sexo e brincando com nossas relações pessoais.

Em um mundo onde a sociedade e a mídia superestimam o sexo e a sexualização de forma cada vez mais precoce, mulheres ainda são julgadas por gostarem e fazerem sexo. Na verdade acho que isso incomoda mais os caras que o julgamento e as notas, mas enfim.

Acho que todo o chororô dos caras só reflete a incapacidade de admitir privilégios. Lembram daquela propaganda da Gillette que dizia que mulheres preferiam homens lisinhos? Pois é, a depilação já é uma imposição pra mulheres há décadas. Então quando mexem com eles, logo ficam putinhos. Acho que o positivo nisso tudo tem sido a discussão, mas de forma alguma concordo que seja feminista. É só bobo. E também acho tosco esse negócio de avaliar as pessoas. Afinal, penso que se as pessoas se preocupassem mais em fazer sexo e menos em avaliar e compartilhar isso uns com os outros: #MenosMeninasSeMatariam #TeríamosFodasMelhores #AsPessoasTeriamMaisSensoDeHumor.

Sem "iuzómismo", ok?

Sem “iuzómismo”, ok?

UPDATE: Participei de um debate esta manhã na Rádio Universitária da UFES às 10h, sobre o Lulu o Tubby e o machismo contemporâneo, com o Tiago Alves Pereira (membro do Fórum de Homens Pelo Fim da Violência Contra a Mulher), a Catarina Dallapicula e a Karina Moura do Fórum Capixaba de Mulheres e estamos todos juntos pelo fim do machismo e na luta por uma sociedade mais justa. Além disso, gostaria de enfatizar o rumo que tomou, nessas duas semanas de aplicativos, o quanto a falsa simetria tem contribuído para uma visão errada das relações entre homens e mulheres.

O chororô masculino em torno do Lulu me pareceu tão descabido e por isso usei as imagens acima para ilustrar o texto, porque afinal ao menos eles tinham a opção de se descadastrar do tal aplicativo, né? Daí aparece um aplicativo que propõe uma “vingança” (sinto dizer, mas chegou com alguns séculos de atraso), mas especificamente para nos avaliar sexualmente. Não preciso dizer que não foram os homens que foram cerceados por sua sexualidade a vida toda, mas as mulheres, logo isso tende a nos trazer mais constrangimento. Imagina nossos pais, chefes e namorados lendo #EngoleTudo, #DáDePrimeira e serm ser moralista (acho que já ficou claro que não sou), mas enquanto no Lulu as hashtags se propõem a serem engraçadinhas (claro, ninguém quer ser avaliado, mas não é o fim do mundo), o Tubby tende a ser escrachado mesmo e até o momento tem registrado problemas para o descadastro do perfil das usuárias.

Como muito bem exemplificado na Página “Agora é que São Elas” da Clara Averbuck, Mariana Badarra e Nádia Lapa, em post de autoria da Iza Perkoski: “A situação está extrema. O Lulu está servindo como ferramenta para as mulheres destruírem a vida dos homens.
O Cláudio, essa semana, foi expulso de casa pq recebeu quase 40 avaliações e o pai dele não aceitou ter um filho que não se dá ao respeito. O Rafael perdeu o emprego, porque a chefe dele ficou sabendo que ele recebeu a hashtag #naoliganodiaseguinte. O Pedro teve que abandonar a faculdade, de tanto bullying que sofreu, porque recebeu a hashtag #maisbaratoquepãonachapa.

O Fernando sofreu uma tentativa de estupro, porque a nota dele para compromisso era muito baixa e o número de avaliações altíssimo, então é claro que ele queria transar – ainda mais recebendo nota 10 no sexo. Não dá pra deixar passar. Quando ele foi prestar queixa, o delegado perguntou pra ele por que ele não tinha desativado o perfil. Afinal pra que um homem direito vai ficar se expondo desse jeito na internet? Pra que isso? Bem que devia estar pedindo por isso mesmo, esse vadio. Piranho. Putão.”

Via Arte Destrutiva

Via Arte Destrutiva

É isso, galera. Querer comparar é ridículo, é falta de noção. Falta de conversar com mais mulheres, como deu a dica o Felipe Pacheco ou vai ver tem gente que nunca saia mesmo da puberdade, como observou a Nádia…

Outro observação muito pertinente feita pela Catarina e complementada pelo Tiago no debate de hoje foi a heteronormatividade dos aplicativos, afinal somente homens podem avaliar mulheres e mulheres podem avaliar homens. Os plicativos não consideram as diversas combinações de relacionamentos homossexuais que podem existir e novamente aparece (no caso do Lulu) o “homem provedor”,, “bom partido”, que deve encher a mulher de presentes e joias e pagar a conta para obter uma nota mais alta. O que também é parte dessa heteronormatividade, visto que “agrega” às características do “macho alfa”. É uma prova de que o machismo também oprime os homens.

O Dia que me tornei Atleticana

O ano de 2013 tem sido realmente bom para o Atleticano (tirando o nosso maior rival na liderança e a contusão do Ronaldinho). O primeiro semestre foi perfeito, coroado com o título inédito da Copa Libertadores da América num dia considerado por muitos o “mais importante de suas vidas”. Eu discordo. E é sobre isso este texto, sobre o dia mais importante da minha vida: o dia que eu me tornei Atleticana.

