Para merecer quem vem depois*

Um dos maiores movimentos de luta pelo acesso a terra do Brasil e do mundo acaba de completar 30 anos. Com todas as críticas ao MST (não à sua forma de luta e organização, que fique bem claro, mas à cooptação de suas lideranças), ainda é preciso reconhecer a importância de um movimento que colocou na agenda nacional a importância do debate da reforma agrária e da ressignificação do campo.

Quero me ater sobretudo a este último ponto porque acho que chegamos ao esgotamento de uma forma de vida quando desprezamos as demais. Vivi até os 5 anos no sítio dos meus pais no interior de Minas Gerais. Até os 11, 12 anos, passava a maior parte dos fins de semana por lá. Hoje vivo numa cidade de mais de 400 mil habitantes. É impossível não me indignar com um outdoor que anuncia uma “mini fazenda”, uma réplica de um espaço rural estereotipado exposto em um shopping de uma região metropolitana. A tal “fazendinha do Tio Jack” (percebam até o nome estrangeiro rs) possui de acordo com a descrição do shopping “um cenário típico do meio rural, a decoração visa recriar o clima de uma fazenda. Além de ter contato com os mini animais, as crianças poderão dar uma volta em um mini pônei, conhecer uma lhama de verdade ou tirar uma foto com uma cobra píton de 3 metros de comprimento”. Não bastasse a loucura de pensar em recriar uma fazenda dentro de um shopping center, o outdoor ainda possui a seguinte informação: “peixinhos grátis e muito mais!”. Eu não sei vocês, mas tenho até medo de saber o “muito mais”…

Não sei pra vocês, mas isso não se parece nem um pouco com uma fazenda pra mim. Foto: divulgação Shopping MontSerrat

Não sei pra vocês, mas isso não se parece nem um pouco com uma fazenda pra mim.
Foto: divulgação Shopping MontSerrat

Quero dizer, o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo, nossas cidades possuem uma infraestrutura infernal, nos afastamos cada vez mais das pessoas que amamos, ruralistas fazem a festa no Congresso e tamo achando lindo levar os pimpolhos pra dar uma volta no mini pônei no shopping? É isso mesmo? Não me parece saudável pensar assim. Nem um pouco saudável. Olha só pra isso, gente! Para de brincar de Fazenda Feliz que cês não tão no Orkut mais! ONDE que dar bicho de brinde (que seja peixe, pintinho, beagle, barata!) é normal? É um ser vivo! Que tipo de coisa nós tamo ensinando pras crianças? Que seres vivos são descartáveis? Morreu, dá descarga na privada e compra outro?

Quando falo de ressignificar a vida no campo é justamente isso. De ter vontade e prazer de viver do e no campo. Pra muita gente parece besteira ou que eu to exagerando, mas eu acho que o maior erro em relação ao MST (não só do MST em relação ao atual governo) foi não criar alternativas de ressignificação do campo. Os próprios programas sociais que geraram a inclusão de milhares de brasileiros também marginalizaram trabalhadores rurais nas cidades. Disputar com o agronegócio é difícil. Mas não nos deixemos enganar por mini fazendas recriadas e decoradas em shoppings. Elas são mais falsas que a neve da casa do papai Noel no natal em pleno verão no Brasil. São latifúndios, embora o nome queira nos fazer pensar o contrário. E tal qual latifúndios, precisamos ocupá-las e resistir até que viver e respeitar o que vive volte a fazer sentido.

*Verso da música “Sal da Terra” do cantor e compositor mineiro Beto Guedes (se não me engano a autoria também é dele).

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Como Game of Thrones explica o Mundo

Acho que não falei aqui no Blog ou na página o quanto sou fã da série Game Of Thrones. Além da produção impecável, do figurino e dos roteiros que prendem bem a gente, os personagens são bem complexos e para fãs de aventura, fantasia e ficção, eu acho que é a melhor série já feita. É minha favorita no momento e eu já aviso que este texto pode conter spoilers (desculpa!).

