Os nomes das coisas

Rafaela Silva conquistou a primeira – até agora única – medalha de ouro do Brasil nos jogos olímpicos do Rio. Mulher, negra, lésbica e filha da periferia, houve quem falasse que não precisávamos lembrar disso, como se fossem meros “detalhes”, como se tudo isso não tivesse influenciado diretamente na trajetória da Rafaela. Como se ela não tivesse sofrido na pele (trocadilho inevitável) racismo nos jogos de Londres e como se todas as dificuldades enfrentadas por ela fossem parte de um belo roteiro na vida dos campeões.
Judo - Olympics: Day 3

Rafaela Silva: mulher, negra, periférica, lésbica e medalha de ouro no judô. Foto: yahoo

Simone Manuel, nadadora dos EUA, é a primeira negra campeã olímpica da natação individual. Lá fora estão dizendo que ressaltar o fato de ser uma atleta negra é (pasmem!) preconceito. Que deviam focar no fato dela ser campeã.
Na cerimônia de abertura da RIO 2016, o comentarista Galvão Bueno não se preocupou em desmerecer o velocista negro Usain Bolt – o homem mais rápido do mundo -, multicampeão olímpico, detentor de recordes mundiais impressionantes. Curiosamente Galvão é só emoção ao chamar Michal Phelps de “fenômeno”.
Foi preciso que Simone Biles, ginasta negra de apenas 19 anos, medalhista mundial e agora olimpica falasse com todas as letras que não pode ser comparada a outros atletas, pois sua história é cheia de particularidades e ela realmente merece ser tratada como a “primeira de seu nome”. Muitos acharam arrogante, outros tantos – felizmente – aplaudiram.
Lembrar quem são e de onde vieram parece mesmo incomodar quem sempre esteve no mesmo lugar privilegiado e enxerga no discurso da meritocracia uma forma de amenizar o próprio sentimento de culpa. Porque se não for culpa, precisamos dizer: é racismo, machismo e homofobia.
*E no caso do Galvão mais um tanto de colonialismo.

Sem feminismo não há democracia

Luara Ramos e Natalia Bemfeito*

Após a disputa eleitoral para a Presidência da República mais acirrada dos últimos tempos é inevitável e necessária a reflexão sobre o machismo enfrentado por mulheres que ocupam cargos de poder. Poderíamos tratar exclusivamente dessas eleições, mas há quatro anos uma mulher ocupa o cargo mais alto do país e a falta de mulheres em posições mais representativas nos leva a reflexões anteriores que se já foram ditas, merecem ser recordadas.

Presidenta** ou primeira-dama?

Para começar nossos devaneios feministas, trataremos de fato digno de observação, por sua peculiaridade: todas as roupas utilizadas por Dilma foram comentadas e muitas receberam duras críticas, como se fossem “assunto de Estado”. Não se podem dizer o mesmo dos candidatos. Terno não vira notícia, tsc…Em sua posse, em 1º de janeiro de

Natalia Bemfeito

Natalia Bemfeito

2011, especulava-se que “modelito” ela usaria e até entrevista com o maquiador fizeram. Alguém já perguntou ao Collor o nº do Grecin que ele usa pra manter suas madeixas grisalhas? Ou como o Lula prefere usar a barba? É disso que estamos falando…

Ainda em 2011 outra coisa chamou muita atenção: pela 1ª vez o Brasil escolhia uma mulher para ocupar a presidência da República, mas nas manchetes dos jornais e revistas surgia uma figura desconhecida, a esposa do vice-presidente Michel Temer. Marcela Temer apareceu ao lado do vice-presidente e segundo jornais, comentaristas e revistas de fofoca “roubou” a cena. Mais uma vez nos era dada a lição: mulher é um objeto decorativo, foi feita pra ser bonita, não pra ser presidenta. Agora imagine a cabeça e a autoestima de uma menina que vê duas mulheres no alto da rampa do planalto: quem ela gostaria de ser, a esposa do vice-presidente (a vice-primeira-dama?) ou a mulher mais poderosa do país? O “cargo” de primeira-dama estava vago e até a companhia da presidenta no rolê do Rolls-Royce presidencial gerou especulação – afinal, além de ser mulher, Dilma é divorciada e esse assunto continuou dando pano pra manga até que chegamos às eleições de 2014. O R7 publicou uma matéria ridícula para apresentar a “possível primeira-dama”, esposa do candidato Aécio Neves. A pérola final é “Desde que Luiz Inácio Lula da Silva deixou a Presidência, o Brasil não conta com uma primeira-dama, já que o País elegeu uma presidente em 2010”. O que será de um país sem uma primeira-dama, hein? O que importa que o Brasil ainda seja um dos países com menos mulheres em cargos eletivos se não contamos com uma primeira-dama? Os machistinhas-bronha de internet logo ficaram em polvorosa! Exaltavam o lado “pegador” do presidenciável Aécio, além de alguns comentários de tão babacas, nos recusamos a reproduzir.

