Os nomes das coisas

Rafaela Silva conquistou a primeira – até agora única – medalha de ouro do Brasil nos jogos olímpicos do Rio. Mulher, negra, lésbica e filha da periferia, houve quem falasse que não precisávamos lembrar disso, como se fossem meros “detalhes”, como se tudo isso não tivesse influenciado diretamente na trajetória da Rafaela. Como se ela não tivesse sofrido na pele (trocadilho inevitável) racismo nos jogos de Londres e como se todas as dificuldades enfrentadas por ela fossem parte de um belo roteiro na vida dos campeões.
Judo - Olympics: Day 3

Rafaela Silva: mulher, negra, periférica, lésbica e medalha de ouro no judô. Foto: yahoo

Simone Manuel, nadadora dos EUA, é a primeira negra campeã olímpica da natação individual. Lá fora estão dizendo que ressaltar o fato de ser uma atleta negra é (pasmem!) preconceito. Que deviam focar no fato dela ser campeã.
Na cerimônia de abertura da RIO 2016, o comentarista Galvão Bueno não se preocupou em desmerecer o velocista negro Usain Bolt – o homem mais rápido do mundo -, multicampeão olímpico, detentor de recordes mundiais impressionantes. Curiosamente Galvão é só emoção ao chamar Michal Phelps de “fenômeno”.
Foi preciso que Simone Biles, ginasta negra de apenas 19 anos, medalhista mundial e agora olimpica falasse com todas as letras que não pode ser comparada a outros atletas, pois sua história é cheia de particularidades e ela realmente merece ser tratada como a “primeira de seu nome”. Muitos acharam arrogante, outros tantos – felizmente – aplaudiram.
Lembrar quem são e de onde vieram parece mesmo incomodar quem sempre esteve no mesmo lugar privilegiado e enxerga no discurso da meritocracia uma forma de amenizar o próprio sentimento de culpa. Porque se não for culpa, precisamos dizer: é racismo, machismo e homofobia.
*E no caso do Galvão mais um tanto de colonialismo.

Sexo e Futebol

É de Luís Fernando Veríssimo uma das minhas frases favoritas sobre futebol: “no fim, sexo e futebol só são diferentes mesmo em duas coisas: no futebol, com a devida exceção ao goleiro, não se pode usar as mãos. E o sexo, graças a Deus, não é organizado pela CBF”. Desculpe o spoiler, já que se tratam dos versos finais de sua crônica, intitulada exatamente “O Sexo e o Futebol”. Quem não conhece, vale a leitura. Trata-se de uma comparação, leve e bem-humorada, entre as duas “modalidades”. Ou seja: é possível fazer humor falando desses temas sem apelar para a violência que tem permeado estádios e redes sociais a cada jogo.

A naturalização da violência sexual no futebol é algo perverso que me choca profundamente. Talvez por vivermos em um país onde recentemente o número de estupros foi maior que o de homicídios ou porque basta ler os comentários de qualquer notícia sobre estupro pra saber que esse tipo de violência integra a nossa cultura.

Não sou especialista em nada, mas vivo esse medo todos os dias. E, como amante do futebol, me entristece ver pessoas banalizando e naturalizando algo tão doloroso.

Para essas pessoas, um time não goleia, “estupra”. Tomar 4 gols virou “tomar de 4” em referência à posição sexual. O “chupa” também é bem comum e às vezes vem acompanhado de algum gesto obsceno. É comum também “mandar tomar no cu”. Este último me intriga bastante e por isso quero até dedicar-lhe mais um parágrafo.

Mandar alguém “tomar no cu” me parece ignorante de diversas formas. Primeiro porque nega uma possibilidade de prazer, como se fosse um castigo, algo ruim. Segundo porque as noções de sexo parecem meio distorcidas, já que implica numa passividade de quem “toma”, como se não fosse possível gostar e como se sexo fosse mais uma relação de “poder” do que uma relação íntima, propriamente dita.

Além disso, na maior parte das vezes busca-se desconstruir o adversário arranjando-lhe apelidos “femininos” ou homofóbicos, como se o sexo para mulheres ou homossexuais devesse ser doloroso e ruim. E isso, na minha opinião, tem relação com o que disse anteriormente sobre relações de poder: aos machos cabe o gozo da vitória. Acho que é daí que nasce essa comparação entre sexo e futebol que, de tão banalizada, às vezes passa até despercebida e nos pegamos dizendo as mesmas coisas depois de uma rodada do brasileirão.

