Carta para Camila

Querida Camila,

Escrevo para te parabenizar pelo excelente carta à Marina Silva. Pela repercussão, o alto nível do debate e por confiar a mim a publicação do seu texto, quero novamente reforçar a nossa parceria e dizer que o Vã Filosofia está de posts abertos para suas palavras sempre tão necessárias.

Sabe Camila, vejo cada vez mais mulheres se identificando com os textos no blog e percebo a urgência de que elas tenham mais espaço e voz. Vejo também que muitas pessoas, sobretudo homens, criticam e tentam minimizar nossa luta. Penso que o feminismo, muito mais que odiado, é temido. Alguns ainda não sabem lidar com isso, porque o feminismo foi a ferramenta política encontrada pelas mulheres para levar a público questões que antes eram escondidas nos ambientes privados. Da violência até os nossos anseios como sujeitos de direito, me emociono quando vejo mulheres de todas as idades contando, mesmo que timidamente pelos comentários, suas batalhas cotidianas. Tento compreender que alguns homens se sintam incomodados, porque muitos não compreendem que esta não é uma luta contra eles, mas contra um sistema que também os oprime.

Peguei emprestado lá do facebook.com/donacoletivo

Peguei emprestado lá do facebook.com/donacoletivo

Tenho no blog uma política muito clara quanto aos comentários: ofensas e discurso de ódio não são publicados. Por outro lado, tento responder com respeito cada pessoa para que possamos manter o diálogo e criar um canal de comunicação cada vez mais democrático. Afinal, não adianta falar para as mesmas pessoas. Isso demora e dá um grande trabalho, mas acho que tá valendo a pena, porque ao invés de se deparar com os comentários raivosos de costume, as pessoas veem que ali tem alguém como elas, que pensa e sente e que merece ser tratada com o mesmo respeito. Às vezes aparece um comentário engraçado, que pouco ou nada tem a ver com o tema. Dizem “mas eu sou assim”, “comigo é assim”, como se isso provasse o todo, como se fosse uma verdade absoluta e incontestável; como se não fôssemos tão diferentes. Outras vezes é mais complicado, como quando pensam que preconceito é “opinião pessoal”. Sei que muita gente acha que moderar os comentários é uma forma de censura. Eu penso o mesmo. Mas você não concorda que o ódio deve ser censurado? Acho que as mídias já propagam muito ódio, principalmente contra as mulheres, então espero que o blog seja um espaço de solidariedade.

Lembra que te disse que estou lendo “Profissões para mulheres e outros artigos feministas” da Virginia Woolf? Decidi te escrever, para dizer o quanto percebo que somos mais julgadas quando escrevemos, pois temos, como você disse na carta à Marina Silva, sempre que provar que sabemos o que estamos dizendo. O quanto desprezam nossas histórias, o quanto querem nos silenciar. Nos chamam de loucas porque em um mundo que considera normal a misoginia, só podemos ser umas desajustadas. Criticam nossa aparência, como se parecer bela fosse nosso único objetivo e função e como se não pudéssemos ser belas em nossas diversas formas. Os padrões de beleza aliás, parecem cada vez menos modelos a serem seguidos e mais uma maneira de nos domesticar.

Quem topa? =)

Quem topa? =)

Passei tanto tempo apenas lendo e revisando os textos de outros e com medo de escrever os meus próprios, que agora faço questão de me posicionar, gritar e lutar para que mais mulheres façam o mesmo. Por isso quero que o blog seja também um espaço para que mulheres que se identificarem com essa luta possam contar suas histórias e pontos de vista. Quero também contribuir o máximo possível para fortalecer uma rede de mulheres que escrevem e quero colocar à disposição delas minha amizade e sororidade, como um dia fizemos nós duas, quando começamos a militar juntas no Movimento Estudantil. Quero construir um mundo onde as mulheres percebam que apesar das diferenças que nos separam, precisamos continuar juntas. E que a luta de cada uma delas será também a nossa luta.

O blog já me presenteou com amigas que eu tive o prazer de conhecer, conversar e hoje posso chamar de irmãs. Então espero que esta carta também chegue a elas: Marias, Clarissas, Thayanes, Paulas, Robertas, Thaís, Malus, Larissas, Natálias, Luaras, Jonas, Andressas, Letícias, Maíras e Tânias. Que não tenho a pretensão de estar acima de ninguém ou de me tornar parte de uma vanguarda, porque o blog vai além do ego. É mesmo um coração cheio de letras e eu quero compartilhar isso com todas.

Obrigada por me ouvir sempre que precisei, Camila. Obrigada por me “ouvir” agora e por compartilhar sonhos e a vontade de sonhar. Deixo por fim um convite que estendo a todas que também estiverem lendo essa carta: vocês querem construir um mundo novo de sororidade e igualdade comigo?

Da sua amiga, companheira e futura madrinha de casamento,

Luara

Black Blocs: fascistas ou a esquerda tradicional que amarelou?

Por Camila Moreno e Luara Ramos*

As manifestações de junho de 2013 ainda não tiveram respostas efetivamente institucionais no que tange a política brasileira. Salvo a revogação do aumento da passagem em São Paulo e o congelamento das tarifas do transporte (que deveria ser) público em algumas cidades brasileiras, muito ainda precisa ser dito, pensado, analisado e não são poucos os “especialistas” que vestidos da costumeira arrogância da Academia e/ou da Grande Mídia tentam em vão explicar tudo o que está acontecendo desde então. Este texto, no entanto, não tem a pretensão de apontar verdades definitivas ou mesmo soluções. Esta é só a opinião sobre alguns fatos que mais recentemente movimentaram o Brasil e especialmente sobre a contradição quem tomando a esquerda no que se refere à criminalização da tática Black Bloc e consequentemente dos movimentos sociais.

