O Futebol como metáfora

Depois de um ano da Copa do Brasil, o comandante do épico título nacional se despede melancolicamente e com lágrimas nos olhos. Não se trata de defender ou não a saída do Levir, mas é preciso um pouco de gratidão para reconhecer algumas coisas.

HIROKI WATANABE/GETTY IMAGES

HIROKI WATANABE/GETTY IMAGES

Vão dizer que ele não é responsável por nada, que é louco, que seu esquema Kamikaze nos levou à…Libertadores pelo quarto ano seguido (e 2º lugar se tudo correr bem nos próximos jogos). Mas não se esqueçam que para além dos números, o futebol é a metáfora mais bonita do mundo.

Entre todas essas metáforas, sobre a vida, a existência e tudo de mais profundo que pudermos pensar, gosto de acreditar que o futebol é como o amor: a gente sabe que não pode vencer sempre, mas continua torcendo.

Obrigada, Levir.

Pelos 4×0 no primeiro jogo da final do Mineiro de 2007 (os gols narrados pelo Willy Gonser ainda são meu toque de celular!)
Pelas entrevistas descontraídas.
Pela Copa do Brasil.
Pelas vitórias inacreditáveis em cima dos rivais históricos.
Pela final histórica derrotando o maior rival estadual.
Pela confiança nos seus comandados.
Pela ligação bonita com a Massa.
Por tudo (exceto pelo Carlos).

Sexo e Futebol

É de Luís Fernando Veríssimo uma das minhas frases favoritas sobre futebol: “no fim, sexo e futebol só são diferentes mesmo em duas coisas: no futebol, com a devida exceção ao goleiro, não se pode usar as mãos. E o sexo, graças a Deus, não é organizado pela CBF”. Desculpe o spoiler, já que se tratam dos versos finais de sua crônica, intitulada exatamente “O Sexo e o Futebol”. Quem não conhece, vale a leitura. Trata-se de uma comparação, leve e bem-humorada, entre as duas “modalidades”. Ou seja: é possível fazer humor falando desses temas sem apelar para a violência que tem permeado estádios e redes sociais a cada jogo.

A naturalização da violência sexual no futebol é algo perverso que me choca profundamente. Talvez por vivermos em um país onde recentemente o número de estupros foi maior que o de homicídios ou porque basta ler os comentários de qualquer notícia sobre estupro pra saber que esse tipo de violência integra a nossa cultura.

Não sou especialista em nada, mas vivo esse medo todos os dias. E, como amante do futebol, me entristece ver pessoas banalizando e naturalizando algo tão doloroso.

Para essas pessoas, um time não goleia, “estupra”. Tomar 4 gols virou “tomar de 4” em referência à posição sexual. O “chupa” também é bem comum e às vezes vem acompanhado de algum gesto obsceno. É comum também “mandar tomar no cu”. Este último me intriga bastante e por isso quero até dedicar-lhe mais um parágrafo.

Mandar alguém “tomar no cu” me parece ignorante de diversas formas. Primeiro porque nega uma possibilidade de prazer, como se fosse um castigo, algo ruim. Segundo porque as noções de sexo parecem meio distorcidas, já que implica numa passividade de quem “toma”, como se não fosse possível gostar e como se sexo fosse mais uma relação de “poder” do que uma relação íntima, propriamente dita.

Além disso, na maior parte das vezes busca-se desconstruir o adversário arranjando-lhe apelidos “femininos” ou homofóbicos, como se o sexo para mulheres ou homossexuais devesse ser doloroso e ruim. E isso, na minha opinião, tem relação com o que disse anteriormente sobre relações de poder: aos machos cabe o gozo da vitória. Acho que é daí que nasce essa comparação entre sexo e futebol que, de tão banalizada, às vezes passa até despercebida e nos pegamos dizendo as mesmas coisas depois de uma rodada do brasileirão.

