Como vai proibir quando o GALO insistir em cantar?

O futebol como expressão popular tem sido há muito uma importante ferramenta de luta e transformação. Seja pela disputa de ideias, espaço ou simples manifestação, o esporte que já parou guerras, resistiu à ditadura e empunhou faixas pela anistia hoje sofre com a perseguição do “futebol moderno”.
A criminalização das torcidas e da nossa maneira própria de torcer com a proibição de bandeiras e sinalizadores, por exemplo, bem como a “arenização” dos estádios mudou o perfil do público. Quem ainda teima, no entanto, precisa lidar com desmandos que estão além das quatro linhas.

GALO x Ponte

Foto: Marcelo Paulo


Hoje, mais uma vez, policiais tentaram tomar a faixa contra a Rede Globo estendida durante o jogo GALO x Ponte Preta e adesivos escrito “Fora Temer Golpista” usado por alguns torcedores. Sob o pretexto de que isso “incita a violência” e o mais absurdo que “é a Globo que banca tudo”, responsáveis pelo estádio que ironicamente é chamado de Independência e a polícia golpista de Minas tentaram obstruir um dos direitos fundamentais previstos na nossa Constituição que é o direito à livre manifestação. Estes, como e com a autoridade que lhes foi concedida, demonstram desconhecer ou mesmo ignorar que nenhuma norma pública ou privada está acima dos direitos constitucionais. Se submetem a interesses escusos do setor privado e de determinados grupos políticos e evidenciam ainda mais o caráter golpista e autoritário que se abateu sobre a democracia brasileira.
Apesar de tudo, continuamos dando o nosso recado: fora golpistas, lobbystas da bola, polícias políticas e dirigentes omissos.

O futebol é livre e o povo também!

Torcidas, torcidas, preconceitos à parte

Antes de começar esse texto, algumas perguntasː

Você julga pessoas por amarem alguém do mesmo sexo?

Você tem amigos homossexuais e não é o fim do mundo?

Você acha mesmo que amar alguém do mesmo sexo influencia no bom futebol que a pessoa em questão pode apresentar?

Eu posso apostar que você conhece torcedores homossexuais do seu time e isso é ok.

Na última quarta-feira, na estreia do Cruzeiro fora de casa pela primeira rodada da fase de grupos da Libertadores, milhares de torcedores brasileiros se revoltaram contra o manifestação racista da torcida do Real Garcilaso do Peru. Durante o segundo tempo sempre que o jogador cruzeirense Tinga pegava na bola, parte dos torcedores peruanos imitavam macacos. A atitude, claramente considerada racista, foi alvo de repúdio de grande parte dos brasileiros, que manifestaram apoio ao Tinga nas redes sociais, pelo Twitter com a tag #FechadoComOTinga (em referência ao bordão usado durante da campanha do time celeste no ano passado – #FechadoComOCruzeiro).

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Alguns torcedores e comentaristas chegaram a levantar a questão das ofensas machistas e homofóbicas, mas parece que não surtiu muito efeito. No primeiro clássico mineiro deste ano, no Independência com torcida única, a torcida do GALO não hesitou em gritar “Dagoberto Viado” quando o atacante cruzeirense pegava na bola ou reclamava alguma falta. Te dou coerência?

Foi lembrado que a torcida do Cruzeiro durante um jogo contra o Vôlei Futuro tentava ofender o jogador Michel chamando-o de “viado”. Que torcidas de todo o Brasil (incluindo a do GALO e do Cruzeiro) hostilizaram o jogador Richarlyson com adjetivos homofóbicos. Que “maria”, “franga”, “crugayro”, “bichas”, “Gaylo” entre outros por todo o Brasil afora mostram como esse tipo de preconceito ainda precisa ser desconstruído. Em toda a sociedade e consequentemente no futebol.

Curiosamente nessa semana que passou, no mesmo dia do jogo entre Cruzeiro e Real Garcilaso travei um debate num grupo de torcedores do GALO que me rendeu a remoção do grupo. Após questionar as ofensas homofóbicas feitas à nossa torcida rival e ouvir que isso era “tradição”, tive que assistir o pessoal do mesmo grupo repudiando ofensas racistas contra um jogador do mesmo clube rival.

Bom, vamos falar um pouco sobre usar “tradição” para legitimar o preconceito. A escravidão foi abolida oficialmente no Brasil em 1888. Vivemos séculos em um sistema no qual instituições como o Estado e a Igreja justificavam o tráfico e a escravidão de negros (também de índios) e até o racismo se tornar alvo de repúdio como atualmente, muito tempo se passou. Infelizmente não foi o suficiente pra acabar com o racismo – aqui ou no mundo -, sobretudo porque temos no Brasil, diferente de em países onde houve segregação racial de fato, um “fenômeno”ː o racismo velado. É quando as pessoas só são racistas quando ninguém, tá olhando, sabe? Porque afinal, é “feio” ser racista.

