Você pagou com traição

O GALO perdeu o campeonato naquela derrota para o Grêmio em casa. Não apenas porque o tricolor gaúcho foi infinitamente superior em campo, mas porque a Massa se apequenou. Não estou falando do público, o Mineirão estava lotado, lindo, mas o que se viu foi um espetáculo de arrogância. Em minha vida de Atleticana, cultivei diversas superstições. Uma delas é não arriscar placar, sempre acho que dá azar. Mas lá estavam os torcedores acreditando não na mística da própria garganta, mas no placar elástico, nas gracinhas para as câmeras de TV, no sinal de “cortar a garganta” como que liquidando o adversário que sabíamos ser duro. Não temer a luta é corajoso, mas a soberba derruba mais que qualquer catimba gaúcha.

Os erros de arbitragem aconteceram, os erros do próprio time – jogadores, técnico e diretoria – e a eficiência do time do Tite evidentemente são as explicações possíveis para os que acreditam que o futebol só acontece dentro das quatro linhas. Para nós, Atleticanos e Atleticanas, acostumados ao impossível, somente o extraordinário explica um final tão melancólico. Melancólico não porque o GALO não merecesse ou devesse se envergonhar, mas principalmente porque a maior parte do que o GALO é não aprendeu a ganhar. Ou aprendeu rápido demais e se acostumou com isso.

Mal acabou o jogo contra o São Paulo e já tinha gente pedindo banco para o Victor. O melhor lateral do Brasil por 2 anos consecutivos agora é o pior jogador do mundo. Luan passou de xodó da torcida para alguém totalmente questionável. É assim que pensam os ingratos, os que não amam, mas se apaixonam momentaneamente pelas vitórias que não tivemos nos últimos 40 anos. É claro que eu quero reforços, mais empenho e obviamente que não estou dizendo que a culpa é da torcida. Mas também não estou dizendo que é de apenas um ou outro. Este texto é antes um apelo e não um julgamento.

massa

Imagem: divulgação

Ninguém está aqui para dizer que é mais torcedor que ninguém, mas quando a própria torcida perde a fé, não há futebol que resista. A corneta é parte do jogo, diverte, acalma, liberta. Mas a pretensão destrói, magoa. Já contei a história de quando comecei a torcer pro GALO, em uma derrota para o América-MG e tenho muito orgulho dela porque me prova algo muito valioso: o GALO formou meu caráter. Foi graças ao sentimento de irmandade, à paixão e – por que não? – às derrotas, que eu sou o que sou e que acredito, grande parte desta torcida é o que é. Doidos, ensandecidos gritando quando o resto do mundo se cala. Isto é a Massa do GALO. É amor, não é simpatia. É, como o povo mineiro, desconfiado, mas não hesita em amar. Come quieto, é humilde, mas não é bobo. O alvinegro carrega sua origem no nome e não é à toa. Carrega em si a identidade e o orgulho, mas sabe que não se vence jogo antes de entrar em campo e faz por onde. Grita, apoia. Depois da maior conquista da nossa história vi a torcida vaiar o time como sequer me lembrava. E olha que motivo não faltou. De corrupção a times sem raça, passando por goleadas para o rival azul, foi preciso uma vitória gloriosa pra despertar a arrogância que só se conhecia lá no Barro Preto.

Doi reconhecer que não somos mais os mesmos, mas é preciso fazê-lo para recuperar o maior patrimônio do Clube Atlético Mineiro. Doi porque a gente se confunde com o time desde o hino: nós somos DELE e ele é nosso. Nós somos o GALO e jogamos juntos, com muita raça e amor. É como devemos jogar, cantar, na terceira pessoa do plural. Muitas vezes ouvi que a gente ama mais a torcida que o próprio time e minha explicação sempre foi essa: é porque somos inseparáveis, seja o momento de glória ou dor.

Por isso é que eu peço: se abracem, gritem, não tenham vergonha de acreditar. É disso que o GALO precisa. Não importa os títulos, porque eles vem cedo ou tarde. Um clube resiste sem títulos, mas não existe sem torcida. Sejamos uma torcida ainda maior que o pé do Victor no chute de Riascos, na cabeçada de Leo Silva, na vitória épica sobre os rivais históricos, implacávelcomo um GALO e vingador como pode ser apenas o maior time de Minas Gerais.

