Sem feminismo não há democracia

Luara Ramos e Natalia Bemfeito*

Após a disputa eleitoral para a Presidência da República mais acirrada dos últimos tempos é inevitável e necessária a reflexão sobre o machismo enfrentado por mulheres que ocupam cargos de poder. Poderíamos tratar exclusivamente dessas eleições, mas há quatro anos uma mulher ocupa o cargo mais alto do país e a falta de mulheres em posições mais representativas nos leva a reflexões anteriores que se já foram ditas, merecem ser recordadas.

Presidenta** ou primeira-dama?

Para começar nossos devaneios feministas, trataremos de fato digno de observação, por sua peculiaridade: todas as roupas utilizadas por Dilma foram comentadas e muitas receberam duras críticas, como se fossem “assunto de Estado”. Não se podem dizer o mesmo dos candidatos. Terno não vira notícia, tsc…Em sua posse, em 1º de janeiro de

Natalia Bemfeito

Natalia Bemfeito

2011, especulava-se que “modelito” ela usaria e até entrevista com o maquiador fizeram. Alguém já perguntou ao Collor o nº do Grecin que ele usa pra manter suas madeixas grisalhas? Ou como o Lula prefere usar a barba? É disso que estamos falando…

Ainda em 2011 outra coisa chamou muita atenção: pela 1ª vez o Brasil escolhia uma mulher para ocupar a presidência da República, mas nas manchetes dos jornais e revistas surgia uma figura desconhecida, a esposa do vice-presidente Michel Temer. Marcela Temer apareceu ao lado do vice-presidente e segundo jornais, comentaristas e revistas de fofoca “roubou” a cena. Mais uma vez nos era dada a lição: mulher é um objeto decorativo, foi feita pra ser bonita, não pra ser presidenta. Agora imagine a cabeça e a autoestima de uma menina que vê duas mulheres no alto da rampa do planalto: quem ela gostaria de ser, a esposa do vice-presidente (a vice-primeira-dama?) ou a mulher mais poderosa do país? O “cargo” de primeira-dama estava vago e até a companhia da presidenta no rolê do Rolls-Royce presidencial gerou especulação – afinal, além de ser mulher, Dilma é divorciada e esse assunto continuou dando pano pra manga até que chegamos às eleições de 2014. O R7 publicou uma matéria ridícula para apresentar a “possível primeira-dama”, esposa do candidato Aécio Neves. A pérola final é “Desde que Luiz Inácio Lula da Silva deixou a Presidência, o Brasil não conta com uma primeira-dama, já que o País elegeu uma presidente em 2010”. O que será de um país sem uma primeira-dama, hein? O que importa que o Brasil ainda seja um dos países com menos mulheres em cargos eletivos se não contamos com uma primeira-dama? Os machistinhas-bronha de internet logo ficaram em polvorosa! Exaltavam o lado “pegador” do presidenciável Aécio, além de alguns comentários de tão babacas, nos recusamos a reproduzir.

Mais candidatas à presidência, mais machismo

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Luara Ramos e uma Therezópolis gelada

Em 2010 foram duas candidatas e este ano três. Em dado momento tivemos a possibilidade inédita de um 2º turno com duas mulheres na disputa, mas a presença de uma figura feminina só fez instigar as ofensas mais sexistas dignas dos comentaristas de portais. Nas redes sociais todas as candidatas foram alvo de termos sexistas. A presidenta e candidata Dilma Rousseff foi quem mais sofreu agressões por ter maior rejeição, comum (a rejeição) a candidatas(os) à reeleição. Luciana Genro e Marina Silva também foram vítimas de tais ataques. Marina foi chamada de “magrinha” por Eduardo Jorge durante uma comparação infeliz em um debate. Luciana teve que ouvir críticas ao seu cabelo crespo, seu sotaque. As vozes das candidatas também foram bastante criticadas, afinal os eleitores não estão acostumados com vozes mais agudas e acham mais estranho a voz de uma mulher do que não ver metade da população nacional representada politicamente.

De “vaca”, “vadia” e “piranha” até ameaças covardes e comentários sobre a vida sexual e a aparência, referir-se a qualquer mulher de tal forma não deveria ser algo considerado natural, mas é. Especialmente quando esta mulher ocupa um lugar que “não lhe cabe”. Na academia, na comunidade científica, na política. Afinal, “não é lugar de mulher”, não é mesmo?