Mas por que mesmo não sendo especialista em história eu recorri a ela pra falar sobre a incoerência das ofensas no futebol? Bom, Saffioti em seu livro “O Poder do Macho” afirma que o sistema de dominação é construído por uma “tríade”ː capitalismo, racismo e patriarcado. Logo, fazer coro a qualquer um desses fatores não é “tradição”, tampouco “opinião”. É opressão.

Dizer que “é brincadeira”, “piada” também só mostra que tem uma galera aí que não lida muito com análise do discurso, né?

Por isso da mesma forma que hoje repudiamos o racismo e a torcida do GALO se orgulha bastante por sempre ter negros nos seus times e combater o racismo no futebol desde sua criação, imaginem o quanto pareceremos ridículos quando finalmente a homofobia e o machismo, que constituem o patriarcado, forem derrotadas? Ou melhorː quando o amor vencer?

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Em tempoː *combater racismo com xenofobia (como fez o diretor cruzeirense Alexandre Mattos chamando o Peru de “lugar pequeno, que não devia nem existir futebol”) nunca será a saída para um futebol sem preconceitos e mais democrático. Parte da torcida de um clube não representa todo o povo peruano.

*O que se critica aqui é a tentativa de ofensa, porque afinal ser homossexual não é ofensa alguma. Mas tentar ofender alguém pela orientação sexual, etnia ou crença ainda é uma burrice injustificável.

Black Blocs: fascistas ou a esquerda tradicional que amarelou?

Por Camila Moreno e Luara Ramos*

As manifestações de junho de 2013 ainda não tiveram respostas efetivamente institucionais no que tange a política brasileira. Salvo a revogação do aumento da passagem em São Paulo e o congelamento das tarifas do transporte (que deveria ser) público em algumas cidades brasileiras, muito ainda precisa ser dito, pensado, analisado e não são poucos os “especialistas” que vestidos da costumeira arrogância da Academia e/ou da Grande Mídia tentam em vão explicar tudo o que está acontecendo desde então. Este texto, no entanto, não tem a pretensão de apontar verdades definitivas ou mesmo soluções. Esta é só a opinião sobre alguns fatos que mais recentemente movimentaram o Brasil e especialmente sobre a contradição quem tomando a esquerda no que se refere à criminalização da tática Black Bloc e consequentemente dos movimentos sociais.

A mesma mídia que tanto louvou as manifestações no início, agora que acabar com elas. Para isso, nada melhor que um cadáver. E não bastou o do Amarildo, não bastou o manifestante atropelado, não bastaram as balas perdidas da Polícia. O cadáver deveria ser de um “deles”. E deveria vir de um manifestante Black Bloc. Que a mídia é sedenta por condenações (linchamentos) públicas todo mundo já sabia, mas que parte da esquerda absorveria esse discurso sem qualquer análise mais complexa é de doer na alma.

Não pensamos que viveríamos pra ver gente que se diz de esquerda, batendo no peito pra repetir e forma uníssona com a mídia que os Black Blocs são assassinos, fascistas e que por isso, devem ser extirpados, marginalizados, criminalizados.

“Ah, mas eu sou contra protesto com violência”

“Pra quê escondem os rostos?”

“Jogaram bomba com intenção de matar alguém”

“Esse grupo é fascista”

Repete fervorosamente parte da esquerda. As justificativas injustificáveis se somam ao desconhecimento historiográfico, afinal foi assim quando sequestraram o embaixador, foi assim na Guerrilha do Araguaia, é assim quando o MST ocupa uma terra, um ministério. Eles escondem os rostos (e não são todos) porque a polícia joga bomba, que arde o olho, porque há fumaça e perseguição. Além disso, não foram os manifestantes de junho que inventaram bombas em protestos contra a repressão da polícia. Por fim, a parte do fascismo é mero oportunismo ou falsa simetria mesmo, porque ou você não conhece nada do fascismo, ou você chama tudo o que é contra o que você acredita de fascista.

