Os nomes das coisas

Rafaela Silva conquistou a primeira – até agora única – medalha de ouro do Brasil nos jogos olímpicos do Rio. Mulher, negra, lésbica e filha da periferia, houve quem falasse que não precisávamos lembrar disso, como se fossem meros “detalhes”, como se tudo isso não tivesse influenciado diretamente na trajetória da Rafaela. Como se ela não tivesse sofrido na pele (trocadilho inevitável) racismo nos jogos de Londres e como se todas as dificuldades enfrentadas por ela fossem parte de um belo roteiro na vida dos campeões.
Judo - Olympics: Day 3

Rafaela Silva: mulher, negra, periférica, lésbica e medalha de ouro no judô. Foto: yahoo

Simone Manuel, nadadora dos EUA, é a primeira negra campeã olímpica da natação individual. Lá fora estão dizendo que ressaltar o fato de ser uma atleta negra é (pasmem!) preconceito. Que deviam focar no fato dela ser campeã.
Na cerimônia de abertura da RIO 2016, o comentarista Galvão Bueno não se preocupou em desmerecer o velocista negro Usain Bolt – o homem mais rápido do mundo -, multicampeão olímpico, detentor de recordes mundiais impressionantes. Curiosamente Galvão é só emoção ao chamar Michal Phelps de “fenômeno”.
Foi preciso que Simone Biles, ginasta negra de apenas 19 anos, medalhista mundial e agora olimpica falasse com todas as letras que não pode ser comparada a outros atletas, pois sua história é cheia de particularidades e ela realmente merece ser tratada como a “primeira de seu nome”. Muitos acharam arrogante, outros tantos – felizmente – aplaudiram.
Lembrar quem são e de onde vieram parece mesmo incomodar quem sempre esteve no mesmo lugar privilegiado e enxerga no discurso da meritocracia uma forma de amenizar o próprio sentimento de culpa. Porque se não for culpa, precisamos dizer: é racismo, machismo e homofobia.
*E no caso do Galvão mais um tanto de colonialismo.

Como vai proibir quando o GALO insistir em cantar?

O futebol como expressão popular tem sido há muito uma importante ferramenta de luta e transformação. Seja pela disputa de ideias, espaço ou simples manifestação, o esporte que já parou guerras, resistiu à ditadura e empunhou faixas pela anistia hoje sofre com a perseguição do “futebol moderno”.
A criminalização das torcidas e da nossa maneira própria de torcer com a proibição de bandeiras e sinalizadores, por exemplo, bem como a “arenização” dos estádios mudou o perfil do público. Quem ainda teima, no entanto, precisa lidar com desmandos que estão além das quatro linhas.

GALO x Ponte

Foto: Marcelo Paulo


Hoje, mais uma vez, policiais tentaram tomar a faixa contra a Rede Globo estendida durante o jogo GALO x Ponte Preta e adesivos escrito “Fora Temer Golpista” usado por alguns torcedores. Sob o pretexto de que isso “incita a violência” e o mais absurdo que “é a Globo que banca tudo”, responsáveis pelo estádio que ironicamente é chamado de Independência e a polícia golpista de Minas tentaram obstruir um dos direitos fundamentais previstos na nossa Constituição que é o direito à livre manifestação. Estes, como e com a autoridade que lhes foi concedida, demonstram desconhecer ou mesmo ignorar que nenhuma norma pública ou privada está acima dos direitos constitucionais. Se submetem a interesses escusos do setor privado e de determinados grupos políticos e evidenciam ainda mais o caráter golpista e autoritário que se abateu sobre a democracia brasileira.
Apesar de tudo, continuamos dando o nosso recado: fora golpistas, lobbystas da bola, polícias políticas e dirigentes omissos.

O futebol é livre e o povo também!

A Revolução será televisionada?

26 de março de 2015

O Jornal Nacional exibe uma série de reportagens sobre “menores infratores”. No episódio de hoje uma penitenciária que “parece escola”, depoimentos emocionados sobre como ficar preso ali foi como uma “redenção”.