Mais candidatas à presidência, mais machismo

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Em 2010 foram duas candidatas e este ano três. Em dado momento tivemos a possibilidade inédita de um 2º turno com duas mulheres na disputa, mas a presença de uma figura feminina só fez instigar as ofensas mais sexistas dignas dos comentaristas de portais. Nas redes sociais todas as candidatas foram alvo de termos sexistas. A presidenta e candidata Dilma Rousseff foi quem mais sofreu agressões por ter maior rejeição, comum (a rejeição) a candidatas(os) à reeleição. Luciana Genro e Marina Silva também foram vítimas de tais ataques. Marina foi chamada de “magrinha” por Eduardo Jorge durante uma comparação infeliz em um debate. Luciana teve que ouvir críticas ao seu cabelo crespo, seu sotaque. As vozes das candidatas também foram bastante criticadas, afinal os eleitores não estão acostumados com vozes mais agudas e acham mais estranho a voz de uma mulher do que não ver metade da população nacional representada politicamente.

De “vaca”, “vadia” e “piranha” até ameaças covardes e comentários sobre a vida sexual e a aparência, referir-se a qualquer mulher de tal forma não deveria ser algo considerado natural, mas é. Especialmente quando esta mulher ocupa um lugar que “não lhe cabe”. Na academia, na comunidade científica, na política. Afinal, “não é lugar de mulher”, não é mesmo?

Aécio e a personificação do machismo

No recente processo eleitoral, vimos muitos militantes bradarem: “não voto em candidato que bate em mulher!”, “candidato machista não me representa”. A origem de tais manifestações se refere ao episódio em que ele teria agredido uma namorada durante uma festa no Rio de Janeiro. É importante ressaltar que não houve condenação neste sentido, nem por parte da justiça, já que nunca houve sequer investigação do caso e o candidato chegou a negar, ameaçando o jornalista Juca Kfouri, responsável pela nota, de processo (apesar de nunca tê-lo processado) e nem por parte do eleitorado, que julgou ser algo muito pessoal e, portanto, fora do debate político. No entanto, pudemos detectar diversas posturas extremamente sexistas de Aécio nos debates dos presidenciáveis: todos o vimos utilizar expressões ultrapassadas como “dona de casa”, para se referir às mulheres, e “trabalhador”, ao falar dos homens. Além disso, a forma como se dirigia às candidatas mulheres para desqualificar suas afirmações chamando-as de “levianas” e “mentirosas” também foi marcante. Seu riso ao responder as perguntas e a insistência em chamar a candidata Dilma de mentirosa durante os debates do 2° turno geraram inclusive uma rejeição por parte das mulheres. Tudo isso refletiu na campanha, já que os militantes tucanos não ficaram atrás e durante um dos debates receberam Dilma urrando “vaca, vaca, vaca”!

Outra coisa que foi bastante ouvida é que Aécio tem “cara de presidente”. Claro que tem cara de presidente, afinal durante toda a nossa história SÓ TIVEMOS CANDIDATOS HOMENS, claro que não estamos acostumados a uma mulher na presidência. Este argumento além de tudo é estúpido.

Os outros candidatos foram igualmente machistas ou até piores. Pastor Everaldo e Levy Fidelix chocaram as pessoas com discursos vazios e preconceituosos, permeados de machismo, homofobia e o que de pior puder existir. Mas a reflexão que queremos trazer aqui não é um julgamento dos candidatos. Queremos com a discussão feminista, tirar do ambiente privado, questões que tantas vezes violentaram as mulheres. Queremos trazer a público, para a política, algo que não pode mais ficar escondido. Por trás das vaias e xingamentos está o machismo e a luta de classes. Mulheres que ocupam lugares que “não lhes cabem” incomodam àqueles que querem manter seus privilégios. As mulheres da classe trabalhadora lutaram para conquistar o direito à igualdade, ao voto, à cidadania plena, à licença maternidade, dentre muitos outros. E hoje as mulheres continuam lutando para alcançar seu lugar nos cargos de poder sem sofrerem preconceitos odiosos. Porque lugar de mulher é onde ela quiser.