Aécio e a personificação do machismo

No recente processo eleitoral, vimos muitos militantes bradarem: “não voto em candidato que bate em mulher!”, “candidato machista não me representa”. A origem de tais manifestações se refere ao episódio em que ele teria agredido uma namorada durante uma festa no Rio de Janeiro. É importante ressaltar que não houve condenação neste sentido, nem por parte da justiça, já que nunca houve sequer investigação do caso e o candidato chegou a negar, ameaçando o jornalista Juca Kfouri, responsável pela nota, de processo (apesar de nunca tê-lo processado) e nem por parte do eleitorado, que julgou ser algo muito pessoal e, portanto, fora do debate político. No entanto, pudemos detectar diversas posturas extremamente sexistas de Aécio nos debates dos presidenciáveis: todos o vimos utilizar expressões ultrapassadas como “dona de casa”, para se referir às mulheres, e “trabalhador”, ao falar dos homens. Além disso, a forma como se dirigia às candidatas mulheres para desqualificar suas afirmações chamando-as de “levianas” e “mentirosas” também foi marcante. Seu riso ao responder as perguntas e a insistência em chamar a candidata Dilma de mentirosa durante os debates do 2° turno geraram inclusive uma rejeição por parte das mulheres. Tudo isso refletiu na campanha, já que os militantes tucanos não ficaram atrás e durante um dos debates receberam Dilma urrando “vaca, vaca, vaca”!

Outra coisa que foi bastante ouvida é que Aécio tem “cara de presidente”. Claro que tem cara de presidente, afinal durante toda a nossa história SÓ TIVEMOS CANDIDATOS HOMENS, claro que não estamos acostumados a uma mulher na presidência. Este argumento além de tudo é estúpido.

Os outros candidatos foram igualmente machistas ou até piores. Pastor Everaldo e Levy Fidelix chocaram as pessoas com discursos vazios e preconceituosos, permeados de machismo, homofobia e o que de pior puder existir. Mas a reflexão que queremos trazer aqui não é um julgamento dos candidatos. Queremos com a discussão feminista, tirar do ambiente privado, questões que tantas vezes violentaram as mulheres. Queremos trazer a público, para a política, algo que não pode mais ficar escondido. Por trás das vaias e xingamentos está o machismo e a luta de classes. Mulheres que ocupam lugares que “não lhes cabem” incomodam àqueles que querem manter seus privilégios. As mulheres da classe trabalhadora lutaram para conquistar o direito à igualdade, ao voto, à cidadania plena, à licença maternidade, dentre muitos outros. E hoje as mulheres continuam lutando para alcançar seu lugar nos cargos de poder sem sofrerem preconceitos odiosos. Porque lugar de mulher é onde ela quiser.

A democracia não pode e não deve ser um governo para a maioria como muitos querem fazer crer. A democracia deve ter a ver com a coexistência de ideias e não com a opressão do outro/ da outra. Ou a democracia é para todos e todas ou não será para ninguém. E se não aprendem a respeitar as mulheres nós temos que ensinar.

*Luara Ramos é mineira, Atleticana, feminista, publicitária e criadora do blog Vã Filosofia; Natalia Silva Bemfeito é servidora pública, pós-graduanda em Direito pela UERJ e militante feminista. As duas se conheceram na militância pelas redes e desde então descobriram que são irmãs.

** Antes que algum desinformado metido a dono da Língua Portuguesa venha dizer que “aff, parei de ler no ‘presidenta’, gostaríamos de dizer que o termo em questão já aparece desde 1899 no dicionário Cândido de Figueiredo. E ainda que não aparecesse, se te soa estranho só porque nunca antes tivemos outras presidentas, é bom ir se acostumando…

É tempo de questionar candidatos

Por Thaís Guerra Leandro*

Eleição é tempo de questionar candidatos e ouvir propostas de mudança e melhoria. Eleição também é tempo de populismo penal, de afirmar que com penas mais altas e mais encarceramento os problemas de segurança pública serão resolvidos. Na contramão dessas afirmações o mundo tem reconhecido que medidas de endurecimento do direito penal, como a criminalização do uso de drogas, não produzem uma sociedade menos violenta. Eventos recentes, como a manifestação do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) em sentido favorável à descriminalização do uso de drogas, e a notícia de que o presidente Obama pretende nomear para dirigir a divisão de direitos civis do departamento de justiça dos Estados Unidos uma mulher partidária da descriminalização, demonstram que o esgotamento do modelo punitivista já foi percebido. Cabe ao Brasil aproveitar o momento político e a conjuntura mundial para buscar alternativas ao modo como vem tratando a questão das drogas.