Começa a novela e por algum motivo dois rapazes – um negro e um branco – estão discutindo. O errado, ~obviamente o negro~, fala em seguida algo como “você não pode me prender, eu sou menor!”.

Poderia ser uma piada perversa, mas em um momento que a redução da maioridade penal volta ao debate, eu chamaria de “anúncio de oportunidade”. Mas também podemos chamar de lobby para a privatização de penitenciárias, ação e/ou merchandising da “Bancada da Bala” ou até mesmo um bom RP do senador dono do helicóptero (aquele).

30 de março de 2015

Estudantes da Escola Estadual Maria Ortiz, localizada no centro de Vitória (ES) são entrevistados pelo ESTV – jornal local da TV Gazeta, afiliada à Rede Globo – sobre a utilização do “pau de selfie” (quem decide essas pautas, pelamor???). Durante a entrevista, os estudantes seguram cartazes onde é possível ler reivindicações como “eleição direta para diretor” (pauta história dos militantes da educação pública), “não à PEC 171” (que propõe a redução da maioridade penal), “+ grêmios”. Ao vivo, uma estudante diz que existem “”assuntos mais importantes que o pau de selfie” enquanto outra moça, também estudante, é cortada pelo repórter ao tentar explicar porque a redução da maioridade penal não resolve o problema.

O Espírito Santo é um dos estados onde mais morrem jovens no país e eu não me lembro de ter visto uma reportagem sobre “menores infratores” onde as masmorras do Governador Paulo Hartung fossem notícia. Onde os depoimentos das mães de jovens que foram presos, torturados e mortos pelo Estado fossem exibidos.

O título desse texto é uma piada. É óbvio que a Revolução não será televisionada, ao menos não sem a democratização da comunicação, mas hoje jovens estudantes pediram mais democracia, mais representatividade e o fim do debate demagogo que está encarcerando e matando jovens, sobretudo jovens negros. Hoje a juventude mais uma vez mostrou que quer viver, que há resistência e que não podem colocar na nossa conta essa política velha e falida. E mostrou mais uma vez, tão melhor que qualquer produção global, que se a revolução não será televisionada, nos resta revolucionar a televisão.

Abaixo um vídeo produzido pelo Reportagem Pública. Um alerta pra quem defende o encarceramento da juventude brasileira.

UPDATE: A Comissão de Justiça e Cidadania da Câmara votou hoje a admissibilidade da PEC 171/93 que propõe a redução da maioridade penal. Um retrocesso que significa além de tudo um ataque à nossa Constituição, aos Direitos Humanos e aos acordos dos quais o Brasil é signatário, pois fere, como bem abordou a deputada Maria do Rosário hoje em plenário, “o artigo 60, parágrafos 227 e 228 que prevê como cláusula pétrea a proteção dos adolescentes até os 18 anos e o respeito a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”. A proposta ainda segue para uma comissão especial. São tempos difíceis para os sonhadores, mas os sonhos continuam sendo nossas melhores armas.

Sem feminismo não há democracia

Luara Ramos e Natalia Bemfeito*

Após a disputa eleitoral para a Presidência da República mais acirrada dos últimos tempos é inevitável e necessária a reflexão sobre o machismo enfrentado por mulheres que ocupam cargos de poder. Poderíamos tratar exclusivamente dessas eleições, mas há quatro anos uma mulher ocupa o cargo mais alto do país e a falta de mulheres em posições mais representativas nos leva a reflexões anteriores que se já foram ditas, merecem ser recordadas.

Presidenta** ou primeira-dama?