A democracia não pode e não deve ser um governo para a maioria como muitos querem fazer crer. A democracia deve ter a ver com a coexistência de ideias e não com a opressão do outro/ da outra. Ou a democracia é para todos e todas ou não será para ninguém. E se não aprendem a respeitar as mulheres nós temos que ensinar.

*Luara Ramos é mineira, Atleticana, feminista, publicitária e criadora do blog Vã Filosofia; Natalia Silva Bemfeito é servidora pública, pós-graduanda em Direito pela UERJ e militante feminista. As duas se conheceram na militância pelas redes e desde então descobriram que são irmãs.

** Antes que algum desinformado metido a dono da Língua Portuguesa venha dizer que “aff, parei de ler no ‘presidenta’, gostaríamos de dizer que o termo em questão já aparece desde 1899 no dicionário Cândido de Figueiredo. E ainda que não aparecesse, se te soa estranho só porque nunca antes tivemos outras presidentas, é bom ir se acostumando…

É tempo de questionar candidatos

Por Thaís Guerra Leandro*

Eleição é tempo de questionar candidatos e ouvir propostas de mudança e melhoria. Eleição também é tempo de populismo penal, de afirmar que com penas mais altas e mais encarceramento os problemas de segurança pública serão resolvidos. Na contramão dessas afirmações o mundo tem reconhecido que medidas de endurecimento do direito penal, como a criminalização do uso de drogas, não produzem uma sociedade menos violenta. Eventos recentes, como a manifestação do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) em sentido favorável à descriminalização do uso de drogas, e a notícia de que o presidente Obama pretende nomear para dirigir a divisão de direitos civis do departamento de justiça dos Estados Unidos uma mulher partidária da descriminalização, demonstram que o esgotamento do modelo punitivista já foi percebido. Cabe ao Brasil aproveitar o momento político e a conjuntura mundial para buscar alternativas ao modo como vem tratando a questão das drogas.

Thais Guerra Leandro, autora do texto.

Thais Guerra Leandro, autora do texto.

Apesar de o problema ser grande, os candidatos à presidência que disputam o segundo turno não se manifestaram no sentido de repensar a atual política de drogas. O programa de governo do candidato tucano separou uma folha para falar deste tema, o da candidata petista, um parágrafo. Não há grande diferença entre as propostas: focam sempre na “prevenção” como se fosse uma palavra mágica capaz de resolver todos os problemas.

As mais de quatro décadas de política de drogas renderam problemas muito complexos e é ingenuidade (ou falta de caráter) afirmar que há uma solução simplista para o problema. Por entender esta situação, no ano de 1998, Portugal constituiu a Comissão para a Estratégia Nacional de Combate à Droga, que teve o objetivo de propor ao Governo linhas de ação capazes de o auxiliar na formulação de uma estratégia global de intervenção na área das drogas e toxicodependência. A comissão foi integrada por especialistas de formações diversas, que chegaram à conclusão de que a descriminalização do uso de drogas era necessária e adequada. Contrariando o senso comum, o caminho apontado pela comissão foi aceito e o uso de drogas descriminalizado. Ao se fazer isso, o usuário deixou de ser visto como um criminoso, deixou de fazer parte do sistema de justiça para entrar no sistema de saúde.

Portugal partiu do pressuposto de que para enfrentar o problema das drogas é necessária uma estratégia global, ou seja, não adianta descriminalizar sem criar políticas públicas com diversos vetores de intervenção que se entrecruzem. O modelo de gestão adotado procurou trabalhar a prevenção, o tratamento, a redução de riscos e a minimização de danos, a reinsersão social e a dissuasão do consumidor.

Uma das inovações trazidas para apoiar a lei que descriminalizou o uso de drogas foram as Comissões para a Dissuação Toxicológica (CDT), que recebem os usuários apreendidos com drogas. A CDT possui uma equipe interdisciplinar formada por juristas, profissionais da área da saúde e assitentes sociais. De acordo com Teresa Silva, jurista que trabalha da CDT da cidade do Porto, o objetivo da intervenção realizada por eles é fazer com que o usuário tenha um pensamento reflexivo sobre sua conduta, para que compreenda as consequencias (biológicas, psicológicas e sociais) do uso de drogas. Carla Magalhães, assistente social da CDT, afirma que a análise dos aspectos sociais da vida do usuário, como por exemplo, a situação financeira e a estrutura familiar, são imprescindíveis para entender a situação do usuário e propor estratégias de tratamento.

O Brasil, por sua vez, continua colocando seus esforços em um modelo ultrapassado, que não diminui o número de usuários de drogas, não disponibiliza tratamentos adequados para dependentes químicos e ainda contribui para a superpopulação carcerária. Coloca o estigma de criminoso em alguém que deveria receber um tratamento técnico individualizado e especializado, baseado em evidências científicas e não em conceitos morais.