Thais Guerra Leandro, autora do texto.

Thais Guerra Leandro, autora do texto.

Apesar de o problema ser grande, os candidatos à presidência que disputam o segundo turno não se manifestaram no sentido de repensar a atual política de drogas. O programa de governo do candidato tucano separou uma folha para falar deste tema, o da candidata petista, um parágrafo. Não há grande diferença entre as propostas: focam sempre na “prevenção” como se fosse uma palavra mágica capaz de resolver todos os problemas.

As mais de quatro décadas de política de drogas renderam problemas muito complexos e é ingenuidade (ou falta de caráter) afirmar que há uma solução simplista para o problema. Por entender esta situação, no ano de 1998, Portugal constituiu a Comissão para a Estratégia Nacional de Combate à Droga, que teve o objetivo de propor ao Governo linhas de ação capazes de o auxiliar na formulação de uma estratégia global de intervenção na área das drogas e toxicodependência. A comissão foi integrada por especialistas de formações diversas, que chegaram à conclusão de que a descriminalização do uso de drogas era necessária e adequada. Contrariando o senso comum, o caminho apontado pela comissão foi aceito e o uso de drogas descriminalizado. Ao se fazer isso, o usuário deixou de ser visto como um criminoso, deixou de fazer parte do sistema de justiça para entrar no sistema de saúde.

Portugal partiu do pressuposto de que para enfrentar o problema das drogas é necessária uma estratégia global, ou seja, não adianta descriminalizar sem criar políticas públicas com diversos vetores de intervenção que se entrecruzem. O modelo de gestão adotado procurou trabalhar a prevenção, o tratamento, a redução de riscos e a minimização de danos, a reinsersão social e a dissuasão do consumidor.

Uma das inovações trazidas para apoiar a lei que descriminalizou o uso de drogas foram as Comissões para a Dissuação Toxicológica (CDT), que recebem os usuários apreendidos com drogas. A CDT possui uma equipe interdisciplinar formada por juristas, profissionais da área da saúde e assitentes sociais. De acordo com Teresa Silva, jurista que trabalha da CDT da cidade do Porto, o objetivo da intervenção realizada por eles é fazer com que o usuário tenha um pensamento reflexivo sobre sua conduta, para que compreenda as consequencias (biológicas, psicológicas e sociais) do uso de drogas. Carla Magalhães, assistente social da CDT, afirma que a análise dos aspectos sociais da vida do usuário, como por exemplo, a situação financeira e a estrutura familiar, são imprescindíveis para entender a situação do usuário e propor estratégias de tratamento.

O Brasil, por sua vez, continua colocando seus esforços em um modelo ultrapassado, que não diminui o número de usuários de drogas, não disponibiliza tratamentos adequados para dependentes químicos e ainda contribui para a superpopulação carcerária. Coloca o estigma de criminoso em alguém que deveria receber um tratamento técnico individualizado e especializado, baseado em evidências científicas e não em conceitos morais.

Não se propõe aqui a cópia do modelo português. É de fácil percepção que sociedades diversas necessitam de estratégias diferentes. Se podemos aprender algo com eles é que criar uma política de drogas com respeito aos direitos humanos e baseada em conceitos científicos talvez não seja uma má opção. Propor um direito penal mais forte pode ser agradável aos ouvidos do eleitor, mas é desleal com população, que, em sua maioria, ignora que esta guerra só tem gerado mais guerra.

*Thais Guerra Leandro é brasileira e atualmente atua como pesquisadora do Programa de Direito Penal da Universidade do Porto em Portugal.
Siga @thaisguerra no Twitter.

Quando os números mentem

Esporte popular, o futebol é cercado de números e mitos. Algumas estatísticas são divertidas e um pouco bizarras, outras só servem à história e à curiosidade, mas pouco interferem em uma partida. Aliás, quem gosta e acompanha futebol sabe que nem mesmo os números são muito confiáveis quanto se trata de bola rolando. Quantas vezes não vimos um time com mais posse de bola ser derrotado? Ou assistimos incrédulos o time que só chutou a gol uma vez e conseguiu sair com a vitória? A probabilidade pode ser improvável às vezes.