Sexo e Futebol

É de Luís Fernando Veríssimo uma das minhas frases favoritas sobre futebol: “no fim, sexo e futebol só são diferentes mesmo em duas coisas: no futebol, com a devida exceção ao goleiro, não se pode usar as mãos. E o sexo, graças a Deus, não é organizado pela CBF”. Desculpe o spoiler, já que se tratam dos versos finais de sua crônica, intitulada exatamente “O Sexo e o Futebol”. Quem não conhece, vale a leitura. Trata-se de uma comparação, leve e bem-humorada, entre as duas “modalidades”. Ou seja: é possível fazer humor falando desses temas sem apelar para a violência que tem permeado estádios e redes sociais a cada jogo.

A naturalização da violência sexual no futebol é algo perverso que me choca profundamente. Talvez por vivermos em um país onde recentemente o número de estupros foi maior que o de homicídios ou porque basta ler os comentários de qualquer notícia sobre estupro pra saber que esse tipo de violência integra a nossa cultura.

Não sou especialista em nada, mas vivo esse medo todos os dias. E, como amante do futebol, me entristece ver pessoas banalizando e naturalizando algo tão doloroso.

Para essas pessoas, um time não goleia, “estupra”. Tomar 4 gols virou “tomar de 4” em referência à posição sexual. O “chupa” também é bem comum e às vezes vem acompanhado de algum gesto obsceno. É comum também “mandar tomar no cu”. Este último me intriga bastante e por isso quero até dedicar-lhe mais um parágrafo.

Mandar alguém “tomar no cu” me parece ignorante de diversas formas. Primeiro porque nega uma possibilidade de prazer, como se fosse um castigo, algo ruim. Segundo porque as noções de sexo parecem meio distorcidas, já que implica numa passividade de quem “toma”, como se não fosse possível gostar e como se sexo fosse mais uma relação de “poder” do que uma relação íntima, propriamente dita.

Além disso, na maior parte das vezes busca-se desconstruir o adversário arranjando-lhe apelidos “femininos” ou homofóbicos, como se o sexo para mulheres ou homossexuais devesse ser doloroso e ruim. E isso, na minha opinião, tem relação com o que disse anteriormente sobre relações de poder: aos machos cabe o gozo da vitória. Acho que é daí que nasce essa comparação entre sexo e futebol que, de tão banalizada, às vezes passa até despercebida e nos pegamos dizendo as mesmas coisas depois de uma rodada do brasileirão.

A nós cabe a reflexão, afinal futebol e sexo são duas coisas bem legais, então como conseguimos fazer disso instrumentos da violência? Veríssimo (no texto que citei logo acima) já provou que o sexo pode ser prazeroso pra todo mundo e fez isso numa comparação com o futebol! Penso assim que quem não consegue falar de futebol sem apelar para a violência, sobretudo a sexual -tema deste texto- não entende nem de futebol, muito menos de sexo.

Quando os números mentem

Esporte popular, o futebol é cercado de números e mitos. Algumas estatísticas são divertidas e um pouco bizarras, outras só servem à história e à curiosidade, mas pouco interferem em uma partida. Aliás, quem gosta e acompanha futebol sabe que nem mesmo os números são muito confiáveis quanto se trata de bola rolando. Quantas vezes não vimos um time com mais posse de bola ser derrotado? Ou assistimos incrédulos o time que só chutou a gol uma vez e conseguiu sair com a vitória? A probabilidade pode ser improvável às vezes.

Não foi a primeira vez que ouvi justificarem a superioridade de um time por causa do “histórico”. Não faz muito tempo e lembro de ouvir são-paulinos dizendo que eles tinham experiência em competição internacional e por isso nos eliminariam nas oitavas da Libertadores do ano passado. Mas “quando tá valendo, tá valendo, né”? E o cavalo paraguaio venceu a competição continental pela primeira vez. A história e os números nos diziam que o GALO nunca tinha eliminado o Corinthians em duelos “mata-mata” (ou pelo menos foi isso que li em algum lugar). Infelizmente a história não cobra escanteio pelo lado esquerdo direto pro EdCarlos escorar pro gol, então o Dátolo teve que mostrar como se escreve a história.