A mesma mídia que tanto louvou as manifestações no início, agora que acabar com elas. Para isso, nada melhor que um cadáver. E não bastou o do Amarildo, não bastou o manifestante atropelado, não bastaram as balas perdidas da Polícia. O cadáver deveria ser de um “deles”. E deveria vir de um manifestante Black Bloc. Que a mídia é sedenta por condenações (linchamentos) públicas todo mundo já sabia, mas que parte da esquerda absorveria esse discurso sem qualquer análise mais complexa é de doer na alma.

Não pensamos que viveríamos pra ver gente que se diz de esquerda, batendo no peito pra repetir e forma uníssona com a mídia que os Black Blocs são assassinos, fascistas e que por isso, devem ser extirpados, marginalizados, criminalizados.

“Ah, mas eu sou contra protesto com violência”

“Pra quê escondem os rostos?”

“Jogaram bomba com intenção de matar alguém”

“Esse grupo é fascista”

Repete fervorosamente parte da esquerda. As justificativas injustificáveis se somam ao desconhecimento historiográfico, afinal foi assim quando sequestraram o embaixador, foi assim na Guerrilha do Araguaia, é assim quando o MST ocupa uma terra, um ministério. Eles escondem os rostos (e não são todos) porque a polícia joga bomba, que arde o olho, porque há fumaça e perseguição. Além disso, não foram os manifestantes de junho que inventaram bombas em protestos contra a repressão da polícia. Por fim, a parte do fascismo é mero oportunismo ou falsa simetria mesmo, porque ou você não conhece nada do fascismo, ou você chama tudo o que é contra o que você acredita de fascista.

É claro que muita gente não vai aceitar a comparação da atuação dos Black Blocs com as de um “Regime de Exceção”. Mas vamos lá, quem diz que naquele tempo não se “escondia o rosto”, provavelmente se esquece que muitos companheiros usavam outros métodos, inclusive mudar de aparência e nome. E se entre as características mais fortes de um regime de exceção é justamente a arbitrariedade, como chamar a uma polícia que cotidianamente comete abusos e não é investigada, chamar de fascista quem se volta contra o que têm violentado um povo (seja a polícia, o Estado ou a Grande Mídia) parece mais fascista que a tática dos manifestantes, não? Claro que não estamos justificando morte alguma, estamos apenas pontuando que a triste morte do cinegrafista da Band não foi a única durante as manifestações e ao pontuar não pretendemos desprezar a dor dos familiares de Santigo Andrade, mas relembrar as mortes causadas em outras manifestações (a maioria delas pela polícia) e evitar que morram novamente. Do esquecimento, da edição midiática pela criminalização dos movimentos sociais, da falta de análise crítica que se apoderou de certa parcela da “esquerda” para quem a mídia só é fascista e sensacionalista se disser algo contra o que acreditam.

Outra “justificativa” que arde os olhos é a de que seriam todos “playboys” e por isso, o movimento deles não é “de luta”. Quer dizer, que tem que tá no CadÚnico pra ser reconhecido como manifestante legítimo agora? Pensamos que a Revolução Russa já havia superado a questão entre “origem de classe” e “opção de classe”. Parece que não.

Por que ao invés de criminalizar os Black Blocs e tentar tratá-los de forma maniqueísta (“ame-o ou deixe-o”) a esquerda tradicional não se questiona de que forma eles cresceram tanto, dão conta de organizar um protesto tão rápido? Por que será que enquanto a esquerda tradicional se afasta dos movimentos sociais, da juventude (juventude de gabinete não vale), esses novos movimentos ganham militantes e simpatizantes? Por que é tão difícil admitir a crise institucional pela qual passa nosso país e dar passos mais largos para uma Reforma Política e na regulamentação dos meios de comunicação que democratize de verdade a nossa democracia?

Suponhamos então, que esse pensamento seja complexo demais. Sério que ninguém achou estranho todo o contexto que envolvem as acusações? Ninguém acha estranho que os manifestantes que se entregaram sejam defendidos por um advogado (de miliciano) caríssimo, que foi até eles oferecer ajuda? Nenhum estranhamento sobre o advogado sair acusando que a prima do irmão do cachorro vai na mesma Petshop da mulher que tem ligação com o Freixo? Ninguém acha o cúmulo do absurdo o cara das imagens ser branco e o cara que se entregou ser negro?

Via Blog do Rovai (revistaforum.com.br)

Via Blog do Rovai (revistaforum.com.br)

Por que será que a mídia não ficou tão triste, não cobriu a missa, não fez editorial  e nem sequer noticiou amplamente a morte de outro cinegrafista da mesma emissora, também trabalhando como o Santiago, morto por uma bala. Ah é, essa morte foi causada pela polícia e a polícia, que mata todo dia, não merece linchamento público, não é?

São informações totalmente desencontradas que em nada contribuem com o debate político acerca do rumo das manifestações. Enquanto uns se utilizam da ~luta de classes~ pra tornar o debate mais superficial possível, outros levantam que existem manifestantes que recebem dinheiro.

Pera, xô colocar aqui no meu currículo: Manifestante Profissional.

Pera, xô colocar aqui no meu currículo: Manifestante Profissional.

Mas até aí, tem sindicalista e dirigente partidário recebendo pra ir a atos e realizar eleições internas, né?

