Sexo e Futebol

É de Luís Fernando Veríssimo uma das minhas frases favoritas sobre futebol: “no fim, sexo e futebol só são diferentes mesmo em duas coisas: no futebol, com a devida exceção ao goleiro, não se pode usar as mãos. E o sexo, graças a Deus, não é organizado pela CBF”. Desculpe o spoiler, já que se tratam dos versos finais de sua crônica, intitulada exatamente “O Sexo e o Futebol”. Quem não conhece, vale a leitura. Trata-se de uma comparação, leve e bem-humorada, entre as duas “modalidades”. Ou seja: é possível fazer humor falando desses temas sem apelar para a violência que tem permeado estádios e redes sociais a cada jogo.

A naturalização da violência sexual no futebol é algo perverso que me choca profundamente. Talvez por vivermos em um país onde recentemente o número de estupros foi maior que o de homicídios ou porque basta ler os comentários de qualquer notícia sobre estupro pra saber que esse tipo de violência integra a nossa cultura.

Não sou especialista em nada, mas vivo esse medo todos os dias. E, como amante do futebol, me entristece ver pessoas banalizando e naturalizando algo tão doloroso.

Para essas pessoas, um time não goleia, “estupra”. Tomar 4 gols virou “tomar de 4” em referência à posição sexual. O “chupa” também é bem comum e às vezes vem acompanhado de algum gesto obsceno. É comum também “mandar tomar no cu”. Este último me intriga bastante e por isso quero até dedicar-lhe mais um parágrafo.

Mandar alguém “tomar no cu” me parece ignorante de diversas formas. Primeiro porque nega uma possibilidade de prazer, como se fosse um castigo, algo ruim. Segundo porque as noções de sexo parecem meio distorcidas, já que implica numa passividade de quem “toma”, como se não fosse possível gostar e como se sexo fosse mais uma relação de “poder” do que uma relação íntima, propriamente dita.

Além disso, na maior parte das vezes busca-se desconstruir o adversário arranjando-lhe apelidos “femininos” ou homofóbicos, como se o sexo para mulheres ou homossexuais devesse ser doloroso e ruim. E isso, na minha opinião, tem relação com o que disse anteriormente sobre relações de poder: aos machos cabe o gozo da vitória. Acho que é daí que nasce essa comparação entre sexo e futebol que, de tão banalizada, às vezes passa até despercebida e nos pegamos dizendo as mesmas coisas depois de uma rodada do brasileirão.

A nós cabe a reflexão, afinal futebol e sexo são duas coisas bem legais, então como conseguimos fazer disso instrumentos da violência? Veríssimo (no texto que citei logo acima) já provou que o sexo pode ser prazeroso pra todo mundo e fez isso numa comparação com o futebol! Penso assim que quem não consegue falar de futebol sem apelar para a violência, sobretudo a sexual -tema deste texto- não entende nem de futebol, muito menos de sexo.

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A Revolução será televisionada?

26 de março de 2015

O Jornal Nacional exibe uma série de reportagens sobre “menores infratores”. No episódio de hoje uma penitenciária que “parece escola”, depoimentos emocionados sobre como ficar preso ali foi como uma “redenção”.

Começa a novela e por algum motivo dois rapazes – um negro e um branco – estão discutindo. O errado, ~obviamente o negro~, fala em seguida algo como “você não pode me prender, eu sou menor!”.

Poderia ser uma piada perversa, mas em um momento que a redução da maioridade penal volta ao debate, eu chamaria de “anúncio de oportunidade”. Mas também podemos chamar de lobby para a privatização de penitenciárias, ação e/ou merchandising da “Bancada da Bala” ou até mesmo um bom RP do senador dono do helicóptero (aquele).

30 de março de 2015

Estudantes da Escola Estadual Maria Ortiz, localizada no centro de Vitória (ES) são entrevistados pelo ESTV – jornal local da TV Gazeta, afiliada à Rede Globo – sobre a utilização do “pau de selfie” (quem decide essas pautas, pelamor???). Durante a entrevista, os estudantes seguram cartazes onde é possível ler reivindicações como “eleição direta para diretor” (pauta história dos militantes da educação pública), “não à PEC 171” (que propõe a redução da maioridade penal), “+ grêmios”. Ao vivo, uma estudante diz que existem “”assuntos mais importantes que o pau de selfie” enquanto outra moça, também estudante, é cortada pelo repórter ao tentar explicar porque a redução da maioridade penal não resolve o problema.