Em todos esses anos, duas imagens de jogos entre GALO e Corinthians me marcaram profundamente. A primeira é do segundo gol marcado pelo Guilherme na goleada por 4×0 sobre o Corinthians em 31 de outubro de 1999. Depois de dar um chapéu no Dida, Guilherme cabeceia pra dentro do gol numa belíssima jogada. A outra imagem que não me sai da cabeça é a do Belletti encostado no túnel do vestiário depois de ser expulso no último jogo da final do Campeonato Brasileiro de 1999 faltando poucos minutos para o fim do jogo. Felizmente depois de ontem a imagem que eu nunca mais esquecerei de um GALO x Corinthians é essa:

Quantos anos tem o Atleticano?

Para ler ouvindoː Hino do Clube Atlético Mineiro – Vicente Motta

O documento de identificação (o original aceito em território nacional, não o do Clube) teima em dizer que nasci no dia 26 de agosto de 1991. Bobagem. Nasci há 106 anos, no dia 25 de março de 1908.  Nasci no coreto do parque, em meio aos meninos. Mas como pode? Posso porque sou Atleticana e a minha existência só tem sentido no GALO.

Para o Atleticano e a Atleticana a história começou há pouco mais de um século porque só os últimos 106 anos é que nos reconhecemos. Vão nos chamar de fanáticos, de loucos, de chatos, desses que soltam o grito de “GAAAAALOOOO!” cada vez que um copo quebra no buteco ou estoura um foguete. Mas a explicação está no reconhecimento. Na identidade. Em se perceber Atleticano e reconhecer no outro um irmão que compartilha a mesma paixão.

"Time e torcida estavam juntos naquele abraço doído e doido. Como tantas vezes o atleticano esteve junto com o time. Qualquer time. Nada é mais atleticano que aquilo: um time que se comportou como o torcedor. Solidário na dor, irmão no gol. O atleticano é assim: tem a coragem do galo, mas não a crista. Luta e vibra com raça e amor. Mas não se acha o dono do terreiro. Sabe que precisa brigar contra quase tudo e contra quase todos. Até contra o vento, na célebre imagem de Roberto Drummond. Aquela que fala da camisa preta e branca pendurada num varal durante uma tempestade. Para o escritor atleticano, ou, melhor, para o atleticano escritor, o torcedor do Atlético sopraria e torceria contra o vento durante a tormenta." (Mauro Beting sobre o inacreditável vice do brasileiro de 1977 que também poderia ser sobre o não menos inacreditável título da Libertadores de 2013) Foto: retirei do Facebook do Zeca Espora

“Time e torcida estavam juntos naquele abraço doído e doido.
Como tantas vezes o atleticano esteve junto com o time. Qualquer time.
Nada é mais atleticano que aquilo: um time que se comportou como o torcedor.
Solidário na dor, irmão no gol.
O atleticano é assim: tem a coragem do galo, mas não a crista.
Luta e vibra com raça e amor. Mas não se acha o dono do terreiro.
Sabe que precisa brigar contra quase tudo e contra quase todos. Até contra o vento, na célebre imagem de Roberto Drummond.
Aquela que fala da camisa preta e branca pendurada num varal durante uma tempestade. Para o escritor atleticano, ou, melhor, para o atleticano escritor, o torcedor do Atlético sopraria e torceria contra o vento durante a tormenta.” (Mauro Beting sobre o inacreditável vice do brasileiro de 1977 que também poderia ser sobre o não menos inacreditável título da Libertadores de 2013)
Foto: retirei do Facebook do Zeca Espora

Mas por que nascemos há 106 anos? Por que contamos assim a nossa identIDADE? Acaso nascemos predestinados? Ora, o futebol tem razões que a própria razão desconhece. Não é hoje o momento de teorizar a respeito da sociologia no futebol. Não cabe a mim fazê-lo e eu jamais tive tal pretensão. Hoje, no dia do GALO e do Atleticano, assim como em todos os outros, só cabe a nós amar o GALO acima de todas as coisas. Porque dele se extrai o único grito capaz de acalmar, o som do hino que nos arrepia, as cores que pintam a nossa pele e o sentimento que carregamos no coração. Se é verdade que desconhecemos a razão também é verdade que reconhecemos no Clube Atlético Mineiro a promessa, talvez a única possível promessa de amor eternoː “Uma vez até morrer!”