O pedido de “endurecimento” ou até mesmo a criação de uma lei para coibir novos atos de “violência” também não fecham a conta. Onde em um país com uma das maiores populações carcerárias, prender e criminalizar foi a solução? Cabe também fazer um recorte de gênero, afinal, a maioria dos encarcerados em penitenciárias brasileiras são negros e pobres. Como também são negros Caio Silva, acusado de ter atirado o tal rojão contra o cinegrafista Santigo Andrade e Rafael Braga Vieira, preso em junho do ano passado por portar material de limpeza e condenado a 5 anos de prisão em regime fechado.

Sobre a nossa opinião sobre Black Blocs, acreditamos sim que a tática tem afastado o povo das manifestações e que falta mais autocrítica aos que pretendem executá-la. Mas daí a achar que manifestantes que se utilizam da tática Black Bloc são fascistas, golpistas, tucanos disfarçados (HAHAHAHAHAH), coxinhas é muita desonestidade ou preguiça de fazer um debate profundo sobre a questão. Mas da mesma forma, os jovens brasileiros, que se manifestam ou não, aderindo a tática Black Bloc ou não, acham que violência maior é se aliar ao Jader Barbalho no Pará ou (tentar em vão) defender a Roseana Sarney no Maranhão. Ou a Kátia Abreu. Ou qualquer um sob a justificativa da “governabilidade”. E é por isso que nossa democracia anda desbotada. Porque quem deveria lutar ao lado de bandeiras populares e históricas, deixou o vermelho de lado e anda amarelando.

*Camila Moreno e Luara Ramos são petistas, querem colorir a esquerda de todas as cores e acham que a esquerda tradicional não tem que ser tão tradicional assim

Link pra matéria do Blog do Rovai sobre as investigações da morte do cinegrafista da Band por Rojão aqui

Dois lados da mesma piada

O humor é sem dúvidas um dos melhores aliados da socialização. E um dos melhores recursos também. Particularmente adoro o humor nas mais diferentes áreas da minha vida. Pessoal e até profissional. Inclusive nos meus trabalhos e portfólio. A profissão na qual me formei tem um estigma de “engraçadões”. Publicitários têm um sério problema (destaque para a ironia) em se achar na obrigação de serem engraçados. Então criam logo suas contas no Twitter e se arvoram no direito de fazer piadas sobre tudo e todos e a se assumir paladinos da defesa do “Humor Livre”.

-Mas qual o limite do humor pra você?

-O humor não pode ter limites!

-Isso é censura!

-O objetivo do humor é apenas o riso!

Muito engraçado, caras! #Sqn

Muito engraçado, caras! #Sqn

Não sei se porque as agências andam exigindo jornada tripla, os clientes pedindo pra aumentar o tamanho da marca ou os freelas pagando atrasado, mas os publicitários parecem que alimentam a esperança de serem os novos “talentos” do stand up brasileiro. Ou preencherem a cota de publicitário babaca do BBB do ano. Acontece que, e para isso é que escrevo esse texto e não para afrontar meus colegas de categoria, sinto dizer a vocês, mas a zuera tem limites =(

Sabe o que não tem limites na vida (como bem disse a Samantha Pistor, beijo linda!)? As tretas.

As pessoas se dividem emː oprimidas e as que internalizam a opressão, reclamam que o politicamente correto tá tornando tudo mais chato. Eu nunca vi nada sob o título de “politicamente incorreto” que não fosse completamente preconceituoso, machista, racista e valesse desse título só pra dizer “ó, não tenho compromisso com nada a não ser com meu próprio umbigo”. É pura desonestidade intelectual, preguiça de pensar nos outros. E nós vivemos em sociedade. Ou seja: pessoa vive em sociedade e quer pensar só nela e nos próprios direitos. É mesquinho! Daí eu digo a vocês: vejam o politicamente correto como uma forma de apurarmos o nosso bom senso e o nosso humor para fazermos piadas com os opressores e não com os oprimidos.

Um documentário muito legal (abaixo) que aborda o universo do stand up brasileiro é O Riso dos Outros. Eu não quero deixar spoilers, mas com ele aprendi algumas coisas importantes que vale a pena dizerː

  1. É importante saber de que lado da piada você está.
  2. Tem lugares que não cabe uma piada.

Não quero me estender muito então vou passar logo pro real motivo que me levou a escrever esse texto. A esta hora muitos de vocês já devem ter ouvido (e eu espero que sim porque é realmente genial) a marchinha O Baile do Pó Royal, uma referência clara ao episódio do helicóptero da empresa dos deputados Gustavo Perrella (SDD-MG) e Zezé Perrella (PDT-MG), apreendido com quase meia tonelada de pasta de cocaína no ES no final de 2013. A marchinha, além da referência aos políticos mineiros, também explicitaram a aliança conhecida por muitos, mas abafada pela mídia, destes com o também senador e presidenciável Aécio Neves.

Sutil e na forma de cacofonias, que são combinações do final de palavras com o início das seguintes, a marchinha forma tanto o sobrenome dos Perrella, quando o diminutivo do nome de Aécio Neves (“Aecim”). Além disso, “brinca” com a o rumo que o caso tomou, não dando em nada. No caso da justiça, foi declarado que “não há envolvimento da família do senador com a carga apreendida”. Apesar do helicóptero ser da empresa da família, o piloto ser indicado pelo Deputado sócio e filho do senador Perrella na ALES-MG, estar a serviço dele, ter telefonado pra ele antes, não ter sequer dinheiro pra pagar uma carga deste preço, mas enfim…

