Sem feminismo não há democracia

Luara Ramos e Natalia Bemfeito*

Após a disputa eleitoral para a Presidência da República mais acirrada dos últimos tempos é inevitável e necessária a reflexão sobre o machismo enfrentado por mulheres que ocupam cargos de poder. Poderíamos tratar exclusivamente dessas eleições, mas há quatro anos uma mulher ocupa o cargo mais alto do país e a falta de mulheres em posições mais representativas nos leva a reflexões anteriores que se já foram ditas, merecem ser recordadas.

Presidenta** ou primeira-dama?

Para começar nossos devaneios feministas, trataremos de fato digno de observação, por sua peculiaridade: todas as roupas utilizadas por Dilma foram comentadas e muitas receberam duras críticas, como se fossem “assunto de Estado”. Não se podem dizer o mesmo dos candidatos. Terno não vira notícia, tsc…Em sua posse, em 1º de janeiro de

Natalia Bemfeito

Natalia Bemfeito

2011, especulava-se que “modelito” ela usaria e até entrevista com o maquiador fizeram. Alguém já perguntou ao Collor o nº do Grecin que ele usa pra manter suas madeixas grisalhas? Ou como o Lula prefere usar a barba? É disso que estamos falando…

Ainda em 2011 outra coisa chamou muita atenção: pela 1ª vez o Brasil escolhia uma mulher para ocupar a presidência da República, mas nas manchetes dos jornais e revistas surgia uma figura desconhecida, a esposa do vice-presidente Michel Temer. Marcela Temer apareceu ao lado do vice-presidente e segundo jornais, comentaristas e revistas de fofoca “roubou” a cena. Mais uma vez nos era dada a lição: mulher é um objeto decorativo, foi feita pra ser bonita, não pra ser presidenta. Agora imagine a cabeça e a autoestima de uma menina que vê duas mulheres no alto da rampa do planalto: quem ela gostaria de ser, a esposa do vice-presidente (a vice-primeira-dama?) ou a mulher mais poderosa do país? O “cargo” de primeira-dama estava vago e até a companhia da presidenta no rolê do Rolls-Royce presidencial gerou especulação – afinal, além de ser mulher, Dilma é divorciada e esse assunto continuou dando pano pra manga até que chegamos às eleições de 2014. O R7 publicou uma matéria ridícula para apresentar a “possível primeira-dama”, esposa do candidato Aécio Neves. A pérola final é “Desde que Luiz Inácio Lula da Silva deixou a Presidência, o Brasil não conta com uma primeira-dama, já que o País elegeu uma presidente em 2010”. O que será de um país sem uma primeira-dama, hein? O que importa que o Brasil ainda seja um dos países com menos mulheres em cargos eletivos se não contamos com uma primeira-dama? Os machistinhas-bronha de internet logo ficaram em polvorosa! Exaltavam o lado “pegador” do presidenciável Aécio, além de alguns comentários de tão babacas, nos recusamos a reproduzir.

Mais candidatas à presidência, mais machismo

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Em 2010 foram duas candidatas e este ano três. Em dado momento tivemos a possibilidade inédita de um 2º turno com duas mulheres na disputa, mas a presença de uma figura feminina só fez instigar as ofensas mais sexistas dignas dos comentaristas de portais. Nas redes sociais todas as candidatas foram alvo de termos sexistas. A presidenta e candidata Dilma Rousseff foi quem mais sofreu agressões por ter maior rejeição, comum (a rejeição) a candidatas(os) à reeleição. Luciana Genro e Marina Silva também foram vítimas de tais ataques. Marina foi chamada de “magrinha” por Eduardo Jorge durante uma comparação infeliz em um debate. Luciana teve que ouvir críticas ao seu cabelo crespo, seu sotaque. As vozes das candidatas também foram bastante criticadas, afinal os eleitores não estão acostumados com vozes mais agudas e acham mais estranho a voz de uma mulher do que não ver metade da população nacional representada politicamente.

De “vaca”, “vadia” e “piranha” até ameaças covardes e comentários sobre a vida sexual e a aparência, referir-se a qualquer mulher de tal forma não deveria ser algo considerado natural, mas é. Especialmente quando esta mulher ocupa um lugar que “não lhe cabe”. Na academia, na comunidade científica, na política. Afinal, “não é lugar de mulher”, não é mesmo?