Das Esquinas

Para Carlos Brandão, em texto originalmente publicado no livro O urbano e o regional no Brasil contemporâneo, as esquinas são lugares privilegiados, que permitem às pessoas tomar decisões, vislumbrar novos caminhos, ficar cara a cara com o inesperado. Vista dessa forma, a esquina se torna um espaço da utopia, lugar do encontro e de celebração da amizade. (Rafael Senra em Dois lados da mesma viagemː a mineiridade e o Clube da Esquina, 2013, p.38)

Eu me sentia órfã. Tinha acabado de ler “Os Sonhos não envelhecem” do Márcio Borges, onde o autor e um dos protagonistas do Clube da Esquina narrava histórias, fiava prosa e matava a saudade de Minas, que eu havia deixado há cerca de 2 anos para estudar no Espírito Santo. Esse exílio voluntário fez com que a minha mineiridade ficasse ainda mais exacerbada. Nós mineiros temos uma fama bairrista por exaltarmos nossa cultura e identidade, mas morando em outro estado, tão diferente do interior da Conselheiro Pena de pouco mais de 20 mil habitantes o bairrismo também era uma forma de resistência. Ainda tive a oportunidade de dizer ao Márcio, no lançamento do “Sonhos” em Vitória o quanto seu livro tinha me tocado e como eu me peguei chorando ao ler o último ponto. A saudade de Minas, do GALO…ao que sua filha, que o acompanhava respondeu com um sorrisoː nós também somos GALO.

Meu exemplar aguardando o autógrafo =P

Meu exemplar aguardando o autógrafo =P

Para uma disciplina da Faculdade (que não me lembro agora, mas acho que tinha a ver com estética) desenvolvemos um trabalho sobre o Clube da Esquina e eu que já convivia com aquelas canções desde criança me reencontrava. Não queria perder aquilo e foi assim que encontrei no Google a dissertação de mestrado do Rafael Senra. O subtítulo me chamou muita atenção e eu baixei, comecei a ler e quando vi se tratava de um trabalho recente, procurei por curiosidade o autor no Facebook. Queria ver quem era aquele que se identificava tanto quanto eu com as músicas do Clube da Esquina e enxergava a mineiridade que fazia tanto sentido pra mim. Qual não foi minha surpresa quando além de encontrá-lo ainda percebi que tínhamos um amigo em comum. Era o Gui Vidal, que eu conheci há alguns anos na Comunidade do GALO no Orkut e ainda mantinha (e por felicidade, mantenho) contato. Gente muito fina, como costumamos dizer sobre quem a prosa é agradável, embora eu ainda não o conheça pessoalmente.

Não lembro quem adicionou quem primeiro, mas “descobrir” o Rafael foi um alento. Continuar lendo sobre o Clube, conhecer quem também compartilhava aquele sentimento todo. Mas ao saber do livro Dois lados da mesma viagem, eu resolvi adiar a leitura da dissertação. Aquela história toda precisava ser contada da melhor maneira possível. E fiz bem em esperar. Pedi meu livro pela internet, porque morar fora de Minas me impediu de comparecer aos lançamentos por lá. Mas o capricho da capa aos versos, as ilustrações (também do Rafael), a pesquisa cuidadosa, todo esse esmero me deu um orgulho danado. De ter esperado e de ter acompanhado um pouquinho, mesmo de longe, toda aquela “viagem”.

"Para Lennon e McCartney" em umas das ilustrações de Rafael Senra que abrem os capítulos do livro Dois lados da mesma viagem

“Para Lennon e McCartney” em umas das ilustrações de Rafael Senra que abrem os capítulos do livro Dois lados da mesma viagem

Terminei ainda há pouco de ler “Dois lados”, mas não me sinto órfã. Rafael é hoje um amigo que encontrei nessas esquinas, ainda que virtuais, com o qual tenho a honra de trocar ideias e impressões sobre música, cultura e com o qual venho aprendendo bastante. Seu olhar sensível e aguçado sobre a música brasileira desperta na gente a criticidade sem deixar de nos pegar pela admiração. É bom aprender a curtir música e enxergar o outro lado ou ainda melhor, curtir os “Dois lados da mesma viagem”.

 Para conhecer mais sobre o livro

Siteː http://doisladosdamesmaviagem.com/

Página no Facebook: Dois Lados da Mesma Viagem

Assumo os pecados

Fim de ano é mais que tudo um momento de reflexão. Todos os últimos 365 dias passam em poucas horas nos lembrando o que fizemos ou deixamos de fazer. Na virada do ano, prometemos tudo de novo e renovam-se as esperanças de que as coisas sejam melhores. De perdemos aqueles 5 kg, de fazermos nossa existência valer alguma coisa.