A nós cabe a reflexão, afinal futebol e sexo são duas coisas bem legais, então como conseguimos fazer disso instrumentos da violência? Veríssimo (no texto que citei logo acima) já provou que o sexo pode ser prazeroso pra todo mundo e fez isso numa comparação com o futebol! Penso assim que quem não consegue falar de futebol sem apelar para a violência, sobretudo a sexual -tema deste texto- não entende nem de futebol, muito menos de sexo.

A Revolução será televisionada?

26 de março de 2015

O Jornal Nacional exibe uma série de reportagens sobre “menores infratores”. No episódio de hoje uma penitenciária que “parece escola”, depoimentos emocionados sobre como ficar preso ali foi como uma “redenção”.

Começa a novela e por algum motivo dois rapazes – um negro e um branco – estão discutindo. O errado, ~obviamente o negro~, fala em seguida algo como “você não pode me prender, eu sou menor!”.

Poderia ser uma piada perversa, mas em um momento que a redução da maioridade penal volta ao debate, eu chamaria de “anúncio de oportunidade”. Mas também podemos chamar de lobby para a privatização de penitenciárias, ação e/ou merchandising da “Bancada da Bala” ou até mesmo um bom RP do senador dono do helicóptero (aquele).

30 de março de 2015

Estudantes da Escola Estadual Maria Ortiz, localizada no centro de Vitória (ES) são entrevistados pelo ESTV – jornal local da TV Gazeta, afiliada à Rede Globo – sobre a utilização do “pau de selfie” (quem decide essas pautas, pelamor???). Durante a entrevista, os estudantes seguram cartazes onde é possível ler reivindicações como “eleição direta para diretor” (pauta história dos militantes da educação pública), “não à PEC 171” (que propõe a redução da maioridade penal), “+ grêmios”. Ao vivo, uma estudante diz que existem “”assuntos mais importantes que o pau de selfie” enquanto outra moça, também estudante, é cortada pelo repórter ao tentar explicar porque a redução da maioridade penal não resolve o problema.

O Espírito Santo é um dos estados onde mais morrem jovens no país e eu não me lembro de ter visto uma reportagem sobre “menores infratores” onde as masmorras do Governador Paulo Hartung fossem notícia. Onde os depoimentos das mães de jovens que foram presos, torturados e mortos pelo Estado fossem exibidos.

O título desse texto é uma piada. É óbvio que a Revolução não será televisionada, ao menos não sem a democratização da comunicação, mas hoje jovens estudantes pediram mais democracia, mais representatividade e o fim do debate demagogo que está encarcerando e matando jovens, sobretudo jovens negros. Hoje a juventude mais uma vez mostrou que quer viver, que há resistência e que não podem colocar na nossa conta essa política velha e falida. E mostrou mais uma vez, tão melhor que qualquer produção global, que se a revolução não será televisionada, nos resta revolucionar a televisão.

Abaixo um vídeo produzido pelo Reportagem Pública. Um alerta pra quem defende o encarceramento da juventude brasileira.

UPDATE: A Comissão de Justiça e Cidadania da Câmara votou hoje a admissibilidade da PEC 171/93 que propõe a redução da maioridade penal. Um retrocesso que significa além de tudo um ataque à nossa Constituição, aos Direitos Humanos e aos acordos dos quais o Brasil é signatário, pois fere, como bem abordou a deputada Maria do Rosário hoje em plenário, “o artigo 60, parágrafos 227 e 228 que prevê como cláusula pétrea a proteção dos adolescentes até os 18 anos e o respeito a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”. A proposta ainda segue para uma comissão especial. São tempos difíceis para os sonhadores, mas os sonhos continuam sendo nossas melhores armas.

Carta para Camila

Querida Camila,

Escrevo para te parabenizar pelo excelente carta à Marina Silva. Pela repercussão, o alto nível do debate e por confiar a mim a publicação do seu texto, quero novamente reforçar a nossa parceria e dizer que o Vã Filosofia está de posts abertos para suas palavras sempre tão necessárias.