Não é de hoje que tenho visto certas “piadas” de tom duvidoso sobre a vida pessoal do senador Aécio Neves. Não é porque é um adversário político que eu acho que vale tudo. Sinceramente não acho. Desde que eu ainda morava em Minas ouço esse tipo de coisa, calúnia e me posiciono sempre de forma contrária. Me recuso a usar esse tipo de argumento em uma disputa política. A mim não interessa que Aécio seja cheirador, beberrão, que seja mulherengo, o que for, nesse sentido. E maisː sempre chamo atenção de companheiros que se valem desses argumentos, compartilham essas coisas para discutir política. Já denunciei a página Aécio Cheirador no Facebook e explico: a esquerda nunca precisou desse debate frouxo e raso. Fazemos um debate muito bacana sobre liberdade individual e antiproibicionista, pela legalização das drogas e de forma alguma devemos criminalizar os usuários. Por isso eu me recuso a fazer esse tipo de “piada”. E aí estão os “dois lados da mesma piada” do título: qual é afinal a diferença da marchinha do Baile do Pó Royal pro Aécio Cheirador? Uma critica o traficante de terno e a outra criminaliza o usuário.

Criticar o traficante de terno é trazer a tona que o tráfico e o proibicionismo são hoje alguns dos maiores problemas da guerra às drogas e têm levado milhares de pessoas (em sua maioria negros e pobres) à morte.  Tornar o traficante de terno uma piada é fazer dele alvo pras pessoas saberem que traficante não é o que mora no morro, não é favelado, “aviãozinho”. Com o perdão do trocadilho, é mostrar que o traficante anda é de helicóptero.

Criminalizar o usuário é tornar a sua conduta uma mancha e numa sociedade hipócrita como a nossa é também motivo de linchamento, de execração pública. No mínimo cruel.

É preciso bom senso pra separar as piadas, apurar o humor e afinar a conduta. Não deixemos (novamente com o perdão do trocadilho rs) que nos tomem como farinha do mesmo saco. Sair do senso comum é um desafio, assim como a gargalhada pode ser um ato de resistência.

NADA SERÁ COMO ANTES (meu relato sobre as manifestações no Brasil e minha participação no Espírito Santo)

*Texto publicado no Facebook em 19/06/2013

Somente na terça-feira de manhã, quando comecei a chorar no banho, é que eu acho que entendi o que está acontecendo no Brasil. Num primeiro momento, vi com preocupação a repressão e a criminalização aos movimentos sociais, mas também o tom das manifestações fez com que eu questionasse o peso e a legitimidade do movimento. O que me fez chorar? Acho que enfim eu estava lavando a minha arrogância.

Na noite da última segunda-feira (17), o ES pode ver com orgulho milhares de pessoas marcharem sob a 3ª ponte. O simbólico do que nos separa, do pedágio, do preço que se paga, do que é proibido ultrapassar, das barreiras invisíveis, virou o que nos une. Eu vinha reclamando da falta de organização, de pauta, de objetividade, não consegui gritar uma palavra de ordem junto com o restante porque tudo me parecia muito classe média, senso comum. Mas quando chegamos mais próximo a Vila Velha, e as luzes dos prédios começaram a piscar, acho que foi uma das coisas mais poéticas que já vivi.
Ora, qual o problema dos prédios serem da Praia da Costa? Qual o problema de ser um movimento de classe média (que de fato é)? Acaso vamos agora exigir comprovante de renda pra manifestação? Deslegitimar as manifestações por todo o Brasil por causa disso, não me parece muito democrático.
Este é de fato um movimento popular, as pessoas estão lutando por causas populares. Há sim um ou outro oportunista, mas se os gritos são por passe livre, investimento em educação e saúde, responsabilidade com o dinheiro público, onerar o estado para garantir mais direitos, é uma manifestação por mais justiça social! E justiça social sempre foi uma bandeira de esquerda. Queremos ser uma democracia e não uma instituição financeira com praias!

Foto: G1

Foto: G1

É portanto nosso papel não deixar que nada seja como antes depois de tamanha mobilização. O que faremos agora que descobrimos que podemos atravessar a ponte todos os dias? É isso que devemos tentar responder.
“Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”.

PARA A ESQUERDA

Este não é o momento de disputar espaços. Vemos a todo o tempo uma galera que se acostumou à disputa pela disputa e ainda não entendeu como isso tudo cresceu sem a sua “organização”. Pura arrogância. Querer organizar o povo sem disputar idéias é algo que nos custou essa dúvida e este sentimento cínico. Devemos agora nos preocupar em disputar os RUMOS desse processo, que devem ser cada vez mais à esquerda.

A ADESÃO DA CLASSE MÉDIA E DA JUVENTUDE

As pessoas estão insatisfeitas e quem de nós não está? Querer julgar que a sua insatisfação é por um motivo mais justo que o do outro também é arrogante. Ora, pela primeira vez em algumas décadas, o povo está na rua em períodos que não são eleitorais. Pela primeira vez a política é o tema mais discutido em todos os lugares: dos butecos aos ônibus. Por idosos e adolescentes. Estes últimos então, devemos lembrar, são filhos do neoliberalismo e consequentemente do individualismo pregado por este sistema cruel. Trazer essa galera pra rua já motivo de comemoração. Negar isso a eles é um erro político e estratégico, uma vez que este talvez seja o primeiro contato de muitos ali com a política. E da forma mais pura. Pela base, pela conquista plena do poder popular. São jovens cansados de ler história e que querem agora escrever a própria história e a história de um Brasil mais justo. Isso é lindo.