Não se propõe aqui a cópia do modelo português. É de fácil percepção que sociedades diversas necessitam de estratégias diferentes. Se podemos aprender algo com eles é que criar uma política de drogas com respeito aos direitos humanos e baseada em conceitos científicos talvez não seja uma má opção. Propor um direito penal mais forte pode ser agradável aos ouvidos do eleitor, mas é desleal com população, que, em sua maioria, ignora que esta guerra só tem gerado mais guerra.

*Thais Guerra Leandro é brasileira e atualmente atua como pesquisadora do Programa de Direito Penal da Universidade do Porto em Portugal.
Siga @thaisguerra no Twitter.

Black Blocs: fascistas ou a esquerda tradicional que amarelou?

Por Camila Moreno e Luara Ramos*

As manifestações de junho de 2013 ainda não tiveram respostas efetivamente institucionais no que tange a política brasileira. Salvo a revogação do aumento da passagem em São Paulo e o congelamento das tarifas do transporte (que deveria ser) público em algumas cidades brasileiras, muito ainda precisa ser dito, pensado, analisado e não são poucos os “especialistas” que vestidos da costumeira arrogância da Academia e/ou da Grande Mídia tentam em vão explicar tudo o que está acontecendo desde então. Este texto, no entanto, não tem a pretensão de apontar verdades definitivas ou mesmo soluções. Esta é só a opinião sobre alguns fatos que mais recentemente movimentaram o Brasil e especialmente sobre a contradição quem tomando a esquerda no que se refere à criminalização da tática Black Bloc e consequentemente dos movimentos sociais.

A mesma mídia que tanto louvou as manifestações no início, agora que acabar com elas. Para isso, nada melhor que um cadáver. E não bastou o do Amarildo, não bastou o manifestante atropelado, não bastaram as balas perdidas da Polícia. O cadáver deveria ser de um “deles”. E deveria vir de um manifestante Black Bloc. Que a mídia é sedenta por condenações (linchamentos) públicas todo mundo já sabia, mas que parte da esquerda absorveria esse discurso sem qualquer análise mais complexa é de doer na alma.

Não pensamos que viveríamos pra ver gente que se diz de esquerda, batendo no peito pra repetir e forma uníssona com a mídia que os Black Blocs são assassinos, fascistas e que por isso, devem ser extirpados, marginalizados, criminalizados.

“Ah, mas eu sou contra protesto com violência”

“Pra quê escondem os rostos?”

“Jogaram bomba com intenção de matar alguém”

“Esse grupo é fascista”

Repete fervorosamente parte da esquerda. As justificativas injustificáveis se somam ao desconhecimento historiográfico, afinal foi assim quando sequestraram o embaixador, foi assim na Guerrilha do Araguaia, é assim quando o MST ocupa uma terra, um ministério. Eles escondem os rostos (e não são todos) porque a polícia joga bomba, que arde o olho, porque há fumaça e perseguição. Além disso, não foram os manifestantes de junho que inventaram bombas em protestos contra a repressão da polícia. Por fim, a parte do fascismo é mero oportunismo ou falsa simetria mesmo, porque ou você não conhece nada do fascismo, ou você chama tudo o que é contra o que você acredita de fascista.

É claro que muita gente não vai aceitar a comparação da atuação dos Black Blocs com as de um “Regime de Exceção”. Mas vamos lá, quem diz que naquele tempo não se “escondia o rosto”, provavelmente se esquece que muitos companheiros usavam outros métodos, inclusive mudar de aparência e nome. E se entre as características mais fortes de um regime de exceção é justamente a arbitrariedade, como chamar a uma polícia que cotidianamente comete abusos e não é investigada, chamar de fascista quem se volta contra o que têm violentado um povo (seja a polícia, o Estado ou a Grande Mídia) parece mais fascista que a tática dos manifestantes, não? Claro que não estamos justificando morte alguma, estamos apenas pontuando que a triste morte do cinegrafista da Band não foi a única durante as manifestações e ao pontuar não pretendemos desprezar a dor dos familiares de Santigo Andrade, mas relembrar as mortes causadas em outras manifestações (a maioria delas pela polícia) e evitar que morram novamente. Do esquecimento, da edição midiática pela criminalização dos movimentos sociais, da falta de análise crítica que se apoderou de certa parcela da “esquerda” para quem a mídia só é fascista e sensacionalista se disser algo contra o que acreditam.