Para começar nossos devaneios feministas, trataremos de fato digno de observação, por sua peculiaridade: todas as roupas utilizadas por Dilma foram comentadas e muitas receberam duras críticas, como se fossem “assunto de Estado”. Não se podem dizer o mesmo dos candidatos. Terno não vira notícia, tsc…Em sua posse, em 1º de janeiro de

Natalia Bemfeito

Natalia Bemfeito

2011, especulava-se que “modelito” ela usaria e até entrevista com o maquiador fizeram. Alguém já perguntou ao Collor o nº do Grecin que ele usa pra manter suas madeixas grisalhas? Ou como o Lula prefere usar a barba? É disso que estamos falando…

Ainda em 2011 outra coisa chamou muita atenção: pela 1ª vez o Brasil escolhia uma mulher para ocupar a presidência da República, mas nas manchetes dos jornais e revistas surgia uma figura desconhecida, a esposa do vice-presidente Michel Temer. Marcela Temer apareceu ao lado do vice-presidente e segundo jornais, comentaristas e revistas de fofoca “roubou” a cena. Mais uma vez nos era dada a lição: mulher é um objeto decorativo, foi feita pra ser bonita, não pra ser presidenta. Agora imagine a cabeça e a autoestima de uma menina que vê duas mulheres no alto da rampa do planalto: quem ela gostaria de ser, a esposa do vice-presidente (a vice-primeira-dama?) ou a mulher mais poderosa do país? O “cargo” de primeira-dama estava vago e até a companhia da presidenta no rolê do Rolls-Royce presidencial gerou especulação – afinal, além de ser mulher, Dilma é divorciada e esse assunto continuou dando pano pra manga até que chegamos às eleições de 2014. O R7 publicou uma matéria ridícula para apresentar a “possível primeira-dama”, esposa do candidato Aécio Neves. A pérola final é “Desde que Luiz Inácio Lula da Silva deixou a Presidência, o Brasil não conta com uma primeira-dama, já que o País elegeu uma presidente em 2010”. O que será de um país sem uma primeira-dama, hein? O que importa que o Brasil ainda seja um dos países com menos mulheres em cargos eletivos se não contamos com uma primeira-dama? Os machistinhas-bronha de internet logo ficaram em polvorosa! Exaltavam o lado “pegador” do presidenciável Aécio, além de alguns comentários de tão babacas, nos recusamos a reproduzir.

Mais candidatas à presidência, mais machismo

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Em 2010 foram duas candidatas e este ano três. Em dado momento tivemos a possibilidade inédita de um 2º turno com duas mulheres na disputa, mas a presença de uma figura feminina só fez instigar as ofensas mais sexistas dignas dos comentaristas de portais. Nas redes sociais todas as candidatas foram alvo de termos sexistas. A presidenta e candidata Dilma Rousseff foi quem mais sofreu agressões por ter maior rejeição, comum (a rejeição) a candidatas(os) à reeleição. Luciana Genro e Marina Silva também foram vítimas de tais ataques. Marina foi chamada de “magrinha” por Eduardo Jorge durante uma comparação infeliz em um debate. Luciana teve que ouvir críticas ao seu cabelo crespo, seu sotaque. As vozes das candidatas também foram bastante criticadas, afinal os eleitores não estão acostumados com vozes mais agudas e acham mais estranho a voz de uma mulher do que não ver metade da população nacional representada politicamente.

De “vaca”, “vadia” e “piranha” até ameaças covardes e comentários sobre a vida sexual e a aparência, referir-se a qualquer mulher de tal forma não deveria ser algo considerado natural, mas é. Especialmente quando esta mulher ocupa um lugar que “não lhe cabe”. Na academia, na comunidade científica, na política. Afinal, “não é lugar de mulher”, não é mesmo?

Aécio e a personificação do machismo

No recente processo eleitoral, vimos muitos militantes bradarem: “não voto em candidato que bate em mulher!”, “candidato machista não me representa”. A origem de tais manifestações se refere ao episódio em que ele teria agredido uma namorada durante uma festa no Rio de Janeiro. É importante ressaltar que não houve condenação neste sentido, nem por parte da justiça, já que nunca houve sequer investigação do caso e o candidato chegou a negar, ameaçando o jornalista Juca Kfouri, responsável pela nota, de processo (apesar de nunca tê-lo processado) e nem por parte do eleitorado, que julgou ser algo muito pessoal e, portanto, fora do debate político. No entanto, pudemos detectar diversas posturas extremamente sexistas de Aécio nos debates dos presidenciáveis: todos o vimos utilizar expressões ultrapassadas como “dona de casa”, para se referir às mulheres, e “trabalhador”, ao falar dos homens. Além disso, a forma como se dirigia às candidatas mulheres para desqualificar suas afirmações chamando-as de “levianas” e “mentirosas” também foi marcante. Seu riso ao responder as perguntas e a insistência em chamar a candidata Dilma de mentirosa durante os debates do 2° turno geraram inclusive uma rejeição por parte das mulheres. Tudo isso refletiu na campanha, já que os militantes tucanos não ficaram atrás e durante um dos debates receberam Dilma urrando “vaca, vaca, vaca”!