Não foi a primeira vez que ouvi justificarem a superioridade de um time por causa do “histórico”. Não faz muito tempo e lembro de ouvir são-paulinos dizendo que eles tinham experiência em competição internacional e por isso nos eliminariam nas oitavas da Libertadores do ano passado. Mas “quando tá valendo, tá valendo, né”? E o cavalo paraguaio venceu a competição continental pela primeira vez. A história e os números nos diziam que o GALO nunca tinha eliminado o Corinthians em duelos “mata-mata” (ou pelo menos foi isso que li em algum lugar). Infelizmente a história não cobra escanteio pelo lado esquerdo direto pro EdCarlos escorar pro gol, então o Dátolo teve que mostrar como se escreve a história.

Em todos esses anos, duas imagens de jogos entre GALO e Corinthians me marcaram profundamente. A primeira é do segundo gol marcado pelo Guilherme na goleada por 4×0 sobre o Corinthians em 31 de outubro de 1999. Depois de dar um chapéu no Dida, Guilherme cabeceia pra dentro do gol numa belíssima jogada. A outra imagem que não me sai da cabeça é a do Belletti encostado no túnel do vestiário depois de ser expulso no último jogo da final do Campeonato Brasileiro de 1999 faltando poucos minutos para o fim do jogo. Felizmente depois de ontem a imagem que eu nunca mais esquecerei de um GALO x Corinthians é essa:

Em defesa da meritocracia vote Dilma!*

*Camila Moreno

Não defendo que o debate político deva ser feito em torno de pessoas, mas de projetos, por isso inclusive defendo uma Reforma Política que torne nosso sistema eleitoral menos personalista e mais ideológico.  Pra mim está claro que existem dois projetos antagônicos em disputa nesse segundo turno das eleições presidenciais.

De um lado um projeto que beneficia por princípio a elite, que enxerga programas sociais como eleitoreiros, que sucateou a educação pública, que calou a mídia mineira, prioriza o diálogo internacional com os EUA e abaixa a cabeça para o FMI e o mercado financeiro.

Do outro lado um projeto que tirou o Brasil do mapa da fome da ONU, que criou 18 universidades públicas, permitiu que o pobre e o negro transformassem o sonho do diploma em realidade, que enfrentou uma grave crise econômica mundial sem congelar salários e aumentar desemprego. Um projeto que com todas as suas contradições é apoiado pelos movimentos sociais e foi protagonista na criação do Novo Banco de Desenvolvimento dos que é a primeira alternativa ao Banco Mundial e ao FMI.

Acontece que no calor de uma disputa eleitoral tão acirrada ainda é preponderante a comparação feita em torno de trajetórias pessoais e eu não quero me abster de fazê-la.

Aécio nasceu em Minas Gerais e se mudou cedo para o Rio de Janeiro. Iniciou sua faculdade na PUC do Rio, que em época anterior ao governo Lula era inalcançável para qualquer jovem sem recursos financeiros suficientes para pagá-la. Aos 17 anos foi nomeado secretário de gabinete parlamentar na Câmara dos Deputados. No seu currículo oficial não consta esse cargo, mas o site da Câmara confirma que até os 21 estava nomeado, apesar de morar no Rio de Janeiro na época. O pai de Aécio nesse período era deputado federal pela Arena, partido sustentáculo da Ditadura Militar.

De volta à Minas Gerais, Aécio se tornou assessor do avô, o então governador Tancredo Neves. Cabe dizer que nem seu cargo na Câmara Federal (enquanto vivia no Rio de Janeiro) e nem seu cargo no Governo de Minas Gerais seriam possíveis hoje em dia porque configuram nepotismo, prática ilegal no Brasil desde 2007, imoral desde sempre. Aos 25 anos Aécio já estava formado e Sarney o indicou Aécio para uma Diretoria da Caixa Econômica e posteriormente deu a ele uma concessão de rádio para a região Metropolitana de Belo Horizonte.

Em seu blog o jornalista Juca Kfouri afirma que Aécio agrediu sua acompanhante durante uma festa no Rio de Janeiro. O senador era governador de Minas na época.