Não li os livros, confesso. Comecei, mas precisei fazer o TCC e escolher entre George Martin ou a formatura, então…bem, pretendo ler, juro! Mas no momento ainda não dá, de toda forma, sigo acompanhando a série de forma ávida e já espero a 4ª Temporada de todo o coração.

Mas bem, ao contrário do obra de Tolkien, não existem mocinhos em Game of Thrones. O bem e o mal coexistem em cada um dos personagens e é isso que os torna mais complexo e humanos. Para uma obra de fantasia, acho maravilhoso. Não entro no mérito de dizer qual é o melhor. Adoro o Tolkien, li o primeiro livro do Senhor dos Aneis, vi os três filmes e era tão fissurada que queria aprender Quenya. Pra falar com quem, eu não sei hahahaha

De toda forma, o que eu mais gosto em Game of Thrones é a política. Sabe aquela coisa que Bretch disse que o analfabeto político diz se orgulhar por não gostar? Game of Thrones é cheio dela. Só não percebe quem não quer. As tramas de Porto Real, a briga pelo Trono de Ferro, tudo envolve política. Quero falar especificamente de uma coisa que me inspirou esse texto. Um post do Portal da série no Brasil: Game of Thrones BR. O texto questiona qual a família mais rica de Westeros. Você pode ler aqui.

Talvez eu não entre tanto no que diz a série, mas o que diz a própria realidade que concebi. Não conheci meu avô paterno, mas minha mãe dizia que ele detestava mineração. Dizia que riqueza a gente ganha é “em cima da terra”. Tinha plantações e apesar do pouco estudo, sei, pelas histórias, que era um homem muito sábio.

Por que estou falando do meu avô para voltar a Game of Thrones? Assim como nas nossas plantações, é impossível comer dinheiro. Por isso, assim como na nossa vida, onde os grandes conglomerados de alimentos estipulam os preços dos alimentos que vamos consumir (um texto bárbaro sobre isso, do João Pedro Stédile e que vale a leitura para a compreensão do que quero dizer, você pode ler aqui) é quem planta que tem a maior riqueza, afinal todos nós precisamos comer para sobreviver. Por isso de nada adianta os Lannisters possuírem minas de ouro se em períodos de cerco à Porto Real são os Tyrell que podem alimentar os soldados e a população e também decidir os preços sobre os gêneros de primeira necessidade.

Dinheiro nao se pode comer

Comer é mais importante do que ter. É essencial e deve ser garantido pelo governo. Isso fica bem explícito na 3ª Temporada. Outra alegoria que pode ser percebida nesse sentido está no Ensaio sobre a Cegueira do Saramago que li recentemente. É bem chocante, mas vale a pena demais, para perceber o quanto são mesquinhas e anti-naturais as leis que nos forçam a fazer, como disse o Stédile, do mundo, “um grande supermercado”.

Anjos e arcanjos não pousam nesse Éden infernal*

Estive em uma palestra do João Pedro Stédile do MST semana passada (que talvez seja o cara da esquerda nacional que eu mais admiro) e junto com o Clube da Esquina é o que eu mais tieto na vida. Não preciso dizer que foi extraordinário. Apesar de rápido, ele mostrou porque é uma das figuras mais geniais e afiadas da esquerda atual, falou sobre reforma agrária, luta de classes, mas passou mesmo a maior parte do tempo falando sobre movimentos de junho e junho de 2013 e sobre a importância de uma reforma política com participação popular.