Outra coisa que foi bastante ouvida é que Aécio tem “cara de presidente”. Claro que tem cara de presidente, afinal durante toda a nossa história SÓ TIVEMOS CANDIDATOS HOMENS, claro que não estamos acostumados a uma mulher na presidência. Este argumento além de tudo é estúpido.

Os outros candidatos foram igualmente machistas ou até piores. Pastor Everaldo e Levy Fidelix chocaram as pessoas com discursos vazios e preconceituosos, permeados de machismo, homofobia e o que de pior puder existir. Mas a reflexão que queremos trazer aqui não é um julgamento dos candidatos. Queremos com a discussão feminista, tirar do ambiente privado, questões que tantas vezes violentaram as mulheres. Queremos trazer a público, para a política, algo que não pode mais ficar escondido. Por trás das vaias e xingamentos está o machismo e a luta de classes. Mulheres que ocupam lugares que “não lhes cabem” incomodam àqueles que querem manter seus privilégios. As mulheres da classe trabalhadora lutaram para conquistar o direito à igualdade, ao voto, à cidadania plena, à licença maternidade, dentre muitos outros. E hoje as mulheres continuam lutando para alcançar seu lugar nos cargos de poder sem sofrerem preconceitos odiosos. Porque lugar de mulher é onde ela quiser.

A democracia não pode e não deve ser um governo para a maioria como muitos querem fazer crer. A democracia deve ter a ver com a coexistência de ideias e não com a opressão do outro/ da outra. Ou a democracia é para todos e todas ou não será para ninguém. E se não aprendem a respeitar as mulheres nós temos que ensinar.

*Luara Ramos é mineira, Atleticana, feminista, publicitária e criadora do blog Vã Filosofia; Natalia Silva Bemfeito é servidora pública, pós-graduanda em Direito pela UERJ e militante feminista. As duas se conheceram na militância pelas redes e desde então descobriram que são irmãs.

** Antes que algum desinformado metido a dono da Língua Portuguesa venha dizer que “aff, parei de ler no ‘presidenta’, gostaríamos de dizer que o termo em questão já aparece desde 1899 no dicionário Cândido de Figueiredo. E ainda que não aparecesse, se te soa estranho só porque nunca antes tivemos outras presidentas, é bom ir se acostumando…

É tempo de questionar candidatos

Por Thaís Guerra Leandro*

Eleição é tempo de questionar candidatos e ouvir propostas de mudança e melhoria. Eleição também é tempo de populismo penal, de afirmar que com penas mais altas e mais encarceramento os problemas de segurança pública serão resolvidos. Na contramão dessas afirmações o mundo tem reconhecido que medidas de endurecimento do direito penal, como a criminalização do uso de drogas, não produzem uma sociedade menos violenta. Eventos recentes, como a manifestação do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) em sentido favorável à descriminalização do uso de drogas, e a notícia de que o presidente Obama pretende nomear para dirigir a divisão de direitos civis do departamento de justiça dos Estados Unidos uma mulher partidária da descriminalização, demonstram que o esgotamento do modelo punitivista já foi percebido. Cabe ao Brasil aproveitar o momento político e a conjuntura mundial para buscar alternativas ao modo como vem tratando a questão das drogas.

Thais Guerra Leandro, autora do texto.

Thais Guerra Leandro, autora do texto.