AS MÍDIAS CONVENCIONAIS, SOCIAIS E A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

Estamos diante de novos acontecimentos pra comunicação. Na era dos memes, tudo é muito fluido e as consequências disso tudo ainda estão sendo analisadas. Mas alguns pontos merecem destaque, por mais que ainda não saibamos (eu não sei) explicá-los na sua heterogeneidade. Este foi um movimento que se não teve seu início nas mídias sociais, foi organizado, pensado e discutido nas mesmas. Facebook, Twitter, Youtube, entre outros, são plataformas com as quais a juventude está acostumada e que de certa forma, pluralizam as informações e o acesso ao conteúdo diversificado. As próprias petições online, são uma forma de mostrar quantas causas existem e a quantidade de pessoas que se identificam com elas. É o que eu gosto de chamar de “cauda longa dos movimentos sociais” (eu só espero que as pessoas não se acostumem a achar que bastar abanar o rabinho rs ). Já a mídia convencional brasileira ou está confusa ou pensa que estamos em 1964. Já criticou, já mudou de lado, já não sabe de que lado está, mas uma coisa é certa: quer sair bem dessa.

Foto: Folha Vitória

Foto: Folha Vitória

Acontece que o povo já cansou de ser massa de manobra de organizações como a Rede Globo, entre outras. Nas manifestações, sempre que tentaram filmar, tiveram que ouvir que “o povo não é bobo”. É muito bom ver que essa galera também deseja a democratização dos meios de comunicação.
Vejo também a quantidade de smartphones, câmeras semi ou profissionais e as pessoas parando para tirar fotos pra postar nas redes. Parecia pra mim que eles só queriam aparecer, espetacularizar, faziam caras e bocas, mas o que estamos vendo é a documentação, o registro a história, simultânea e com uma rapidez jamais vista. Só que à maneira dessa nova geração. Não seria justo ridicularizar isso. Realmente as máscaras do Guy Fawkes em alusão ao filme V de Vingança e ao grupo Anonymous, bem como os já manjados narizes de palhaço, caras pintadas, flores (faltaram as vassouras rs) me dão nos nervos. Mas a falta de criatividade não pode ser uma forma de minimizar tudo o que estão fazendo.

PAUTA, LIDERANÇA E REPRESENTATIVIDADE

A “falta” de uma pauta foi muito cobrada pelas pessoas, mas principalmente pela mídia. Também o governo em todas as esferas disse que não havia como negociar, pela falta de pauta e de lideranças. Mal sabem eles que não se trata de falta de pauta, visto que as temos e muito. Aliás, muitas. O que essa gente ainda não entendeu é que sim, o movimento não tem liderança e nem deve ter. É descentralizado, mas é popular. Não estamos satisfeitos nem com os acordos e portanto não nos limitamos a criar representações para falar por nós. Estamos nós mesmos nos apropriando do espaço que já é público para falar do que deveria ser público: a política. Esta sim, a política, deve ser mais pública e menos institucional.

O APARTIDARISMO

Sempre vi com receio quando um ato pedia o apartidarismo. Isso porque acho que partidos são instrumentos de organização de um povo em torno de um projeto político e acho isso saudável e democrático. Eu mesma sou filiada ao Partido dos Trabalhadores e tenho muito orgulho em defender e trabalhar por um projeto como o nosso. Acho que como já disse, infelizmente o apartidarismo é um prato cheio pra direita. Esta sim, adora se esconder, fingir que não liga pra nada disso, mas sempre que pode, dá seu jeitinho de impor pautas que não estão alinhadas com os interesses do povo brasileiro. Pautas mesquinhas, que fomentam cada vez mais o individualismo.

Me preocupa também que o apartidarismo vire um anti-partidarismo. Muitas de nós, filiados a um partido político, estamos do mesmo lado daqueles que agora lutam por mais justiça social, por isso, acho ruim que nos neguem mostrar que somos e agregar nossa luta à e todos os demais. No entanto, também entendo que a falta de credibilidade dos partidos começa na falta de credibilidade no sistema político brasileiro, e é aí que entro na questão que considero crucial: Reforma Política.

Foto: TV Gazeta

Imagem: TV Gazeta

REFORMA POLÍTICA E A CRISE NA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA BRASILEIRA

Muitas são as reivindicações, muitos são os gritos e isso se deve ao problema de não-representatividade do povo brasileiro pela nossa classe política. Essas manifestações se tornaram muito maior do que nós imaginamos justamente porque agora não é mais apenas por R$0,20. As pessoas foram agregando suas próprias reivindicações porque não há quem as agregue nos espaços políticos institucionais. É justamente por isso que não devemos reduzir a manifestação aos espaços institucionais. Se o problema começa quando não conseguimos ser representados e desejamos que a democracia seja plena, acho que a pauta maior deva ser a REFORMA POLÍTICA. Ora, muitos manifestantes dizem que são “contra a corrupção”. E por acaso, há alguém a favor? É preciso discutir o que leva à corrupção. Não são as dívidas do financiamento de campanha? E a falta de transparência no poder público? O descaso com o dinheiro do contribuinte? Uma Reforma Política ampla, feita sob o olhar do povo, a meu ver, contempla todas as demais pautas elencadas nas manifestações por todo o Brasil.

AO PARTIDO DOS TRABALHADORES

Aos meus companheiros e companheiras do Partido dos Trabalhadores, creio que mais do que nunca é preciso mostrar que sempre estivemos do lado certo, do lado do povo brasileiro. Devemos nos mostrar neste momento, dignos de nossa história, que levou o povo às ruas pela redemocratização, nas greves gerais, e em tantos outros momentos da história brasileira.