Outra “justificativa” que arde os olhos é a de que seriam todos “playboys” e por isso, o movimento deles não é “de luta”. Quer dizer, que tem que tá no CadÚnico pra ser reconhecido como manifestante legítimo agora? Pensamos que a Revolução Russa já havia superado a questão entre “origem de classe” e “opção de classe”. Parece que não.

Por que ao invés de criminalizar os Black Blocs e tentar tratá-los de forma maniqueísta (“ame-o ou deixe-o”) a esquerda tradicional não se questiona de que forma eles cresceram tanto, dão conta de organizar um protesto tão rápido? Por que será que enquanto a esquerda tradicional se afasta dos movimentos sociais, da juventude (juventude de gabinete não vale), esses novos movimentos ganham militantes e simpatizantes? Por que é tão difícil admitir a crise institucional pela qual passa nosso país e dar passos mais largos para uma Reforma Política e na regulamentação dos meios de comunicação que democratize de verdade a nossa democracia?

Suponhamos então, que esse pensamento seja complexo demais. Sério que ninguém achou estranho todo o contexto que envolvem as acusações? Ninguém acha estranho que os manifestantes que se entregaram sejam defendidos por um advogado (de miliciano) caríssimo, que foi até eles oferecer ajuda? Nenhum estranhamento sobre o advogado sair acusando que a prima do irmão do cachorro vai na mesma Petshop da mulher que tem ligação com o Freixo? Ninguém acha o cúmulo do absurdo o cara das imagens ser branco e o cara que se entregou ser negro?

Via Blog do Rovai (revistaforum.com.br)

Via Blog do Rovai (revistaforum.com.br)

Por que será que a mídia não ficou tão triste, não cobriu a missa, não fez editorial  e nem sequer noticiou amplamente a morte de outro cinegrafista da mesma emissora, também trabalhando como o Santiago, morto por uma bala. Ah é, essa morte foi causada pela polícia e a polícia, que mata todo dia, não merece linchamento público, não é?

São informações totalmente desencontradas que em nada contribuem com o debate político acerca do rumo das manifestações. Enquanto uns se utilizam da ~luta de classes~ pra tornar o debate mais superficial possível, outros levantam que existem manifestantes que recebem dinheiro.

Pera, xô colocar aqui no meu currículo: Manifestante Profissional.

Pera, xô colocar aqui no meu currículo: Manifestante Profissional.

Mas até aí, tem sindicalista e dirigente partidário recebendo pra ir a atos e realizar eleições internas, né?

O pedido de “endurecimento” ou até mesmo a criação de uma lei para coibir novos atos de “violência” também não fecham a conta. Onde em um país com uma das maiores populações carcerárias, prender e criminalizar foi a solução? Cabe também fazer um recorte de gênero, afinal, a maioria dos encarcerados em penitenciárias brasileiras são negros e pobres. Como também são negros Caio Silva, acusado de ter atirado o tal rojão contra o cinegrafista Santigo Andrade e Rafael Braga Vieira, preso em junho do ano passado por portar material de limpeza e condenado a 5 anos de prisão em regime fechado.

Sobre a nossa opinião sobre Black Blocs, acreditamos sim que a tática tem afastado o povo das manifestações e que falta mais autocrítica aos que pretendem executá-la. Mas daí a achar que manifestantes que se utilizam da tática Black Bloc são fascistas, golpistas, tucanos disfarçados (HAHAHAHAHAH), coxinhas é muita desonestidade ou preguiça de fazer um debate profundo sobre a questão. Mas da mesma forma, os jovens brasileiros, que se manifestam ou não, aderindo a tática Black Bloc ou não, acham que violência maior é se aliar ao Jader Barbalho no Pará ou (tentar em vão) defender a Roseana Sarney no Maranhão. Ou a Kátia Abreu. Ou qualquer um sob a justificativa da “governabilidade”. E é por isso que nossa democracia anda desbotada. Porque quem deveria lutar ao lado de bandeiras populares e históricas, deixou o vermelho de lado e anda amarelando.

*Camila Moreno e Luara Ramos são petistas, querem colorir a esquerda de todas as cores e acham que a esquerda tradicional não tem que ser tão tradicional assim

Link pra matéria do Blog do Rovai sobre as investigações da morte do cinegrafista da Band por Rojão aqui

Dois lados da mesma piada

O humor é sem dúvidas um dos melhores aliados da socialização. E um dos melhores recursos também. Particularmente adoro o humor nas mais diferentes áreas da minha vida. Pessoal e até profissional. Inclusive nos meus trabalhos e portfólio. A profissão na qual me formei tem um estigma de “engraçadões”. Publicitários têm um sério problema (destaque para a ironia) em se achar na obrigação de serem engraçados. Então criam logo suas contas no Twitter e se arvoram no direito de fazer piadas sobre tudo e todos e a se assumir paladinos da defesa do “Humor Livre”.