Apesar de o problema ser grande, os candidatos à presidência que disputam o segundo turno não se manifestaram no sentido de repensar a atual política de drogas. O programa de governo do candidato tucano separou uma folha para falar deste tema, o da candidata petista, um parágrafo. Não há grande diferença entre as propostas: focam sempre na “prevenção” como se fosse uma palavra mágica capaz de resolver todos os problemas.

As mais de quatro décadas de política de drogas renderam problemas muito complexos e é ingenuidade (ou falta de caráter) afirmar que há uma solução simplista para o problema. Por entender esta situação, no ano de 1998, Portugal constituiu a Comissão para a Estratégia Nacional de Combate à Droga, que teve o objetivo de propor ao Governo linhas de ação capazes de o auxiliar na formulação de uma estratégia global de intervenção na área das drogas e toxicodependência. A comissão foi integrada por especialistas de formações diversas, que chegaram à conclusão de que a descriminalização do uso de drogas era necessária e adequada. Contrariando o senso comum, o caminho apontado pela comissão foi aceito e o uso de drogas descriminalizado. Ao se fazer isso, o usuário deixou de ser visto como um criminoso, deixou de fazer parte do sistema de justiça para entrar no sistema de saúde.

Portugal partiu do pressuposto de que para enfrentar o problema das drogas é necessária uma estratégia global, ou seja, não adianta descriminalizar sem criar políticas públicas com diversos vetores de intervenção que se entrecruzem. O modelo de gestão adotado procurou trabalhar a prevenção, o tratamento, a redução de riscos e a minimização de danos, a reinsersão social e a dissuasão do consumidor.

Uma das inovações trazidas para apoiar a lei que descriminalizou o uso de drogas foram as Comissões para a Dissuação Toxicológica (CDT), que recebem os usuários apreendidos com drogas. A CDT possui uma equipe interdisciplinar formada por juristas, profissionais da área da saúde e assitentes sociais. De acordo com Teresa Silva, jurista que trabalha da CDT da cidade do Porto, o objetivo da intervenção realizada por eles é fazer com que o usuário tenha um pensamento reflexivo sobre sua conduta, para que compreenda as consequencias (biológicas, psicológicas e sociais) do uso de drogas. Carla Magalhães, assistente social da CDT, afirma que a análise dos aspectos sociais da vida do usuário, como por exemplo, a situação financeira e a estrutura familiar, são imprescindíveis para entender a situação do usuário e propor estratégias de tratamento.

O Brasil, por sua vez, continua colocando seus esforços em um modelo ultrapassado, que não diminui o número de usuários de drogas, não disponibiliza tratamentos adequados para dependentes químicos e ainda contribui para a superpopulação carcerária. Coloca o estigma de criminoso em alguém que deveria receber um tratamento técnico individualizado e especializado, baseado em evidências científicas e não em conceitos morais.

Não se propõe aqui a cópia do modelo português. É de fácil percepção que sociedades diversas necessitam de estratégias diferentes. Se podemos aprender algo com eles é que criar uma política de drogas com respeito aos direitos humanos e baseada em conceitos científicos talvez não seja uma má opção. Propor um direito penal mais forte pode ser agradável aos ouvidos do eleitor, mas é desleal com população, que, em sua maioria, ignora que esta guerra só tem gerado mais guerra.

*Thais Guerra Leandro é brasileira e atualmente atua como pesquisadora do Programa de Direito Penal da Universidade do Porto em Portugal.
Siga @thaisguerra no Twitter.

Carta aberta de uma gordinha à Marina Silva

Por Camila Moreno

Marina,

está circulando pela internet um vídeo em que a senhora faz uma comparação entre você e a também candidata e presidenta Dilma Rousseff.  Entre as tantas comparações que podem e devem ser feitas entre as duas candidatas mais bem posicionadas nas pesquisas eleitorais, você opta por dizer é magrinha, enquanto Dilma é fortinha, exatamente com essas palavras, arrancando risadas e aplausos da plateia.

Camila Moreno

Camila Moreno

Lembro com nitidez que a senhora já havia feito essa comparação com Dilma na eleição passada, ao ser perguntada sobre suas principais diferenças.