É claro que muita gente não vai aceitar a comparação da atuação dos Black Blocs com as de um “Regime de Exceção”. Mas vamos lá, quem diz que naquele tempo não se “escondia o rosto”, provavelmente se esquece que muitos companheiros usavam outros métodos, inclusive mudar de aparência e nome. E se entre as características mais fortes de um regime de exceção é justamente a arbitrariedade, como chamar a uma polícia que cotidianamente comete abusos e não é investigada, chamar de fascista quem se volta contra o que têm violentado um povo (seja a polícia, o Estado ou a Grande Mídia) parece mais fascista que a tática dos manifestantes, não? Claro que não estamos justificando morte alguma, estamos apenas pontuando que a triste morte do cinegrafista da Band não foi a única durante as manifestações e ao pontuar não pretendemos desprezar a dor dos familiares de Santigo Andrade, mas relembrar as mortes causadas em outras manifestações (a maioria delas pela polícia) e evitar que morram novamente. Do esquecimento, da edição midiática pela criminalização dos movimentos sociais, da falta de análise crítica que se apoderou de certa parcela da “esquerda” para quem a mídia só é fascista e sensacionalista se disser algo contra o que acreditam.

Outra “justificativa” que arde os olhos é a de que seriam todos “playboys” e por isso, o movimento deles não é “de luta”. Quer dizer, que tem que tá no CadÚnico pra ser reconhecido como manifestante legítimo agora? Pensamos que a Revolução Russa já havia superado a questão entre “origem de classe” e “opção de classe”. Parece que não.

Por que ao invés de criminalizar os Black Blocs e tentar tratá-los de forma maniqueísta (“ame-o ou deixe-o”) a esquerda tradicional não se questiona de que forma eles cresceram tanto, dão conta de organizar um protesto tão rápido? Por que será que enquanto a esquerda tradicional se afasta dos movimentos sociais, da juventude (juventude de gabinete não vale), esses novos movimentos ganham militantes e simpatizantes? Por que é tão difícil admitir a crise institucional pela qual passa nosso país e dar passos mais largos para uma Reforma Política e na regulamentação dos meios de comunicação que democratize de verdade a nossa democracia?

Suponhamos então, que esse pensamento seja complexo demais. Sério que ninguém achou estranho todo o contexto que envolvem as acusações? Ninguém acha estranho que os manifestantes que se entregaram sejam defendidos por um advogado (de miliciano) caríssimo, que foi até eles oferecer ajuda? Nenhum estranhamento sobre o advogado sair acusando que a prima do irmão do cachorro vai na mesma Petshop da mulher que tem ligação com o Freixo? Ninguém acha o cúmulo do absurdo o cara das imagens ser branco e o cara que se entregou ser negro?

Via Blog do Rovai (revistaforum.com.br)

Via Blog do Rovai (revistaforum.com.br)

Por que será que a mídia não ficou tão triste, não cobriu a missa, não fez editorial  e nem sequer noticiou amplamente a morte de outro cinegrafista da mesma emissora, também trabalhando como o Santiago, morto por uma bala. Ah é, essa morte foi causada pela polícia e a polícia, que mata todo dia, não merece linchamento público, não é?

São informações totalmente desencontradas que em nada contribuem com o debate político acerca do rumo das manifestações. Enquanto uns se utilizam da ~luta de classes~ pra tornar o debate mais superficial possível, outros levantam que existem manifestantes que recebem dinheiro.

Pera, xô colocar aqui no meu currículo: Manifestante Profissional.

Pera, xô colocar aqui no meu currículo: Manifestante Profissional.

Mas até aí, tem sindicalista e dirigente partidário recebendo pra ir a atos e realizar eleições internas, né?

O pedido de “endurecimento” ou até mesmo a criação de uma lei para coibir novos atos de “violência” também não fecham a conta. Onde em um país com uma das maiores populações carcerárias, prender e criminalizar foi a solução? Cabe também fazer um recorte de gênero, afinal, a maioria dos encarcerados em penitenciárias brasileiras são negros e pobres. Como também são negros Caio Silva, acusado de ter atirado o tal rojão contra o cinegrafista Santigo Andrade e Rafael Braga Vieira, preso em junho do ano passado por portar material de limpeza e condenado a 5 anos de prisão em regime fechado.

Sobre a nossa opinião sobre Black Blocs, acreditamos sim que a tática tem afastado o povo das manifestações e que falta mais autocrítica aos que pretendem executá-la. Mas daí a achar que manifestantes que se utilizam da tática Black Bloc são fascistas, golpistas, tucanos disfarçados (HAHAHAHAHAH), coxinhas é muita desonestidade ou preguiça de fazer um debate profundo sobre a questão. Mas da mesma forma, os jovens brasileiros, que se manifestam ou não, aderindo a tática Black Bloc ou não, acham que violência maior é se aliar ao Jader Barbalho no Pará ou (tentar em vão) defender a Roseana Sarney no Maranhão. Ou a Kátia Abreu. Ou qualquer um sob a justificativa da “governabilidade”. E é por isso que nossa democracia anda desbotada. Porque quem deveria lutar ao lado de bandeiras populares e históricas, deixou o vermelho de lado e anda amarelando.

