Das Esquinas

Para Carlos Brandão, em texto originalmente publicado no livro O urbano e o regional no Brasil contemporâneo, as esquinas são lugares privilegiados, que permitem às pessoas tomar decisões, vislumbrar novos caminhos, ficar cara a cara com o inesperado. Vista dessa forma, a esquina se torna um espaço da utopia, lugar do encontro e de celebração da amizade. (Rafael Senra em Dois lados da mesma viagemː a mineiridade e o Clube da Esquina, 2013, p.38)

Eu me sentia órfã. Tinha acabado de ler “Os Sonhos não envelhecem” do Márcio Borges, onde o autor e um dos protagonistas do Clube da Esquina narrava histórias, fiava prosa e matava a saudade de Minas, que eu havia deixado há cerca de 2 anos para estudar no Espírito Santo. Esse exílio voluntário fez com que a minha mineiridade ficasse ainda mais exacerbada. Nós mineiros temos uma fama bairrista por exaltarmos nossa cultura e identidade, mas morando em outro estado, tão diferente do interior da Conselheiro Pena de pouco mais de 20 mil habitantes o bairrismo também era uma forma de resistência. Ainda tive a oportunidade de dizer ao Márcio, no lançamento do “Sonhos” em Vitória o quanto seu livro tinha me tocado e como eu me peguei chorando ao ler o último ponto. A saudade de Minas, do GALO…ao que sua filha, que o acompanhava respondeu com um sorrisoː nós também somos GALO.

Meu exemplar aguardando o autógrafo =P

Meu exemplar aguardando o autógrafo =P

Para uma disciplina da Faculdade (que não me lembro agora, mas acho que tinha a ver com estética) desenvolvemos um trabalho sobre o Clube da Esquina e eu que já convivia com aquelas canções desde criança me reencontrava. Não queria perder aquilo e foi assim que encontrei no Google a dissertação de mestrado do Rafael Senra. O subtítulo me chamou muita atenção e eu baixei, comecei a ler e quando vi se tratava de um trabalho recente, procurei por curiosidade o autor no Facebook. Queria ver quem era aquele que se identificava tanto quanto eu com as músicas do Clube da Esquina e enxergava a mineiridade que fazia tanto sentido pra mim. Qual não foi minha surpresa quando além de encontrá-lo ainda percebi que tínhamos um amigo em comum. Era o Gui Vidal, que eu conheci há alguns anos na Comunidade do GALO no Orkut e ainda mantinha (e por felicidade, mantenho) contato. Gente muito fina, como costumamos dizer sobre quem a prosa é agradável, embora eu ainda não o conheça pessoalmente.

Não lembro quem adicionou quem primeiro, mas “descobrir” o Rafael foi um alento. Continuar lendo sobre o Clube, conhecer quem também compartilhava aquele sentimento todo. Mas ao saber do livro Dois lados da mesma viagem, eu resolvi adiar a leitura da dissertação. Aquela história toda precisava ser contada da melhor maneira possível. E fiz bem em esperar. Pedi meu livro pela internet, porque morar fora de Minas me impediu de comparecer aos lançamentos por lá. Mas o capricho da capa aos versos, as ilustrações (também do Rafael), a pesquisa cuidadosa, todo esse esmero me deu um orgulho danado. De ter esperado e de ter acompanhado um pouquinho, mesmo de longe, toda aquela “viagem”.

"Para Lennon e McCartney" em umas das ilustrações de Rafael Senra que abrem os capítulos do livro Dois lados da mesma viagem

“Para Lennon e McCartney” em umas das ilustrações de Rafael Senra que abrem os capítulos do livro Dois lados da mesma viagem

Terminei ainda há pouco de ler “Dois lados”, mas não me sinto órfã. Rafael é hoje um amigo que encontrei nessas esquinas, ainda que virtuais, com o qual tenho a honra de trocar ideias e impressões sobre música, cultura e com o qual venho aprendendo bastante. Seu olhar sensível e aguçado sobre a música brasileira desperta na gente a criticidade sem deixar de nos pegar pela admiração. É bom aprender a curtir música e enxergar o outro lado ou ainda melhor, curtir os “Dois lados da mesma viagem”.

 Para conhecer mais sobre o livro

Siteː http://doisladosdamesmaviagem.com/

Página no Facebook: Dois Lados da Mesma Viagem