Dilma é a primeira presidenta da história do Brasil e essa é a primeira eleição com grandes chances de duas mulheres irem para o segundo turno. Uma eleição histórica, certamente.  Histórica porque em um país cercado de machismo por todos os lados; em que as mulheres são menos de 10% no Congresso Nacional; onde embora muitos avanços tenham sido alcançados com a Lei Maria da Penha, ainda estamos em 7º lugar no ranking da violência doméstica; a maioria dos cidadãos e cidadãs do nosso país, se as pesquisas estiverem certas, optará por confiar o seu voto em uma mulher. Isso é lindo e me emociona.

Sei que você sabe, Marina, que ser mulher é um desafio cotidiano. É ter que provar duas vezes que é capaz. Na política então, nem se fala. Lembro o quanto te criticaram pelo fato do seu companheiro trabalhar no governo do PT no Acre, como se vocês, por serem casados devessem ter a mesma opinião política. Na época, te defendi e disse que achava um absurdo esse tipo de acusação. Te defendo quando falam da sua voz, porque não estão acostumados com vozes mais agudas nos debates políticos. Imagino Marina, o quanto sejam duras as críticas por causa do seu cabelo, pelas roupas e não pelas ideias.

Talvez você não tenha tido noção da gravidade da sua declaração, Marina, mas eu vou te contar o porquê ela doeu no fundo da minha alma: eu sempre fui considerada uma criança gordinha e desde que entendi que isso era um defeito, sofri com isso. Tive transtornos alimentares graves e só me aceitei de fato, quando conheci a militância e o feminismo, porque me mostraram que os padrões de beleza nos tornam escravas de uma busca impossível e infeliz e eu esperava que as mulheres na política, ainda que com divergências, optassem pela desconstrução do machismo, mas você fez exatamente o contrário.

Essa sua declaração apenas reforça um padrão ditatorial que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres arrisquem suas vidas em métodos salvadores do alcance da beleza, porque ao invés de você optar por ajudar a romper com essa lógica de que a mais magra é melhor que a gorda, você a reforçou. Você podia ter escolhido desconstruir a ideia de que o debate entre duas mulheres seria um debate superficial e estético, mas você preferiu seguir essa lógica que revistas de beleza e a indústria do entretenimento entranham todos os dias na nossa vida, de que para ser bem sucedida e feliz, é preciso ser magra.

Você não perdeu o meu voto com essa sua “piada”, porque você já o havia perdido quando optou por deixar de lado a sua bela trajetória de vida e luta ao lado de Chico Mendes para ser a nova voz da direita e do neoliberalismo no país, mas eu de fato esperava um debate mais qualificado da sua parte.

*Camila Moreno é @camilamudanca no twitter, estudante de Letras da UNB e pretende não ser infeliz por conta dos padrões de beleza.

Somos todos racistas

Casos de racismo no futebol não são raros, nem geograficamente limitados. Seja na Europa ou mais recentemente na América do Sul como o racismo sofrido pelo Tinga em jogo realizado no Peru pela Copa Libertadores da América 2014. Ontem, durante um jogo válido pelo Campeonato Espanhol, um torcedor atirou uma banana quando o lateral brasileiro Daniel Alves se preparava para cobrar um escanteio. A resposta do jogador, no mínimo irreverente, foi comer a banana e cobrar o escanteio como se nada tivesse acontecido. Como se o racismo implícito no ato não existisse. Confesso que ao ver o vídeo, achei muito interessante a atitude do jogador, mas a repercussão do caso, junto a tantos outros exemplos cotidianos e principalmente a opinião (muito mais legítima do que a minha) de companheiros e companheiras militantes do movimento negro me fizeram refletir sobre o caso.

Retirando do perfil de Pedro Abramovay no Facebook.

Retirando do perfil de Pedro Abramovay no Facebook.