Aécio e a personificação do machismo

No recente processo eleitoral, vimos muitos militantes bradarem: “não voto em candidato que bate em mulher!”, “candidato machista não me representa”. A origem de tais manifestações se refere ao episódio em que ele teria agredido uma namorada durante uma festa no Rio de Janeiro. É importante ressaltar que não houve condenação neste sentido, nem por parte da justiça, já que nunca houve sequer investigação do caso e o candidato chegou a negar, ameaçando o jornalista Juca Kfouri, responsável pela nota, de processo (apesar de nunca tê-lo processado) e nem por parte do eleitorado, que julgou ser algo muito pessoal e, portanto, fora do debate político. No entanto, pudemos detectar diversas posturas extremamente sexistas de Aécio nos debates dos presidenciáveis: todos o vimos utilizar expressões ultrapassadas como “dona de casa”, para se referir às mulheres, e “trabalhador”, ao falar dos homens. Além disso, a forma como se dirigia às candidatas mulheres para desqualificar suas afirmações chamando-as de “levianas” e “mentirosas” também foi marcante. Seu riso ao responder as perguntas e a insistência em chamar a candidata Dilma de mentirosa durante os debates do 2° turno geraram inclusive uma rejeição por parte das mulheres. Tudo isso refletiu na campanha, já que os militantes tucanos não ficaram atrás e durante um dos debates receberam Dilma urrando “vaca, vaca, vaca”!

Outra coisa que foi bastante ouvida é que Aécio tem “cara de presidente”. Claro que tem cara de presidente, afinal durante toda a nossa história SÓ TIVEMOS CANDIDATOS HOMENS, claro que não estamos acostumados a uma mulher na presidência. Este argumento além de tudo é estúpido.

Os outros candidatos foram igualmente machistas ou até piores. Pastor Everaldo e Levy Fidelix chocaram as pessoas com discursos vazios e preconceituosos, permeados de machismo, homofobia e o que de pior puder existir. Mas a reflexão que queremos trazer aqui não é um julgamento dos candidatos. Queremos com a discussão feminista, tirar do ambiente privado, questões que tantas vezes violentaram as mulheres. Queremos trazer a público, para a política, algo que não pode mais ficar escondido. Por trás das vaias e xingamentos está o machismo e a luta de classes. Mulheres que ocupam lugares que “não lhes cabem” incomodam àqueles que querem manter seus privilégios. As mulheres da classe trabalhadora lutaram para conquistar o direito à igualdade, ao voto, à cidadania plena, à licença maternidade, dentre muitos outros. E hoje as mulheres continuam lutando para alcançar seu lugar nos cargos de poder sem sofrerem preconceitos odiosos. Porque lugar de mulher é onde ela quiser.

A democracia não pode e não deve ser um governo para a maioria como muitos querem fazer crer. A democracia deve ter a ver com a coexistência de ideias e não com a opressão do outro/ da outra. Ou a democracia é para todos e todas ou não será para ninguém. E se não aprendem a respeitar as mulheres nós temos que ensinar.

*Luara Ramos é mineira, Atleticana, feminista, publicitária e criadora do blog Vã Filosofia; Natalia Silva Bemfeito é servidora pública, pós-graduanda em Direito pela UERJ e militante feminista. As duas se conheceram na militância pelas redes e desde então descobriram que são irmãs.

** Antes que algum desinformado metido a dono da Língua Portuguesa venha dizer que “aff, parei de ler no ‘presidenta’, gostaríamos de dizer que o termo em questão já aparece desde 1899 no dicionário Cândido de Figueiredo. E ainda que não aparecesse, se te soa estranho só porque nunca antes tivemos outras presidentas, é bom ir se acostumando…

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Carta aberta de uma gordinha à Marina Silva

Por Camila Moreno

Marina,

está circulando pela internet um vídeo em que a senhora faz uma comparação entre você e a também candidata e presidenta Dilma Rousseff.  Entre as tantas comparações que podem e devem ser feitas entre as duas candidatas mais bem posicionadas nas pesquisas eleitorais, você opta por dizer é magrinha, enquanto Dilma é fortinha, exatamente com essas palavras, arrancando risadas e aplausos da plateia.

Camila Moreno

Camila Moreno

Lembro com nitidez que a senhora já havia feito essa comparação com Dilma na eleição passada, ao ser perguntada sobre suas principais diferenças.

Dilma é a primeira presidenta da história do Brasil e essa é a primeira eleição com grandes chances de duas mulheres irem para o segundo turno. Uma eleição histórica, certamente.  Histórica porque em um país cercado de machismo por todos os lados; em que as mulheres são menos de 10% no Congresso Nacional; onde embora muitos avanços tenham sido alcançados com a Lei Maria da Penha, ainda estamos em 7º lugar no ranking da violência doméstica; a maioria dos cidadãos e cidadãs do nosso país, se as pesquisas estiverem certas, optará por confiar o seu voto em uma mulher. Isso é lindo e me emociona.