Aécio é senador por Minas Gerais há quatro anos, mesmo morando no Rio de Janeiro, lugar em que gastou a maior parte da sua cota de passagens do Senado Federal, um total de R$ 33,2 mil. Menos de metade dos vôos de Aécio foram para as terras mineiras. Sua legislatura no Senado foi bastante discreta. Aécio apresentou apenas nove projetos de lei, e nenhum deles foi aprovado, mas apareceu bastante nos jornais durante esse período porque foi flagrado por uma Blitz da Lei Seca dirigindo embriagado e teve a sua carteira de motorista caçada.

Dilma também não veio de família pobre. Seus pais eram da classe média: pai advogado e mãe dona de casa. Dilma era das melhores estudantes das turmas onde passou e prestou o concurso para o Colégio Estadual Central e passou. Era uma escola com ativismo político vivo e o movimento estudantil resistia ao recente Golpe Militar. Iniciou sua militância política resistindo à Ditadura Militar e aos 18 anos foi presa pela truculenta polícia da época e barbaramente torturada até os 21 anos pelo governo militar, aquele sustentado pela Arena, do pai de Aécio Neves. Quando presa, Dilma era estudante da UFMG (fez vestibular para entrar nessa universidade federal de destaque) e teve sua matrícula caçada pelo regime militar.

Quando saiu da prisão política Dilma mudou-se para Porto Alegre e passou no vestibular novamente para outra universidade federal, a UFRGS. Dilma concluiu seu curso e sua primeira atividade remunerada foi a de estagiária na Funda;áo de Economia e Estatística (FEE). Dilma se aproximou das ideias de Brizola e fundou junto com ele o PDT. Quando foi Secretária de Energia, Minas e Comunicações do Rio Grande do Sul se filiou ao Partido dos Trabalhadores por não aceitar que o PDT compusesse alianças à direita e o resto da história todo mundo já conhece.

Dois projetos antagônicos estão em jogo nessas eleições, mas também duas trajetórias opostas se colocam. De um lado um herdeiro político de tradicional família mineira, filho de um Deputado da Arena, que estudou em uma universidade privada paga pelos pais, foi assessor fantasma da Câmara dos Deputados, assessor do próprio avô e curiosamente, reivindica a meritocracia como modo de governo do  outro lado uma mulher que combateu a Ditadura Militar, fez seu Ensino Médio na escola pública, se formou na universidade pública e recebeu seu primeiro salário como estagiária. Ela também não carrega consigo nenhum título (ou sobrenome) que não tenha sido conquistado com militância e trabalho árduo, mas acha é preciso democratizar a universidade e fortalecer programas sociais para que todos os brasileiros tenham iguais oportunidades.

O título desse texto obviamente é uma piada. Não acredito que a meritocracia seja o melhor jeito de avaliar qualquer pessoa ou trajetória em um país ainda tão desigual como o nosso.

via Movimento Direito para Quem? (Facebook)

via Movimento Direito para Quem? (Facebook)

Esse texto é pra você que acha que “há oportunidades para todos, é apenas uma questão de esforço” e pra você finalizo com algumas perguntas: quem se esforçou mais na vida entre Aécio e Dilma? Quem sofreu pela democracia no país? Quem é herdeiro da Ditadura e quem é lutador da democracia? Funcionário fantasma é corrupto? Quem alcançou um cargo público por competência e quem o fez por carregar um sobrenome? Então, querido colega meritocrático, arrume outro jeito de justificar seu voto cheio de ódio e preconceito no Aécio, porque quem vence o duelo da meritocracia entre os dois é Dilma.

Camila Moreno é @camilamudanca no Twitter e estudante da UnB.

Carta aberta de uma gordinha à Marina Silva

Por Camila Moreno

Marina,

está circulando pela internet um vídeo em que a senhora faz uma comparação entre você e a também candidata e presidenta Dilma Rousseff.  Entre as tantas comparações que podem e devem ser feitas entre as duas candidatas mais bem posicionadas nas pesquisas eleitorais, você opta por dizer é magrinha, enquanto Dilma é fortinha, exatamente com essas palavras, arrancando risadas e aplausos da plateia.

Camila Moreno

Camila Moreno

Lembro com nitidez que a senhora já havia feito essa comparação com Dilma na eleição passada, ao ser perguntada sobre suas principais diferenças.