Rapidamente jogadores, atores e atrizes globais e diversos artistas se manifestaram em apoio a Daniel Alves. Neymar, com uma banana e junto ao filho (este bem longe de ser negro) posaram com a tag #SomosTodosMacacos. Até aí ok, assim como Pedro Abramovay, achei relevante o teor anticriacionista, a ideia de subversão do termo “macaco”, mas quem acabou e ver a atriz Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, ser eleita a mulher mais bonita do mundo pela revista People (publicação norte-americana sobre cultura popular e celebridades) e receber uma enxurrada de comentários preconceituosos (ver imagem abaixo) duvida dessa vibe Ali Kamel da campanha. Pra quem não se lembra, Ali Kamel é aquele Diretor de Jornalismo da Globo que escreveu um livro no qual afirma que não somos racistas. E a Globo, como eu acho que todos sabem, é aquela emissora que chama Cláudia da Silva Ferreira de “mulher arrastada”, exploram a dor alheia levando pessoas brancas para falar da morte de um dançarino negro de um programa de sua grade dominical e limitam os espaços de negros e negras a papeis de escravos e domésticas e quando chega o carnaval, explora o corpo da mulher negra limitando-a ao posto de “Globeleza”. Ah, e também é o canal daquele apresentador dominical que quando chama o cabelo de uma dançarina negra de “vassoura de bruxa” diz que não é ofensa/discurso é piada.

Imagem: "Meu Professor de História (página do Facebook)

Imagem: “Meu Professor de História (página do Facebook)

Antes que tomem esse texto por um amontoado de ressentimentos, o que quero ressaltar aqui é a dificuldade ao tratar de temas delicados como a igualdade racial sem cair no mito da democracia racial. Quando pessoas brancas aplaudem a atitude de Daniel Alves e dizem que negros e negras não devem se ‘’deixar abater” por casos de racismo elas estão lavando as mãos. Quando as atitudes da Fifa se limitam a uma nota de repúdio e faixas antes dos jogos, é frustrante pra quem assim como eu, admira o futebol como esporte e milita pela sua democratização (e consequentemente o fim do racismo, machismo, homofobia e elitização). É bom lembrar que no caso do Tinga, o time peruano do Real Garcilaso teve que pagar uma multa (bem inferior à renda de qualquer jogo ou até do contrato com seu menos brilhante jogador). E principalmente, o que quero ressaltar nesse texto é a importância do protagonismo de negros e negras em movimentos como este. Mas como é, Luara? Quer dizer que só porque “sou branquinho” eu não posso ser contra o racismo? Olha, longe de mim achar que a campanha virtual #SomosTodosMacacos é totalmente irrelevante, mas achar que o racismo é igual pra todo mundo além de hipócrita é cruel. E antes que alguém venha reclamar de “racismo reverso” ou dizer que “negros também são racistas”, deixo Aamer Rahman responder por mim.

Então se a solução não é gente branca e confortavelmente sentada sobre seus privilégios postando fotos com banana, qual é a solução? Medidas que transcendam notas de repúdio, pedidos de desculpas que disseram ser apenas um “mal-entendido”, multas irrisórias e o “mas”. Ao justificarmos nosso racismo (“não sou racista, mas…), estamos apenas perpetuando o preconceito e nos escondendo das nossas responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa e democrática.

Porque ontem foi uma banana. Bananas não são letais, as balas que continuam matando jovens negros são. Os “autos de resistência” também são. E se #TodosSomosMacacos, uns são mais macacos que os outros. Duvida? Pergunte pra polícia. Pergunte pro Estado que se omite. Pergunte pro Felipe Neto que acha absurdo uma mulher negra ser considerada a mais linda do mundo, mas não se pronunciou sobre todas as brancas anteriores. Pergunte à Fernanda Lima. Pergunte ao vizinho que muda de calçada toda vez que vê um negro. Pergunte a si mesmo.

Em tempo: não poderia deixar de indicar esse texto da Camila Pavanelli sobre a entrevista da Fernanda Lima ao ser escolhida para apresentar o sorteio da Fifa ao invés de Camila Pitanga. É um ótimo texto para entender como rever privilégios é necessário e contribui mais que uma foto no Instagram.