-Mas qual o limite do humor pra você?

-O humor não pode ter limites!

-Isso é censura!

-O objetivo do humor é apenas o riso!

Muito engraçado, caras! #Sqn

Muito engraçado, caras! #Sqn

Não sei se porque as agências andam exigindo jornada tripla, os clientes pedindo pra aumentar o tamanho da marca ou os freelas pagando atrasado, mas os publicitários parecem que alimentam a esperança de serem os novos “talentos” do stand up brasileiro. Ou preencherem a cota de publicitário babaca do BBB do ano. Acontece que, e para isso é que escrevo esse texto e não para afrontar meus colegas de categoria, sinto dizer a vocês, mas a zuera tem limites =(

Sabe o que não tem limites na vida (como bem disse a Samantha Pistor, beijo linda!)? As tretas.

As pessoas se dividem emː oprimidas e as que internalizam a opressão, reclamam que o politicamente correto tá tornando tudo mais chato. Eu nunca vi nada sob o título de “politicamente incorreto” que não fosse completamente preconceituoso, machista, racista e valesse desse título só pra dizer “ó, não tenho compromisso com nada a não ser com meu próprio umbigo”. É pura desonestidade intelectual, preguiça de pensar nos outros. E nós vivemos em sociedade. Ou seja: pessoa vive em sociedade e quer pensar só nela e nos próprios direitos. É mesquinho! Daí eu digo a vocês: vejam o politicamente correto como uma forma de apurarmos o nosso bom senso e o nosso humor para fazermos piadas com os opressores e não com os oprimidos.

Um documentário muito legal (abaixo) que aborda o universo do stand up brasileiro é O Riso dos Outros. Eu não quero deixar spoilers, mas com ele aprendi algumas coisas importantes que vale a pena dizerː

  1. É importante saber de que lado da piada você está.
  2. Tem lugares que não cabe uma piada.

Não quero me estender muito então vou passar logo pro real motivo que me levou a escrever esse texto. A esta hora muitos de vocês já devem ter ouvido (e eu espero que sim porque é realmente genial) a marchinha O Baile do Pó Royal, uma referência clara ao episódio do helicóptero da empresa dos deputados Gustavo Perrella (SDD-MG) e Zezé Perrella (PDT-MG), apreendido com quase meia tonelada de pasta de cocaína no ES no final de 2013. A marchinha, além da referência aos políticos mineiros, também explicitaram a aliança conhecida por muitos, mas abafada pela mídia, destes com o também senador e presidenciável Aécio Neves.

Sutil e na forma de cacofonias, que são combinações do final de palavras com o início das seguintes, a marchinha forma tanto o sobrenome dos Perrella, quando o diminutivo do nome de Aécio Neves (“Aecim”). Além disso, “brinca” com a o rumo que o caso tomou, não dando em nada. No caso da justiça, foi declarado que “não há envolvimento da família do senador com a carga apreendida”. Apesar do helicóptero ser da empresa da família, o piloto ser indicado pelo Deputado sócio e filho do senador Perrella na ALES-MG, estar a serviço dele, ter telefonado pra ele antes, não ter sequer dinheiro pra pagar uma carga deste preço, mas enfim…

Não é de hoje que tenho visto certas “piadas” de tom duvidoso sobre a vida pessoal do senador Aécio Neves. Não é porque é um adversário político que eu acho que vale tudo. Sinceramente não acho. Desde que eu ainda morava em Minas ouço esse tipo de coisa, calúnia e me posiciono sempre de forma contrária. Me recuso a usar esse tipo de argumento em uma disputa política. A mim não interessa que Aécio seja cheirador, beberrão, que seja mulherengo, o que for, nesse sentido. E maisː sempre chamo atenção de companheiros que se valem desses argumentos, compartilham essas coisas para discutir política. Já denunciei a página Aécio Cheirador no Facebook e explico: a esquerda nunca precisou desse debate frouxo e raso. Fazemos um debate muito bacana sobre liberdade individual e antiproibicionista, pela legalização das drogas e de forma alguma devemos criminalizar os usuários. Por isso eu me recuso a fazer esse tipo de “piada”. E aí estão os “dois lados da mesma piada” do título: qual é afinal a diferença da marchinha do Baile do Pó Royal pro Aécio Cheirador? Uma critica o traficante de terno e a outra criminaliza o usuário.