Sabe Camila, vejo cada vez mais mulheres se identificando com os textos no blog e percebo a urgência de que elas tenham mais espaço e voz. Vejo também que muitas pessoas, sobretudo homens, criticam e tentam minimizar nossa luta. Penso que o feminismo, muito mais que odiado, é temido. Alguns ainda não sabem lidar com isso, porque o feminismo foi a ferramenta política encontrada pelas mulheres para levar a público questões que antes eram escondidas nos ambientes privados. Da violência até os nossos anseios como sujeitos de direito, me emociono quando vejo mulheres de todas as idades contando, mesmo que timidamente pelos comentários, suas batalhas cotidianas. Tento compreender que alguns homens se sintam incomodados, porque muitos não compreendem que esta não é uma luta contra eles, mas contra um sistema que também os oprime.

Peguei emprestado lá do facebook.com/donacoletivo

Peguei emprestado lá do facebook.com/donacoletivo

Tenho no blog uma política muito clara quanto aos comentários: ofensas e discurso de ódio não são publicados. Por outro lado, tento responder com respeito cada pessoa para que possamos manter o diálogo e criar um canal de comunicação cada vez mais democrático. Afinal, não adianta falar para as mesmas pessoas. Isso demora e dá um grande trabalho, mas acho que tá valendo a pena, porque ao invés de se deparar com os comentários raivosos de costume, as pessoas veem que ali tem alguém como elas, que pensa e sente e que merece ser tratada com o mesmo respeito. Às vezes aparece um comentário engraçado, que pouco ou nada tem a ver com o tema. Dizem “mas eu sou assim”, “comigo é assim”, como se isso provasse o todo, como se fosse uma verdade absoluta e incontestável; como se não fôssemos tão diferentes. Outras vezes é mais complicado, como quando pensam que preconceito é “opinião pessoal”. Sei que muita gente acha que moderar os comentários é uma forma de censura. Eu penso o mesmo. Mas você não concorda que o ódio deve ser censurado? Acho que as mídias já propagam muito ódio, principalmente contra as mulheres, então espero que o blog seja um espaço de solidariedade.

Lembra que te disse que estou lendo “Profissões para mulheres e outros artigos feministas” da Virginia Woolf? Decidi te escrever, para dizer o quanto percebo que somos mais julgadas quando escrevemos, pois temos, como você disse na carta à Marina Silva, sempre que provar que sabemos o que estamos dizendo. O quanto desprezam nossas histórias, o quanto querem nos silenciar. Nos chamam de loucas porque em um mundo que considera normal a misoginia, só podemos ser umas desajustadas. Criticam nossa aparência, como se parecer bela fosse nosso único objetivo e função e como se não pudéssemos ser belas em nossas diversas formas. Os padrões de beleza aliás, parecem cada vez menos modelos a serem seguidos e mais uma maneira de nos domesticar.

Quem topa? =)

Quem topa? =)

Passei tanto tempo apenas lendo e revisando os textos de outros e com medo de escrever os meus próprios, que agora faço questão de me posicionar, gritar e lutar para que mais mulheres façam o mesmo. Por isso quero que o blog seja também um espaço para que mulheres que se identificarem com essa luta possam contar suas histórias e pontos de vista. Quero também contribuir o máximo possível para fortalecer uma rede de mulheres que escrevem e quero colocar à disposição delas minha amizade e sororidade, como um dia fizemos nós duas, quando começamos a militar juntas no Movimento Estudantil. Quero construir um mundo onde as mulheres percebam que apesar das diferenças que nos separam, precisamos continuar juntas. E que a luta de cada uma delas será também a nossa luta.

O blog já me presenteou com amigas que eu tive o prazer de conhecer, conversar e hoje posso chamar de irmãs. Então espero que esta carta também chegue a elas: Marias, Clarissas, Thayanes, Paulas, Robertas, Thaís, Malus, Larissas, Natálias, Luaras, Jonas, Andressas, Letícias, Maíras e Tânias. Que não tenho a pretensão de estar acima de ninguém ou de me tornar parte de uma vanguarda, porque o blog vai além do ego. É mesmo um coração cheio de letras e eu quero compartilhar isso com todas.