Em se tratando de times de futebol num país cujo esporte tem tradição e dimensão, é comum ouvir das pessoas que já se nasce torcendo pra tal time. Mas eu gosto muito de Rousseau, então costumo dizer que “todas as pessoas nascem Atleticanas, mas a Globo e a CBF os corrompe”. Brincadeiras a parte, não é difícil argumentar que bebês recém-nascidos mal sabem o que é um escanteio, quanto mais pra que time torcer. No meu caso e acredito que na maioria deles, a influência foi a família. Meus pais são Atleticanos. Na verdade, só meus avós maternos e tia (irmã da mamãe) eram cruzeirenses. No restante da família é o preto e branco que predomina.

O GALO sempre foi algo presente na minha casa, então aos 6 anos eu já sabia cantar o Hino todo sem errar. Me considerava Atleticana. Aos 7 eu já jogava futebol em campo society e futsal e tinha o uniforme completo. Ao contrário do meu irmão, que também se dizia Atleticano, mas não praticava o esporte nem gostava tanto quanto eu. Mas foi aos 8 anos que eu realmente me tornei Atleticana. Nessa idade, eu já entendia bastante de futebol para uma menina (a até para um menino, se considerarmos a relação do meu irmão com os videogames). E foi num jogo pela primeira fase do campeonato mineiro, um GALO x América-MG que eu pude ter certeza e que “doutor eu não me engano, meu coração é Atleticano!”. Tive certeza porque foi a primeira vez que torci de verdade, que sofri, rezei, ajoelhei. Que eu fiquei fascinada pelo time que tinha Marques, Veloso, Guilherme, Lincoln e cia.

Desde aquele dia, o GALO esteve presente em todos os momentos da minha vida.

Desde aquele dia, o GALO esteve presente em todos os momentos da minha vida.

Quando os cruzeirenses me chamam de “sofredora” eu não ligo, porque é verdade. Minha relação com o GALO é de puro sofrimento, de pessimismo. Uma vez um cara me falou: que loucura! Vocês torcem xingando os próprios jogadores! E xingamos mesmo. Só para no próximo momento, no toque de classe ou no gol de canela, exaltarmos seu nome e exigirmos sua presença na lista de convocados pra seleção nacional. O professor Idelber Avelar, Atleticano também, bem sabe dessa relação e classificou o Atleticano como Hegeliano. Nada faria mais sentido. Além do pessimismo que permeia o Atleticlericanismo Ortodoxo (sim, temos nossa própria religião!), o sentimento do “se não for sofrido, não é GALO” é como uma penitência a ser cumprida para alcançar o reino dos céus, ou no caso, o do gol no último minuto, na defesa do pênalti aos 48 do segundo tempo (“autoriza o árbitro Patricio Polic, Riascos parte pra bola…DEEEEEEEEFENDEU, VICTOR!”). Tudo isso é que move o Atleticano. A vitória? Os títulos? Sempre enxergamos distante. É mais gostoso gritar “Eu acredito!” num cenário adverso. Uma coisa que o Atleticano preza: nunca comemorar o título antes da hora. Dá azar! A gente bem lembra do Rosário Central…

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Eu fui aprendendo a torcer dessa maneira, onde cada jogo era uma final de campeonato. Muitas vezes achei que meu coração não ia aguentar. Seja por tristeza ou alegria imensa. Essa dialética hegeliana, que perpassa o espírito Atleticano é que nos move de fato a cada jogo. Seja contra o Barueri ou o Bayern de Munique. Eu não perco um jogo do GALO desde os meus 8 anos. Posso contar a história da minha vida em jogos do GALO, lembrar times inteiros. Ir do céu ao inferno, só para lembrar novamente como é bom viver de Atlético. Porque o futebol pra nós é mais que um jogo, acontece na vida, como no gramado. O Atleticano sabe que futebol é a mais bela metáfora da vida. É sobre o gol celebrado versus a bola que pega no travessão. Um segundo que pode mudar o mundo pra sempre.

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Ainda no mesmo ano que me tornei Atleticana, vi o GALO ser campeão mineiro sobre o mesmo América-MG com um gol de pênalti de Lincoln. Vi a final do campeonato brasileiro e assim como Belletti, sai pouco antes do fim do jogo e desolada com o resultado, encostei no meu próprio túnel e chorei novamente. Vi mais duas boas temporadas antes que os anos 2000 engolissem meu time em uma década de decepções ou quase-decepções. Até 2005, com a queda pra série B do brasileiro, o fundo do poço. O inferno. Eu nunca deixei de acompanhar o GALO ou de vestir a camisa, nosso manto sagrado. Porque é algo que me define. O Atlético me define profundamente, melhor que qualquer descrição. Dele é possível saber que sou mineira, que sou apaixonada por tudo que faço. É verdadeiramente a celebração da minha identidade. É por isso que não vejo como fanatismo escolher o Hino do GALO para receber meu diploma de formatura. O que me definiria melhor naquele momento que os versos do “lutar, lutar, lutar, com toda a nossa raça pra vencer!”. A Massa (nossa torcida tem nome próprio!) gosta de ser reconhecida como Atleticana. Fazemos do nosso trabalho o Atlético, da nossa bebida, da nossa vida. Por isso eu concordo com qualquer um que venha nos chamar de loucos, de chatos, de fanáticos, exceto, como sempre corrijo, de que somos apenas “apaixonados”. Se nos chamam assim, se acham loucura a nossa paixão, é porque aprenderam a torcer diferente, a amar diferente. Porque para o Atleticano, o Atleticlericanista Ortodoxo, amar o GALO acima de todas as coisas é o primeiro mandamento.