Criticar o traficante de terno é trazer a tona que o tráfico e o proibicionismo são hoje alguns dos maiores problemas da guerra às drogas e têm levado milhares de pessoas (em sua maioria negros e pobres) à morte.  Tornar o traficante de terno uma piada é fazer dele alvo pras pessoas saberem que traficante não é o que mora no morro, não é favelado, “aviãozinho”. Com o perdão do trocadilho, é mostrar que o traficante anda é de helicóptero.

Criminalizar o usuário é tornar a sua conduta uma mancha e numa sociedade hipócrita como a nossa é também motivo de linchamento, de execração pública. No mínimo cruel.

É preciso bom senso pra separar as piadas, apurar o humor e afinar a conduta. Não deixemos (novamente com o perdão do trocadilho rs) que nos tomem como farinha do mesmo saco. Sair do senso comum é um desafio, assim como a gargalhada pode ser um ato de resistência.

O preconceito está nos olhos de quem vê ou a cegueira é seletiva?

Eu já escrevi sobre o assunto aqui e já falei sobre o livro Ensaio sobre a Cegueira aqui. Acontece que só terminei de ler recentemente e só o que posso dizer é que foi o livro mais incômodo que li na minha vida. Incômodo porque é extremamente realista e porque calhou de eu ter começado a ler num contexto muito significativo e pessoal que não acho que cabe aqui dizer. Mas daí é isso, tenho a PÉSSIMA mania de ler comentários de notícias e sei que isso ainda vai me causar uma úlcera, mas tenho tentado parar.

saramago

Essa semana mais um adolescente foi morto e a suspeita é de homofobia. Só que a morte foi registrada como suicídio! Mesmo que o adolescente estivesse com uma barra de ferro na perna, golpes na cabeça e sem todos os dentes! Como alguém pode se machucar tanto assim antes de se matar? A não-criminalização da homofobia como crime tem tornado o Brasil como um dos países onde mais se mata homossexuais no mundo. Aí algum imbecil vem dizer que héteros morrem o tempo todo. A diferença é que héteros não morrem por serem héteros! Não morrem por estarem abraçados com outros héteros! O simples fato de querer amar outra pessoa do mesmo sexo condena uma pessoa a morte num país onde a homossexualidade sequer é crime! O lobby da bancada evangélica contra a PL 122 que não foi aprovada e protegia da discriminação além de gays, lésbicas, travestis e transsexuais, os portadores de deficiência e idosos é cúmplice desse tipo de atrocidade.

Não só da homofobia, mas do seu irmão gêmeo (também crime de gênero) o feminicídio, causado pelo machismo, é possível ver os mesmos comentários, as mesmas justificativas: o machismo só existe nos olhos de quem vê. Pra quem vê racismo, só nos olhos de quem vê. Injustiça social? Só nos olhos de quem vê. Preconceito? Só nos olhos de quem vê. Daí eu me questiono e te questiono novamente também, o que Samarago de forma genial nos colocou a todos em seu Ensaio sobre “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Afinal, estão todos cegos ou ficamos loucos de vez para vermos racismo, machismo, preconceito, homofobia em tudo? Ou o problema é justamente não ver? Eu prefiro enxergar enquanto puder, antes que me arranquem os olhos.

Como se torna Mulher? 106 anos de Simone de Beauvoir

O Google homenageou em seu doodle a escritora francesa Simone de Beauvoir, que hoje completaria 106 anos. Poderia citar sua biografia ou até sua bibliografia, mas creio que não é o caso. Quero me ater aqui à contribuição de Beauvoir para o feminismo, sobretudo o ocidental. Em uma de suas obras mais conhecidas, O Segundo Sexo, ela destrincha a condição feminina em diversos sentidos, como o sexual, o social, o político e o psicológico. Em dois volumes (Fatos e Mitos e A Experiência Vivida), a obra de Simone de Beauvoir é considerada vanguardista para a maioria das feministas, tanto por estar à frente de seu tempo como pelo que significou na época de seu lançamento. Mesmo sendo escrito no fim da década de 1940, O Segundo Sexo só chegou com força ao Brasil nos anos 1960. Para as brasileiras que ainda enfrentavam um regime de exceção com o Golpe de 1964 e uma década cheia de incertezas, esta era uma leitura que trazia além do esclarecimento, o desejo da liberdade e luta por igualdade, características do feminismo em um momento em que a palavra ainda era pouco usada.

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Mas apesar de todas as homenagens em forma de frases atribuídas a ela, uma delas me chama especial atenção.

Não se nasce mulher. Torna-se.