O Espírito Santo é um dos estados onde mais morrem jovens no país e eu não me lembro de ter visto uma reportagem sobre “menores infratores” onde as masmorras do Governador Paulo Hartung fossem notícia. Onde os depoimentos das mães de jovens que foram presos, torturados e mortos pelo Estado fossem exibidos.

O título desse texto é uma piada. É óbvio que a Revolução não será televisionada, ao menos não sem a democratização da comunicação, mas hoje jovens estudantes pediram mais democracia, mais representatividade e o fim do debate demagogo que está encarcerando e matando jovens, sobretudo jovens negros. Hoje a juventude mais uma vez mostrou que quer viver, que há resistência e que não podem colocar na nossa conta essa política velha e falida. E mostrou mais uma vez, tão melhor que qualquer produção global, que se a revolução não será televisionada, nos resta revolucionar a televisão.

Abaixo um vídeo produzido pelo Reportagem Pública. Um alerta pra quem defende o encarceramento da juventude brasileira.

UPDATE: A Comissão de Justiça e Cidadania da Câmara votou hoje a admissibilidade da PEC 171/93 que propõe a redução da maioridade penal. Um retrocesso que significa além de tudo um ataque à nossa Constituição, aos Direitos Humanos e aos acordos dos quais o Brasil é signatário, pois fere, como bem abordou a deputada Maria do Rosário hoje em plenário, “o artigo 60, parágrafos 227 e 228 que prevê como cláusula pétrea a proteção dos adolescentes até os 18 anos e o respeito a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”. A proposta ainda segue para uma comissão especial. São tempos difíceis para os sonhadores, mas os sonhos continuam sendo nossas melhores armas.

Em defesa da meritocracia vote Dilma!*

*Camila Moreno

Não defendo que o debate político deva ser feito em torno de pessoas, mas de projetos, por isso inclusive defendo uma Reforma Política que torne nosso sistema eleitoral menos personalista e mais ideológico.  Pra mim está claro que existem dois projetos antagônicos em disputa nesse segundo turno das eleições presidenciais.

De um lado um projeto que beneficia por princípio a elite, que enxerga programas sociais como eleitoreiros, que sucateou a educação pública, que calou a mídia mineira, prioriza o diálogo internacional com os EUA e abaixa a cabeça para o FMI e o mercado financeiro.

Do outro lado um projeto que tirou o Brasil do mapa da fome da ONU, que criou 18 universidades públicas, permitiu que o pobre e o negro transformassem o sonho do diploma em realidade, que enfrentou uma grave crise econômica mundial sem congelar salários e aumentar desemprego. Um projeto que com todas as suas contradições é apoiado pelos movimentos sociais e foi protagonista na criação do Novo Banco de Desenvolvimento dos que é a primeira alternativa ao Banco Mundial e ao FMI.

Acontece que no calor de uma disputa eleitoral tão acirrada ainda é preponderante a comparação feita em torno de trajetórias pessoais e eu não quero me abster de fazê-la.

Aécio nasceu em Minas Gerais e se mudou cedo para o Rio de Janeiro. Iniciou sua faculdade na PUC do Rio, que em época anterior ao governo Lula era inalcançável para qualquer jovem sem recursos financeiros suficientes para pagá-la. Aos 17 anos foi nomeado secretário de gabinete parlamentar na Câmara dos Deputados. No seu currículo oficial não consta esse cargo, mas o site da Câmara confirma que até os 21 estava nomeado, apesar de morar no Rio de Janeiro na época. O pai de Aécio nesse período era deputado federal pela Arena, partido sustentáculo da Ditadura Militar.