A nós cabe a reflexão, afinal futebol e sexo são duas coisas bem legais, então como conseguimos fazer disso instrumentos da violência? Veríssimo (no texto que citei logo acima) já provou que o sexo pode ser prazeroso pra todo mundo e fez isso numa comparação com o futebol! Penso assim que quem não consegue falar de futebol sem apelar para a violência, sobretudo a sexual -tema deste texto- não entende nem de futebol, muito menos de sexo.

Sem feminismo não há democracia

Luara Ramos e Natalia Bemfeito*

Após a disputa eleitoral para a Presidência da República mais acirrada dos últimos tempos é inevitável e necessária a reflexão sobre o machismo enfrentado por mulheres que ocupam cargos de poder. Poderíamos tratar exclusivamente dessas eleições, mas há quatro anos uma mulher ocupa o cargo mais alto do país e a falta de mulheres em posições mais representativas nos leva a reflexões anteriores que se já foram ditas, merecem ser recordadas.

Presidenta** ou primeira-dama?

Para começar nossos devaneios feministas, trataremos de fato digno de observação, por sua peculiaridade: todas as roupas utilizadas por Dilma foram comentadas e muitas receberam duras críticas, como se fossem “assunto de Estado”. Não se podem dizer o mesmo dos candidatos. Terno não vira notícia, tsc…Em sua posse, em 1º de janeiro de

Natalia Bemfeito

Natalia Bemfeito

2011, especulava-se que “modelito” ela usaria e até entrevista com o maquiador fizeram. Alguém já perguntou ao Collor o nº do Grecin que ele usa pra manter suas madeixas grisalhas? Ou como o Lula prefere usar a barba? É disso que estamos falando…

Ainda em 2011 outra coisa chamou muita atenção: pela 1ª vez o Brasil escolhia uma mulher para ocupar a presidência da República, mas nas manchetes dos jornais e revistas surgia uma figura desconhecida, a esposa do vice-presidente Michel Temer. Marcela Temer apareceu ao lado do vice-presidente e segundo jornais, comentaristas e revistas de fofoca “roubou” a cena. Mais uma vez nos era dada a lição: mulher é um objeto decorativo, foi feita pra ser bonita, não pra ser presidenta. Agora imagine a cabeça e a autoestima de uma menina que vê duas mulheres no alto da rampa do planalto: quem ela gostaria de ser, a esposa do vice-presidente (a vice-primeira-dama?) ou a mulher mais poderosa do país? O “cargo” de primeira-dama estava vago e até a companhia da presidenta no rolê do Rolls-Royce presidencial gerou especulação – afinal, além de ser mulher, Dilma é divorciada e esse assunto continuou dando pano pra manga até que chegamos às eleições de 2014. O R7 publicou uma matéria ridícula para apresentar a “possível primeira-dama”, esposa do candidato Aécio Neves. A pérola final é “Desde que Luiz Inácio Lula da Silva deixou a Presidência, o Brasil não conta com uma primeira-dama, já que o País elegeu uma presidente em 2010”. O que será de um país sem uma primeira-dama, hein? O que importa que o Brasil ainda seja um dos países com menos mulheres em cargos eletivos se não contamos com uma primeira-dama? Os machistinhas-bronha de internet logo ficaram em polvorosa! Exaltavam o lado “pegador” do presidenciável Aécio, além de alguns comentários de tão babacas, nos recusamos a reproduzir.

Mais candidatas à presidência, mais machismo

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Em 2010 foram duas candidatas e este ano três. Em dado momento tivemos a possibilidade inédita de um 2º turno com duas mulheres na disputa, mas a presença de uma figura feminina só fez instigar as ofensas mais sexistas dignas dos comentaristas de portais. Nas redes sociais todas as candidatas foram alvo de termos sexistas. A presidenta e candidata Dilma Rousseff foi quem mais sofreu agressões por ter maior rejeição, comum (a rejeição) a candidatas(os) à reeleição. Luciana Genro e Marina Silva também foram vítimas de tais ataques. Marina foi chamada de “magrinha” por Eduardo Jorge durante uma comparação infeliz em um debate. Luciana teve que ouvir críticas ao seu cabelo crespo, seu sotaque. As vozes das candidatas também foram bastante criticadas, afinal os eleitores não estão acostumados com vozes mais agudas e acham mais estranho a voz de uma mulher do que não ver metade da população nacional representada politicamente.