João Pedro Stédile (de azul) fala ao estudantes presentes no auditório do  CCJE na UFES

João Pedro Stédile (de azul) fala ao estudantes presentes no auditório do CCJE na UFES

Entre algumas piadas e o sotaque de trabalhador rural do Rio Grande do Sul (achava que o Stédile era um militante chato e sério?), ele observou algumas causas que levaram os jovens às ruas. Umas das coisas, foi o que ele chamou de “substrato político”, a causa, que segundo ele, foi o esgotamento da esperança desses jovens e do que o próprio Brasil tem a oferecer. Como exemplo ele citou o próprio ENEM, que teve em sua última edição cerca de 6 milhões de participantes. Se 600 mil ainda são pra treinar, onde “enfiaremos” os outros milhões? Diremos a eles que esperem o próximo ano se no próximo ano teremos mais 6 milhões de jovens? Nossas universidades continuam elitistas e excludentes, o que faremos? Se a Educação Pública não dá conta e a educação privada é uma merda (com trocadilho), que faremos? Muitas são as perguntas e os jovens que foram as ruas querem essa solução.

É claro que este tema está saturado, mas é sempre interessante voltar. Ainda mais quando se trata de uma figura tão cativante quanto é o Stédile. Outro ponto importante abordado por ele foi o de viver nas grandes cidades. Como ele mesmo disse, viver na cidade grande no Brasil se tornou um “inferno”. Portanto, esta também foi uma das causas de se ir a rua. Ainda que quem tenha ido o faça “contra tudo que está aí”, porque de verdade, é contra um sistema que oprime, onde há pouca participação. Mas também contra a militarização da PM que assusta o cidadão comum, contra a especulação imobiliária que empurra o trabalhador pras periferias da grande cidade.

Ilustração da série "Cinismo Ilustrado" do Designer mexicano Eduardo Salles

Ilustração da série “Cinismo Ilustrado” do Designer mexicano Eduardo Salles

Gostaria de terminar este texto dizendo mais uma vez que não é possível que tudo seja como antes. Uma reforma política é urgente para mudar as regras do jogo. Uma reforma política com a cara do povo, para dizer a que viemos e o que queremos para mostrar que não fomos às ruas só para nos indignar, mas para propor. Precisamos dizer o que desejamos e sonhamos muito. Um trabalho de base, feito com e por cada um já é uma ótima ajuda, mas precisa ser feito. Stédile citou o modelo do que foi feito na época do plebiscito contra a ALCA, A Reforma Política anda meio capenga no Governo Dilma então mais do que nunca é preciso confiar na Organização Popular! Pelo financiamento exclusivamente misto de campanha, acabemos com o poder econômico nas eleições. Democratizar a Democracia.

*Verso da música “Ave, Lúcifer” dos Mutantes

 

A Falácia do “Combate à Corrupção” ou “Como mudar o Brasil de verdade”

Ela é o tema central de 98,5%* dos debates políticos, assim como 78,6%* das estatísticas são usadas e/ou inventadas para provar um ponto defendido pelo autor da pesquisa/texto/artigo. Números (reais ou não) e brincadeiras a parte, o que significa de fato ser “contra a corrupção”? Ora, acaso existe alguém “a favor”? Ou pelo menos alguém que diga isso em público…?

Combo coxinha: bandeira do Brasil, máscara do V de Vingança e pizza. Só faltou a vassourinha pra "varrer a corrupção"... ZzzzzZ

Combo coxinha: bandeira do Brasil, máscara do V de Vingança e pizza. Só faltou a vassourinha pra “varrer a corrupção”… ZzzzzZ

A luta contra a corrupção é uma bandeira tão vazia e despolitizada que não avança, simplesmente porque é política não é um fim em si mesmo. É completamente possível viver em um país sem corrupção e este país ser injusto socialmente. Óbvio que não defendo a corrupção, muito menos acho que corruptos são necessários para o avanço do país. O que quero dizer é que a bandeira contra a corrupção sempre foi usada, sob um discurso fácil e moralista, em períodos diversos da história brasileira. E a verdade é que sempre houveram corruptos e corruptores. Então, não adianta achar que o PT, o PSDB, o Darth Vader e o lado negro da força, o demônio ou quem quer que seja inventou a corrupção. Ela só existe porque existem brechas no sistema político e eleitoral brasileiro. E é sobre isso que trato nos três tópicos seguintes, sobre o que eu considero que pode mudar de verdade o Brasil.