*Camila Moreno e Luara Ramos são petistas, querem colorir a esquerda de todas as cores e acham que a esquerda tradicional não tem que ser tão tradicional assim

Link pra matéria do Blog do Rovai sobre as investigações da morte do cinegrafista da Band por Rojão aqui

Para merecer quem vem depois*

Um dos maiores movimentos de luta pelo acesso a terra do Brasil e do mundo acaba de completar 30 anos. Com todas as críticas ao MST (não à sua forma de luta e organização, que fique bem claro, mas à cooptação de suas lideranças), ainda é preciso reconhecer a importância de um movimento que colocou na agenda nacional a importância do debate da reforma agrária e da ressignificação do campo.

Quero me ater sobretudo a este último ponto porque acho que chegamos ao esgotamento de uma forma de vida quando desprezamos as demais. Vivi até os 5 anos no sítio dos meus pais no interior de Minas Gerais. Até os 11, 12 anos, passava a maior parte dos fins de semana por lá. Hoje vivo numa cidade de mais de 400 mil habitantes. É impossível não me indignar com um outdoor que anuncia uma “mini fazenda”, uma réplica de um espaço rural estereotipado exposto em um shopping de uma região metropolitana. A tal “fazendinha do Tio Jack” (percebam até o nome estrangeiro rs) possui de acordo com a descrição do shopping “um cenário típico do meio rural, a decoração visa recriar o clima de uma fazenda. Além de ter contato com os mini animais, as crianças poderão dar uma volta em um mini pônei, conhecer uma lhama de verdade ou tirar uma foto com uma cobra píton de 3 metros de comprimento”. Não bastasse a loucura de pensar em recriar uma fazenda dentro de um shopping center, o outdoor ainda possui a seguinte informação: “peixinhos grátis e muito mais!”. Eu não sei vocês, mas tenho até medo de saber o “muito mais”…

Não sei pra vocês, mas isso não se parece nem um pouco com uma fazenda pra mim. Foto: divulgação Shopping MontSerrat

Não sei pra vocês, mas isso não se parece nem um pouco com uma fazenda pra mim.
Foto: divulgação Shopping MontSerrat

Quero dizer, o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo, nossas cidades possuem uma infraestrutura infernal, nos afastamos cada vez mais das pessoas que amamos, ruralistas fazem a festa no Congresso e tamo achando lindo levar os pimpolhos pra dar uma volta no mini pônei no shopping? É isso mesmo? Não me parece saudável pensar assim. Nem um pouco saudável. Olha só pra isso, gente! Para de brincar de Fazenda Feliz que cês não tão no Orkut mais! ONDE que dar bicho de brinde (que seja peixe, pintinho, beagle, barata!) é normal? É um ser vivo! Que tipo de coisa nós tamo ensinando pras crianças? Que seres vivos são descartáveis? Morreu, dá descarga na privada e compra outro?

Quando falo de ressignificar a vida no campo é justamente isso. De ter vontade e prazer de viver do e no campo. Pra muita gente parece besteira ou que eu to exagerando, mas eu acho que o maior erro em relação ao MST (não só do MST em relação ao atual governo) foi não criar alternativas de ressignificação do campo. Os próprios programas sociais que geraram a inclusão de milhares de brasileiros também marginalizaram trabalhadores rurais nas cidades. Disputar com o agronegócio é difícil. Mas não nos deixemos enganar por mini fazendas recriadas e decoradas em shoppings. Elas são mais falsas que a neve da casa do papai Noel no natal em pleno verão no Brasil. São latifúndios, embora o nome queira nos fazer pensar o contrário. E tal qual latifúndios, precisamos ocupá-las e resistir até que viver e respeitar o que vive volte a fazer sentido.

*Verso da música “Sal da Terra” do cantor e compositor mineiro Beto Guedes (se não me engano a autoria também é dele).

Dois lados da mesma piada

O humor é sem dúvidas um dos melhores aliados da socialização. E um dos melhores recursos também. Particularmente adoro o humor nas mais diferentes áreas da minha vida. Pessoal e até profissional. Inclusive nos meus trabalhos e portfólio. A profissão na qual me formei tem um estigma de “engraçadões”. Publicitários têm um sério problema (destaque para a ironia) em se achar na obrigação de serem engraçados. Então criam logo suas contas no Twitter e se arvoram no direito de fazer piadas sobre tudo e todos e a se assumir paladinos da defesa do “Humor Livre”.