De “vaca”, “vadia” e “piranha” até ameaças covardes e comentários sobre a vida sexual e a aparência, referir-se a qualquer mulher de tal forma não deveria ser algo considerado natural, mas é. Especialmente quando esta mulher ocupa um lugar que “não lhe cabe”. Na academia, na comunidade científica, na política. Afinal, “não é lugar de mulher”, não é mesmo?

Aécio e a personificação do machismo

No recente processo eleitoral, vimos muitos militantes bradarem: “não voto em candidato que bate em mulher!”, “candidato machista não me representa”. A origem de tais manifestações se refere ao episódio em que ele teria agredido uma namorada durante uma festa no Rio de Janeiro. É importante ressaltar que não houve condenação neste sentido, nem por parte da justiça, já que nunca houve sequer investigação do caso e o candidato chegou a negar, ameaçando o jornalista Juca Kfouri, responsável pela nota, de processo (apesar de nunca tê-lo processado) e nem por parte do eleitorado, que julgou ser algo muito pessoal e, portanto, fora do debate político. No entanto, pudemos detectar diversas posturas extremamente sexistas de Aécio nos debates dos presidenciáveis: todos o vimos utilizar expressões ultrapassadas como “dona de casa”, para se referir às mulheres, e “trabalhador”, ao falar dos homens. Além disso, a forma como se dirigia às candidatas mulheres para desqualificar suas afirmações chamando-as de “levianas” e “mentirosas” também foi marcante. Seu riso ao responder as perguntas e a insistência em chamar a candidata Dilma de mentirosa durante os debates do 2° turno geraram inclusive uma rejeição por parte das mulheres. Tudo isso refletiu na campanha, já que os militantes tucanos não ficaram atrás e durante um dos debates receberam Dilma urrando “vaca, vaca, vaca”!

Outra coisa que foi bastante ouvida é que Aécio tem “cara de presidente”. Claro que tem cara de presidente, afinal durante toda a nossa história SÓ TIVEMOS CANDIDATOS HOMENS, claro que não estamos acostumados a uma mulher na presidência. Este argumento além de tudo é estúpido.

Os outros candidatos foram igualmente machistas ou até piores. Pastor Everaldo e Levy Fidelix chocaram as pessoas com discursos vazios e preconceituosos, permeados de machismo, homofobia e o que de pior puder existir. Mas a reflexão que queremos trazer aqui não é um julgamento dos candidatos. Queremos com a discussão feminista, tirar do ambiente privado, questões que tantas vezes violentaram as mulheres. Queremos trazer a público, para a política, algo que não pode mais ficar escondido. Por trás das vaias e xingamentos está o machismo e a luta de classes. Mulheres que ocupam lugares que “não lhes cabem” incomodam àqueles que querem manter seus privilégios. As mulheres da classe trabalhadora lutaram para conquistar o direito à igualdade, ao voto, à cidadania plena, à licença maternidade, dentre muitos outros. E hoje as mulheres continuam lutando para alcançar seu lugar nos cargos de poder sem sofrerem preconceitos odiosos. Porque lugar de mulher é onde ela quiser.

A democracia não pode e não deve ser um governo para a maioria como muitos querem fazer crer. A democracia deve ter a ver com a coexistência de ideias e não com a opressão do outro/ da outra. Ou a democracia é para todos e todas ou não será para ninguém. E se não aprendem a respeitar as mulheres nós temos que ensinar.

*Luara Ramos é mineira, Atleticana, feminista, publicitária e criadora do blog Vã Filosofia; Natalia Silva Bemfeito é servidora pública, pós-graduanda em Direito pela UERJ e militante feminista. As duas se conheceram na militância pelas redes e desde então descobriram que são irmãs.

** Antes que algum desinformado metido a dono da Língua Portuguesa venha dizer que “aff, parei de ler no ‘presidenta’, gostaríamos de dizer que o termo em questão já aparece desde 1899 no dicionário Cândido de Figueiredo. E ainda que não aparecesse, se te soa estranho só porque nunca antes tivemos outras presidentas, é bom ir se acostumando…

Carta aberta de uma gordinha à Marina Silva

Por Camila Moreno

Marina,

está circulando pela internet um vídeo em que a senhora faz uma comparação entre você e a também candidata e presidenta Dilma Rousseff.  Entre as tantas comparações que podem e devem ser feitas entre as duas candidatas mais bem posicionadas nas pesquisas eleitorais, você opta por dizer é magrinha, enquanto Dilma é fortinha, exatamente com essas palavras, arrancando risadas e aplausos da plateia.