De volta à Minas Gerais, Aécio se tornou assessor do avô, o então governador Tancredo Neves. Cabe dizer que nem seu cargo na Câmara Federal (enquanto vivia no Rio de Janeiro) e nem seu cargo no Governo de Minas Gerais seriam possíveis hoje em dia porque configuram nepotismo, prática ilegal no Brasil desde 2007, imoral desde sempre. Aos 25 anos Aécio já estava formado e Sarney o indicou Aécio para uma Diretoria da Caixa Econômica e posteriormente deu a ele uma concessão de rádio para a região Metropolitana de Belo Horizonte.

Em seu blog o jornalista Juca Kfouri afirma que Aécio agrediu sua acompanhante durante uma festa no Rio de Janeiro. O senador era governador de Minas na época.

Aécio é senador por Minas Gerais há quatro anos, mesmo morando no Rio de Janeiro, lugar em que gastou a maior parte da sua cota de passagens do Senado Federal, um total de R$ 33,2 mil. Menos de metade dos vôos de Aécio foram para as terras mineiras. Sua legislatura no Senado foi bastante discreta. Aécio apresentou apenas nove projetos de lei, e nenhum deles foi aprovado, mas apareceu bastante nos jornais durante esse período porque foi flagrado por uma Blitz da Lei Seca dirigindo embriagado e teve a sua carteira de motorista caçada.

Dilma também não veio de família pobre. Seus pais eram da classe média: pai advogado e mãe dona de casa. Dilma era das melhores estudantes das turmas onde passou e prestou o concurso para o Colégio Estadual Central e passou. Era uma escola com ativismo político vivo e o movimento estudantil resistia ao recente Golpe Militar. Iniciou sua militância política resistindo à Ditadura Militar e aos 18 anos foi presa pela truculenta polícia da época e barbaramente torturada até os 21 anos pelo governo militar, aquele sustentado pela Arena, do pai de Aécio Neves. Quando presa, Dilma era estudante da UFMG (fez vestibular para entrar nessa universidade federal de destaque) e teve sua matrícula caçada pelo regime militar.

Quando saiu da prisão política Dilma mudou-se para Porto Alegre e passou no vestibular novamente para outra universidade federal, a UFRGS. Dilma concluiu seu curso e sua primeira atividade remunerada foi a de estagiária na Funda;áo de Economia e Estatística (FEE). Dilma se aproximou das ideias de Brizola e fundou junto com ele o PDT. Quando foi Secretária de Energia, Minas e Comunicações do Rio Grande do Sul se filiou ao Partido dos Trabalhadores por não aceitar que o PDT compusesse alianças à direita e o resto da história todo mundo já conhece.

Dois projetos antagônicos estão em jogo nessas eleições, mas também duas trajetórias opostas se colocam. De um lado um herdeiro político de tradicional família mineira, filho de um Deputado da Arena, que estudou em uma universidade privada paga pelos pais, foi assessor fantasma da Câmara dos Deputados, assessor do próprio avô e curiosamente, reivindica a meritocracia como modo de governo do  outro lado uma mulher que combateu a Ditadura Militar, fez seu Ensino Médio na escola pública, se formou na universidade pública e recebeu seu primeiro salário como estagiária. Ela também não carrega consigo nenhum título (ou sobrenome) que não tenha sido conquistado com militância e trabalho árduo, mas acha é preciso democratizar a universidade e fortalecer programas sociais para que todos os brasileiros tenham iguais oportunidades.

O título desse texto obviamente é uma piada. Não acredito que a meritocracia seja o melhor jeito de avaliar qualquer pessoa ou trajetória em um país ainda tão desigual como o nosso.

via Movimento Direito para Quem? (Facebook)

via Movimento Direito para Quem? (Facebook)

Esse texto é pra você que acha que “há oportunidades para todos, é apenas uma questão de esforço” e pra você finalizo com algumas perguntas: quem se esforçou mais na vida entre Aécio e Dilma? Quem sofreu pela democracia no país? Quem é herdeiro da Ditadura e quem é lutador da democracia? Funcionário fantasma é corrupto? Quem alcançou um cargo público por competência e quem o fez por carregar um sobrenome? Então, querido colega meritocrático, arrume outro jeito de justificar seu voto cheio de ódio e preconceito no Aécio, porque quem vence o duelo da meritocracia entre os dois é Dilma.

Camila Moreno é @camilamudanca no Twitter e estudante da UnB.