Eu não posso reclamar de 2013. Foi provavelmente o melhor ano da minha vida. Me sinto madura e tranquila em todos os sentidos. Não me sinto completa, mas me sinto de alguma forma melhor. Depois de me reencontrar em 2012, 2013 foi um ano que eu me reconheci como pessoa. Assumo os pecados porque cada segundo valeu a pena.

Cresci pessoal, profissional e politicamente. Colei grau, terminando um ciclo importante da minha vida. Vi meu GALO ser campeão da América e disputar um lugar entre os melhores do mundo. Encontrei o AMOR de diversas formas e em várias pessoas, dentro e fora da minha família. Comecei a escrever aqui no Blog e isso foi motivo de alegria e autoconhecimento pra mim.

Que em 2014 eu possa dar continuidade a essa experiência maravilhosa de consciência do que sou e do que pretendo ser. Agradeço a todos vocês que fizeram parte dessa trajetória e que possam estar ao meu lado durante os anos que ainda virão.

Muito obrigada, de coração.

E “o que me importa é não estar vencida”.

NADA SERÁ COMO ANTES (meu relato sobre as manifestações no Brasil e minha participação no Espírito Santo)

*Texto publicado no Facebook em 19/06/2013

Somente na terça-feira de manhã, quando comecei a chorar no banho, é que eu acho que entendi o que está acontecendo no Brasil. Num primeiro momento, vi com preocupação a repressão e a criminalização aos movimentos sociais, mas também o tom das manifestações fez com que eu questionasse o peso e a legitimidade do movimento. O que me fez chorar? Acho que enfim eu estava lavando a minha arrogância.

Na noite da última segunda-feira (17), o ES pode ver com orgulho milhares de pessoas marcharem sob a 3ª ponte. O simbólico do que nos separa, do pedágio, do preço que se paga, do que é proibido ultrapassar, das barreiras invisíveis, virou o que nos une. Eu vinha reclamando da falta de organização, de pauta, de objetividade, não consegui gritar uma palavra de ordem junto com o restante porque tudo me parecia muito classe média, senso comum. Mas quando chegamos mais próximo a Vila Velha, e as luzes dos prédios começaram a piscar, acho que foi uma das coisas mais poéticas que já vivi.
Ora, qual o problema dos prédios serem da Praia da Costa? Qual o problema de ser um movimento de classe média (que de fato é)? Acaso vamos agora exigir comprovante de renda pra manifestação? Deslegitimar as manifestações por todo o Brasil por causa disso, não me parece muito democrático.
Este é de fato um movimento popular, as pessoas estão lutando por causas populares. Há sim um ou outro oportunista, mas se os gritos são por passe livre, investimento em educação e saúde, responsabilidade com o dinheiro público, onerar o estado para garantir mais direitos, é uma manifestação por mais justiça social! E justiça social sempre foi uma bandeira de esquerda. Queremos ser uma democracia e não uma instituição financeira com praias!

Foto: G1

Foto: G1

É portanto nosso papel não deixar que nada seja como antes depois de tamanha mobilização. O que faremos agora que descobrimos que podemos atravessar a ponte todos os dias? É isso que devemos tentar responder.
“Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”.

PARA A ESQUERDA

Este não é o momento de disputar espaços. Vemos a todo o tempo uma galera que se acostumou à disputa pela disputa e ainda não entendeu como isso tudo cresceu sem a sua “organização”. Pura arrogância. Querer organizar o povo sem disputar idéias é algo que nos custou essa dúvida e este sentimento cínico. Devemos agora nos preocupar em disputar os RUMOS desse processo, que devem ser cada vez mais à esquerda.

A ADESÃO DA CLASSE MÉDIA E DA JUVENTUDE

As pessoas estão insatisfeitas e quem de nós não está? Querer julgar que a sua insatisfação é por um motivo mais justo que o do outro também é arrogante. Ora, pela primeira vez em algumas décadas, o povo está na rua em períodos que não são eleitorais. Pela primeira vez a política é o tema mais discutido em todos os lugares: dos butecos aos ônibus. Por idosos e adolescentes. Estes últimos então, devemos lembrar, são filhos do neoliberalismo e consequentemente do individualismo pregado por este sistema cruel. Trazer essa galera pra rua já motivo de comemoração. Negar isso a eles é um erro político e estratégico, uma vez que este talvez seja o primeiro contato de muitos ali com a política. E da forma mais pura. Pela base, pela conquista plena do poder popular. São jovens cansados de ler história e que querem agora escrever a própria história e a história de um Brasil mais justo. Isso é lindo.