Dilma é a primeira presidenta da história do Brasil e essa é a primeira eleição com grandes chances de duas mulheres irem para o segundo turno. Uma eleição histórica, certamente.  Histórica porque em um país cercado de machismo por todos os lados; em que as mulheres são menos de 10% no Congresso Nacional; onde embora muitos avanços tenham sido alcançados com a Lei Maria da Penha, ainda estamos em 7º lugar no ranking da violência doméstica; a maioria dos cidadãos e cidadãs do nosso país, se as pesquisas estiverem certas, optará por confiar o seu voto em uma mulher. Isso é lindo e me emociona.

Sei que você sabe, Marina, que ser mulher é um desafio cotidiano. É ter que provar duas vezes que é capaz. Na política então, nem se fala. Lembro o quanto te criticaram pelo fato do seu companheiro trabalhar no governo do PT no Acre, como se vocês, por serem casados devessem ter a mesma opinião política. Na época, te defendi e disse que achava um absurdo esse tipo de acusação. Te defendo quando falam da sua voz, porque não estão acostumados com vozes mais agudas nos debates políticos. Imagino Marina, o quanto sejam duras as críticas por causa do seu cabelo, pelas roupas e não pelas ideias.

Talvez você não tenha tido noção da gravidade da sua declaração, Marina, mas eu vou te contar o porquê ela doeu no fundo da minha alma: eu sempre fui considerada uma criança gordinha e desde que entendi que isso era um defeito, sofri com isso. Tive transtornos alimentares graves e só me aceitei de fato, quando conheci a militância e o feminismo, porque me mostraram que os padrões de beleza nos tornam escravas de uma busca impossível e infeliz e eu esperava que as mulheres na política, ainda que com divergências, optassem pela desconstrução do machismo, mas você fez exatamente o contrário.

Essa sua declaração apenas reforça um padrão ditatorial que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres arrisquem suas vidas em métodos salvadores do alcance da beleza, porque ao invés de você optar por ajudar a romper com essa lógica de que a mais magra é melhor que a gorda, você a reforçou. Você podia ter escolhido desconstruir a ideia de que o debate entre duas mulheres seria um debate superficial e estético, mas você preferiu seguir essa lógica que revistas de beleza e a indústria do entretenimento entranham todos os dias na nossa vida, de que para ser bem sucedida e feliz, é preciso ser magra.

Você não perdeu o meu voto com essa sua “piada”, porque você já o havia perdido quando optou por deixar de lado a sua bela trajetória de vida e luta ao lado de Chico Mendes para ser a nova voz da direita e do neoliberalismo no país, mas eu de fato esperava um debate mais qualificado da sua parte.

*Camila Moreno é @camilamudanca no twitter, estudante de Letras da UNB e pretende não ser infeliz por conta dos padrões de beleza.

O que eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta…

Tento lembrar a última vez que usei biquíni. Na verdade, a penúltima vez. A última foi há alguns dias, quando fui à praia com meu namorado. Ele gosta de tirar fotos da gente, de mim. Eu não posso esquecer o quanto me senti amada quando ele me disse: “é incrível olhar a mulher que eu amo, usando um biquíni do time que eu amo.” Eu usava um biquíni do GALO que tinha comprado assim que vim morar no Espírito Santo e que coloquei poucas vezes e nunca tive coragem de usar de verdade. Mesmo no clube que eu frequentava na minha cidade, no interior de MG, eu entrei poucas vezes numa piscina depois dos 10 anos de idade. Me sinto um pouco envergonhada de dizer isso, ainda mais agora que me reconheço feminista e busco cada vez mais desconstruir essas neuras impostas às mulheres pelo padrão de beleza vigente.

Negahamburguer <3 facebook.com/olanegahamburguer

Negahamburguer ❤

Minha mãe sempre foi uma mulher dessas que a gente pode chamar de “poderosa”. Ela é autêntica, tem uma autoestima muito legal e me ensinou muito sobre não se importar com a opinião das pessoas se o que você tá fazendo não é errado e te faz bem. Ainda assim a adolescência não foi o melhor período do mundo. Eu tinha passado de “garotinha fofa” a “gordinha” e ouvia os tios e tias dizendo que eu tinha um rosto bonito. Como se tivesse alguma coisa de errado com meu corpo. Comecei a querer emagrecer, mesmo gostando tanto de pipoca e chocolate e não tendo nenhum tipo de problema de saúde. Eu só tinha 11 anos quando comecei a fazer todo tipo de coisa maluca. Minha mãe acabou descobrindo, mas até aí eu já tinha desmaiado algumas vezes, forçado o vômito e tomado laxantes.