Somos um Partido de massas, o mais popular do Brasil, por isso não podemos achar que este é um movimento contra nós. É o povo que está lá, o mesmo povo que nos confiou por 3 vezes seguidas o governo deste país. Sabemos bem quem tem medo de povo e não somos nós. Até porque nós somos do povo, somos o povo. Não nos assustemos com o oportunismo da direita, porque um prato de macarronada é o máximo de massa que eles conhecem.
Também não é o momento de defender nada. Devemos entender que não se trata de levantarmos nossas bandeiras estreladas, mas reconhecer que o céu é o limite para quem ainda ousa sonhar. Vamos radicalizar nossos sonhos. Defender que nosso partido seja mais representativo com a Reforma Política. Somente com a Reforma Política é que poderemos colocar em prática nosso projeto, sem ficar refém da tal governabilidade.

Estes protestos são também uma conta a ser paga pelo PT por não disputar valores na sociedade. Por isso, disputar os rumos desse processo e do que virá depois dele, é nosso dever. Estamos ou não cansados de “ganhar, mas não levar”? Não avançamos muito em nosso projeto popular devido aos acordos, à política institucionalizada no seio do Partido e o esvaziamento dos movimentos sociais que tocávamos quando nossos quadros foram para a gestão. Vamos voltar pra base, honrar nossa história e mostrar que política se faz no cotidiano e colocar os trabalhadores e trabalhadoras desse país no poder!

CONCLUSÃO

As pessoas que aderiram em massa a este movimento não se sentem representadas, nem sequer ouvidas. A esquerda, por um ranço de arrogância e por se acostumar a discutir mais internamente que com o povo, se esqueceu de disputar valores na sociedade e muitas vezes tenta reduzir o atual processo a uma luta de classes que se existe, não está em divergência dentro das manifestações. A maioria reivindicações vão de encontro às bandeiras históricas da esquerda, portanto é um povo que deseja ampliar direitos e/ou ter acesso pleno aos direitos comuns.

Os manifestantes em sua maioria não acreditam no sistema político brasileiro e por isso não se posicionam partidariamente. Os jovens, filhos do neoliberalismo, mal conseguem distinguir o que é de esquerda e de direita e isso se deve à acomodação da esquerda e à institucionalização dos partidos, que pra jogar o jogo, se esqueceram de questionar algumas regras.
Devemos portanto defender a mudança no sistema político brasileiro e definir os rumos da nossa sociedade cada vez mais para a esquerda, porque somente em um projeto socialista, democrático e de massas é que alcançaremos mais justiça social.

O que significam as vaias à presidenta Dilma na abertura da Copa das Confederações

*Texto publicado no Facebook no dia 15/06/2013

Ainda sobre as vaias à presidenta, não sei o que é pior: os governistas reduzindo o debate à luta de classes ou os alienados se orgulhando ao dizer que agora sim o ”Brasil acordou”.

As vaias não são apenas o preço que se paga pela democracia. Até porque a democracia brasileira ainda engatinha e precisa de uma reforma política muito corajosa pra ser representativa de fato.
Essas vaias são o preço que o governo brasileiro deve pagar por ter se afastado de tudo o que acreditamos (eu acreditei) que ele faria.
O PT ainda é o partido mais popular do país, não há como negar. Mas até onde devemos defender o indefensável? Defender quem de fato mudou o Brasil, mas não disputou valores na sociedade? Até onde vai o apoio a um governo de coalizão que se deixa pautar por bancadas ruralistas e evangélicas e pela mídia?

O Blatter até tentou ajudar, tadinho (sic)

O Blatter até tentou ajudar, tadinho (sic)

Esta última aliás, nós petistas adoramos criticar, mas me digam: como podemos reclamar se foi um governo do PT que engavetou o marco regulatório das comunicações?

Já estamos em processo eleitoral e não há como retroceder.
O que me preocupa no entanto não é a disputa de projetos, porque acho que já ficou claro quem tem projeto nesse país e não é o PSDB do Aécio Neves, nem os proto-partidos que surgem a cada segundo.

O que me preocupa de fato é o que teremos que ceder para levar as eleições de 2014. E se ainda vale a pena ceder, visto o pouco que avançamos nas lutas populares nesses últimos 3 anos de Governo Dilma.

Portanto, que o futebol, que muitos ainda adoram chamar de ópio do povo, seja encarado como uma metáfora. E principalmente, que nós possamos escolher jogar do lado certo: o do povo brasileiro.

A Falácia do “Combate à Corrupção” ou “Como mudar o Brasil de verdade”

Ela é o tema central de 98,5%* dos debates políticos, assim como 78,6%* das estatísticas são usadas e/ou inventadas para provar um ponto defendido pelo autor da pesquisa/texto/artigo. Números (reais ou não) e brincadeiras a parte, o que significa de fato ser “contra a corrupção”? Ora, acaso existe alguém “a favor”? Ou pelo menos alguém que diga isso em público…?

Combo coxinha: bandeira do Brasil, máscara do V de Vingança e pizza. Só faltou a vassourinha pra "varrer a corrupção"... ZzzzzZ

Combo coxinha: bandeira do Brasil, máscara do V de Vingança e pizza. Só faltou a vassourinha pra “varrer a corrupção”… ZzzzzZ

A luta contra a corrupção é uma bandeira tão vazia e despolitizada que não avança, simplesmente porque é política não é um fim em si mesmo. É completamente possível viver em um país sem corrupção e este país ser injusto socialmente. Óbvio que não defendo a corrupção, muito menos acho que corruptos são necessários para o avanço do país. O que quero dizer é que a bandeira contra a corrupção sempre foi usada, sob um discurso fácil e moralista, em períodos diversos da história brasileira. E a verdade é que sempre houveram corruptos e corruptores. Então, não adianta achar que o PT, o PSDB, o Darth Vader e o lado negro da força, o demônio ou quem quer que seja inventou a corrupção. Ela só existe porque existem brechas no sistema político e eleitoral brasileiro. E é sobre isso que trato nos três tópicos seguintes, sobre o que eu considero que pode mudar de verdade o Brasil.