A necessidade de uma Reforma Política

Mais que necessária, a uma Reforma no sistema político nacional é urgente porque ficou claro que acima de tudo, a crise que foi às ruas esse ano é uma crise de representação. Para além da despolitização e do conservadorismo posterior do movimento em questão, as manifestações colocaram a Reforma Política no centro do debate. Isso é bacana, pena que foi esquecido tão rápido e os próprios aliados da base governistas recuaram. É importante observar que a juventude não nega a política. Dizer que detesta política não basta para considerar uma negação do “fazer política”. Esta é uma juventude que quer participar politicamente, mas não vê como fazê-lo num sistema que é submisso ao poder econômico. Por isso, somente uma Reforma Política com participação popular pode mudar a maneira como se faz política no país, sobretudo acabando com o financiamento privado de campanha.

Acabam de criar mais dois partidos no país (o PROS, os contras e o Solidariedade). E ainda estamos acompanhando a novela da Marina com sua Caiu na rede é peixe “Rede Sustentabilidade”. Até o momento o Brasil tem 32 partidos políticos, a maioria sem uma ideologia muito clara.

Não é difícil entender porque os jovens em sua maioria criticam tanto a classe política. Política virou carreira, mas não pode ser assim. Tem que haver renovação, oxigenação – de pessoas e ideias! -, não dá pra ser conivente com a burocratização da máquina pública que só afasta seu povo de onde as batalhas se travam. É importante sim disputar uma sociedade, mas que isso seja feito com base nas ideias e nos ideais. E de maneira justa e igualitária.

Democratização da Comunicação

A comunicação e seus meios são os espaços onde podemos disputar valores na sociedade. Só isso já justifica a democratização da comunicação, mas além disso, pluralizar as vozes é uma das formas mais diretas de se fortalecer a democracia. Garantir acesso aos meios de comunicação, com o fomento a canais populares é uma ótima iniciativa para que mais pessoas possam falar para mais pessoas. Nem vou me estender mais, porque já falei disso aqui.

Reforma Agrária já!

Sim, apesar das manifestações recentes serem urbanas e possuírem demandas diretamente relacionadas ao meio urbano, a Reforma Agrária é fundamental para mudar o Brasil e garantir uma sociedade mais justa. Não é preciso apenas dizer que “se o campo não planta a cidade não come”, é urgente romper com o agronegócio, garantir políticas de incentivo à agricultura familiar e restringir o uso de agrotóxicos. Estamos a cada dia comendo mais veneno porque um “agromercado” decidiu que o lucro é mais saboroso.

É preciso ressignificar o espaço do campo. O trabalhador rural precisa ter vontade de orgulho se permanecer no campo e para isso, precisa de dignidade. Educação no campo, incentivo e acesso ao crédito. Só tomando seu próprio território é que o povo brasileiro vai deixar de estar na mão de um bando de ruralistas que impõe sua política conservadora e arcaica a este país.

No pequeno vídeo a seguir é possível entender mais sobre a questão agrária no Brasil. E entender porque o agronegócio é uma afronta a soberania nacional e dos povos indígenas, quilombolas e tradicionais.

Vamos falar de coisa boa?

Iogurteira Top Therm! Quero concluir dizendo que o combate à corrupção nào questiona o status quo, não tem como finalidade a luta por uma sociedade mais justa. Eu já disse isso lá em cima, mas quero reafirmar para que fique bem claro que toda vez que alguém reclamar que este país “não vai pra frente”, que tem “vergonha de ser brasileiro” e que está protestando “contra tudo isto que está aí” é preciso lembrar que só a política muda as coisas e para fazer política é preciso antes de dizer o que não quer, dizer a que veio.

Sejamos cada vez mais seres políticos e politizados! Que tal defender o que pode de verdade mudar a vida e a história do nosso povo?

*Dados meramente ilustrativos hehehe

**Obviamente tem muito mais coisa que pode mudar. No entanto, depois de muito refletir, considero estes pontos parte de um eixo principal de mudança.