Sempre quis escrever sobre como me incomodava ver essa frase citada em contextos tão equivocados. Muitas pessoas acham que se trata de algo glorioso, o “tornar-se mulher”, quase um rito de passagem. Sempre que eu leio essa citação nesse contexto, acho que as pessoas pensam que Beauvoir tava falando da primeira menstruação das meninas.

Mas afinal, o que nos torna mulheres? Em um contexto geral, a autora faz um apanhado do processo social que leva a mulher a ser o “outro sexo”, ou seja, não se trata de algo natural (como a menstruação) ou o fato de possuirmos um útero que nos faz mulher. Não somos uma encubadora, apesar de que ser mãe, reproduzir, procriar, ainda é uma função socialmente atribuída – e por que não dizer, imposta – às mulheres. Mas o que acredito, pela leitura e estudo que fiz de Beauvoir é que a autora tratava da ideia social do que é ser uma mulher. A oposição ao homem, uma parte considerada incompleta (não por ela, mas pela sociedade) que dependia do homem para ser humano. Agora acho que já fica mais claro que o processo é menos glorioso e mais doloroso. Com as concepções sociais (isto é, construídas por pessoas e não pela natureza) de feminino e masculino, vem a divisão social e sexual do trabalho e a ideia de fragilidade, de incapacidade para algumas atividades e todas as agruras que décadas depois do Segundo Sexo ainda nos encarceram em uma posição subalterna em relação aos homens.

Por outro lado, Beauvoir questiona: que é uma mulher? (p.07, 1980). A essa pergunta, um tanto complexa, não sei se poderia responder. Mas ainda hoje o feminismo possui diversos desafios e um deles, pertinente por ser tão atual, é o da transfobia. Geralmente não me arrisco muito a escrever sobre transsexualidade, porque não conheço muito e tenho medo de falar besteira. Mas se tem algo que sei sobre ser mulher e transsexual é que isso tem a ver em como a pessoa se enxerga e sente e não com seus órgãos genitais. Então a minha primeira regra como mulher, feminista e cisgênero é respeitar mulheres transsexuais da forma como elas querem ser respeitadas, isto é, como mulheres.

Apoie suas irmãs, não apenas suas irmãs-cis.

Apoie suas irmãos, não apenas suas irmãs-cis. (tradução nossa, via Feminismo sem Demagogia)

Chamo atenção para o caso da transsexualidade porque é um tema que tem gerado muito debate na sociedade e entre as feministas. No caso da sociedade, mais pelo preconceito e desinformação. Das feministas pelo fato de se tratar de algo “novo”, não porque passou a acontecer recentemente, mas porque se tornou um debate provocado muito recentemente. Fóruns, páginas, encontros, poucos ainda são os espaços destinados às mulheres transsexuais. Por isso é preciso cada vez mais provocar e trazer esse tema para discussão. E mais do que tudo, entender e apoiar as decisões das pessoas para que sejam felizes como desejarem.

Simplismente AMO essa tirinha do Laerte <3

Simplismente AMO essa tirinha do Laerte ❤

O cartunista Laerte (autor da tirinha acima) e adepto do cross-dressing tem se destacado bastante pela militância transgênero (“que engloba grupos diversificados de pessoas que têm em comum a não identificação com comportamentos e/ou papéis esperados do gênero determinado no seu nascimento”*). Além de seu trabalho significativo, ele têm dado entrevistas em que esclarece esse “novo mundo”. Em uma entrevista para o Portal Vírgula do UOL Laerte diz,

A minha história sexual tem as duas coisas. O gênero e a sexualidade são áreas diferentes. Nesse mundo de crossdressers e travestis, existem heterossexuais também. A vontade de cruzar a fronteira do gênero nem sempre é a vontade de ter também um contato homossexual. Existem homossexuais que não são transgêneros e existem transgêneros que são heterossexuais.

É bem comum as pessoas confundirem sexo, sexualidade, orientação sexual e gênero. Mas o que deve ficar claro é que toda e qualquer opção deve ser respeitada. Precisamos lembrar, em uma data significativa como o aniversário de uma grande feminista como foi Simone de Beauvoir que feminismo tem a ver com libertação e autonomia, por isso ao nos considerarmos mulheres não podemos esquecer todas as formas de ser mulher: branca, negra, indígena, cis, trans…e não podemos desprezar nenhuma delas, afinal somos todas parte de uma luta por igualdade e dignidade.

E como também disse Beauvoir: querer-se livre é também querer livre os outros. E as outras. (acréscimo nosso).

Referências: BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo; tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: nova Fronteira, 1980.

*Fonte: Wikipédia