Camila Moreno

Camila Moreno

Lembro com nitidez que a senhora já havia feito essa comparação com Dilma na eleição passada, ao ser perguntada sobre suas principais diferenças.

Dilma é a primeira presidenta da história do Brasil e essa é a primeira eleição com grandes chances de duas mulheres irem para o segundo turno. Uma eleição histórica, certamente.  Histórica porque em um país cercado de machismo por todos os lados; em que as mulheres são menos de 10% no Congresso Nacional; onde embora muitos avanços tenham sido alcançados com a Lei Maria da Penha, ainda estamos em 7º lugar no ranking da violência doméstica; a maioria dos cidadãos e cidadãs do nosso país, se as pesquisas estiverem certas, optará por confiar o seu voto em uma mulher. Isso é lindo e me emociona.

Sei que você sabe, Marina, que ser mulher é um desafio cotidiano. É ter que provar duas vezes que é capaz. Na política então, nem se fala. Lembro o quanto te criticaram pelo fato do seu companheiro trabalhar no governo do PT no Acre, como se vocês, por serem casados devessem ter a mesma opinião política. Na época, te defendi e disse que achava um absurdo esse tipo de acusação. Te defendo quando falam da sua voz, porque não estão acostumados com vozes mais agudas nos debates políticos. Imagino Marina, o quanto sejam duras as críticas por causa do seu cabelo, pelas roupas e não pelas ideias.

Talvez você não tenha tido noção da gravidade da sua declaração, Marina, mas eu vou te contar o porquê ela doeu no fundo da minha alma: eu sempre fui considerada uma criança gordinha e desde que entendi que isso era um defeito, sofri com isso. Tive transtornos alimentares graves e só me aceitei de fato, quando conheci a militância e o feminismo, porque me mostraram que os padrões de beleza nos tornam escravas de uma busca impossível e infeliz e eu esperava que as mulheres na política, ainda que com divergências, optassem pela desconstrução do machismo, mas você fez exatamente o contrário.

Essa sua declaração apenas reforça um padrão ditatorial que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres arrisquem suas vidas em métodos salvadores do alcance da beleza, porque ao invés de você optar por ajudar a romper com essa lógica de que a mais magra é melhor que a gorda, você a reforçou. Você podia ter escolhido desconstruir a ideia de que o debate entre duas mulheres seria um debate superficial e estético, mas você preferiu seguir essa lógica que revistas de beleza e a indústria do entretenimento entranham todos os dias na nossa vida, de que para ser bem sucedida e feliz, é preciso ser magra.

Você não perdeu o meu voto com essa sua “piada”, porque você já o havia perdido quando optou por deixar de lado a sua bela trajetória de vida e luta ao lado de Chico Mendes para ser a nova voz da direita e do neoliberalismo no país, mas eu de fato esperava um debate mais qualificado da sua parte.

*Camila Moreno é @camilamudanca no twitter, estudante de Letras da UNB e pretende não ser infeliz por conta dos padrões de beleza.

O que eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta…

Tento lembrar a última vez que usei biquíni. Na verdade, a penúltima vez. A última foi há alguns dias, quando fui à praia com meu namorado. Ele gosta de tirar fotos da gente, de mim. Eu não posso esquecer o quanto me senti amada quando ele me disse: “é incrível olhar a mulher que eu amo, usando um biquíni do time que eu amo.” Eu usava um biquíni do GALO que tinha comprado assim que vim morar no Espírito Santo e que coloquei poucas vezes e nunca tive coragem de usar de verdade. Mesmo no clube que eu frequentava na minha cidade, no interior de MG, eu entrei poucas vezes numa piscina depois dos 10 anos de idade. Me sinto um pouco envergonhada de dizer isso, ainda mais agora que me reconheço feminista e busco cada vez mais desconstruir essas neuras impostas às mulheres pelo padrão de beleza vigente.