Sei que você sabe, Marina, que ser mulher é um desafio cotidiano. É ter que provar duas vezes que é capaz. Na política então, nem se fala. Lembro o quanto te criticaram pelo fato do seu companheiro trabalhar no governo do PT no Acre, como se vocês, por serem casados devessem ter a mesma opinião política. Na época, te defendi e disse que achava um absurdo esse tipo de acusação. Te defendo quando falam da sua voz, porque não estão acostumados com vozes mais agudas nos debates políticos. Imagino Marina, o quanto sejam duras as críticas por causa do seu cabelo, pelas roupas e não pelas ideias.

Talvez você não tenha tido noção da gravidade da sua declaração, Marina, mas eu vou te contar o porquê ela doeu no fundo da minha alma: eu sempre fui considerada uma criança gordinha e desde que entendi que isso era um defeito, sofri com isso. Tive transtornos alimentares graves e só me aceitei de fato, quando conheci a militância e o feminismo, porque me mostraram que os padrões de beleza nos tornam escravas de uma busca impossível e infeliz e eu esperava que as mulheres na política, ainda que com divergências, optassem pela desconstrução do machismo, mas você fez exatamente o contrário.

Essa sua declaração apenas reforça um padrão ditatorial que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres arrisquem suas vidas em métodos salvadores do alcance da beleza, porque ao invés de você optar por ajudar a romper com essa lógica de que a mais magra é melhor que a gorda, você a reforçou. Você podia ter escolhido desconstruir a ideia de que o debate entre duas mulheres seria um debate superficial e estético, mas você preferiu seguir essa lógica que revistas de beleza e a indústria do entretenimento entranham todos os dias na nossa vida, de que para ser bem sucedida e feliz, é preciso ser magra.

Você não perdeu o meu voto com essa sua “piada”, porque você já o havia perdido quando optou por deixar de lado a sua bela trajetória de vida e luta ao lado de Chico Mendes para ser a nova voz da direita e do neoliberalismo no país, mas eu de fato esperava um debate mais qualificado da sua parte.

*Camila Moreno é @camilamudanca no twitter, estudante de Letras da UNB e pretende não ser infeliz por conta dos padrões de beleza.

Para merecer quem vem depois*

Um dos maiores movimentos de luta pelo acesso a terra do Brasil e do mundo acaba de completar 30 anos. Com todas as críticas ao MST (não à sua forma de luta e organização, que fique bem claro, mas à cooptação de suas lideranças), ainda é preciso reconhecer a importância de um movimento que colocou na agenda nacional a importância do debate da reforma agrária e da ressignificação do campo.

Quero me ater sobretudo a este último ponto porque acho que chegamos ao esgotamento de uma forma de vida quando desprezamos as demais. Vivi até os 5 anos no sítio dos meus pais no interior de Minas Gerais. Até os 11, 12 anos, passava a maior parte dos fins de semana por lá. Hoje vivo numa cidade de mais de 400 mil habitantes. É impossível não me indignar com um outdoor que anuncia uma “mini fazenda”, uma réplica de um espaço rural estereotipado exposto em um shopping de uma região metropolitana. A tal “fazendinha do Tio Jack” (percebam até o nome estrangeiro rs) possui de acordo com a descrição do shopping “um cenário típico do meio rural, a decoração visa recriar o clima de uma fazenda. Além de ter contato com os mini animais, as crianças poderão dar uma volta em um mini pônei, conhecer uma lhama de verdade ou tirar uma foto com uma cobra píton de 3 metros de comprimento”. Não bastasse a loucura de pensar em recriar uma fazenda dentro de um shopping center, o outdoor ainda possui a seguinte informação: “peixinhos grátis e muito mais!”. Eu não sei vocês, mas tenho até medo de saber o “muito mais”…

Não sei pra vocês, mas isso não se parece nem um pouco com uma fazenda pra mim. Foto: divulgação Shopping MontSerrat

Não sei pra vocês, mas isso não se parece nem um pouco com uma fazenda pra mim.
Foto: divulgação Shopping MontSerrat

Quero dizer, o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo, nossas cidades possuem uma infraestrutura infernal, nos afastamos cada vez mais das pessoas que amamos, ruralistas fazem a festa no Congresso e tamo achando lindo levar os pimpolhos pra dar uma volta no mini pônei no shopping? É isso mesmo? Não me parece saudável pensar assim. Nem um pouco saudável. Olha só pra isso, gente! Para de brincar de Fazenda Feliz que cês não tão no Orkut mais! ONDE que dar bicho de brinde (que seja peixe, pintinho, beagle, barata!) é normal? É um ser vivo! Que tipo de coisa nós tamo ensinando pras crianças? Que seres vivos são descartáveis? Morreu, dá descarga na privada e compra outro?