-Mas qual o limite do humor pra você?

-O humor não pode ter limites!

-Isso é censura!

-O objetivo do humor é apenas o riso!

Muito engraçado, caras! #Sqn

Muito engraçado, caras! #Sqn

Não sei se porque as agências andam exigindo jornada tripla, os clientes pedindo pra aumentar o tamanho da marca ou os freelas pagando atrasado, mas os publicitários parecem que alimentam a esperança de serem os novos “talentos” do stand up brasileiro. Ou preencherem a cota de publicitário babaca do BBB do ano. Acontece que, e para isso é que escrevo esse texto e não para afrontar meus colegas de categoria, sinto dizer a vocês, mas a zuera tem limites =(

Sabe o que não tem limites na vida (como bem disse a Samantha Pistor, beijo linda!)? As tretas.

As pessoas se dividem emː oprimidas e as que internalizam a opressão, reclamam que o politicamente correto tá tornando tudo mais chato. Eu nunca vi nada sob o título de “politicamente incorreto” que não fosse completamente preconceituoso, machista, racista e valesse desse título só pra dizer “ó, não tenho compromisso com nada a não ser com meu próprio umbigo”. É pura desonestidade intelectual, preguiça de pensar nos outros. E nós vivemos em sociedade. Ou seja: pessoa vive em sociedade e quer pensar só nela e nos próprios direitos. É mesquinho! Daí eu digo a vocês: vejam o politicamente correto como uma forma de apurarmos o nosso bom senso e o nosso humor para fazermos piadas com os opressores e não com os oprimidos.

Um documentário muito legal (abaixo) que aborda o universo do stand up brasileiro é O Riso dos Outros. Eu não quero deixar spoilers, mas com ele aprendi algumas coisas importantes que vale a pena dizerː

  1. É importante saber de que lado da piada você está.
  2. Tem lugares que não cabe uma piada.

Não quero me estender muito então vou passar logo pro real motivo que me levou a escrever esse texto. A esta hora muitos de vocês já devem ter ouvido (e eu espero que sim porque é realmente genial) a marchinha O Baile do Pó Royal, uma referência clara ao episódio do helicóptero da empresa dos deputados Gustavo Perrella (SDD-MG) e Zezé Perrella (PDT-MG), apreendido com quase meia tonelada de pasta de cocaína no ES no final de 2013. A marchinha, além da referência aos políticos mineiros, também explicitaram a aliança conhecida por muitos, mas abafada pela mídia, destes com o também senador e presidenciável Aécio Neves.

Sutil e na forma de cacofonias, que são combinações do final de palavras com o início das seguintes, a marchinha forma tanto o sobrenome dos Perrella, quando o diminutivo do nome de Aécio Neves (“Aecim”). Além disso, “brinca” com a o rumo que o caso tomou, não dando em nada. No caso da justiça, foi declarado que “não há envolvimento da família do senador com a carga apreendida”. Apesar do helicóptero ser da empresa da família, o piloto ser indicado pelo Deputado sócio e filho do senador Perrella na ALES-MG, estar a serviço dele, ter telefonado pra ele antes, não ter sequer dinheiro pra pagar uma carga deste preço, mas enfim…

Não é de hoje que tenho visto certas “piadas” de tom duvidoso sobre a vida pessoal do senador Aécio Neves. Não é porque é um adversário político que eu acho que vale tudo. Sinceramente não acho. Desde que eu ainda morava em Minas ouço esse tipo de coisa, calúnia e me posiciono sempre de forma contrária. Me recuso a usar esse tipo de argumento em uma disputa política. A mim não interessa que Aécio seja cheirador, beberrão, que seja mulherengo, o que for, nesse sentido. E maisː sempre chamo atenção de companheiros que se valem desses argumentos, compartilham essas coisas para discutir política. Já denunciei a página Aécio Cheirador no Facebook e explico: a esquerda nunca precisou desse debate frouxo e raso. Fazemos um debate muito bacana sobre liberdade individual e antiproibicionista, pela legalização das drogas e de forma alguma devemos criminalizar os usuários. Por isso eu me recuso a fazer esse tipo de “piada”. E aí estão os “dois lados da mesma piada” do título: qual é afinal a diferença da marchinha do Baile do Pó Royal pro Aécio Cheirador? Uma critica o traficante de terno e a outra criminaliza o usuário.