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Negahamburguer ❤

Minha mãe sempre foi uma mulher dessas que a gente pode chamar de “poderosa”. Ela é autêntica, tem uma autoestima muito legal e me ensinou muito sobre não se importar com a opinião das pessoas se o que você tá fazendo não é errado e te faz bem. Ainda assim a adolescência não foi o melhor período do mundo. Eu tinha passado de “garotinha fofa” a “gordinha” e ouvia os tios e tias dizendo que eu tinha um rosto bonito. Como se tivesse alguma coisa de errado com meu corpo. Comecei a querer emagrecer, mesmo gostando tanto de pipoca e chocolate e não tendo nenhum tipo de problema de saúde. Eu só tinha 11 anos quando comecei a fazer todo tipo de coisa maluca. Minha mãe acabou descobrindo, mas até aí eu já tinha desmaiado algumas vezes, forçado o vômito e tomado laxantes.

Quando eu consegui me encontrar em outras formas, nas minhas formas, tive um relacionamento destrutivo com um cara que conseguia me beijar e no momento seguinte dizer que eu tinha engordado ou estava com mais celulite. Passei a ter vergonha do meu corpo, vergonha dele, de ficar com ele. Me sentia culpada por estar daquele jeito e por deixar que ele me fizesse sentir mal. Mas eu o amava e achava que ele também me amava. Acabava me sujeitando àquele tipo de coisa porque não queria que acabasse. Acabou. Eu fiquei bem destruída, sobretudo porque ele me traiu. Hoje penso que ele já havia me traído antes, como quando me fazia sentir tão mal, quando fazia piadas sobre meu peso ou até me falava pra não comer muito quando saíamos juntos. Aliás, engraçada essa coisa de traição, né? Hoje eu me sinto menos traída porque ele ficou com outra pessoa e mais porque acreditava que fosse um companheiro e ainda assim foi tão machista e babaca. Não desejo mal algum a ele ou qualquer cara que faz esse tipo de coisa. Só desejo que eles mudem e não tentem destruir a autoestima de suas companheiras e que elas sejam tão fortes que não permitam esse tipo de coisa.

Negahamburguer <3 facebook.com/olanegahamburguer

Negahamburguer e o desenho que me inspirou a escrever esse texto

Por que eu estou contando isso tudo? De verdade, não me orgulho tanto das minhas inseguranças. E eu poderia até dizer que me sentiria melhor e mais forte se tivesse usado um biquíni sem que meu atual namorado falasse que estava tudo bem, que era pra eu deixar de besteira. Mas acho que foi um gesto de amor e gestos de amor sempre valem a pena ser contados.

Sem essa ladainha de que precisamos de caras que nos “valorizem” ou que precisamos nos amar. É difícil falar em amor próprio quando tudo à nossa volta diz que não estamos bem. Magra demais, gorda demais, alta demais, baixa demais…inventam todo tipo de defeito pra fazer a gente sofrer e gastar. Então, apesar de esse texto ser mais escrito com o coração do que com qualquer dado sobre a indústria de beleza, é só uma forma de dizer que “hoje eu me amo muito mais, porque me entendo muito mais também”. Eu quero ser cada vez mais de verdade e isso não quer dizer me acomodar, quer dizer que eu quero me sentir feliz. Aprendi a não julgar a aparência das mulheres, a reconhecer belezas diferentes e com isso eu espero poder dizer às meninas e mulheres que elas não precisam ter suas autoestimas destruídas para recomeçarem. Embora tenha sido importante pra minha “reconstrução”, eu desejo de verdade que a sororidade reine entre a gente.

Essa é a história da minha foto de biquíni mais de uma década depois de usar biquíni pela última vez. Ou se vocês preferirem, esta é a história de uma mulher que aprendeu que o amor não tem nada a ver com culpa. E que contar histórias é uma forma de desnudar nossa alma, mas pra quem já deixou de lado o medo de ir à praia de biquíni, deixar a alma nua não é tão difícil =)

Não deixem de conferir o trabalho lindo e inspirador da Negahambuguer

O machismo virou regra*

O GALO venceu o clássico de virada no último dia 10 de maio, mas ao contrário dos cruzeirenses na final do campeonato mineiro de 2014, eu não vou agradecer à arbitragem pelos erros que beneficiaram o meu time.
Acho o Héber Roberto Lopes um árbitro medíocre, mas não é sobre ele que pretendo falar, mas sobre a auxiliar de arbitragem Fernanda Colombo Uliana.
A ”bandeirinha gata” como algumas pessoas dizem, tem nome, errou feio no impedimento do jogador do Cruzeiro no fim do jogo, entre outros erros na partida e foi criticada recentemente pela atuação no jogo São Paulo x CRB na Copa do Brasil. Não é o caso de “defender” (como se ela não pudesse fazer isso sozinha) só porque é uma mulher, mas porque a maioria dos comentários e ofensas direcionados à Fernanda são machistas, isto é, ”APENAS” pelo fato de ela ser mulher. Assim como o impedimento, o machismo virou uma regra do futebol. E como diz o Arnaldo César Coelho, “a regra é clara”: futebol não é lugar de mulher. Pelo menos é como parecem pensar algumas pessoas.