Quando falo de ressignificar a vida no campo é justamente isso. De ter vontade e prazer de viver do e no campo. Pra muita gente parece besteira ou que eu to exagerando, mas eu acho que o maior erro em relação ao MST (não só do MST em relação ao atual governo) foi não criar alternativas de ressignificação do campo. Os próprios programas sociais que geraram a inclusão de milhares de brasileiros também marginalizaram trabalhadores rurais nas cidades. Disputar com o agronegócio é difícil. Mas não nos deixemos enganar por mini fazendas recriadas e decoradas em shoppings. Elas são mais falsas que a neve da casa do papai Noel no natal em pleno verão no Brasil. São latifúndios, embora o nome queira nos fazer pensar o contrário. E tal qual latifúndios, precisamos ocupá-las e resistir até que viver e respeitar o que vive volte a fazer sentido.

*Verso da música “Sal da Terra” do cantor e compositor mineiro Beto Guedes (se não me engano a autoria também é dele).

Dois lados da mesma piada

O humor é sem dúvidas um dos melhores aliados da socialização. E um dos melhores recursos também. Particularmente adoro o humor nas mais diferentes áreas da minha vida. Pessoal e até profissional. Inclusive nos meus trabalhos e portfólio. A profissão na qual me formei tem um estigma de “engraçadões”. Publicitários têm um sério problema (destaque para a ironia) em se achar na obrigação de serem engraçados. Então criam logo suas contas no Twitter e se arvoram no direito de fazer piadas sobre tudo e todos e a se assumir paladinos da defesa do “Humor Livre”.

-Mas qual o limite do humor pra você?

-O humor não pode ter limites!

-Isso é censura!

-O objetivo do humor é apenas o riso!

Muito engraçado, caras! #Sqn

Muito engraçado, caras! #Sqn

Não sei se porque as agências andam exigindo jornada tripla, os clientes pedindo pra aumentar o tamanho da marca ou os freelas pagando atrasado, mas os publicitários parecem que alimentam a esperança de serem os novos “talentos” do stand up brasileiro. Ou preencherem a cota de publicitário babaca do BBB do ano. Acontece que, e para isso é que escrevo esse texto e não para afrontar meus colegas de categoria, sinto dizer a vocês, mas a zuera tem limites =(

Sabe o que não tem limites na vida (como bem disse a Samantha Pistor, beijo linda!)? As tretas.

As pessoas se dividem emː oprimidas e as que internalizam a opressão, reclamam que o politicamente correto tá tornando tudo mais chato. Eu nunca vi nada sob o título de “politicamente incorreto” que não fosse completamente preconceituoso, machista, racista e valesse desse título só pra dizer “ó, não tenho compromisso com nada a não ser com meu próprio umbigo”. É pura desonestidade intelectual, preguiça de pensar nos outros. E nós vivemos em sociedade. Ou seja: pessoa vive em sociedade e quer pensar só nela e nos próprios direitos. É mesquinho! Daí eu digo a vocês: vejam o politicamente correto como uma forma de apurarmos o nosso bom senso e o nosso humor para fazermos piadas com os opressores e não com os oprimidos.

Um documentário muito legal (abaixo) que aborda o universo do stand up brasileiro é O Riso dos Outros. Eu não quero deixar spoilers, mas com ele aprendi algumas coisas importantes que vale a pena dizerː

  1. É importante saber de que lado da piada você está.
  2. Tem lugares que não cabe uma piada.

Não quero me estender muito então vou passar logo pro real motivo que me levou a escrever esse texto. A esta hora muitos de vocês já devem ter ouvido (e eu espero que sim porque é realmente genial) a marchinha O Baile do Pó Royal, uma referência clara ao episódio do helicóptero da empresa dos deputados Gustavo Perrella (SDD-MG) e Zezé Perrella (PDT-MG), apreendido com quase meia tonelada de pasta de cocaína no ES no final de 2013. A marchinha, além da referência aos políticos mineiros, também explicitaram a aliança conhecida por muitos, mas abafada pela mídia, destes com o também senador e presidenciável Aécio Neves.