AS MÍDIAS CONVENCIONAIS, SOCIAIS E A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

Estamos diante de novos acontecimentos pra comunicação. Na era dos memes, tudo é muito fluido e as consequências disso tudo ainda estão sendo analisadas. Mas alguns pontos merecem destaque, por mais que ainda não saibamos (eu não sei) explicá-los na sua heterogeneidade. Este foi um movimento que se não teve seu início nas mídias sociais, foi organizado, pensado e discutido nas mesmas. Facebook, Twitter, Youtube, entre outros, são plataformas com as quais a juventude está acostumada e que de certa forma, pluralizam as informações e o acesso ao conteúdo diversificado. As próprias petições online, são uma forma de mostrar quantas causas existem e a quantidade de pessoas que se identificam com elas. É o que eu gosto de chamar de “cauda longa dos movimentos sociais” (eu só espero que as pessoas não se acostumem a achar que bastar abanar o rabinho rs ). Já a mídia convencional brasileira ou está confusa ou pensa que estamos em 1964. Já criticou, já mudou de lado, já não sabe de que lado está, mas uma coisa é certa: quer sair bem dessa.

Foto: Folha Vitória

Foto: Folha Vitória

Acontece que o povo já cansou de ser massa de manobra de organizações como a Rede Globo, entre outras. Nas manifestações, sempre que tentaram filmar, tiveram que ouvir que “o povo não é bobo”. É muito bom ver que essa galera também deseja a democratização dos meios de comunicação.
Vejo também a quantidade de smartphones, câmeras semi ou profissionais e as pessoas parando para tirar fotos pra postar nas redes. Parecia pra mim que eles só queriam aparecer, espetacularizar, faziam caras e bocas, mas o que estamos vendo é a documentação, o registro a história, simultânea e com uma rapidez jamais vista. Só que à maneira dessa nova geração. Não seria justo ridicularizar isso. Realmente as máscaras do Guy Fawkes em alusão ao filme V de Vingança e ao grupo Anonymous, bem como os já manjados narizes de palhaço, caras pintadas, flores (faltaram as vassouras rs) me dão nos nervos. Mas a falta de criatividade não pode ser uma forma de minimizar tudo o que estão fazendo.

PAUTA, LIDERANÇA E REPRESENTATIVIDADE

A “falta” de uma pauta foi muito cobrada pelas pessoas, mas principalmente pela mídia. Também o governo em todas as esferas disse que não havia como negociar, pela falta de pauta e de lideranças. Mal sabem eles que não se trata de falta de pauta, visto que as temos e muito. Aliás, muitas. O que essa gente ainda não entendeu é que sim, o movimento não tem liderança e nem deve ter. É descentralizado, mas é popular. Não estamos satisfeitos nem com os acordos e portanto não nos limitamos a criar representações para falar por nós. Estamos nós mesmos nos apropriando do espaço que já é público para falar do que deveria ser público: a política. Esta sim, a política, deve ser mais pública e menos institucional.

O APARTIDARISMO

Sempre vi com receio quando um ato pedia o apartidarismo. Isso porque acho que partidos são instrumentos de organização de um povo em torno de um projeto político e acho isso saudável e democrático. Eu mesma sou filiada ao Partido dos Trabalhadores e tenho muito orgulho em defender e trabalhar por um projeto como o nosso. Acho que como já disse, infelizmente o apartidarismo é um prato cheio pra direita. Esta sim, adora se esconder, fingir que não liga pra nada disso, mas sempre que pode, dá seu jeitinho de impor pautas que não estão alinhadas com os interesses do povo brasileiro. Pautas mesquinhas, que fomentam cada vez mais o individualismo.

Me preocupa também que o apartidarismo vire um anti-partidarismo. Muitas de nós, filiados a um partido político, estamos do mesmo lado daqueles que agora lutam por mais justiça social, por isso, acho ruim que nos neguem mostrar que somos e agregar nossa luta à e todos os demais. No entanto, também entendo que a falta de credibilidade dos partidos começa na falta de credibilidade no sistema político brasileiro, e é aí que entro na questão que considero crucial: Reforma Política.