A necessidade de uma Reforma Política

Mais que necessária, a uma Reforma no sistema político nacional é urgente porque ficou claro que acima de tudo, a crise que foi às ruas esse ano é uma crise de representação. Para além da despolitização e do conservadorismo posterior do movimento em questão, as manifestações colocaram a Reforma Política no centro do debate. Isso é bacana, pena que foi esquecido tão rápido e os próprios aliados da base governistas recuaram. É importante observar que a juventude não nega a política. Dizer que detesta política não basta para considerar uma negação do “fazer política”. Esta é uma juventude que quer participar politicamente, mas não vê como fazê-lo num sistema que é submisso ao poder econômico. Por isso, somente uma Reforma Política com participação popular pode mudar a maneira como se faz política no país, sobretudo acabando com o financiamento privado de campanha.

Acabam de criar mais dois partidos no país (o PROS, os contras e o Solidariedade). E ainda estamos acompanhando a novela da Marina com sua Caiu na rede é peixe “Rede Sustentabilidade”. Até o momento o Brasil tem 32 partidos políticos, a maioria sem uma ideologia muito clara.

Não é difícil entender porque os jovens em sua maioria criticam tanto a classe política. Política virou carreira, mas não pode ser assim. Tem que haver renovação, oxigenação – de pessoas e ideias! -, não dá pra ser conivente com a burocratização da máquina pública que só afasta seu povo de onde as batalhas se travam. É importante sim disputar uma sociedade, mas que isso seja feito com base nas ideias e nos ideais. E de maneira justa e igualitária.

Democratização da Comunicação

A comunicação e seus meios são os espaços onde podemos disputar valores na sociedade. Só isso já justifica a democratização da comunicação, mas além disso, pluralizar as vozes é uma das formas mais diretas de se fortalecer a democracia. Garantir acesso aos meios de comunicação, com o fomento a canais populares é uma ótima iniciativa para que mais pessoas possam falar para mais pessoas. Nem vou me estender mais, porque já falei disso aqui.

Reforma Agrária já!

Sim, apesar das manifestações recentes serem urbanas e possuírem demandas diretamente relacionadas ao meio urbano, a Reforma Agrária é fundamental para mudar o Brasil e garantir uma sociedade mais justa. Não é preciso apenas dizer que “se o campo não planta a cidade não come”, é urgente romper com o agronegócio, garantir políticas de incentivo à agricultura familiar e restringir o uso de agrotóxicos. Estamos a cada dia comendo mais veneno porque um “agromercado” decidiu que o lucro é mais saboroso.

É preciso ressignificar o espaço do campo. O trabalhador rural precisa ter vontade de orgulho se permanecer no campo e para isso, precisa de dignidade. Educação no campo, incentivo e acesso ao crédito. Só tomando seu próprio território é que o povo brasileiro vai deixar de estar na mão de um bando de ruralistas que impõe sua política conservadora e arcaica a este país.

No pequeno vídeo a seguir é possível entender mais sobre a questão agrária no Brasil. E entender porque o agronegócio é uma afronta a soberania nacional e dos povos indígenas, quilombolas e tradicionais.

Vamos falar de coisa boa?

Iogurteira Top Therm! Quero concluir dizendo que o combate à corrupção nào questiona o status quo, não tem como finalidade a luta por uma sociedade mais justa. Eu já disse isso lá em cima, mas quero reafirmar para que fique bem claro que toda vez que alguém reclamar que este país “não vai pra frente”, que tem “vergonha de ser brasileiro” e que está protestando “contra tudo isto que está aí” é preciso lembrar que só a política muda as coisas e para fazer política é preciso antes de dizer o que não quer, dizer a que veio.

Sejamos cada vez mais seres políticos e politizados! Que tal defender o que pode de verdade mudar a vida e a história do nosso povo?

*Dados meramente ilustrativos hehehe

**Obviamente tem muito mais coisa que pode mudar. No entanto, depois de muito refletir, considero estes pontos parte de um eixo principal de mudança.

No Cimento*

Desafios da comunicação em diálogo com as intervenções urbanas

Pixa e desabafa!

3ª Ponte, entre Vitória e Vila Velha, no Espírito Santo

As manifestações de junho de 2013 foram até o momento o clímax de um processo de descontentamento com a vida urbana nas grandes cidades brasileiras. Os R$0,20 se tornaram o símbolo do debate sobre mobilidade urbana, direitos sociais básicos e enfim direitos, no sentido mais cru da palavra. Ora, não é a comunicação também um direito a ser garantido? A crise de representação não é só dos espaços políticos institucionais, mas das instituições como um todo. O que nos foi colocado trata de um desafio de repensar a nossa organização em sociedade. Nesse sentido, este artigo pretende tratar especificamente – mas dialogando com o aspecto sociológico, obviamente – da comunicação como parte indissociável do direito à cidade e à vida em sociedade.

É interessante tomar como ponto de partida a discussão do direito à cidade, porque também é uma discussão sobre a organização desta cidade. Park afirma que “ao fazer a cidade, o homem refez a si mesmo” (apud Harvey, 2013, p.27), portanto essa cidade é muito mais feita de carne do que cimento. No entanto, da mesma forma que o termo “homem” não representa a pluralidade das cidades, também a forma como este homem organizou o espaço urbano já não representa mais tantas formas e cores que hoje coexistem nessa selva de pedra. Ainda segundo Harvey (2013, p.31),

A implicação é que nós, individual e coletivamente, fazemos nossa cidade através de nossas ações diárias e de nossos engajamentos políticos, intelectuais e econômicos. Todos somos de um jeito ou de outro, arquitetos de nossos futuros urbanos. O direito à mudança da cidade não é um direito abstrato, mas um direito inerente às nossas práticas diárias, quer estejamos cientes disso ou não.