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Desenhando pra quem ainda não entendeu.

”VAI POSAR PRA PLAYBOY” – mulher só serve pra aparecer pelada.
”É GOSTOSA, MAS É BURRA” – sexualização da imagem feminina + mulher não pode ser bonita e inteligente + mulher não entende de futebol.
”AHA, UHU! A GOSTOSA É NOSSA!” – (gritado pela torcida do GALO depois do erro bizarro ao marcar um impedimento cruzeirense que não existiu) – objetificação que além do discurso implícito de posse, não contribui em nada para o futebol como jogo e é um atestado de apequenamento desnecessário ao comemorar um erro de arbitragem que beneficiou o próprio time.

-“Ah, mas você não tem senso de humor? É só provocação!”

Será mesmo? Como os árbitros são xingados?

Filho da puta! (opa, Feliz Dia das Mães, seu juiz!)
Corno! (sim, a culpa continua sendo das mulheres…)
Viado! (claro que não poderia faltar a homofobia)

A atuação da bandeirinha Fernanda Colombo foi realmente ruim, mas critica-la por ser mulher além de desonesto, é de uma ignorância absurda. Afirmar que ela chegou a atuar em um jogo pela principal série do campeonato brasileiro porque é ”gostosa” é como afirmar que a única coisa que mulheres podem fazer é cumprir uma função ”decorativa”. É dizer que mulheres não pensam, não entendem de futebol, não tem a menor capacidade para atuar no meio futebolístico. É naturalizar a opressão.
O futebol, como meio ainda majoritariamente ocupado por homens, sempre teve erros absurdos de bandeirinhas masculinos, mas eu não me lembro de ninguém mandando os caras lavarem louça ou dizendo que eles dormiram com alguém pra estar onde estão.

A repercussão do erro da bandeirinha Fernanda Colombo não poderia ser pior. O diretor de futebol do Cruzeiro, Alexandre Mattos disse que ”se é bonitinha, que vá posar pra playboy!”, como se o machismo precisasse ser institucionalizado pela diretoria de algum clube. Mattos só repetiu o senso comum, mas sua irresponsabilidade custou muito caro às mulheres em um meio já tão hostil como o futebol. Fernanda Colombo, ao contrário de tantos auxiliares homens que erraram em lances decisivos, clássicos, finais de campeonato, vai passar por uma ”reciclagem”, isto é, terá que estudar mais para ocupar o mesmo posto que um homem, que também erra (e sempre errou) ocupa. O problema não é que ela tenha que se dedicar a estudar mais as regras ou treinar seu posicionamento em campo, mas que ela tenha que fazer por ser mulher. Por estar em um espaço onde não a aceitam. Porque o problema não é ser bonita. Se fosse feia isso também seria ressaltado como justificativa pra algum erro. O problema, repito, é ser mulher.

Sobre a declaração do diretor cruzeirense, o comentarista Bruno Formiga também deu seu recado (abaixo).

Agora eu pergunto a vocês: de todos os espaços destinados ao esporte nessa nossa ”Pátria de chuteiras”, por que nem sobre a condição da mulher no futebol como o caso de machismo a que foi submetida Fernanda Colombo, temos mulheres escrevendo, comentando em noticiários esportivos, entre outros meios?

Contra o racismo, o machismo e a homofobia e por mais mulheres falando, escrevendo, comentando, apitando e jogando futebol!

Abaixo, outros textos sobre o caso e que valem a leitura:

O impedimento da mulher – Breiller Pires (Placar)

A mulher é a aberração do mundo do futebol – Fábio Chiorino (Esporte Fino/ Carta Capital)

Racismo não pode. Ok. Mas e o machismo? – Bruno Winckler (Esporte Fino/ Carta Capital)

Lugar de mulher “bonitinha” é na Playboy – Xico Sá (Blog Folha/UOL)

*O machismo no futebol não é algo recente, mas dadas as proporções e as declarações de dirigentes, meios de comunicação e comentaristas que questionaram a atuação da bandeirinha Fernanda Colombo usando sua aparência como justificativa, o preconceito parece ter sido institucionalizado. Cabe a nós, mulheres e protagonistas dessa luta, mandarmos o machismo pra escanteio!