Sutil e na forma de cacofonias, que são combinações do final de palavras com o início das seguintes, a marchinha forma tanto o sobrenome dos Perrella, quando o diminutivo do nome de Aécio Neves (“Aecim”). Além disso, “brinca” com a o rumo que o caso tomou, não dando em nada. No caso da justiça, foi declarado que “não há envolvimento da família do senador com a carga apreendida”. Apesar do helicóptero ser da empresa da família, o piloto ser indicado pelo Deputado sócio e filho do senador Perrella na ALES-MG, estar a serviço dele, ter telefonado pra ele antes, não ter sequer dinheiro pra pagar uma carga deste preço, mas enfim…

Não é de hoje que tenho visto certas “piadas” de tom duvidoso sobre a vida pessoal do senador Aécio Neves. Não é porque é um adversário político que eu acho que vale tudo. Sinceramente não acho. Desde que eu ainda morava em Minas ouço esse tipo de coisa, calúnia e me posiciono sempre de forma contrária. Me recuso a usar esse tipo de argumento em uma disputa política. A mim não interessa que Aécio seja cheirador, beberrão, que seja mulherengo, o que for, nesse sentido. E maisː sempre chamo atenção de companheiros que se valem desses argumentos, compartilham essas coisas para discutir política. Já denunciei a página Aécio Cheirador no Facebook e explico: a esquerda nunca precisou desse debate frouxo e raso. Fazemos um debate muito bacana sobre liberdade individual e antiproibicionista, pela legalização das drogas e de forma alguma devemos criminalizar os usuários. Por isso eu me recuso a fazer esse tipo de “piada”. E aí estão os “dois lados da mesma piada” do título: qual é afinal a diferença da marchinha do Baile do Pó Royal pro Aécio Cheirador? Uma critica o traficante de terno e a outra criminaliza o usuário.

Criticar o traficante de terno é trazer a tona que o tráfico e o proibicionismo são hoje alguns dos maiores problemas da guerra às drogas e têm levado milhares de pessoas (em sua maioria negros e pobres) à morte.  Tornar o traficante de terno uma piada é fazer dele alvo pras pessoas saberem que traficante não é o que mora no morro, não é favelado, “aviãozinho”. Com o perdão do trocadilho, é mostrar que o traficante anda é de helicóptero.

Criminalizar o usuário é tornar a sua conduta uma mancha e numa sociedade hipócrita como a nossa é também motivo de linchamento, de execração pública. No mínimo cruel.

É preciso bom senso pra separar as piadas, apurar o humor e afinar a conduta. Não deixemos (novamente com o perdão do trocadilho rs) que nos tomem como farinha do mesmo saco. Sair do senso comum é um desafio, assim como a gargalhada pode ser um ato de resistência.

O preconceito está nos olhos de quem vê ou a cegueira é seletiva?

Eu já escrevi sobre o assunto aqui e já falei sobre o livro Ensaio sobre a Cegueira aqui. Acontece que só terminei de ler recentemente e só o que posso dizer é que foi o livro mais incômodo que li na minha vida. Incômodo porque é extremamente realista e porque calhou de eu ter começado a ler num contexto muito significativo e pessoal que não acho que cabe aqui dizer. Mas daí é isso, tenho a PÉSSIMA mania de ler comentários de notícias e sei que isso ainda vai me causar uma úlcera, mas tenho tentado parar.

saramago

Essa semana mais um adolescente foi morto e a suspeita é de homofobia. Só que a morte foi registrada como suicídio! Mesmo que o adolescente estivesse com uma barra de ferro na perna, golpes na cabeça e sem todos os dentes! Como alguém pode se machucar tanto assim antes de se matar? A não-criminalização da homofobia como crime tem tornado o Brasil como um dos países onde mais se mata homossexuais no mundo. Aí algum imbecil vem dizer que héteros morrem o tempo todo. A diferença é que héteros não morrem por serem héteros! Não morrem por estarem abraçados com outros héteros! O simples fato de querer amar outra pessoa do mesmo sexo condena uma pessoa a morte num país onde a homossexualidade sequer é crime! O lobby da bancada evangélica contra a PL 122 que não foi aprovada e protegia da discriminação além de gays, lésbicas, travestis e transsexuais, os portadores de deficiência e idosos é cúmplice desse tipo de atrocidade.

Não só da homofobia, mas do seu irmão gêmeo (também crime de gênero) o feminicídio, causado pelo machismo, é possível ver os mesmos comentários, as mesmas justificativas: o machismo só existe nos olhos de quem vê. Pra quem vê racismo, só nos olhos de quem vê. Injustiça social? Só nos olhos de quem vê. Preconceito? Só nos olhos de quem vê. Daí eu me questiono e te questiono novamente também, o que Samarago de forma genial nos colocou a todos em seu Ensaio sobre “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Afinal, estão todos cegos ou ficamos loucos de vez para vermos racismo, machismo, preconceito, homofobia em tudo? Ou o problema é justamente não ver? Eu prefiro enxergar enquanto puder, antes que me arranquem os olhos.