Foto: TV Gazeta

Imagem: TV Gazeta

REFORMA POLÍTICA E A CRISE NA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA BRASILEIRA

Muitas são as reivindicações, muitos são os gritos e isso se deve ao problema de não-representatividade do povo brasileiro pela nossa classe política. Essas manifestações se tornaram muito maior do que nós imaginamos justamente porque agora não é mais apenas por R$0,20. As pessoas foram agregando suas próprias reivindicações porque não há quem as agregue nos espaços políticos institucionais. É justamente por isso que não devemos reduzir a manifestação aos espaços institucionais. Se o problema começa quando não conseguimos ser representados e desejamos que a democracia seja plena, acho que a pauta maior deva ser a REFORMA POLÍTICA. Ora, muitos manifestantes dizem que são “contra a corrupção”. E por acaso, há alguém a favor? É preciso discutir o que leva à corrupção. Não são as dívidas do financiamento de campanha? E a falta de transparência no poder público? O descaso com o dinheiro do contribuinte? Uma Reforma Política ampla, feita sob o olhar do povo, a meu ver, contempla todas as demais pautas elencadas nas manifestações por todo o Brasil.

AO PARTIDO DOS TRABALHADORES

Aos meus companheiros e companheiras do Partido dos Trabalhadores, creio que mais do que nunca é preciso mostrar que sempre estivemos do lado certo, do lado do povo brasileiro. Devemos nos mostrar neste momento, dignos de nossa história, que levou o povo às ruas pela redemocratização, nas greves gerais, e em tantos outros momentos da história brasileira.

Somos um Partido de massas, o mais popular do Brasil, por isso não podemos achar que este é um movimento contra nós. É o povo que está lá, o mesmo povo que nos confiou por 3 vezes seguidas o governo deste país. Sabemos bem quem tem medo de povo e não somos nós. Até porque nós somos do povo, somos o povo. Não nos assustemos com o oportunismo da direita, porque um prato de macarronada é o máximo de massa que eles conhecem.
Também não é o momento de defender nada. Devemos entender que não se trata de levantarmos nossas bandeiras estreladas, mas reconhecer que o céu é o limite para quem ainda ousa sonhar. Vamos radicalizar nossos sonhos. Defender que nosso partido seja mais representativo com a Reforma Política. Somente com a Reforma Política é que poderemos colocar em prática nosso projeto, sem ficar refém da tal governabilidade.

Estes protestos são também uma conta a ser paga pelo PT por não disputar valores na sociedade. Por isso, disputar os rumos desse processo e do que virá depois dele, é nosso dever. Estamos ou não cansados de “ganhar, mas não levar”? Não avançamos muito em nosso projeto popular devido aos acordos, à política institucionalizada no seio do Partido e o esvaziamento dos movimentos sociais que tocávamos quando nossos quadros foram para a gestão. Vamos voltar pra base, honrar nossa história e mostrar que política se faz no cotidiano e colocar os trabalhadores e trabalhadoras desse país no poder!

CONCLUSÃO

As pessoas que aderiram em massa a este movimento não se sentem representadas, nem sequer ouvidas. A esquerda, por um ranço de arrogância e por se acostumar a discutir mais internamente que com o povo, se esqueceu de disputar valores na sociedade e muitas vezes tenta reduzir o atual processo a uma luta de classes que se existe, não está em divergência dentro das manifestações. A maioria reivindicações vão de encontro às bandeiras históricas da esquerda, portanto é um povo que deseja ampliar direitos e/ou ter acesso pleno aos direitos comuns.

Os manifestantes em sua maioria não acreditam no sistema político brasileiro e por isso não se posicionam partidariamente. Os jovens, filhos do neoliberalismo, mal conseguem distinguir o que é de esquerda e de direita e isso se deve à acomodação da esquerda e à institucionalização dos partidos, que pra jogar o jogo, se esqueceram de questionar algumas regras.
Devemos portanto defender a mudança no sistema político brasileiro e definir os rumos da nossa sociedade cada vez mais para a esquerda, porque somente em um projeto socialista, democrático e de massas é que alcançaremos mais justiça social.