A preocupação em retomar o debate em torno do direito à cidade ao falar de comunicação e intervenções urbanas se faz necessário na medida em que mais do que delimitar vozes, buscamos ressignificar essas vozes e esses espaços, berços da exclusão econômica, racial, de gênero e tantos outros aspectos sociais. Quando falamos dos desafios da comunicação, trata-se muito menos da velha mídia, que embora tenha dado o tom em alguns momentos, foi na maioria das vezes questionada pelos manifestantes. A própria ascensão da chamada Mídia NINJA (sigla que nada tem a ver com artes marciais, mas com Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), transmitindo as manifestações em tempo real, sem um roteiro ou edição, é uma forma de entendermos porque os meios convencionais de informação não conseguiram acompanhar o processo de globalização pelo qual a comunicação tem passado na Revolução Técnico-informacional. Em um momento onde ainda que com limitações, todos podem ser formadores de opiniões em suas redes, a comunicação convencional, isto é, as redes de televisão e rádio, os grandes jornais e revistas, não conseguem assimilar todo este conteúdo. E também não querem assimilar este conteúdo.

É necessário nesse momento, perceber que não existe um jornal que favoreça candidato A ou B, ou uma rede de TV que quer derrubar presidente X ou ministro Y. O que existe é um modelo de comunicação que no Brasil é monopolizado, centralizado nas mãos de poucas famílias, e que está a serviço do capital. É uma comunicação que quer vender, que deseja lucro e que pouco se importa com o social, por mais que façam campanhas beneficentes e matérias denunciando a corrupção na política nacional.  E ora, demandas regionais não vendem jornais nacionais. O que é notícia para a população, pode ameaçar a propaganda das multinacionais. Não é puro jogo político, é o capital financeiro ditando o que consumimos, vemos, lemos e ouvimos.

Nesse sentido de exclusão e questionamento é que aparece a pichação, que diferente do que é considerado o grafite, não se trata de arte, mas do tão falado “vandalismo”. Ainda que o grafite também traga consigo a provocação, não se trata aqui de definir um ou outro, mas de entender por quê e pra quê se picha. E quem picha? As pichações são, no contexto urbano, também uma forma de se fazer ouvir.

“O grafite está para o texto assim como o grito está para a voz”

Paulo Leminski

Ainda que o objetivo não seja tratar das diferenças entre grafite e pichação, se o que os separa é o conceito de que o primeiro é arte e o outro não e o conceito de arte ainda é amplo e subjetivo, não interessa para este artigo delimitar essas significações, mas utilizar-se delas.

Muito se falou das “vozes das ruas”, mas passados quase dois meses o que conseguimos ouvir são justamente essas pichações. Foram palavras, desenhos, declarações de amor, palavrões, insultos a representantes políticos que modificaram a paisagem urbana e mostram que de alguma forma, ainda estamos lá. Claro que existem as fotografias, os vídeos, os links compartilhados nas redes, mas em se tratando de cidade, de espaço físico, são os pichos que ainda gritam.

E por que ocupam muros, viadutos, prédios históricos, sedes do poder público, pontes ultrapassadas, fachadas de bancos? Porque as pichações são também uma forma de ocupar a cidade. De se mostrar como citadino e sujeito político e isso, nem as redes sociais, nem os grandes jornais dão conta de representar.

Também a marginalização das pichações contribuem com o fenômeno. Há de se questionar, além do conceito de arte, de “dano ao patrimônio público”, da “poluição visual”, a ironia da falta de regulamentação em muitas cidades no que diz respeito à publicidade por exemplo, como em faixas, muros com anúncios pintados e outdoors. Se eu pagar, não é vandalismo? Se eu pago, deixa de ser subversivo? É no questionamento de como o capital transformou as relações e as representações que o picho se torna marginal. É marginal porque questiona, incomoda o status quo.

Os desafios da comunicação, se claro, desejamos uma comunicação verdadeiramente popular, perpassa primeiramente pela democratização dos meios. E isso tem nada tem a ver com censura, mas com revisão de concessões, pluralização de vozes e acesso a banda larga. Mas para além disso, a comunicação que deseja ser popular deve disputar valores, e aí já não se trata de uma reforma estrutural, mas de qualitativamente tomarmos os rumos do debate de sociedade que queremos. Abraçar vozes como as das pichações, de quem sempre foi calado pelas injustiças sociais, é uma forma de fazer comunicação popular. Mais do que jornais em grandes redes, a comunicação também é um processo diário, de respeito, cidadania e democracia. Nas comunidades, nos movimentos sociais, levar ferramentas e ampliar as formas de se fazer comunicação, de se fazer expressar, contam muito mais que uma cobertura nacional. E é preciso ressaltar o caráter emancipatório dessa “nova” forma de se fazer comunicação. Ensinar e aprender com quem MAIS precisa falar é o melhor caminho que essas vozes nunca mais se calem.

*“Escrevi meu nome no cimento
Pra alguém lembrar de mim
Me pergunto no entanto
Por que é que estou aqui

Tudo que eu faço
Modifica o mundo
E o mundo girando
Modifica tudo também…”

(trecho da canção No Cimento, da cantora mineira Érika Machado, que dá nome a este texto)

Referências

HARVEY, David  in A liberdade da cidade. Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil/ Ermínia Maricato…[et al.]. – 1.ed. – São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013.