Quando eu consegui me encontrar em outras formas, nas minhas formas, tive um relacionamento destrutivo com um cara que conseguia me beijar e no momento seguinte dizer que eu tinha engordado ou estava com mais celulite. Passei a ter vergonha do meu corpo, vergonha dele, de ficar com ele. Me sentia culpada por estar daquele jeito e por deixar que ele me fizesse sentir mal. Mas eu o amava e achava que ele também me amava. Acabava me sujeitando àquele tipo de coisa porque não queria que acabasse. Acabou. Eu fiquei bem destruída, sobretudo porque ele me traiu. Hoje penso que ele já havia me traído antes, como quando me fazia sentir tão mal, quando fazia piadas sobre meu peso ou até me falava pra não comer muito quando saíamos juntos. Aliás, engraçada essa coisa de traição, né? Hoje eu me sinto menos traída porque ele ficou com outra pessoa e mais porque acreditava que fosse um companheiro e ainda assim foi tão machista e babaca. Não desejo mal algum a ele ou qualquer cara que faz esse tipo de coisa. Só desejo que eles mudem e não tentem destruir a autoestima de suas companheiras e que elas sejam tão fortes que não permitam esse tipo de coisa.

Negahamburguer <3 facebook.com/olanegahamburguer

Negahamburguer e o desenho que me inspirou a escrever esse texto

Por que eu estou contando isso tudo? De verdade, não me orgulho tanto das minhas inseguranças. E eu poderia até dizer que me sentiria melhor e mais forte se tivesse usado um biquíni sem que meu atual namorado falasse que estava tudo bem, que era pra eu deixar de besteira. Mas acho que foi um gesto de amor e gestos de amor sempre valem a pena ser contados.

Sem essa ladainha de que precisamos de caras que nos “valorizem” ou que precisamos nos amar. É difícil falar em amor próprio quando tudo à nossa volta diz que não estamos bem. Magra demais, gorda demais, alta demais, baixa demais…inventam todo tipo de defeito pra fazer a gente sofrer e gastar. Então, apesar de esse texto ser mais escrito com o coração do que com qualquer dado sobre a indústria de beleza, é só uma forma de dizer que “hoje eu me amo muito mais, porque me entendo muito mais também”. Eu quero ser cada vez mais de verdade e isso não quer dizer me acomodar, quer dizer que eu quero me sentir feliz. Aprendi a não julgar a aparência das mulheres, a reconhecer belezas diferentes e com isso eu espero poder dizer às meninas e mulheres que elas não precisam ter suas autoestimas destruídas para recomeçarem. Embora tenha sido importante pra minha “reconstrução”, eu desejo de verdade que a sororidade reine entre a gente.

Essa é a história da minha foto de biquíni mais de uma década depois de usar biquíni pela última vez. Ou se vocês preferirem, esta é a história de uma mulher que aprendeu que o amor não tem nada a ver com culpa. E que contar histórias é uma forma de desnudar nossa alma, mas pra quem já deixou de lado o medo de ir à praia de biquíni, deixar a alma nua não é tão difícil =)

Não deixem de conferir o trabalho lindo e inspirador da Negahambuguer

O machismo virou regra*

O GALO venceu o clássico de virada no último dia 10 de maio, mas ao contrário dos cruzeirenses na final do campeonato mineiro de 2014, eu não vou agradecer à arbitragem pelos erros que beneficiaram o meu time.
Acho o Héber Roberto Lopes um árbitro medíocre, mas não é sobre ele que pretendo falar, mas sobre a auxiliar de arbitragem Fernanda Colombo Uliana.
A ”bandeirinha gata” como algumas pessoas dizem, tem nome, errou feio no impedimento do jogador do Cruzeiro no fim do jogo, entre outros erros na partida e foi criticada recentemente pela atuação no jogo São Paulo x CRB na Copa do Brasil. Não é o caso de “defender” (como se ela não pudesse fazer isso sozinha) só porque é uma mulher, mas porque a maioria dos comentários e ofensas direcionados à Fernanda são machistas, isto é, ”APENAS” pelo fato de ela ser mulher. Assim como o impedimento, o machismo virou uma regra do futebol. E como diz o Arnaldo César Coelho, “a regra é clara”: futebol não é lugar de mulher. Pelo menos é como parecem pensar algumas pessoas.