Criticar o traficante de terno é trazer a tona que o tráfico e o proibicionismo são hoje alguns dos maiores problemas da guerra às drogas e têm levado milhares de pessoas (em sua maioria negros e pobres) à morte.  Tornar o traficante de terno uma piada é fazer dele alvo pras pessoas saberem que traficante não é o que mora no morro, não é favelado, “aviãozinho”. Com o perdão do trocadilho, é mostrar que o traficante anda é de helicóptero.

Criminalizar o usuário é tornar a sua conduta uma mancha e numa sociedade hipócrita como a nossa é também motivo de linchamento, de execração pública. No mínimo cruel.

É preciso bom senso pra separar as piadas, apurar o humor e afinar a conduta. Não deixemos (novamente com o perdão do trocadilho rs) que nos tomem como farinha do mesmo saco. Sair do senso comum é um desafio, assim como a gargalhada pode ser um ato de resistência.

O preconceito está nos olhos de quem vê ou a cegueira é seletiva?

Eu já escrevi sobre o assunto aqui e já falei sobre o livro Ensaio sobre a Cegueira aqui. Acontece que só terminei de ler recentemente e só o que posso dizer é que foi o livro mais incômodo que li na minha vida. Incômodo porque é extremamente realista e porque calhou de eu ter começado a ler num contexto muito significativo e pessoal que não acho que cabe aqui dizer. Mas daí é isso, tenho a PÉSSIMA mania de ler comentários de notícias e sei que isso ainda vai me causar uma úlcera, mas tenho tentado parar.

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Essa semana mais um adolescente foi morto e a suspeita é de homofobia. Só que a morte foi registrada como suicídio! Mesmo que o adolescente estivesse com uma barra de ferro na perna, golpes na cabeça e sem todos os dentes! Como alguém pode se machucar tanto assim antes de se matar? A não-criminalização da homofobia como crime tem tornado o Brasil como um dos países onde mais se mata homossexuais no mundo. Aí algum imbecil vem dizer que héteros morrem o tempo todo. A diferença é que héteros não morrem por serem héteros! Não morrem por estarem abraçados com outros héteros! O simples fato de querer amar outra pessoa do mesmo sexo condena uma pessoa a morte num país onde a homossexualidade sequer é crime! O lobby da bancada evangélica contra a PL 122 que não foi aprovada e protegia da discriminação além de gays, lésbicas, travestis e transsexuais, os portadores de deficiência e idosos é cúmplice desse tipo de atrocidade.

Não só da homofobia, mas do seu irmão gêmeo (também crime de gênero) o feminicídio, causado pelo machismo, é possível ver os mesmos comentários, as mesmas justificativas: o machismo só existe nos olhos de quem vê. Pra quem vê racismo, só nos olhos de quem vê. Injustiça social? Só nos olhos de quem vê. Preconceito? Só nos olhos de quem vê. Daí eu me questiono e te questiono novamente também, o que Samarago de forma genial nos colocou a todos em seu Ensaio sobre “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Afinal, estão todos cegos ou ficamos loucos de vez para vermos racismo, machismo, preconceito, homofobia em tudo? Ou o problema é justamente não ver? Eu prefiro enxergar enquanto puder, antes que me arranquem os olhos.

Violento é o Estado!

Sobre violência dentro e fora do futebol

Tenho visto com preocupação a criminalização do futebol e dos torcedores de futebol. Depois do episódio da última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, no jogo entre Atlético-PR e Vasco, a violência espetacularizada e a falta de respostas mais aprofundadas chocou muita gente e abriu brecha para soluções paliativas e que pouco contribuem para o fim da violência nos estádios. Somado a isso, o Cruzeiro tratou logo de proibir que sua torcida organizada mais popular (Máfia Azul) usasse seus símbolos, e até barrou torcedores dela nas comemorações de seu aniversário! Portanto, este, é, mais que tudo, um texto sobre a violência NO futebol, e não “do futebol” e, ainda mais, é sobre torcedores, mais do que sobre o esporte em si.