Obrigada por me ouvir sempre que precisei, Camila. Obrigada por me “ouvir” agora e por compartilhar sonhos e a vontade de sonhar. Deixo por fim um convite que estendo a todas que também estiverem lendo essa carta: vocês querem construir um mundo novo de sororidade e igualdade comigo?

Da sua amiga, companheira e futura madrinha de casamento,

Luara

O que a demissão do jornalista Lélio Gustavo significa pra imprensa esportiva nacional?

Depois que o Paulo Morsa, comentarista parcial e irresponsável chamou o GALO (nas oitavas de final da Libertadores 2013) de ”cavalo paraguaio”, citando nominalmente jogadores que segundo ele seriam meros perdedores e os integrantes do programa ”Jogo Aberto” se limitarem a rir da situação, Lélio também fez ofensas ao Paulo Morsa, Denílson (ex-jogador e comentarista do programa) e à apresentadora Renata Fan. Em relação à apresentadora inclusive, ele usou termos como ”galinhona” (não sei qual era o objetivo, mas nós sabemos bem a conotação desse termo quando direcionado às mulheres, né?). Isso sem contar a quantidade de termos chulos e machistas disparados aos integrantes do programa da Band, que eu me recuso a citar aqui.

Agora Lélio Gustavo foi ameaçado de processo por ofender o Vitória da Bahia e o jogador revelado no Clube (atualmente no Atlético Mineiro) Neto Berola. A polêmica, que começou depois de Berola reclamar em seu perfil no Instagram da ”perseguição” do comentarista esportivo Bob Faria (Globo Minas) rendeu e levou o jornalista Lélio a defender o colega de profissão ofendendo o jogador e o referido clube que o revelou. Hoje, segundo o jornal O Tempo, foi confirmada a demissão do Lélio Gustavo da Rádio Itatiaia, onde trabalhava há mais de 20 anos.

Ainda em seu post no instagram, Berola disse: ”só porque eu não te pago para falar bem de mim…”. Isso em um momento em que outro clube baiano, o Esporte Clube Bahia, divulga uma lista de jornalistas que receberam para se posicionarem publicamente contra a intervenção que tirou Marcelo Guimarães da presidência e prometeu tornar a gestão mais transparente e democrática. O caso que já é conhecido como ”Jabá do Bahia” preocupa não só torcedores e amantes do futebol, mas todo um povo que vê agremiações esportivas serem usadas num jogo político e obscuro.

Imagem: Jornal O Tempo

Imagem: Jornal O Tempo


Em tempos de redes e mídias sociais, os jornalistas esportivos ainda não aprenderam a lidar com seu público. Bloqueiam comentários, ignoram questionamentos e muitas vezes sequer apuram as notícias. Já não dá pra apenas não levar a sério a imprensa esportiva nacional. Obviamente também não se trata de legitimar esse tipo de comportamento dos jogadores, muito menos de generalizar o trabalho dos jornalistas esportivos brasileiros, mas é necessário cobrar que sejam mais responsáveis com seu público, com os atletas e com a profissionalização do esporte no Brasil. É inadmissível o amadorismo de alguns jornalistas e comentaristas. Mais transparência para o esporte para garantir a popularização do mesmo e o direito pleno ao lazer e à cultura!

*Não sou das mais otimistas a achar que a demissão do Lélio é uma grande vitória de um jornalismo esportivo NO MÍNIMO mais responsável, afinal ele só foi demitido agora, depois de ofender homens (como o presidente do Vitória) que querendo ou não, detém certo poder e o ameaçaram de processo. Não vi esse tumulto todo quando ele ofendeu de maneira machista e grosseira a Renata Fan, por exemplo. No entanto fica a reflexão sobre a nossa imprensa esportiva e principalmente sobre como devemos nos manter críticos em relação a ela.