NADA SERÁ COMO ANTES (meu relato sobre as manifestações no Brasil e minha participação no Espírito Santo)

*Texto publicado no Facebook em 19/06/2013

Somente na terça-feira de manhã, quando comecei a chorar no banho, é que eu acho que entendi o que está acontecendo no Brasil. Num primeiro momento, vi com preocupação a repressão e a criminalização aos movimentos sociais, mas também o tom das manifestações fez com que eu questionasse o peso e a legitimidade do movimento. O que me fez chorar? Acho que enfim eu estava lavando a minha arrogância.

Na noite da última segunda-feira (17), o ES pode ver com orgulho milhares de pessoas marcharem sob a 3ª ponte. O simbólico do que nos separa, do pedágio, do preço que se paga, do que é proibido ultrapassar, das barreiras invisíveis, virou o que nos une. Eu vinha reclamando da falta de organização, de pauta, de objetividade, não consegui gritar uma palavra de ordem junto com o restante porque tudo me parecia muito classe média, senso comum. Mas quando chegamos mais próximo a Vila Velha, e as luzes dos prédios começaram a piscar, acho que foi uma das coisas mais poéticas que já vivi.
Ora, qual o problema dos prédios serem da Praia da Costa? Qual o problema de ser um movimento de classe média (que de fato é)? Acaso vamos agora exigir comprovante de renda pra manifestação? Deslegitimar as manifestações por todo o Brasil por causa disso, não me parece muito democrático.
Este é de fato um movimento popular, as pessoas estão lutando por causas populares. Há sim um ou outro oportunista, mas se os gritos são por passe livre, investimento em educação e saúde, responsabilidade com o dinheiro público, onerar o estado para garantir mais direitos, é uma manifestação por mais justiça social! E justiça social sempre foi uma bandeira de esquerda. Queremos ser uma democracia e não uma instituição financeira com praias!

Foto: G1

Foto: G1

É portanto nosso papel não deixar que nada seja como antes depois de tamanha mobilização. O que faremos agora que descobrimos que podemos atravessar a ponte todos os dias? É isso que devemos tentar responder.
“Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”.

PARA A ESQUERDA

Este não é o momento de disputar espaços. Vemos a todo o tempo uma galera que se acostumou à disputa pela disputa e ainda não entendeu como isso tudo cresceu sem a sua “organização”. Pura arrogância. Querer organizar o povo sem disputar idéias é algo que nos custou essa dúvida e este sentimento cínico. Devemos agora nos preocupar em disputar os RUMOS desse processo, que devem ser cada vez mais à esquerda.

A ADESÃO DA CLASSE MÉDIA E DA JUVENTUDE

As pessoas estão insatisfeitas e quem de nós não está? Querer julgar que a sua insatisfação é por um motivo mais justo que o do outro também é arrogante. Ora, pela primeira vez em algumas décadas, o povo está na rua em períodos que não são eleitorais. Pela primeira vez a política é o tema mais discutido em todos os lugares: dos butecos aos ônibus. Por idosos e adolescentes. Estes últimos então, devemos lembrar, são filhos do neoliberalismo e consequentemente do individualismo pregado por este sistema cruel. Trazer essa galera pra rua já motivo de comemoração. Negar isso a eles é um erro político e estratégico, uma vez que este talvez seja o primeiro contato de muitos ali com a política. E da forma mais pura. Pela base, pela conquista plena do poder popular. São jovens cansados de ler história e que querem agora escrever a própria história e a história de um Brasil mais justo. Isso é lindo.

AS MÍDIAS CONVENCIONAIS, SOCIAIS E A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

Estamos diante de novos acontecimentos pra comunicação. Na era dos memes, tudo é muito fluido e as consequências disso tudo ainda estão sendo analisadas. Mas alguns pontos merecem destaque, por mais que ainda não saibamos (eu não sei) explicá-los na sua heterogeneidade. Este foi um movimento que se não teve seu início nas mídias sociais, foi organizado, pensado e discutido nas mesmas. Facebook, Twitter, Youtube, entre outros, são plataformas com as quais a juventude está acostumada e que de certa forma, pluralizam as informações e o acesso ao conteúdo diversificado. As próprias petições online, são uma forma de mostrar quantas causas existem e a quantidade de pessoas que se identificam com elas. É o que eu gosto de chamar de “cauda longa dos movimentos sociais” (eu só espero que as pessoas não se acostumem a achar que bastar abanar o rabinho rs ). Já a mídia convencional brasileira ou está confusa ou pensa que estamos em 1964. Já criticou, já mudou de lado, já não sabe de que lado está, mas uma coisa é certa: quer sair bem dessa.