Creio que é um erro atribuir ao futebol a causa maior da violência. É sim um esporte de contato, mas daí a dizer que é algo que aliena sem levar em consideração o contexto e a responsabilidade de outros atores que não dirigentes e a própria sociedade é de uma superficialidade sem tamanho. Não podemos deixar de considerar a violência como um fator social e, com isso, não estou afirmado que é inerente ao ser humano, mas que permanece como fenômeno social, isto é, dadas as circunstâncias, tanto do cotidiano quanto o que pode ser provocado, é possível que essa violência deixe de ser simbólica e passe a ser “literal”. Julgo que é um erro criminalizar a torcida, sobretudo as organizadas, porque não resolve. Pelo contrário, pode até piorar, visto que, ao criminalizar uma torcida organizada, a mesma passa a ser clandestina de certa forma, o que torna mais difícil seu controle e até mesmo sua submissão à lei e a ordem. Além disso, torcidas organizadas sempre foram parte da festa e, por mais que exista quem argumente que “tem gente que só vai pra brigar” (e tem mesmo), esse número é pequeno. Seguro Murad (2012, p. 31), apenas cerca de 5% a 7% dos torcedores que são membros de organizadas. E isso num país em que praticamente todo mundo torce por um time – ainda que não o acompanhe com frequência. O futebol faz parte da nossa cultura e por mais que alguém não goste, veja, critique, esse é um fato. Para o escritor José Lins do Rego (apud Murad, 2012, p. 220) “podemos fazer uma psicanálise da sociedade brasileira por meio do futebol”. Logo, também precisamos entender que se trata de uma cultura de multidões e, como tal, deve ser respeitada como patrimônio nacional, e não criminalizada ou, como tem acontecido, cada vez mais afastada dessas multidões.

O Bom Senso F.C é um movimento criado por jogadores de Futebol que cobra melhores condições no futebol brasileiro, mais aqui: https://www.facebook.com/BomSensoFC14

O Bom Senso F.C é um movimento criado por jogadores de Futebol que cobra melhores condições no futebol brasileiro, mais aqui: https://www.facebook.com/BomSensoFC14

A elitização do futebol é só um dos fatores que podemos citar como causa da violência nos estádios. Não se pode ignorar que vivemos em uma cultura de violência, na qual  o Estado detém potencialmente o domínio da violência, no sentido de produzir e punir os “violentos”. Além dessas macroviolências, ou seja, as violências sofridas pelos brasileiros/torcedores em seu cotidiano, como subemprego, saúde e educação precarizadas, entre outras, vivemos em um Estado punitivista no qual nossa população carcerária é de quase 500 mil detentos e onde nosso sistema carcerário é precário e imoral. Não preciso sequer dissertar sobre como prender para “ressocializar” um indivíduo é no mínimo contraditório (até porque já falei um pouco da minha opinião sobre isso em outro texto), mas tudo isso nos ajuda a enxergar que o problema não vem do futebol, mas de uma cultura de violência. Como bem fala um trecho de Galeano (2012, p. 129-130),

O futebol, metáfora da guerra, pode transformar-se às vezes em guerra de verdade. E então a morte súbita deixa de ser somente o nome de uma dramática maneira de desempatar partidas. Em nosso tempo, o fanatismo do futebol invadiu o lugar que antes estava reservado somente ao fervor religioso, ao ardor patriótico e à paixão política. Como acontece com a religião, com a pátria e com a política, muitos horrores são cometidos em nome do futebol, e muitas tensões explodem por seu intermédio.

Há quem creia que os homens possuídos pelo demônio da bola soltam espuma entre os dentes, e deve-se reconhecer que desta forma retratam bastante bem vários torcedores enlouquecidos; mas até os críticos mais indignados teriam que admitir que, na maioria dos casos, a violência que desemboca no futebol não vem do futebol, assim como as lágrimas não vêm do lenço.

E é isso, querer fazer crer que a violência do futebol nasce com o futebol é como crer que as lágrimas vêm do lenço. É tornar o problema e as “soluções” superficiais e paliativas, sem levar em conta o contexto. Não se trata de contextualizar para legitimar, mas para entender e agir melhor.

Outros fatores importantes a serem levados em conta é a falha no desenvolvimento desses seres humanos em seus grupos sociais nucleares (como escola e família) que torna cada vez mais comum o ingresso desses torcedores às torcidas organizadas como forma de pertencimento e identidade. Outro fator relevante diz respeito à faixa etária dos torcedores “violentos”. No caso do Brasil, são, em sua maioria, jovens de 15 a 24 anos – no entanto, isso não muda muito em outros países com grande índice de violência no futebol, como Itália, Espanha e Argentina (Murad, 2012, p. 158). Não podemos fechar os olhos para a situação dos jovens no Brasil. Nossa experiência em políticas públicas voltadas especificamente pra juventude é muito recente e nosso tratamento e reconhecimento dessa parcela da sociedade ainda é muito reticente.

Como o Ministério dos Esportes age sobre o futebol no Brasil.

Como o Ministério dos Esportes age sobre o futebol no Brasil.