Muito além dos números

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) acaba de dizer que errou na pesquisa sobre tolerância à violência de gênero e que o número de pessoas que concordam que mulheres devem ser atacadas é “menor” do que o divulgado. Já estou me preparando pro arsenal de chorume machista depois dessa matéria. Vão chamar feministas de paranoicas, tentar deslegitimar a luta das mulheres e tal.

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

O que os homens (principalmente) não entenderam foi que nossa luta não é contra eles, mas contra um sistema que oprime INCLUSIVE os homens. O que os homens não entenderam quando afirmam ”ah, mas as próprias mulheres são machistas” é que isso não é justificativa pra se eximir da responsabilidade de construir uma sociedade mais justa no que tange às relações de gênero. E que mulheres apenas reproduzem conceitos machistas que internalizaram ao longo da efetivação do sistema patriarcal. Mulheres não se beneficiam disso. Homens, ainda que também internalizem isso, são sim beneficiados e se querem de fato ser aliados nessa luta precisam rever seus privilégios.

Agora sobre a pesquisa, ainda que tenha ocorrido erro, não são “SÓ 26%”. Os relatórios do IPEA são muito interessantes e vale a pena ler*. Um deles é uma nota técnica sobre estupros no Brasil, com números de casos que foram levados até o final (sem contar os que ocorrem, mas as mulheres por medo ou vergonha não denunciam). Tivemos no Brasil só em 2013 mais estupros registrados que homicídios dolosos (quando há intenção de matar).

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

A pesquisa sobre tolerância à violência de gênero, que deu início à campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada é também uma pesquisa qualitativa. Ou seja, leva em conta a análise social dos dados. A pesquisa traz dados contrastantes como os que revelam que a maioria das pessoas concordam que homem que agride a companheira deve ser preso, mas que mais da metade (58% pra ser mais exata) das pessoas ainda acham que se a mulher soubesse se comportar evitaria estupros. Nem preciso dizer que “saber se comportar”= seguir um modelo patriarcal e heteronormativo. Ou seja, ainda é legitimação da violência sexual. Se fossem 10%, 26% ou 65% o choque seria o mesmo, mas particularmente, pouco me importam os números. Quando se tem o registro de mais estupros que homicídios, quando eu ainda ando na rua com medo de se estuprada, quando eu vi a reação de diversas pessoas (sobretudo de homens nas redes sociais como o Facebook) usando toda a sorte de critério canalha pra deslegitimar os dados, a pesquisa faz muito sentido. A chamada ”cultura de estupro” é realidade pra mim e pra maioria das mulheres que eu conheço. Não “só” pelo medo que nos tolhe o direito à cidadania plena, mas pela angústia de quem já passou por esse tipo de violência e fica marcada para o resto da vida.

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

Via O Machismo Nosso de Cada Dia

É preciso começar, assim como se admite no racismo a existência de uma forma velada de preconceito, admitir que os números de uma pesquisa ainda são pouco pra medir a dor das mulheres. Ora, se são jovens negros da periferia os que mais morrem nesse país, também não é difícil perceber que nas páginas dos jornais diários sangram mulheres vítimas de todo o tipo mais perverso de abuso e violência. E nem precisa abrir um jornal. Acho difícil que ninguém conheça pelo menos uma mulher vítima de agressão. Uma amiga que passou por algum tipo de abuso. Quem fecha os olhos pra esse tipo de violência não deve conhecer ou conversar com mulher alguma. Pergunte a elas. É portanto, preciso entender que não é porque diminuíram os números que diminui nossa luta ou que casos de estupro deixarão de acontecer.

E é por isso, que mais do que nunca, o feminismo continua urgente e necessário.

“Continuaremos em marcha até que TODAS sejamos livres”.

Não 26%, 65%…TODAS.

*No site do IPEA eu já não consegui acessar os relatórios. Devem estar corrigindo, mas assim que tiver acesso aos relatórios com os números corretos, atualizo os links onde é possível ler as ponderações feitas acerca dos resultados, o que repito, não muda nada com a diminuição de 65% pra 26%.