Foto: Folha Vitória

Foto: Folha Vitória

Acontece que o povo já cansou de ser massa de manobra de organizações como a Rede Globo, entre outras. Nas manifestações, sempre que tentaram filmar, tiveram que ouvir que “o povo não é bobo”. É muito bom ver que essa galera também deseja a democratização dos meios de comunicação.
Vejo também a quantidade de smartphones, câmeras semi ou profissionais e as pessoas parando para tirar fotos pra postar nas redes. Parecia pra mim que eles só queriam aparecer, espetacularizar, faziam caras e bocas, mas o que estamos vendo é a documentação, o registro a história, simultânea e com uma rapidez jamais vista. Só que à maneira dessa nova geração. Não seria justo ridicularizar isso. Realmente as máscaras do Guy Fawkes em alusão ao filme V de Vingança e ao grupo Anonymous, bem como os já manjados narizes de palhaço, caras pintadas, flores (faltaram as vassouras rs) me dão nos nervos. Mas a falta de criatividade não pode ser uma forma de minimizar tudo o que estão fazendo.

PAUTA, LIDERANÇA E REPRESENTATIVIDADE

A “falta” de uma pauta foi muito cobrada pelas pessoas, mas principalmente pela mídia. Também o governo em todas as esferas disse que não havia como negociar, pela falta de pauta e de lideranças. Mal sabem eles que não se trata de falta de pauta, visto que as temos e muito. Aliás, muitas. O que essa gente ainda não entendeu é que sim, o movimento não tem liderança e nem deve ter. É descentralizado, mas é popular. Não estamos satisfeitos nem com os acordos e portanto não nos limitamos a criar representações para falar por nós. Estamos nós mesmos nos apropriando do espaço que já é público para falar do que deveria ser público: a política. Esta sim, a política, deve ser mais pública e menos institucional.

O APARTIDARISMO

Sempre vi com receio quando um ato pedia o apartidarismo. Isso porque acho que partidos são instrumentos de organização de um povo em torno de um projeto político e acho isso saudável e democrático. Eu mesma sou filiada ao Partido dos Trabalhadores e tenho muito orgulho em defender e trabalhar por um projeto como o nosso. Acho que como já disse, infelizmente o apartidarismo é um prato cheio pra direita. Esta sim, adora se esconder, fingir que não liga pra nada disso, mas sempre que pode, dá seu jeitinho de impor pautas que não estão alinhadas com os interesses do povo brasileiro. Pautas mesquinhas, que fomentam cada vez mais o individualismo.

Me preocupa também que o apartidarismo vire um anti-partidarismo. Muitas de nós, filiados a um partido político, estamos do mesmo lado daqueles que agora lutam por mais justiça social, por isso, acho ruim que nos neguem mostrar que somos e agregar nossa luta à e todos os demais. No entanto, também entendo que a falta de credibilidade dos partidos começa na falta de credibilidade no sistema político brasileiro, e é aí que entro na questão que considero crucial: Reforma Política.

Foto: TV Gazeta

Imagem: TV Gazeta

REFORMA POLÍTICA E A CRISE NA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA BRASILEIRA

Muitas são as reivindicações, muitos são os gritos e isso se deve ao problema de não-representatividade do povo brasileiro pela nossa classe política. Essas manifestações se tornaram muito maior do que nós imaginamos justamente porque agora não é mais apenas por R$0,20. As pessoas foram agregando suas próprias reivindicações porque não há quem as agregue nos espaços políticos institucionais. É justamente por isso que não devemos reduzir a manifestação aos espaços institucionais. Se o problema começa quando não conseguimos ser representados e desejamos que a democracia seja plena, acho que a pauta maior deva ser a REFORMA POLÍTICA. Ora, muitos manifestantes dizem que são “contra a corrupção”. E por acaso, há alguém a favor? É preciso discutir o que leva à corrupção. Não são as dívidas do financiamento de campanha? E a falta de transparência no poder público? O descaso com o dinheiro do contribuinte? Uma Reforma Política ampla, feita sob o olhar do povo, a meu ver, contempla todas as demais pautas elencadas nas manifestações por todo o Brasil.

AO PARTIDO DOS TRABALHADORES

Aos meus companheiros e companheiras do Partido dos Trabalhadores, creio que mais do que nunca é preciso mostrar que sempre estivemos do lado certo, do lado do povo brasileiro. Devemos nos mostrar neste momento, dignos de nossa história, que levou o povo às ruas pela redemocratização, nas greves gerais, e em tantos outros momentos da história brasileira.