Futebol e Mídia

A espetacularização do futebol é parte do processo de elitização do esporte que tem afastado a camada mais popular da sociedade dos estádios e da participação direta nessa “paixão nacional”. Mas o que quero tratar nesse ponto é a repercussão sensacionalista que diversos veículos de comunicação dispensam à violência no futebol. Não preciso nem entrar no mérito das grandes somas de dinheiro que emissoras negociam para transmitir partidas ou do autoritarismo da Fifa[L4]  no cumprimento e execução dos planos para a Copa do Mundo no Brasil este ano. Mas é só perceber o destaque dado ao jogo (e às imagens de violência) entre Atlético-PR e Vasco e a falta de destaque às manifestações contrárias à Copa e da abertura da Copa das Confederações (exceto as vaias à presidenta Dilma, que foram bem noticiadas, rs), quando manifestantes foram duramente reprimidos no Distrito Federal  e no Rio de Janeiro.

Em espaços tão importantes de disputa de valores e com função social de educar e informar, essa edições se mostram tendenciosas, sensacionalistas e um desserviço para a população, que muitas vezes tem nos veículos de comunicação mais populares, como rádio e TV, a principal forma de se informar. Não apenas quando para noticiar alguma coisa, mas muitas vezes a cobertura é totalmente parcial, cheia de piadinhas e provocações muitas vezes (talvez na maior parte) levantada pela própria mídia. Parece que a imprensa esportiva brasileira não se leva a sério, não exige profissionalismo ou ética. Aumenta a sensação de insegurança nos estádios ao mesmo tempo em que tenta nos vender a segurança da transmissão dos jogos de futebol no conforto das nossas casas em TV de plasma 42’’. Não bastasse isso, ainda tivermos que assistir à continuação da transmissão do jogo após mostrar torcedores se agredindo com barras e pisando na cabeça uns dos outros como se nada tivesse acontecido.

Sem contar a promoção da idolatria e exposição de jogadores, que culminam em salários cada vez mais altos dos mesmos e os alçam ao posto de astros, os quais muitas vezes (inclusive por serem jovens em sua grande parte) mal conseguem lidar com a fama, se envolvem em escândalos e têm suas vidas expostas de maneira cruel e desonesta.

Olê Marx! Olê Marx!

Olê Marx! Olê Marx!

Conclusão e soluções

Meu principal ponto foi mostrar que a violência no futebol deve ser contextualizada, e não criminalizada. Agora fica um outro desafio que é pensar soluções para essa violência. Creio que o primeiro ponto é, de fato, a educação. Mas não podemos nos ater a educar torcedores para um esporte em que as partidas se decidem no STJD. Em nota publicada após a briga de torcedores na última rodada do Brasileiro de 2013, o Ministério do Esporte somente lavou as mãos, mostrando todo o caráter punitivista e “legalista da ilegalidade” do Estado ao dizer que condena a ação e prevê o punimento dos torcedores envolvidos. Além disso, quando se reuniu pra discutir a violência nos estádios, a medida apresentada foi a criação de um “delegacia especial” para tratar de atos de agressão no esporte. Não que eu espere muita coisa do Aldo Rebelo, mas achar que punição resolve alguma coisa chega a ser patético. Claro que, como disse acima, torcidas organizadas e torcedores em geral devem se submeter ao Estatuto do Torcedor (o STJD também, viu?), por se tratar de uma lei federal e de manter a sociedade sobre o rigor da lei e da ordem (detesto essa expressão, me soa meio fascista, mas não achei outro termo). Mas, pra além disso, é preciso estratégias a médio e longo prazo, como o fortalecimento do Estado no que tange às suas responsabilidades sociais (na qual se inclui a Educação pública, gratuita e de qualidade) e outras soluções mais criativas, como melhorar o acesso da população jovem ao esporte, por meio da construção de mais campinhos de futebol amador (ou basquete, vôlei) e manutenção dos mesmos, incentivo à Educação Física nas escolas (até meus últimos anos no Ensino Médio, Educação Física significou bola pros meninos e queimada pras meninas). Não é nenhum mistério que o esporte tem ajudado na socialização de crianças, jovens e adultos e que a prática e o fair play tem ressignificado o futebol e levado a resultados pedagógicos e esportivos muito relevantes. Por isso a minha defesa é a de que antes de tudo, para além da violência simbólica, o futebol é poesia escrita com os pés. Só não se pode querer jogar sozinho, ser o dono da bola. Para que seja uma festa bonita e plural é necessário os versos de mais e mais autores.

 

Referências

MURAD, Mauricio. Para entender a violência no Futebol. Saraivaː São Paulo, 2012.

GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra; tradução de Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito. Porto Alegreː L&PM, 2012.

 

Luara Ramos é torcedora do GALO, membro da GALO Marx (a Torcida Atleticana Socialista), já discutiu muito por causa do futebol, mas nunca machucou nem uma raposa ou um urubu.