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Desenhando pra quem ainda não entendeu.

”VAI POSAR PRA PLAYBOY” – mulher só serve pra aparecer pelada.
”É GOSTOSA, MAS É BURRA” – sexualização da imagem feminina + mulher não pode ser bonita e inteligente + mulher não entende de futebol.
”AHA, UHU! A GOSTOSA É NOSSA!” – (gritado pela torcida do GALO depois do erro bizarro ao marcar um impedimento cruzeirense que não existiu) – objetificação que além do discurso implícito de posse, não contribui em nada para o futebol como jogo e é um atestado de apequenamento desnecessário ao comemorar um erro de arbitragem que beneficiou o próprio time.

-“Ah, mas você não tem senso de humor? É só provocação!”

Será mesmo? Como os árbitros são xingados?

Filho da puta! (opa, Feliz Dia das Mães, seu juiz!)
Corno! (sim, a culpa continua sendo das mulheres…)
Viado! (claro que não poderia faltar a homofobia)

A atuação da bandeirinha Fernanda Colombo foi realmente ruim, mas critica-la por ser mulher além de desonesto, é de uma ignorância absurda. Afirmar que ela chegou a atuar em um jogo pela principal série do campeonato brasileiro porque é ”gostosa” é como afirmar que a única coisa que mulheres podem fazer é cumprir uma função ”decorativa”. É dizer que mulheres não pensam, não entendem de futebol, não tem a menor capacidade para atuar no meio futebolístico. É naturalizar a opressão.
O futebol, como meio ainda majoritariamente ocupado por homens, sempre teve erros absurdos de bandeirinhas masculinos, mas eu não me lembro de ninguém mandando os caras lavarem louça ou dizendo que eles dormiram com alguém pra estar onde estão.

A repercussão do erro da bandeirinha Fernanda Colombo não poderia ser pior. O diretor de futebol do Cruzeiro, Alexandre Mattos disse que ”se é bonitinha, que vá posar pra playboy!”, como se o machismo precisasse ser institucionalizado pela diretoria de algum clube. Mattos só repetiu o senso comum, mas sua irresponsabilidade custou muito caro às mulheres em um meio já tão hostil como o futebol. Fernanda Colombo, ao contrário de tantos auxiliares homens que erraram em lances decisivos, clássicos, finais de campeonato, vai passar por uma ”reciclagem”, isto é, terá que estudar mais para ocupar o mesmo posto que um homem, que também erra (e sempre errou) ocupa. O problema não é que ela tenha que se dedicar a estudar mais as regras ou treinar seu posicionamento em campo, mas que ela tenha que fazer por ser mulher. Por estar em um espaço onde não a aceitam. Porque o problema não é ser bonita. Se fosse feia isso também seria ressaltado como justificativa pra algum erro. O problema, repito, é ser mulher.

Sobre a declaração do diretor cruzeirense, o comentarista Bruno Formiga também deu seu recado (abaixo).

Agora eu pergunto a vocês: de todos os espaços destinados ao esporte nessa nossa ”Pátria de chuteiras”, por que nem sobre a condição da mulher no futebol como o caso de machismo a que foi submetida Fernanda Colombo, temos mulheres escrevendo, comentando em noticiários esportivos, entre outros meios?

Contra o racismo, o machismo e a homofobia e por mais mulheres falando, escrevendo, comentando, apitando e jogando futebol!

Abaixo, outros textos sobre o caso e que valem a leitura:

O impedimento da mulher – Breiller Pires (Placar)

A mulher é a aberração do mundo do futebol – Fábio Chiorino (Esporte Fino/ Carta Capital)

Racismo não pode. Ok. Mas e o machismo? – Bruno Winckler (Esporte Fino/ Carta Capital)

Lugar de mulher “bonitinha” é na Playboy – Xico Sá (Blog Folha/UOL)

*O machismo no futebol não é algo recente, mas dadas as proporções e as declarações de dirigentes, meios de comunicação e comentaristas que questionaram a atuação da bandeirinha Fernanda Colombo usando sua aparência como justificativa, o preconceito parece ter sido institucionalizado. Cabe a nós, mulheres e protagonistas dessa luta, mandarmos o machismo pra escanteio!