Somos um Partido de massas, o mais popular do Brasil, por isso não podemos achar que este é um movimento contra nós. É o povo que está lá, o mesmo povo que nos confiou por 3 vezes seguidas o governo deste país. Sabemos bem quem tem medo de povo e não somos nós. Até porque nós somos do povo, somos o povo. Não nos assustemos com o oportunismo da direita, porque um prato de macarronada é o máximo de massa que eles conhecem.
Também não é o momento de defender nada. Devemos entender que não se trata de levantarmos nossas bandeiras estreladas, mas reconhecer que o céu é o limite para quem ainda ousa sonhar. Vamos radicalizar nossos sonhos. Defender que nosso partido seja mais representativo com a Reforma Política. Somente com a Reforma Política é que poderemos colocar em prática nosso projeto, sem ficar refém da tal governabilidade.

Estes protestos são também uma conta a ser paga pelo PT por não disputar valores na sociedade. Por isso, disputar os rumos desse processo e do que virá depois dele, é nosso dever. Estamos ou não cansados de “ganhar, mas não levar”? Não avançamos muito em nosso projeto popular devido aos acordos, à política institucionalizada no seio do Partido e o esvaziamento dos movimentos sociais que tocávamos quando nossos quadros foram para a gestão. Vamos voltar pra base, honrar nossa história e mostrar que política se faz no cotidiano e colocar os trabalhadores e trabalhadoras desse país no poder!

CONCLUSÃO

As pessoas que aderiram em massa a este movimento não se sentem representadas, nem sequer ouvidas. A esquerda, por um ranço de arrogância e por se acostumar a discutir mais internamente que com o povo, se esqueceu de disputar valores na sociedade e muitas vezes tenta reduzir o atual processo a uma luta de classes que se existe, não está em divergência dentro das manifestações. A maioria reivindicações vão de encontro às bandeiras históricas da esquerda, portanto é um povo que deseja ampliar direitos e/ou ter acesso pleno aos direitos comuns.

Os manifestantes em sua maioria não acreditam no sistema político brasileiro e por isso não se posicionam partidariamente. Os jovens, filhos do neoliberalismo, mal conseguem distinguir o que é de esquerda e de direita e isso se deve à acomodação da esquerda e à institucionalização dos partidos, que pra jogar o jogo, se esqueceram de questionar algumas regras.
Devemos portanto defender a mudança no sistema político brasileiro e definir os rumos da nossa sociedade cada vez mais para a esquerda, porque somente em um projeto socialista, democrático e de massas é que alcançaremos mais justiça social.

O que significam as vaias à presidenta Dilma na abertura da Copa das Confederações

*Texto publicado no Facebook no dia 15/06/2013

Ainda sobre as vaias à presidenta, não sei o que é pior: os governistas reduzindo o debate à luta de classes ou os alienados se orgulhando ao dizer que agora sim o ”Brasil acordou”.

As vaias não são apenas o preço que se paga pela democracia. Até porque a democracia brasileira ainda engatinha e precisa de uma reforma política muito corajosa pra ser representativa de fato.
Essas vaias são o preço que o governo brasileiro deve pagar por ter se afastado de tudo o que acreditamos (eu acreditei) que ele faria.
O PT ainda é o partido mais popular do país, não há como negar. Mas até onde devemos defender o indefensável? Defender quem de fato mudou o Brasil, mas não disputou valores na sociedade? Até onde vai o apoio a um governo de coalizão que se deixa pautar por bancadas ruralistas e evangélicas e pela mídia?

O Blatter até tentou ajudar, tadinho (sic)

O Blatter até tentou ajudar, tadinho (sic)

Esta última aliás, nós petistas adoramos criticar, mas me digam: como podemos reclamar se foi um governo do PT que engavetou o marco regulatório das comunicações?

Já estamos em processo eleitoral e não há como retroceder.
O que me preocupa no entanto não é a disputa de projetos, porque acho que já ficou claro quem tem projeto nesse país e não é o PSDB do Aécio Neves, nem os proto-partidos que surgem a cada segundo.

O que me preocupa de fato é o que teremos que ceder para levar as eleições de 2014. E se ainda vale a pena ceder, visto o pouco que avançamos nas lutas populares nesses últimos 3 anos de Governo Dilma.

Portanto, que o futebol, que muitos ainda adoram chamar de ópio do povo, seja encarado como uma metáfora. E principalmente, que nós possamos escolher jogar do lado certo: o do povo brasileiro.